CAPÍTULO 2 – O MINISTÉRIO PÚBLICO BRASILEIRO FRENTE AO SISTEMA
2.11. O MP tem interagido com o sistema internacional?
Desde a entrada em vigor da CRFB de 1988, o Ministério Público tem sido o principal destinatário das denúncias de violações de direitos humanos, atuando, em suas diversas áreas, para a prevenção, correção ou reparação dessas violações.
Em consonância com sua posição constitucional de garantidor dos direitos
indisponíveis (art. 127 da CRFB), em cada um dos 5.570 Municípios brasileiros277 há,
ao menos, um membro do Ministério Público Estadual (Promotor de Justiça) com atribuição de defesa desses direitos, isso sem contar os membros do Ministério Público da União, que têm uma distribuição territorial diferenciada.
Esse caráter nacional de organização aproxima o Ministério Público da população, facilitando que as demandas envolvendo violações de direitos humanos cheguem aos órgãos ministeriais. Diante disso, fica fácil constatar que o Ministério Público brasileiro é um canal privilegiado de recebimento de denúncias, tendo o dever de atuar nas situações que versem sobre ameaça ou lesão a direitos indisponíveis. E a Instituição tem cumprido internamente o seu papel, por intermédio de sua atuação
275 Sobre a importância das audiências públicas, ver TRINDADE, A. A. Cançado. El ejercicio..., cit., pp. 137 e ss.
276 Cf. SCHUTTER, Olivier De. Op. cit., pp. 974/978.
277 Cf. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Disponível em <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/perfilmunic/2015/default.shtm>. Acesso em 07/08/2017.
extrajudicial e judicial. Ocorre que, muitas vezes, essa atuação, perante o sistema interno de proteção de direitos humanos, não surte os efeitos desejados, pelas mais diversas razões.
Sendo o principal veículo de recebimento dessas denúncias, qual a razão para que, nos casos em que não consiga em âmbito interno a cessação e/ou reparação de violações de direitos humanos, não possa dirigir-se ao sistema internacional a fim de buscá-la? Não há qualquer fundamento razoável para se negar essa possibilidade.
O SIDH foi idealizado para a proteção do indivíduo e não do Estado, sendo regido pelo princípio pro homine. Deve, assim, o Órgão que tem o dever de defesa dos direitos sociais e individuais indisponíveis buscar, em qualquer instância, a garantia desses direitos, que são a base do Estado Democrático.
Mas o MP não tem trilhado o caminho do sistema internacional em casos de graves violações que não encontraram solução adequada em âmbito interno. São pouquíssimas as intervenções de membros do MP com o sistema internacional, o que já ocorreu, na condição de perito, por exemplo, mas não ainda em uma condição de agente provocador do sistema.278
Em âmbito nacional, a Instituição leva as causas em que atua até a última instância interna (o Supremo Tribunal Federal), e neste ponto, tem se conformado quando a decisão é desfavorável à garantia dos direitos humanos por ele defendidos, como se outra esfera de obrigações não existisse ou não fosse possível de ser acionada por sua iniciativa.
Mas isso é um equívoco. A responsabilização internacional por violação de direitos humanos é uma via possível, devida e necessária para essas situações, de violação pelo Judiciário. E não há nada que impeça o Ministério Público de continuar, em nível internacional, a luta pela cessação ou reparação da violação. Chega a ser um dever a busca pelo Parquet dessa responsabilização, já que a sociedade, por intermédio do legislador constituinte, o alçou à condição de defensor dos direitos sociais e
278 Como já mencionado, no ano de 2005, um membro do Ministério Público Federal (MPF) provocou a CIDH, comunicando graves violações aos direitos humanos do povo indígena Maxakali (Minas Gerais), mas tal iniciativa foi revista pelo Procurador-Geral da República, sob o argumento de que a atribuição para representar a Instituição no foro internacional pertence à Chefia (PA N. 1.00.000.002592/2005-61). O MPF também já firmou acordo de intercâmbio técnico com a CorteIDH (informação disponível em <http://www.mpf.mp.br/pgr/noticias-pgr/mpf-e-corte-interamericana-de-direitos-humanos-assinam- documento-para-troca-de-informacoes>. Acesso em 16/06/2018).
individuais indisponíveis, autorizando-o a promover as medidas necessárias à sua garantia (arts. 127, caput e 129, II da CRFB).
Qual a razão, então, para não fazê-lo? Desconhecimento dos princípios e normas que regem o sistema internacional? Crença de que lhe falta legitimidade? Outras prioridades? Dificuldades práticas para essa atuação?
Na medida em que se aceita que o MP possui legitimidade para interagir com o sistema internacional, inclusive o provocando (afinal ele é complementar ao sistema interno), a Instituição deve buscar se capacitar para exercer, até a última esfera, o papel que o Constituinte originário lhe conferiu, de defesa dos direitos humanos.
Esta é a modesta pretensão deste trabalho, contribuir para a mudança de percepção com vistas à ampliação dos limites de atuação do Ministério Público.
Nessa linha, podemos afirmar que, no âmbito do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), a semente da interação com o SIDH já foi plantada.
Como mencionado na introdução deste trabalho, a relação do Ministério Público com o SIDH é pouco ou nada significativa. No MPRJ ela podia resumir-se à prestação de esclarecimentos quando demandados por algum organismo internacional, em especial os organismos interamericanos, em casos de violência estatal.
Os estudos para a elaboração deste trabalho mostraram que essa postura não condizia com o relevante papel conferido pela sociedade brasileira à Instituição. Se cabe ao MP a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, esta missão constitucional deve ser levada até às últimas instâncias, inclusive às internacionais, uma vez que não há qualquer norma impedindo essa interação. Pelo contrário. O art. 129, II da Constituição preconiza que compete ao MP promover as medidas necessárias à garantia dos direitos nela assegurados.
Destarte, pesquisamos alguns casos que, por serem paradigmáticos, poderiam fundamentar um pedido de queixa individual, tendo sido escolhido o que envolveu o adolescente Andreu Luiz Silva Carvalho, violentamente torturado e morto por agentes socioeducativos em unidade de atendimento no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2008. Apesar de identificados, os agentes continuam até hoje trabalhando no sistema socioeducativo, e tanto o processo criminal pela morte do jovem, quanto o processo cível de reparação de danos ajuizado por sua mãe não tiveram sequer sentença em
primeiro grau, o que demonstra que o sistema interno falhou em responsabilizar e punir os culpados pela grave violação aos direitos à dignidade e à vida do adolescente, o que importa, por esta inação, em violação ao direito à justiça.
Diante de dúvidas existentes na Instituição acerca da legitimidade e da atribuição para o encaminhamento à CIDH da petição que daria início ao procedimento de queixa individual, a questão foi submetida ao Procurador-Geral de Justiça. No documento enviado ao PGJ, foram elencados, entre outros fundamentos em defesa da legitimidade do MP: a autonomia e independência da Instituição em relação aos demais Poderes do Estado; sua missão constitucional de defesa dos direitos sociais e individuais indisponíveis (arts. 127, caput, e 129, II, da CRFB); a possibilidade de qualquer pessoa provocar o procedimento de queixa individual previsto no art. 44 da CADH; que a interpretação de tal dispositivo deve ser realizada da forma mais favorável à vítima, de acordo com o princípio pro homine; que a lei brasileira confere legitimação extraordinária ao MP, autorizando-o a defender em nome próprio direito de outrem, especialmente quando se trata de crianças e adolescentes; que, sendo a defesa dos interesses individuais e sociais indisponíveis pelo Ministério Público um direito assegurado pelo ordenamento jurídico brasileiro, de modo a facilitar o acesso à justiça e a efetiva implementação de direitos indisponíveis, constituindo-se em um direito daqueles que necessitam de tal defesa, não deve ser limitado no âmbito internacional, na forma preconizada pelo art. 29, b, da CADH.
A Assessoria de Direitos Humanos e de Minorias da Procuradoria-Geral de Justiça se posicionou no sentido da possibilidade de a Promotoria de Justiça com atribuição provocar o sistema internacional de proteção, aduzindo que:
(...) defendemos a tese jurídica da legitimidade ativa para denunciar graves omissões e/ou violações aos direitos fundamentais da pessoa humana, ocorridas no seu âmbito territorial de atuação. (...) A ausência de regulamentação na Lei Orgânica Nacional n. 8.625/93 e na Lei Complementar n. 75/93 atribui aos Ministérios Públicos liberdade para normatizar a questão referente à legitimidade, de forma interna. Nesse contexto, ante a ausência normativa, no que diz respeito à atribuição ministerial perante as instâncias internacionais de direitos humanos, podemos afirmar que não estão afastadas as atribuições da 3ª Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude da Comarca da
Capital, oficiante no processo em comento, para pleitear perante os mecanismos internacionais cabíveis. (...).
A Assessoria Jurídica da Procuradoria-Geral de Justiça também se posicionou no sentido de que “É factível que a atuação perante a Comissão pode ser vista como desdobramento natural da atuação do órgão de execução com atribuição para o caso nas instâncias internas”.
Por fim, o Procurador-Geral de Justiça, acolhendo o posicionamento de seus órgãos de assessoramento, encaminhou o expediente à Promotoria de Justiça com atribuição para ciência e adoção das medidas cabíveis.
Em 15 de março de 2018, a colega com atribuição protocolou a petição perante a CIDH, baseada nos argumentos acima expostos, tendo a petição recebido o número P- 646-18.
No caso em referência, busca-se a reparação pelo brutal assassinato de Andreu pelos agentes do Estado que deviam protegê-lo. É certo que reparação alguma será capaz de aplacar a dor dos membros da família do jovem, carentes e vulneráveis como o filho morto, mas, certamente, poderá amenizar o sentimento de injustiça e impunidade que os acompanha desde o ano de 2008.
Esta é a primeira vez que o MPRJ peticiona a um organismo internacional. Possivelmente, esta também é a primeira vez que uma petição dessa natureza, formulada por um MP brasileiro, é recebida e será processada.
Um novo caminho se abre ao MP, o do diálogo com os organismos internacionais. Não só a via da petição individual foi aberta, mas todos os mecanismos postos à disposição da defesa de direitos humanos seguem esperando essa interação. Daí a importância da capacitação e qualificação para uma atuação à altura da relevante missão ministerial.
2.12. Questões práticas envolvendo a normativa internacional que devem ser avaliadas