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O MUNICÍPIO E A LEI Nº 10.639/03 67

3.1 O C AMPO DA P ESQUISA 60

3.1.2 O MUNICÍPIO E A LEI Nº 10.639/03 67

A temática das relações raciais no município de Santo André não é somente tarefa da SE, mas também de outras secretarias, como a Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo. As ações implementadas são justificadas pela forte atuação do Movimento Negro no município, sendo que, como fruto dessa atuação, em 2001, foi criada a Assessoria da Comunidade Negra, com a responsabilidade de elaborar políticas para a igualdade racial.

A discussão da raça e do gênero, em Santo André, ganhou maior espaço a partir de 1998, ano em que o Partido dos Trabalhadores (PT) reassumiu o município e o movimento social no município fortaleceu-se. Muitas ações foram acontecendo, como a implantação do projeto de pesquisa “Gestão local, empregabilidade e equidade de gênero e raça”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Ainda, foi assinado um termo de acordo, em parceria com a SEPPIR,28 o Consórcio Intermunicipal e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), oficializando a implantação do Programa de Fortalecimento Institucional para a Igualdade de Gênero e Raça, Erradicação da Pobreza e Promoção do Emprego (GRPE) nos sete municípios do Grande ABC (SARAIVA, 2009). Desde então, aconteceram inúmeras atividades, possíveis por conta da política continuada desenvolvida na cidade, com uma gestão participativa, considerando os diferentes segmentos populares (SARAIVA, 2009).

No setor educacional, o mesmo aconteceu com a promulgação da Lei nº 10.639/03 e o Parecer CNE/CP nº 03/04, instrumentos legais que orientam, ampla e nitidamente, as instituições educacionais quanto às suas atribuições; em especial, o parágrafo 3º do art. 2º do parecer cita:

Art. 2°. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanas constituem-se de orientações, princípios e fundamentos para o planejamento, execução e avaliação da Educação, e têm por meta, promover a educação de cidadãos atuantes e conscientes no seio da sociedade multicultural e pluriétnica do Brasil, buscando relações étnico-sociais positivas, rumo à construção de nação democrática. [...].

28 A SEPPIR foi criada em 2003, no governo Lula, com a missão de assessorar, direta e imediatamente, o

Presidente da República na formulação, coordenação, articulação e avaliação de políticas públicas afirmativas e diretrizes para a promoção da igualdade racial e a proteção dos direitos de indivíduos e grupos raciais e étnicos, com ênfase na população negra.

§ 3º - Caberá aos conselhos de Educação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios desenvolver as Diretrizes Curriculares Nacionais instituídas por esta Resolução, dentro do regime de colaboração e da autonomia de entes federativos e seus respectivos sistemas. (BRASIL, 2004, p. 31).

O primeiro passo foi a formação dos professores; em 2005, aconteceu uma formação com a temática “Gênero e raça” e, em 2006, o projeto “A cor da cultura”. As duas formações faziam parte do programa “Diversidade e Educação”, do DEIF, e garantiam a participação de dois representantes por escola.

A formação “Gênero e raça” teve seu início devido à necessidade encontrada por duas gerentes que participaram do GRPE, em 2005, quanto à demanda de trabalho com a temática étnico-racial na educação. Como tarefa do GRPE, as gerentes aplicaram um questionário, com o qual verificaram o reconhecimento de o Brasil ser um país racista e que as questões de raça e gênero influenciavam o acesso ao emprego e as condições vida. Também constataram que, na maioria das unidades escolares, não havia conhecimento sobre a Lei nº 10.639/03 (SARAIVA, 2009).

A formação contou com a participação de professores da rede municipal dos três períodos escolares, sendo o noturno para os professores da EJA. Sua carga horária era de 20 horas, distribuídas em 5 encontros, nos meses de setembro a dezembro.

Já o projeto “A cor da cultura”29 teve como características a implantação de um kit pedagógico nas escolas e a capacitação dos professores para o seu uso, com objetivo de

disseminar contribuições da cultura negra para a sociedade brasileira, como um todo e, mais diretamente, para crianças e adolescentes e educadores; ampliar o conhecimento e a compreensão sobre a história dos afro- descendentes a história da África e, assim, contribuir para que os objetivos previstos pela Lei nº 10.639/03 – a qual versa especificamente sobre este assunto – venham a ser atingidos; oferecer formação de professores, tendo como base os valores civilizatórios afro-brasileiros, em articulação com o kit pedagógico a Cor da Cultura; contribuir, pelo caminho da ação educativa escolar, para a erradicação dos efeitos das discriminações sociais e étnico- raciais que perpassam o nosso país. (A COR DA CULTURA, 2006, p. 2).

O curso teve carga horária de 40 horas, com encontros presenciais e não presenciais, e contou com a participação de professores de todos os segmentos escolares municipais, um representante diretivo de cada escola e, ainda, 10 representantes do Movimento Negro.

29 A Cor da Cultura é um projeto em parceria entre a Petrobras, a SEPPIR, a TV Globo, o Centro Brasileiro de

Informação e Documentação do Artista Negro (CIDAN) e o Canal Futura, e significa uma contribuição para a efetivação da Lei nº 10.639/03.

Além dessas iniciativas, somente no ano de 2011, foram distribuídas cartilhas para o ensino fundamental I, contendo minimamente conteúdos que tratam do ensino da história e cultura afro-brasileira. Essas apostilas foram elaboradas pela Fundação Santo André, que, assim, como os professores do estado de São Paulo também não receberam treinamento prévio para utilizá-las.

Para os professores do ensino fundamental II e do ensino médio da cidade, em cumprimento parcial à lei, houve também formação, com o curso “Educando pela diferença para igualdade”, que foi uma iniciativa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), entidade que ministrou o curso, em parceira com a Diretoria de Ensino local. A forma de participação deu-se por interesse dos professores, tendo sido compostas duas turmas de, aproximadamente, 40 professores, sendo a formação realizada em horário de atividades dos profissionais que dela participaram.

Ainda em cumprimento parcial à lei, é importante ressalvar que a cidade, desde 2004, agregou ao calendário municipal o feriado do dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra), tendo sido uma das primeiras cidades do Grande ABC a decretá-lo. Desde então, inúmeras atividades passaram a compor a agenda da cidade no mês da consciência negra, as quais são organizadas pelo Movimento Negro, em parceria com o Departamento de Humanidades, que trabalha as questões de gênero, raça, deficiência, homofobia e outras junto às diversas secretarias do município.