3. Uma fábula cômica do cotidiano
3.3. O mundo de Retrato Falado pelo testemunho de Terezinha
O desejo de Terezinha, como informamos no começo desse capítulo, era se tornar motorista de caminhão, pois para ela, “lugar de mulher é no trabalho”. As falas iniciais desse testemunho foram montadas em plano médio, com a personagem localizada no centro da imagem. Não vemos quase nada do ambiente em que a entrevista foi realizada, nem o
99 Todas as novelas citadas foram transmitidas pela TV Globo. Cf. Projeto Memória das Organizações Globo (org). Dicionário da TV Globo, vol. I – Dramaturgia e entretenimento. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
repórter. Percebemos que esse enquadramento, mostrando parte de seu corpo, foi o único utilizado do começo ao fim do episódio para captar o testemunho de Terezinha.
A escolha pelo formato do testemunho em Retrato Falado está vinculada a uma proposta narrativa que busca delegar à ficção uma expectativa de realidade. Nesse sentido, quando assistimos a imagem formatada de Terezinha temos a indicação de que se trata do sujeito que viveu a história, sendo este, antes de tudo, personagem do mundo cotidiano.
Temos essa noção antes que Denise Fraga nos aponte ou mesmo que haja algum crédito com o nome de Terezinha. Essa expectativa de realidade, que é presumida, advém do enquadramento da imagem e se refere também a uma convenção de linguagem formatada pelo documentário. Assim, o testemunho será sempre encenado da mesma maneira, tendo em vista que é essa organização da imagem que nos revela a distinção entre “o que encenação e o que não é”.
Há, portanto, uma separação clara do formato do testemunho para o da encenação, tendo em vista que a proposta é não diluir as fronteiras entre as expectativas de ficcionalidade e de realidade, pois, como apontamos no segundo capítulo, o riso se constitui pelo diálogo propositalmente articulado entre esses dois lugares:
Na tentativa de aprender a dirigir Terezinha, ao lado do marido que está dirigindo o caminhão, insiste com ele:
Denise/Terezinha: (na boléia de caminhão enquanto o marido está dirigindo) Deixa eu pegar no volante só um pouquinho?
Marido: Deixe de ser insistente, mulé!
Denise/Terezinha: Deixa, anda...
Marido: Não
Denise/Terezinha: Deixe, só um pouquinho!
Marido (assustado): Ene, a, o, til, não!
Denise/Terezinha: Deixe.
Marido: Mas por que que eu haveria de deixar?
Denise/Terezinha: Por que? Por que mulher não deve se encostar.
Em seguida entra a fala de Terezinha:
Porque se ela tem o marido hoje e dá tudo a ela, ela não confie nisso não, porque nós hoje tamo vivo, amanhã nós tamo morto e se o marido morrer e ela não souber fazer nada?
Na mesma seqüência, o marido responde:
Marido: Vire essa boca pra lá.
Denise/Terezinha: (virando a boca para o outro lado.) Eu viro, mas que é verdade, é (ela vai tentando carinhosamente, chegar perto do marido, beijando, até que ela coloca o braço dela na direção).
A seqüência acima descrita revela os mecanismos da narrativa do quadro. Quando o testemunho entrecruza a encenação, percebemos dois formatos narrativos diferentes. Um que se baseia na incorporação das marcas do grotesco pela caracterização dos cenários e performance da atriz Denise Fraga. E o segundo que se constitui apenas pelo enquadramento de Terezinha, retirando da imagem qualquer vestígio que possa denotar a existência de uma encenação.
É esse recurso narrativo adotado em torno da fala de Terezinha que imprime na imagem uma expectativa de realidade. Ele irá se dissolver quando Denise Fraga aparecer.
Portanto, quando o diálogo entre essas duas imagens se efetua, como no exemplo que mostramos acima, há uma súbita mudança na organização desses dois discursos. Assistimos a união de duas temporalidades distintas: uma que narra o acontecimento e outra que o presentifica. O choque causado por essa junção, que pode ser exemplificado pela fala do marido (“vire essa boca pra lá”), unindo a fala de Terezinha com a encenação, instaura a comicidade em Retrato Falado.
Afirmamos que o depoimento é base da expectativa de realidade existente no quadro.
Entendemos que a fala de Terezinha é a porta de entrada na narrativa. E , ao mesmo tempo em que personaliza a história, também atua como a voz narradora. É, portanto, a fala que simboliza a experiência, ou seja, aquela que introduz no mundo midiático os hábitos da vida diária.
A fala de Terezinha se torna o contraponto da performance de Denise Fraga e é parte constituinte do riso em Retrato Falado. Rimos quando nos damos conta de que o “absurdo”
vivido pela atriz é um fato que aconteceu no mundo cotidiano, ou seja, possui “tons” de realidade. É por esse motivo que nomeamos a fala de Terezinha como testemunho, por entendermos que a sua função na narrativa é a simbolização de uma experiência de vida.
Apontaremos, a seguir, a mesma estrutura encontrada no testemunho em um outro recurso narrativo presente no quadro: o comentário. Após a insistência de Denise/Teresinha, o marido resolve ensiná-la a dirigir:
Marido: (na boléia, explicando para ela como ela terá que fazer para ligar o caminhão) Pra ligar é assim ó, você vira a chave, aperta esse botão e junto você tem que pisar no acelerador. Um , dois e já (ela liga o carro). Isso.
Agora aperta a embreagem bem forte lá no fundo. Agora você vai soltando a embreagem bem devagarzinho...
Denise/Terezinha: (ela solta a embreagem muito rápido e o caminhão dá um pulo) Foi muito rápido?
Marido: Mas é claro, mulher. Você não vai aprender de jeito nenhum, desse jeito!
Terezinha: Mas meu filho, tenha paciência....
Marido: Tudo bem. Vamo tentar de novo. Você liga, aí o carro sozinho, vai (ela aperta o botão do pára-brisa). Não é isso!
Denise/Terezinha: não, não, espere, espere, espere, oxi homi, espere!(Ela fica desesperada e começa a mexer em todos os botões: buzinha, aperta o jato de limpeza, acende o farol entre outros)
Marido: Eu desisto você está é burra!
Após algumas discussões, o marido resolve tentar ensiná-la mais uma vez até que Terezinha consegue fazer o caminhão andar:
Marido: (ela gira a chave do carro) Isso, muito bem, já conseguiu ligar só, pelo menos ligar você já ta sabendo.
Denise/Terezinha: Agora, agora.
Marido: Agora você engata a primeira e vai soltando a embreagem devagarzinho...(ela consegue).
Denise/Terezinha: Eu consegui, né? (o caminhão vai andando ao som do Coro Aleluia, de Haendel).
Após o sucesso inicial da personagem, entra em cena o comentário de duas caminhoneiras:
Caminhoneira 1: A gente sente uma total liberdade, é muito gostoso, só a gente que ta aqui pr sentir mesmo.
Caminhoneira 2: E outra sensação mais importante é de saber que a gente também é capaz de dirigir um caminhão.
Nomeamos esses depoimentos de comentários pela função dessas falas na reiteração de uma expectativa de realidade. Para Foucault, o comentário é o elemento que enfatiza o que já foi dito no primeiro discurso, no mesmo momento em que possibilita a abertura para novos textos. É nesse sentido que o comentário instaura uma permanente repetição de uma lógica de sentido, que no quadro se estrutura por um movimento circular de entrada e saída no mundo cotidiano (FOUCAULT: 2000).
A fala das caminhoneiras possibilita, através da mesma lógica de sentido (produção de uma expectativa de realidade), a incorporação da audiência na história. Se o testemunho tem como proposta particularizar uma experiência do mundo cotidiano, o comentário, por outro lado, produz um efeito oposto: elas são colocadas em cena para generalizar uma experiência pontual do mundo privado e, assim, servir como representação de um público presumido, que
nesse sentido, é o sujeito comum. A fala final de Terezinha reitera essa perspectiva, quando passa opinar sobre a posição que a mulher deveria ter na sociedade.
Nenhum deles quiseram se formar, nenhum dos meus filhos, como algum deles, foram formado (o testemunho entra em off), gerado na cabine do carro, todos tiveram sangue misturado com óleo diesel, né? Aí resultado foi que eles, nenhum quis formar. (cenas da família de Terezinha) Então depois dessa vida de caminhoneiro e de toda a luta, o que sobrou foi essa família maravilhosa, meus filhos, meus netos, minhas netas...Mas sempre digo: lugar de mulher é no trabalho.
Apontamos nesse capítulo as marcas do melodrama e do documentário existentes em Retrato Falado e mostramos que essa estrutura faz parte de uma linha narrativa da televisão brasileira que originalmente foi traçada pela telenovela. Problematizamos a relação entre o mundo cotidiano e o mundo midiático. Cabe, portanto, agora analisar como os diferentes recursos de linguagem - as animações, o testemunho, os comentários e a dramatização - são articulados dentro do quadro para a fabulação dessa narrativa. É esse movimento que mostraremos no próximo capítulo.