CAPÍTULO 2: RECONFIGURAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE
2.1. O mundo do trabalho
O trabalho e suas consequências, tanto para os indivíduos quanto para o processo produtivo, vem despertando o interesse da comunidade acadêmica e se tornou um objeto recorrente de estudo a partir dos anos 80. As transformações do mundo do trabalho intensificam no momento de transição e ascensão do neoliberalismo, cuja ideologia se ampara no predomínio das liberdades individuais em detrimento das coletivas.
Sob a égide do neoliberalismo reforma-se o Estado. Um conjunto de elementos desempenhou um papel fundamental nesse processo,
“... a descentralização, que transladou responsabilidades fiscais e de gestão aos governos subnacionais (estaduais ou provinciais, municipais ou distritais); a privatização, que colocou nas mãos de empresas privadas (e, muitas vezes, de empresas estatais transacionais) a provisão dos principais serviços públicos; a desregulamentação, que implicou o vazamento ou a supressão dos organismos que cumpriam funções reguladoras da atividade socioeconômica, as quais passaram a ser consideradas supérfluas ou negativas para seu desenvolvimento; e a
terceirização de serviços, que levou inúmeras instituições públicas a
procurar no mercado certos insumos e serviços antes proporcionados por unidades operativas próprias.” [grifo nosso] (OSZLAK, 1999 apud DIAS, 201212)
A redefinição das relações do Estado com a sociedade a partir desse novo modelo, de acordo com Oszlak (apud DIAS, 2012), tem como verdadeira força motriz a necessidade de inserção dos países em uma nova ordem capitalista globalizada, o que desencadeou uma mudança de paradigma nas relações de trabalho. Dentre essas mudanças, certamente se incluem novas relações de trabalho, novas concepções de espaço e tempo, novas concepções de mundo, novos estilos de vida, novas identidades (DIAS SOBRINHO, 2010, p. 48).
12 Oszlak, Oscar. De menor a mejor: el desafio de la ‘segunda’ reforma del Estado. Revista Nueva Sociedad, no 160, 1999.
Demo (2009) alerta:
“O lado desumano dessa qualidade aparece na subordinação do trabalho às vicissitudes do capital, tomando o mercado o papel de regulador primeiro e último da sociedade. Manter-se empregável, à disposição irrestrita do mercado, é uma ânsia que corrói o sentido da vida, porque este é sucursal do mercado. A ironia é que esta imposição vem embrulhada numa visão pedagógica do aprender a aprender, do saber pensar, da construção de habilidades” (p. 21).
Oliveira (2004) ao tratar das novas demandas educativas e a reestruturação do trabalho na escola, discute que,
“A década de 1990 inaugura um novo momento na educação brasileira comparável, nos termos de mudanças, à década de 1960, em que se registrou a tessitura do que seria vivenciado nas duas décadas seguintes. Se nos anos de 1960 assiste-se, no Brasil, à tentativa de adequação da educação às exigências do padrão de acumulação fordista e às ambições do ideário nacional-desenvolvimentista, os anos de 1990 demarcam uma nova realidade: o imperativo da globalização” (p. 1129).
PAZETO (2005), partindo das reflexões suscitadas por Chauí (2001), afirma que “... A sociedade liberal, diante da exigência de domínio das tecnologias como condição para eficácia e produtividade e conseqüente maximização dos resultados, produz as estruturas e relações de mercado, particularmente pela intensificação e extensão das relações de mercantilização que vêm sendo praticadas, tendo em vista a indissociabilidade entre ciência e tecnologia.” (p.493)
Sobre ciência pode-se enaltecer o discurso de que no campo das ciências sociais, que buscam mostrar que tais mudanças se dão na direção da precarização do trabalho em um contexto de economia globalizada, contrapõe-se o discurso predominante na literatura de gestão empresarial, que apresenta um enfoque bastante otimista (FRANCO, DRUCK & SELIGMANN-SILVA, 2010; LINHART, 200913 apud BERNARDO, 2014).
Importante destacar que os elementos da reforma do Estado estão presentes nas reflexões de Bauman, que em “Modernidade Líquida”, dedica um capítulo para tratar do tema “Trabalho”. Ao traçar um paralelo entre a vida moderna e a organização do trabalho, comenta que,
13Franco, T., Druck, G., & Seligmann-Silva, E. (2010). As novas relações de trabalho, o desgaste mental do
trabalhador e os transtornos mentais no trabalho precarizado. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 122, 229-248.
Linhart, D. (2009). Modernisation et précarisation de la vie au travail. Papeles del CEIC, 1(43), 1-19. Acesso em 01 de novembro, 2010, em http://www.identidadcolectiva.es/ pdf/43.pdf
“...o progresso, como tantos outros parâmetros da vida moderna, está agora "individualizado"; mais precisamente - desregulado e privatizado. Está agora desregulado - porque as ofertas de "elevar de nível" as realidades presentes são muitas e diversas e porque a questão "uma novidade particular significa de fato um aperfeiçoamento?" foi deixada à livre competição antes e depois de sua introdução, e permanecerá em disputa mesmo depois de feita a escolha. E está privatizada porque a questão do aperfeiçoamento não é mais um empreendimento coletivo, mas individual; são os homens e mulheres individuais que a suas próprias custas deverão usar, individualmente, seu próprio juízo, recursos e indústria para elevar-se a uma condição mais satisfatória e deixar para trás qualquer aspecto de sua condição presente de que se ressintam.” (BAUMAN, 2001. p. 170)
E Dejours (2004, p. 34) defende que
“As consequências desses princípios da organização do trabalho são, de um lado, o crescimento extraordinário da produtividade e da riqueza, mas, de outro, a erosão do lugar acordado à subjetividade e à vida no trabalho. Disto resulta um agravamento das patologias mentais decorrentes do trabalho em crescimento em todo o mundo ocidental, o surgimento de novas patologias, em particular os suicídios nos próprios locais de trabalho – o que não acontecia jamais antes da virada neoliberal – e o desenvolvimento da violência no trabalho, a agravação das patologias da sobrecarga, a explosão de patologias do assédio.” Bauman coloca ainda que “a individualização é uma fatalidade, não uma escolha. Na terra da liberdade individual de escolher, a opção de escapar à individualização e de se recusar a participar do jogo da individualização está decididamente fora da jogada” (2001, p. 47)
A sociedade de consumo enaltece o individualismo em contraposição à cooperação. O que mobiliza o processo de globalização é a crescente busca por uma maior lucratividade, produtividade e competitividade. Essa tríade desencadeia, no caso do trabalho, um processo de manipulação e descarte, já que o que predomina na relação de empregabilidade não são mais as habilidades específicas ou qualidades especiais e, assim como num “jogo de xadrez”, o indivíduo se torna apenas uma “peça”.
O modelo de avaliação da carreira docente da Unicamp está centrado na premissa de valorização do individualismo e do produtivismo, estimulando a competitividade em contraposição à promoção de práticas colaborativas.
A competitividade apossou-se do lugar que era ocupado pela solidariedade. A cooperação não encontra abrigo nesse novo desenho das relações de trabalho. Dejours (2013, p. 17) coloca a questão da cooperação como eixo central do trabalho, já que esse implica o coletivo na relação com o outro. Aborda, contudo, que a cooperação exige relações de
confiança, visto que “trabalhar não é unicamente produzir, é também viver em conjunto”. Cooperar é correr risco, é se expor e, se o trabalhador se implica, é porque, em troca desta contribuição à cooperação, espera uma retribuição, que não é necessariamente material, ou seja, não é esse o motor; antes de tudo, o trabalhador espera uma retribuição simbólica.
“A retribuição simbólica esperada toma normalmente forma do reconhecimento. Na sua dupla acepção [sic]: reconhecimento no sentido de gratidão pelo serviço prestado; e reconhecimento no sentido de julgamento sobre a qualidade do trabalho realizado. Também o reconhecimento só atinge a sua eficácia simbólica caso seja obtido e conferido de acordo com procedimentos, com critérios extremamente rigorosos” (DEJOURS, 2013. p 18).
Dejours (2013, p. 19) ainda argumenta que o reconhecimento passa por julgamentos, destacando duas modalidades: o de utilidade, importante porque confere ao indivíduo a afiliação na sociedade, de beleza, proferido pelos pares que consente o reconhecimento da originalidade e o sentimento de pertença, pertença a uma equipe, um coletivo, ou uma comunidade profissional.
Ora, se o que move essa cadeia é a cooperação, é o indivíduo se reconhecer como parte de um coletivo, conquistar o reconhecimento de seus pares e da sociedade, quais os impactos que essa remodelação das relações de trabalho provoca nos trabalhadores? A exploração da força de trabalho no modelo de produção capitalista que expõe o indivíduo ao isolamento, a uma excessiva carga de trabalho, a um desgaste emocional, físico e mental e à condições de tensão e pressão, vem provocando o adoecimento do trabalhador e, em alguns casos, torna-se até uma causa para o suicídio.
Há de se considerar ainda que o trabalhador enfrenta constantemente processos de adaptação no ambiente profissional. Sob esse aspecto, Dejours (2013, pp. 11-14), partindo dos aportes conceituais da psicodinâmica do trabalho, aborda a discordância existente entre o trabalho prescrito e o real, entendendo que “trabalhar é constantemente ajustar, adaptar, reparar, arranjar” já que, em qualquer tipo de trabalho, “há sempre imprevistos, bloqueios, disfuncionamentos, incidentes.” Discorre, então que “o trabalho é aquilo que o próprio trabalhador precisa de inventar e acrescentar às prescrições para que as coisas corram bem”. Ao experienciar o mundo real, o trabalhador se confronta com situações que lhe fogem ao controle e que o levam ao insucesso, enfrentando o fato de que “trabalhar é principalmente falhar”, porém “não é só falhar, é também ser capaz de suportar o insucesso o tempo que for necessário para encontrar a solução que permita superar o real”, depreendendo que trabalhar não é somente produzir; é também transformar-se e crescer.
Nesse universo de frustrações, falhas e busca pela superação, há ainda um componente que o processo de globalização cerceou: a autonomia. Trazendo essa discussão para o ambiente acadêmico, infere-se que há uma imposição de limites na autonomia do docente e do pesquisador, ou seja, da liberdade do que pesquisar, do que ensinar, respeitando os anseios da sociedade, porém sem precisar se submeter necessariamente aos ditames das agências financiadoras ou controladoras como hoje ocorre, já que as regras são por elas ditadas. O docente, perante esse modelo capitalista, é coagido a se enquadrar numa proposta mercantil que o sujeita à privatização da agenda científica, à fragmentação da produção, ao estabelecimento de uma grade curricular que não atende ao projeto de formação idealizado pela Universidade, a um sistema de avaliação reduzido a critérios quantitativos, ao enaltecimento da temporalidade para formação de mestres e doutores sob o discurso de “eficiência” e ao simples comércio de cursos de extensão.
A tarefa dos professores consiste em um sutil equilíbrio entre regras e autonomia. Este equilíbrio define de maneira explícita a margem de liberdade (e de angústia) pedagógica e a relação entre os componentes de concepção e execução (THERRIEN e LOIOLA, 2001, p. 152). É fato que os docentes nem sempre veem sentido em todas as atividades que compõem sua rotina de trabalho, que muitas vezes é preenchida por atividades que serão mais valorizadas no instante de sua avaliação, transformando critérios em regras.
Outro aspecto marcante do processo de reforma produtiva e gestão do trabalho diz respeito à flexibilização do trabalho. Neves e Pedrosa (2007) ao discutirem as consequências da flexibilização do trabalho, colocam que,
“[...] ocorreu uma crescente transformação do contrato trabalhista, demonstrada nas diversas formas flexíveis do emprego e do mercado de trabalho. Estas práticas assumem diferentes configurações, como: a terceirização, o emprego temporário, a subcontratação, a informalidade, as cooperativas de trabalho, as atividades autônomas e inúmeras formas de trabalho assalariado disfarçado” (p. 12).
Sobre a flexibilização da contratação e do regime de trabalho nas IES públicas, Bosi (2007) relata a utilização de alunos de pós-graduação como professores substitutos e a fracassada tentativa do governo FHC de instituir o regime de 12 horas nas IFES (p. 1509).
Ainda no bojo das formas flexíveis do emprego e do mercado de trabalho, Gemma, Fuentes-Rojas e Soares (2017, p. 9), ao analisarem a percepção dos agentes de limpeza terceirizados de uma faculdade pública sobre sua atividade de trabalho, constataram questões relacionadas às particularidades da terceirização e do trabalho considerado feminino, como condições precárias, baixo salário e menor estabilidade, além do exercício da jornada dupla.
A precarização do trabalho desses agentes se traduz também nos riscos psicossociais aos quais são expostas, especialmente relacionados ao estresse e ao assédio moral.
Para entender esse contexto, Dejours (1992, p. 2414) advoga que "Em certas condições
emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos e uma organização do trabalho que os ignora" (apud HOFFMANN et al., 2017, p. 268).
Nas reflexões sobre a incerteza que esse sistema capitalista produz ao mundo do trabalho, de enxugamento, desemprego estrutural, racionalização e sobrevivência, cabe-nos destacar Bauman (2001, p. 202), que assim sintetiza:
“Ninguém pode razoavelmente supor que está garantido contra a nova rodada de "redução de tamanho" "agilização" e "racionalização" contra mudanças erráticas da demanda do mercado e pressões caprichosas mas irresistíveis de "competitividade" "produtividade" e "eficácia". "Flexibilidade" é a palavra do dia. Ela anuncia empregos sem segurança, compromissos ou direitos, que oferecem apenas contratos a prazo fixo ou renováveis, demissão sem aviso prévio e nenhum direito à compensação. Ninguém pode, portanto, sentir-se insubstituível - nem os já demitidos nem os que ambicionam o emprego de demitir os outros. Mesmo a posição mais privilegiada pode acabar sendo apenas temporária e "até disposição em contrário"”.
E Dejours (2004, p. 34) dessa forma conclui:
“A evolução contemporânea da organização do trabalho não é uma fatalidade. Ela revela da vontade – e do zelo – dos homens e das mulheres que a fazem funcionar. Se o trabalho pode gerar o pior, como hoje, no mundo humano, ele pode, também, gerar o melhor. Isto depende de nós e de nossa capacidade de pensar as relações entre subjetividade, trabalho e ação, graças a uma renovação conceitual.”