OS GRUPOS E AS PRÁTICAS GRUPAIS
CAPÍTULO 3 – O MOVIMENTO INSTITUCIONALISTA E GRUPALISTA
3.1 – Contextualização histórica e as diferentes perspectivas teórico-políticas
A compreensão sobre os grupos, nas diferentes perspectivas enunciadas no e pelo Movimento Institucionalista e Grupalista (gestadas a partir da década de 50), é o motivo que nos aproxima de alguns de seus atores, expoentes que expressam a densidade e a complexidade das questões identificadas e trabalhadas através da Análise Institucional121, em sua amplitude122, e nas apropriações específicas como na socioanálise criada por Georges Lapassade e René Lourau, na esquizoanálise criada por Félix Guattari e no esquema conceitual-referencial operativo (ECRO) criado por Enrique Pichon-Rivière, os três primeiros na França e o último na Argentina.
121 De acordo com Hemi Hess (2004: 33-34) "René [Lourau] conserva uma idéia importante para a compreeensão do projeto, do paradigma e do programa da Análise Institucional: ela [AI] nasce no início de um processo, ainda ativo hoje em dia, de crítica ao instituído (no que diz respeito às formas políticas de ação). E esta crítica é uma autocrítica que porta, em germe, a noção de implicação do observador naquilo que observa".
122 "Assim como a teoria da autogestão generalizada, oriunda do movimento dos conselhos operários dos anos 20 na Europa, a análise institucional generalizada é uma práxis, ou seja, experiência histórica de um movimento social. Enquanto tal, ela é, em primeiro lugar, uma livre associação de indivíduos que não se satisfazem mais com o existente, com o que lhes é oferecido como esgotando o real de uma época, e que buscam fazer com que advenham outras possibilidades, outras potencialidades. Antes de ser uma prática de intervenção externa em um estabelecimento, a AI é uma intervenção interna. Quando, durante os anos 70, certos partidários da AI se situaram no mercado de intervenção institucional, foi com um conhecimento de causa... quero dizer, por ceticismo em relação à causa da análise institucional generalizada!" (Guigou, 2003:85-86).
A referência a três autores franceses remete-nos à produção francesa como uma das protagonistas em termos da crítica à psicossociologia industrial, à dinâmica de grupo, e às concepções teórico-políticas veiculadas nestas matrizes teóricas (conforme examinaremos oportunamente). Observamos que as expressões revolucionárias de massas estão enraizadas na construção histórica francesa, como na Revolução Francesa (que originou o modelo político da organização social burguesa, conforme Hobsbawm, 2005)123, na Primavera dos Povos (1848), na Comuna de Paris (1871), na mobilização contra a colonização na Argélia (década de 50) e nos acontecimentos de Maio de 68. A experiência francesa em termos de manifestação coletiva é uma referência que precisa ser considerada, a qual possibilita apropriações singulares quanto à ação dos grupos nas sociedades capitalistas contemporâneas.
Contudo, ao adotarmos a expressão Movimento Institucionalista e Grupalista estamos nos remetendo a um processo mais amplo, que engloba diferentes países e diferentes produções124, que em comum apresentam o questionamento às práticas
123 "Se a economina do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa. A Grã-Bretanha forneceu o modelo para as ferrovias e fábricas, o explosivo econômico que rompeu com as estruturas sócio-econômicas tradicionais do mundo não europeu;
mas foi a França que fez suas revoluções e a elas deu suas idéias, a ponto de bandeiras tricolores de um tipo ou de outro terem-se tornado o emblema de praticamente todas as nações emergentes, e a política européia (ou mesmo mundial) entre 1789 e 1917 foi em grande parte a luta a favor e contra os princípios de 1789, ou os ainda mais incendiários de 1793. A França forneceu o vocabulário e os temas da polítca liberal e radical democrática para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vocabulário do nacionalismo. A França forneceu os códigos legais, o modelo de organização técnica e científica e o sistema métrico de medidas para a maioria dos países. A ideologia do mundo moderno atingiu as antigas civilizações que tinham até então resistido as idéias européias inicialmente através da influência francesa. Esta foi a obra da Revolução Francesa" (Hobsbawm, 2005:83-84).
124 José Augusto Bisneto descreve a existência de várias correntes da Análise Institucional, a saber,
"psicologia institucional francesa, de Enriquez, Kaës, Tosquelles, Pagés, Levy, Lobrot, Chauzad;
psicologia institucional inglesa, de Ellitot Jacques; psicologia institucional argentina, de Pichón Riviére e Bleger; sociopsicoanálise institucional de Mendel; Psiquiatria Democrática, de Basaglia e a 'antipsiquiatria', de Cooper e Laing; socioanálise, de Lourau e Lapassade; instituições totais de Goffman; esquizoanálise e micropolítica, de Deleuze e Guattari; a analítica do poder, de Foucault; a instituição imaginária, de Castoriadis; a análise dos atores e das práticas institucionais, de Guilhon Albuquerque; a linha sociológica, de Castel (aplicada à Psicanálise), Donzelot (sobre a família),
sociais instituídas, sejam elas psiquiátricas-asilares, pedagógicas-escolares, psicanalíticas-analíticas, organizacionais-hierárquicas, científico-acadêmicas, interpessoais-familiares entre outras, convergindo para o questionamento ou para a explicitação das relações de poder que se instituem quando uma organização se estabelece em torno de ações grupais/coletivas que determinam um novo território de conhecimento e/ou de prática social. Mesmo estes aspectos comuns (que se explicitam na trajetória de muitos atores deste movimento125) são diversamente apropriados pelos atores deste movimento. Assim, se existem referências comuns126, a própria ênfase na diferenciação, na singularização das experiências, na multiplicidade de perspectivas ético-políticas e teórico-operativas, contribui para o caráter difuso127 destas produções.
De acordo com Eduardo Vasconcelos a expressão “Movimento Institucionalista e Grupalista”
constitui um conjunto de diferentes teorias e linhas de intervenção prática, com as mais diversas raízes, entre elas o campo da dinâmica e psicoterapia de grupo, da psicologia social e da psiquiatria social (e em todos esses casos há geralmente uma forte inspiração nas formulações psicanalíticas, e em alguns casos, da teoria da gestalt e da fenomenologia existencial), bem como da
Bourdieu e Passeron (sobre o ensino)" (2000: 295-6).
125 São trajetórias que indicam posicionamentos de confronto com as práticas sociais instituidas, seja nas organizações sociais (estabelecimentos sociais), seja mediante um novo posicionamento político na sociedade, como na defesa das expressões singulares, diferentes dos padrões de comportamento tidos como hegemônicos (contra a normatização, por exemplo da sexualidade segundo o padrão heterossexual, ou de gênero, pelo submetimento ao poder patriarcal) etc. Não raro tais trajetórias explicitam uma ruptura dos atores com o instituído e a ousadia em instituir ou criar novas práticas sociais, novas referências organizacionais.
126 Geralmente, as referências comuns são indicadas como "sua [do movimento] aspiração em deflagrar, apoiar e aperfeiçoar os procesos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais"
(Baremblitt, 1998:11); "a crítica relativa à separação investigação-intervenção, o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados, a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata, a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento" (Benevides, 2001:166).
127 Nos vários sentidos desta palavra, como derramado, estendido, disseminado, divulgado, difundido, não circunscrito, como "ramos difusos" ou aqueles que se estendem horizontalmente em volta do tronco (conforme Dicionário Caldas Aulete).
análise sociológica dos processos de mudança social e dos fenômenos de institucionalização e burocratização (com fortes aproximações ao marxismo e, de certa forma, também ao existencialismo de Sartre, particularmente de seu livro 'Crítica da Razão Dialética' [Sartre, 1960]) (Vasconcelos, 2003:109).
É pertinente caracterizar o Movimento Institucionalista adjetivando-o como
"Grupalista" a fim de evidenciar o comprometimento deste movimento com a construção grupal fundado sobre uma compreensão crítica face à psicossociologia e à dinâmica de grupo. Este é o aspecto do movimento que diretamente interessa ao nosso tema em estudo. Ou seja, nossa aproximação ao Movimento Institucionalista ocorreu pelas discussões que realiza sobre as práticas grupais e sobre o grupo.
Principalmente, no sentido em que desconstrói as apreensões que universalizam o grupo e que o desestoricizam em sua concreticidade. Tais apreensões estão presentes na "dinâmica de grupo" e na "psicossociologia" em sua vertente norte-americana. Esta observação nos aproxima do Movimento Institucionalista e Grupalista em sua produção francesa, que, entre outras características, criticou a dinâmica de grupo e a psicossociologia, como teremos oportunidade de examinar, através do trabalho de Georges Lapassade , René Lourau e Félix Guattari, institucionalistas que mantiveram um contato direto com o Brasil128 a partir de 1970.
Na Argentinha, Enrique Pichon Rivière foi uma referência, também vinculado ao Movimento Institucionalista e Grupalista, responsável diretamente pela criação de um dispositivo para o trabalho grupal denominado "Grupo Operativo". Tal referência
128 "Já em 1972 o Setor de Psicologia Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – pioneiro na formação de psicólogos voltados para uma abordagem institcuional de questões ligadas ao trabalho, à saúde e à saúde mental – recebia a visita de Georges Lapassade que, ao lado de René Lourau, é considerado o criador da Análise Institucional qualificada de socioanalítica (...) A partir do final dos anos 1980, são os esforços dos departamentos das universidades que promovem, por meio de convites, a vinda dos analistas institucionais ao Brasil e a conseqüente renovação bibliográfica: René Lourau é convidado pelo Mestrado em Psicologia Comunitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1989 e, com regularidade, pelo De partamento e Mestrado em Psicologia Social da UERJ (1993,1994 e 1997). Dessas visitas resultam publicações e intercâmbios extremamente fecundos" (Sônia Altoé, 2004: 8-9;10). Como veremos adiante Félix Guattari também esteve no Brasil durante a década de 80.
não pode ser desconsiderada neste trabalho justamente pelo fato de Pichon Riviére ter-se dedicado a uma sistematização mais refinada de sua compreensão sobre o processo grupal, e também pela difusão de sua escola em território brasileiro129.
Nesse sentido, não podemos oferecer uma explicação factual sobre este movimento, posto que em seus contornos sociais, teórico-metodológicos e estratégicos, emergem qualidades que expressam justamente a diferença, a multiplicidade, a diversidade valorizados como condição para a construção de práticas sociais mais democráticas, de conteúdo auto-gestionário, ampliando o exercício do poder entre as pessoas em níveis que desmontem as relações de dominação existentes, bem como as estruturas (de poder) hieraquizadas que as legitimam.
Assim, a fidelidade ao Movimento Institucionalista e Grupalista impõe a necessidade de explicitar as suas expressões diferenciadas, as suas apropriações singulares, tanto em termos coletivos quanto em termos subjetivos através de alguns atores exponenciais.
Por outro lado, ao utilizar o termo "movimento" estamos nos referindo à inserção social de seus atores e a sua articulação coletiva, tanto através da militância política ou do comprometimento com movimentos sociais específicos, quanto através de posturas contestadoras assumidas no desempenho de funções sócio-institucionais no âmbito das organizações sociais existentes.
As perspectivas do movimento também relacionam-se com as manifestações ou com os acontecimentos descritos como "Maio de 68". Embora reconheçamos que as "raízes" do Movimento Institucionalista e Grupalista sejam anteriores ao
129 Em 1980 o Instituto Pichon Riviére teve sua fundação na cidade de São Paulo.
"Maio de 68" há um entrecruzamento entre o Movimento Institucionalista e Grupalista e estes acontecimentos130.
Esse entrecruzamento, em nossa opinião, potencializou as concepções teórico-metodológicas e teórico-operativas em relação à autogestão, ao exercício coletivo do poder, à democratização das relações de poder; e em relação à possibilidade de convergências de ações preservando a pluralidade das expressões existentes, sem submetê-las à coesão pela homogeneidade de concepções, realizando uma convergência pluralista131.
Na França, o período em que o Movimento Institucionalista e Grupalista foi gestado (no pós-guerra132, florescendo na década de 60) esteve marcado pelas
130 Esta compreensão foi-me sugerida por Heliana de Barros Conde Rodrigues em sua dissertação de mestrado sob o título As subjetvidades em revolta: institucionalismo francês e novas análises (IMS/UERJ, 1993). A autora, psicóloga, professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro/RJ, é uma das pesquisadoras brasileiras que se destacam por sua produção no campo do Movimento Institucionalista principalmente pela abordagem histórica que empreende, no sentido de analisar as implicações de seus atores tanto em suas ações instituintes-instituídas, em termos de fundar novos territórios de conhecimento e de prática social, quanto na atenção à singularidade de suas expressões pelos múltiplos atravessamentos que as constituem.
131 Os acontecimentos de Maio de 1968, especialmente na França, foram também identificados à prática anarquista pela presença de grupos ligados às concepções do Anarquismo. Mas, tendo em vista a presença de outras perspectivas teórico-operativas vinculadas a outras concepções diferentes do Anarquismo, é possível inferir que os acontecimentos de Maio foram também inspirados pela perspectiva democrático-pluralista como uma crítica operativa (“em ato”, na ação desenvolvida) das formas organizacionais burocratizadas e enrijecidas, tanto nas práticas da burguesia, quanto nas práticas dos trabalhadores.
132 "As idéias de Mayo, Moreno, Lewin e Rogers começaram a penetrar na França com maior intensidade no imediato pós-guerra. Antes disso, as atenções para a Psicologia Social americana já haviam sido despertadas por Jean Stoetzel. Sua Teoria das Opiniões, publicada em 1943, é considerada a primeira obra francesa de psicologia social 'propriamente dita', entendendo-se a última expressão como legitimação do pardigma positivista de observação e experimentação. A primeira cadeira de Psicologia Social na Sorbonne terá de aguardar o ano de 1956, sendo implantada sob a direção do próprio Stoetzel. Desta época data também a criação do Laboratório de Psicologia Social, sob o impulso de Robert Pagès, igualmente voltado para uma abordagem experimental complementada por rigorosa reflexão epistemológica. Culminando a conquista de domínios acadêmicos assistiremos, em 1964, à criação de um laboratório de Psicologia Social na VI Seção da E.P.H.E., sob a batuta de Serge Moscovici e, em 1966, à da segunda cadeira de Psicologia Social, em Nanterre, confiada à Jean Maisonneueve. Porém o modo de implantação da Psicossociologia na França se caracteriza principalmente pela via das associações. Em meados dos anos 50, sob os impulsos modernizadores do curto período do governo Mendès France, o Comissariado Europeu, como parte do Plano Marshall de reorganização econômica, envia aos EUA algumas missões de intelectuais e jovens patrões a fim de que se familiarizem com as novidades em matéria de gestão em
denúncias contra os abusos do "stalinismo" na União Soviética, pela recusa à burocratização133 das organizações sociais, alinhadas politicamente tanto à direita, quanto à esquerda (especialmente criticada nos sindicatos e nos partidos operários), pela evocação da noção de instituição enquanto construção humana, as instituições enquanto práticas que são instituídas pela ação humana instituinte134 colocando questões ao marxismo e à prática revolucionária desenvolvida em nome do marxismo. Julgamos ter ilustrado alguns aspectos deste debate no capítulo um,
empresas e formação permanente. Ou seja, com as técnicas de grupo. De volta à França, diferentes equipes de pesquisadores fundam variadas associações de pesquisa, formação e intervenção psicossociológica, dentre as quais podemos destacar a AFAP (Associação Francesa para o Crescimento da Produtividade), a ANDSHA (Associação Nacional para o Desenvolvimento das Ciências Humanas) e, em especial, a ARIP (Association pour Recherche et l' Intervention psychossociologique)" (Rodrigues, 1993:470-471).
133 A burocratização implica na impessoalidade, no desenvolvimento de um tipo de racionalidade técnico-instrumental que independa dos indivíduos envolvidos (ou do julgamento individual flutuante em termos de interesses, gostos e preferências pessoais), ou seja, a burocracia ideal seria a possibilidade das organizações permanecerem e existirem autonomamente através de procedimentos racionalmente implementados capazes de funcionar universalmente (padronização dos procedimentos). O papel dos indivíduos nestas organizações seria o de manter o seu funcionamento perante os padrões determinados. A burocracia, enquanto estratégia organizacional, assemelha-se ao taylorismo implementado no processo produtivo capitalista, o qual entre outras características centraliza o controle sobre a produção nas mãos do gerente, numa tentativa de submeter a força de trabalho às determinações específicas da Gerência (divisão entre planejamento e ação). O taylorismo foi possível pelo parcelamento da atividade produtiva em tarefas repetitivas e quase insignificantes que poderiam ser desenvolvidas sem qualificação específica dos trabalhadores. Tanto a burocracia quanto o taylorismo falharam no desenvolvimento de seus modelos ideais. Isto porque, mesmo com a centralização do planejamento (das informações, do conhecimento técnico mais refinado) pela Gerência, o processo produtivo precisava da criatividade dos trabalhadores para funcionar, sem isto, muitos problemas teriam permanecido sem solução, esperando uma resposta
"iluminada" dos gerentes. Mesmo o submetimento hierárquico empreendido não retirou aos trabalhadores a sua capacidade de manter uma certa coesão, um ritmo e uma atmosfera no ambiente de trabalho, a qual precisou ser considerada também pela Gerência. Assim também, nas organizações sociais fortemente burocratizadas, os padrões normatizados continuavam dependendo do comprometimento individual com os mesmos, ainda que fossem uma pesada referência e uma determinação suficientemente eficaz no sentido de restringir a criatividade individual e coletivamente.
134 Existem diferentes apreensões sobre a instituição entre os autores considerados institucionalistas. É comum encontrarmos apropriações que priveligiam o instituinte, no sentido de valorizar a mudança, a transformação. A apropriação que realizamos está muito influenciada pelas concepções sartreanas, as quais nos auxiliaram a compreender a instituição em constante movimento, ou seja, em sua dimensão permanente instituída e instituinte. Mas, isto pode soar como um contrasenso, uma vez que Sartre considerou a instituição como a degradação do grupo, como o retorno à serialização. Contudo, sua compreensão de práxis fez-me perceber que a instituição está em constante construção, seja pela sua constante manutenção, seja por sua possível renovação, seja por sua destruição e transformação. Se uma instituição como a família é ressignificada continuamente, pelas práticas que a produzem e reproduzem, não é possível privilegiar nem o instituído nem o instituinte. Talvez Sartre tenha tomado a instituição pelo estabelecimento ou pela organização concretamente sedimentada, o que também acontece entre os institucionalistas.
quando abordamos as críticas de Sartre ao marxismo. O Movimento Institucionalista e Grupalista nasce nesse contexto, se nutre dessas críticas e talvez almeje superá-las criando caminhos diferentes daqueles trilhados pelos marxistas mais ortodoxos.
Por outro lado, também é importante mencionar, que o acúmulo das experiências no campo da psicoterapia institucional135 e da pedagogia institucional foi fundamental na constituição do Movimento Institucionalista e Grupalista.
Em relação à psicoterapia institucional, as referências deste movimento reportam ao início da década de 40, situando-a nas ações realizadas no contexto da Segunda Guerra Mundial no âmbito da prática asilar psiquiátrica136.
A denominação “psicoterapia institucional” foi elaborada por Daumezon e Koechin em 1952, em um artigo publicado nos Anais Portugueses de Psiquiatria, para designar as ações empreendidas no Hospital Psiquiátrico de St. Alban (Júlio Vertzman e outros, 1992).
Já a prática de pedagogos e professores inspiradas nas “interrogações críticas da psicoterapia institucional”137 e desenvolvida nos anos imediatamente
135 A história da psicoterapia institucional também se mistura com o movimento pela desinstitucionalização. Tal movimento refere-se aos questionamentos sobre a instituição psiquátrica (e outras formas asilares) e às ações para organizar formas diferentes de cuidado das pessoas “com algum problema permanente de comportamento desviante ou algumas formas de deficiência ou doença, como no caso das deficiências físicas e mentais, tuberculose, hanseníase e doenças mentais” (Vasconcelos, 2003:116). A esse respeito, Vasconcelos destaca a publicação, durante os anos 60, dos livros: Neurose Institucional (Barton, 1959), Manicômios, Prisões e Conventos (Goffman, 1961), História da Loucura (Foucault, 1961), A Instituição Negada (Basaglia, 1968).
136 “O começo desse movimento confunde-se com a história de um homem. Trata-se de François Tosquelles, um catalão, discípulo de Mira y López, que fugindo do franquismo em 1939 dirigiu-se à França e em janeiro de 1940 foi trabalhar no Hospital Psiquiátrico de Saint-Alban (Lozère, Pirineus franceses), onde permaneceu muitos anos, tendo sido inclusive seu diretor. De imediato, era necessário garantir a sobrevivência dos doentes (entre 600 e 700) durante a Grande Guerra. Tarefa difícil: durante esse período morreram 40.000 doentes mentais na França, de fome. Para isso foi preciso organizar o asilo e os doentes, nem que fosse para que estes saíssem à cata de comida pelos campos” (Vertzman e outros, 1992: 20). “Além disso, Tosquelles vinha de uma experiência na Espanha onde já se refletia sobre a possibilidade de introduzir no espaço institucional a psicanálise, bem como os ‘princípios de uma psiquiatria comunitária que permitissem transformar as relações entre os que prestam assistência e os alienados, no sentido de uma abertura para o mundo da loucura’” (Roudinesco in Vertzman e outros, idem).
posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial produziu as referências da pedagogia institucional, circunscritas pela “explosão escolar”, pela convicção quanto à necessidade de adequar os métodos pedagógicos ao mundo moderno e às mudanças tecnológicas (Jacques Ardoino e René Lourau, 2003)138.
Contudo, os acontecimentos de “Maio de 1968” potencializaram a convergência destas produções nas ações desenvolvidas, as quais também colocaram em “xeque” as formas sócio-institucionais existentes (organizacionalmente estabelecidas) evidenciando o seu enrijecimento e reivindicando mudanças imediatas.
Desse modo, julgamos importante apresentar, ainda que resumidamente, os eventos ocorridos durante o ano de 1968 e, especificamente, os eventos que marcaram o mês de maio, transformando-o em uma referência histórica.
Os acontecimentos referentes ao ano de 1968 e posteriormente relacionados ao “Maio de 1968” manifestaram-se em vários países, em diferentes continentes139.
137 “Convém lembrar que, ao longo do século XX, aparecem correspondências entre dois ‘campos’
clínicos que se interessam, de modo concorrente, por vezes convergente – um sob o ângulo da curabilidade, outro sob o da educabilidade –, pela evolução da pessoa. Vêem-se emergir, simetricamente, as terapias e as pedagogias ‘de grupo’, ‘centradas sobre o corpo’, ‘institucionais’ etc.”
(Ardoino e Lourau, 2003: 8).
138 “No quadro da escola, a preocupação com uma pedagogia cientificamente apoiada no desenvolvimento das ciências humanas se combina com a crescente tomada de consciência das implicações políticas de uma transmissão de saber sempre elitizada e, para tanto, orientada por intermédio de suas opções metodológicas, embora se deseje igualitária e laica. Testemunham-no a experiência alemã do ‘mestre-camarada’, a de uma ‘pedagogia libertária’, o desenvolvimento do movimento das escolas-Freinet ou a elaboração francesa de uma ‘pedagogia progressista’, saída do marxismo” (idem).
139 Alves (1993:22) destaca que "o mais longo ciclo de paz e de prosperidade que a Europa jamais conheceu chegou ao pico em 1968. As cidades já estavam reconstruídas, as fábricas colocavam à venda mercadorias em volumes cada vez maiores e cada vez mais diversificadas, mercadorias que podiam ser compradas pela vasta maioria da população. Do ponto de vista material, a vida nunca fora
Márcio Moreira Alves (1993:13) descreve o ano de 1968 como o ano das rupturas, "quando todos os sonhos pareciam possíveis aos jovens e nenhuma violência era proibida aos poderosos". Para ele, o ano de 1968 iniciou, politicamente, em 8 de outubro de 1967, com a morte de Ernesto Che Guevara na Bolívia. O apoio de Fidel Castro ao guerrilheiro argentino forçara uma ruptura com a posição soviética que considerava inútil as iniciativas guerrilheiras focalizadas na América Latina, desacreditando o seu potencial ofensivo contra o capitalismo. A Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), convocada por Fidel Castro, rompeu com a opinião soviética e a repercussão desta ruptura incentivou as lutas guerrilheiras em nosso continente, inclusive no Brasil.
O autor descreve alguns eventos ocorridos durante o ano de 1968. Na América Latina, em especial, no Brasil, ele menciona a ação guerrilheira de grupos de esquerda que motivaram a vitória da "linha dura", culminando com o Ato Institucional número 5, de dezembro de 1968140.
No Vietnã, em 30 de janeiro de 1968, os vietcongs iniciaram uma ofensiva no centro de Saigon (principal centro de operações norte-americano), explicitando o apoio popular de que dispunham, e incentivando as manifestações contrárias à guerra, principalmente em solo americano.
melhor". Indica ainda que as rotinas das universidades européias estavam "intactas" desde os anos que antecederam à guerra. O regime das cátedras era extremamente rígido na Alemanha, nas universidades soviéticas e na França, onde as últimas mudanças foram promovidas por Napoleão Bonaparte. Ainda na França, a universidade inchara (como também as demais universidades da Europa Ocidental), passando de 739 mil universitários (1950) para 1,7 milhão (1968). Alves enfatiza o fato dos métodos de recrutamento, nas empresas privadas e no serviço público, valorizarem a formação acadêmica das "grandes escolas", poucas e elitistas, além de estarem separadas do sistema universitário comum.
140 "Em comparação com as ações guerrilheiras de outros países, inclusive as da Itália, Alemanha, Espanha e Inglaterra, as praticadas pelos brasileiros em 68 poderiam ser consideradas modestas:
assaltos a bancos, alguns ataques a estabelecimentos militares, o assassinato de um oficial norte-americano. No entanto, elas se transformariam na principal razão da vitória dos oficiais da chamada 'linha dura'" (Alves, 1993:14).
Em 02 de janeiro de 1968, comemorou-se, discretamente, um século de Restauração Meiji, no Japão. "Kimpel Shiba, editor do Asai Shimbum, maior jornal do mundo, avisou sem ser ouvido: 'os primeiros cem anos foram os mais duros'"
(idem:19), sinalizando a recuperação japonesa em relação à derrota sofrida durante a segunda guerra mundial.
Na Europa do Leste, segundo Alves,
um exótico diplomata brasileiro, Márcio Ramalho, escrevia de Bucareste sobre a possibilidade de mudanças na Hungria e na Romênia, desde que elas fossem iniciadas no interior dos partidos comunistas no poder. A previsão de Ramalho começou a acontecer, para espanto geral, no dia 6 de janeiro de 1968, quando o secretário-geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, Antonin Novotny, stalinista de quatro costados, foi substituído pelo reformador Alexander Dubcek.
Começava, em pleno inverno, o jogo de gato e rato entre a linha dura soviética e juventude do mais ocidental país do Leste, jogo que faria florir a Primavera de Praga e terminaria em agosto, sob as lagartas dos tanques do Pacto de Varsóvia (idem:20).
Em 4 de abril de 1968, Martin Luther King foi assassinado nos EUA, em Tennesse. "Sua morte foi como um rastilho de pólvora até os bairros pobres das grandes cidades (...) Antes que a onda passasse, 110 cidades em 29 estados haviam conhecido os incêndios e as destruições de protesto da maior massa de marginalizados da afluente sociedade americana" (idem:20).
Todavia, o ano de 1968 ficou conhecido como o ano dos estudantes.
Segundo Alves,
a rebelião na França foi a maior, a mais televisiva, a de maior criatividade, a que mais mexeu com as estruturas de um país. Mas ocorreram rebeliões na Espanha de Franco, na Itália, nas bolorentas universidades de Oxford e Cambridge, na Inglaterra. Até na liberalíssima Suécia, paraíso realizado da social-democracia, onde o Estado proíbe que se seja pobre, o Parlamento foi ocupado pelos jovens. Nos Estados Unidos, onde não existia uma tradição de manifestações políticas dos estudantes – os partidos Democrata e Republicano têm uma estratégia política idêntica, só se diferenciando nas táticas – a polícia interveio em quase todos os estados. A briga na Universidade de Columbia, em Nova York, não ficou devendo, em violência, aos combates no Quartier Latin, de Paris. O cúmulo da violência aconteceu no México, onde o governo estava disposto a tudo para garantir a realização tranqüila das Olimpíadas. Os alunos da Universidade Autônoma, uma das maiores do mundo, foram fazer uma
manifestação de protesto na praça de Tlatelolco (...) Uma placa de bronze anuncia, com arrogância oficial, que do sangue ali derramado por duas raças, a européia e a indígena, nasceu uma terceira, a raça mexicana. Ao ministro do interior, futuro presidente, um pouco mais de sangue não pareceu ser um preço alto demais para garantir o prestígio mexicano, realçado pela realização dos jogos. Luís Echeverria mandou os tanques barrarem a saída da praça e deu a ordem de fogo. Oficiosamente, o governo reconheceu cinqüenta mortos, embora jamis fornecesse um número oficial. A imprensa e as organizações de direitos humanos calcularam em quatrocentos e quinhentos as vítimas do massacre (idem:21-22).
No Brasil141, as manifestações estudantis142 estiveram relacionadas com a pressão sobre o Ministério da Educação para aumentar o número de vagas nas universidades. Houve um aumento de 120% na demanda pelos vestibulares (número de candidatos às escolas superiores), enquanto as vagas cresceram em 56% no período entre 1964 e 1968(Alves, 1993). Durante o verão de 68, a luta dos estudantes envolveu o "movimento dos excedentes" que reivindicavam seu lugar na universidade. Segundo Alves,
'excedente' era o jovem considerado intelectualmente capaz de freqüentar um curso superior, mas que nele não entrava porque as vagas existentes tinham sido preenchidas por colegas com melhor aproveitamento (...) Sobravam e iam
141 Segundo Alves, em nosso país, o ano de 1968 inaugurou os sete anos de vacas gordas relacionados ao "milagre econômico" do regime militar. "Enquanto os estudantes universitários, filhos da classe média, iam para as ruas enfrentar a polícia e alguns entravam nas primeiras ações da guerrilha urbana, seus pais começavam a a ganhar dinheiro como nunca. As ofertas de emprego choviam. O arrocho salarial só existia para os funcionários públicos pouco qualificados e os operários.
Começavam os tempos de glória de Sérgio Dourado, com os apartamentos de três quartos em São Conrado, e do padrão global da 'vênus prateada', comandada por Walter Clark. Os executivos tupiniquins eram mais bem pagos que os norte-americanos. Jovens operários, já na segunda geração das indústrias de Osasco, criavam as comissões de fábrica, raiz do novo sindicalismo, e partiam para uma greve de modelo francês, com ocupação dos locais de trabalho eprisão dos patrões. Uns poucos também iriam engrossar as fileiras da guerrilha. Ao longo de quatro anos haviam sofrido a redução do poder de compra dos salários. Esta tinha sido a única política consistentemente mantida no programa antiinflacionário do governo Castelo Branco, encerrado em março de 1967. A parcela dos salários no PIB passou de 55,5% em 1959 para 52% em 1970, apesar da produtividade média na economia ter crescido a uma taxa de 9,1% ao ano. Era natural que os trabalhadores com tradição indutrial reclamassem uma fatia maior do bolo" (Alves, 1993:57).
142 "Os estudantes, é sempre bom lembrar, eram e são oriundos da classe média. O número de estudantes universitários saídos da classe operária é extremamente reduzido e tende a um conformismo político maior. Chegar à universidade é, para os filhos de famílias operárias, uma ascensão social de importância tamanha que não se arriscam a colocá-la em perigo. O número de estudantes universitários nascidos em famílias camponesas é mínimo. Quando muito, há alguns em São Paulo e no Paraná, filhos de lavradores de origem japonesa" (idem:119)