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O não-lugar

No documento Faróis do Saber de Curitiba (páginas 61-65)

2 DOS LUGARES AOS NÃO-LUGARES NA APROPRIAÇÃO DE

2.1 ESPAÇO, TERRITÓRIO E LUGAR: CONQUISTA E

2.1.4 O não-lugar

O termo não-lugar foi cunhado por Webber (1964), que considerava a acessibilidade a um determinado lugar mais importante do que a proximidade com ele. Para respaldar seu pensamento o autor evidenciou as comunidades de interesse que se formavam mesmo quando as pessoas estavam distantes.Bom exemplo disso é o caso de pesquisadores que, embora geograficamente distantes, formavam uma comunidade baseada em um tópico comum. Para o autor a comunidade de interesse muitas vezes se sobressai em relação às tradicionais comunidades de lugar, evidenciando sua teoria de que o acesso é mais importante que a proximidade.

Esta foi a concepção inicial do não-lugar. O termo, porém, foi amplamente utilizado depois por diversos outros pesquisadores, como Augé (1994, p. 73), que considera:

Se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um não-lugar.

Certeau (1994, p. 181) refere-se à idéia de não-lugar como uma simples maneira de “passar”, o processo indefinido de estar ausente e à procura de um lugar. O autor cita como exemplos de não-lugares as estradas, as ferroviárias, os aeroportos, os aviões, os trens, os hotéis, os parques e outros espaços pelos quais as pessoas passam sem estabelecer raízes, onde:

[...] existe somente um pulular de passantes, uma rede de estradas tomadas de empréstimo por uma circulação, uma agitação através das aparências do próprio, um universo de locações freqüentadas.

(1994, p. 183)

Outra forma de pensar o não-lugar aparece nas idéias de Relph (1980), que não é contrária à dos autores mencionados anteriormente, mas paralela a elas. Para Relph (1980) é a insensibilidade ao significado do lugar que gera o não-lugar, já que o que atribui características de não-lugar a um espaço é a falta de profundidade na identificação que se tem com ele. Para este autor um shopping-center, por exemplo, que em função de suas características, da arquitetura, da limitação de tempo dos seus visitantes, de ser meramente funcional poderia ser considerado um não-lugar; não o é, caso se configure uma relação de identidade entre seus freqüentadores e o shopping que vá além de uma simples relação de funcionalidade. Para Relph (1980), o não-lugar é decorrente de uma atitude, cuja demonstração prevalente tem impedido que lugares autênticos sejam criados.

A autenticidade dos lugares é uma variável enfatizada por Relph (1980).

Ele considera que a atitude de não reconhecimento da autenticidade de lugares resulta da incapacidade de se reconhecer as significações simbólicas e a identidade, fazendo com que se desenvolva exclusivamente uma relação de utilidade com o lugar, o que o transforma em um não-lugar. A partir desta visão o não-lugar seria conseqüência de uma atitude não autêntica das pessoas em relação ao lugar. Sendo assim, pode-se dizer que ocorre uma perda de significado do lugar, refletindo a percepção das pessoas em relação ao seu significado, que se transforma com o passar do tempo.

Complementar a esta abordagem é um exemplo citado por Mitchell (2002), que ilustra a atitude das pessoas em relação ao lugar. O autor relata sobre um vilarejo deserto com um poço localizado bem no centro e com as casas aglomeradas a uma distância que possibilitava aos moradores carregar uma jarra com água até elas, confortavelmente. Ao final da tarde as pessoas se dirigiam ao poço para pegar água e ficavam por lá conversando, fazendo negócios; as

crianças, brincando. Quando chegou a água encanada ocorreram transformações.

As casas podiam ficar longe do poço, não precisando mais se concentrar no centro velho, o que possibilitou a expansão da cidade. Por outro lado, como a água chegava por canos até as torneiras as pessoas não precisavam mais ir até o velho poço. Pararam, conseqüentemente, de se encontrar ali, de conversar todo fim de tarde após encher suas jarras de água. A socialização passou a ocorrer em outros lugares e o lugar onde o poço estava localizado transformou-se em um não-lugar.

Por fim, vale ressaltar que, ao menos com relação a um ponto específico, Augé (1994), Certeau (1994) e Relph (1980) apresentam concordância inquestionável: todos consideram que os não-lugares são característicos das sociedades modernas ou ainda que a supermodernidade é produtora de não-lugares.

A noção de lugar tratada até este ponto do estudo se refere a não-lugares físicos. No próximo capítulo, mais uma variável será inserida na discussão: a Internet como não-lugar. Esta proposição leva em conta o surgimento de uma nova realidade e a criação de um novo espaço, não mais físico, mas virtual: o ciberespaço. Nele a rede mundial de computadores se estabelece como um não-lugar virtual.

Após esta discussão, que abordou os conceitos de território e lugar/não-lugar, observou-se a necessidade de se fazer uma reflexão sobre territorialidade, pois este conceito está diretamente ligado aos conceitos de apropriação e identidade, além de que, ele será muito útil na análise realizada mais adiante, a partir da apresentação dos dados da pesquisa empírica.

Como foi citado anteriormente, o território é o lugar concreto onde instala-se a vida em sociedade. É nele que ocorrem as relações, e, instala-sendo assim, a

terri-torialidade pode ser considerada como uma projeção de nossa identidade sobre o território. Segundo Haesbaert (2004), o efeito da apropriação humana é que objetiva o processo de territorialização. Para Sack (apud HAESBAERT, 2005, p.

86):

A territorialidade, além de incorporar uma dimensão estritamente política, diz respeito às relações econômicas e culturais, pois está intimamente ligada ao modo como as pessoas utilizam a terra, como elas próprias se organizam no espaço e como elas dão significado ao lugar.

Para Santos e Silveira (2005), o sentimento de territorialidade do ser humano também envolve "a preocupação com o destino, a construção do futuro, o que, entre os seres vivos, é privilégio do homem".

Em suma, pode-se dizer que a territorialidade é uma forma única de se apropriar da terra, fazendo dela diferentes usos do território, o que se realiza por meio dos significados; e, ainda, de apropriar-se dos significados, que as pessoas vão construindo em função de suas experiências de vida em cada localidade (KOGA, 2003). O estabelecimento de um território desenvolve nas pessoas que nele habitam um sentimento consciente de sua participação, daí o sentido de territorialidade.

Há outro conceito, afim, a territorialização, que é a maneira como se concretiza ou se materializa o território. Tal conceito será abordado na seção seguinte, em que também será discutida a idéia de reterritorialização.

Após esta discussão envolvendo termos de significados tão próximos, pode-se afirmar que o espaço o território e o lugar são conceitos distintos. Duarte (2002) considera que não é possível estabelecer uma relação de hierarquia, tampouco definir sobreposições entre eles. Os conceitos, porém, coexistem e

interligam-se. Ainda na visão de Duarte, o espaço é o ambiente vivido pelos seres humanos de forma coletiva, composto de fixos e fluxos18; o lugar é uma porção do espaço com significado, que adquire sentido individual ou coletivo; o território é, por sua vez, o espaço institucionalizado, ou seja, legalizado.

Esta primeira parte da revisão da literatura serve como pano de fundo para se compreender como ocorre a formação de um lugar ou de um território, evidenciando que a ação das pessoas está diretamente ligada à construção desses "fragmentos" do espaço, que acabam tendo seus significados e seus usos alterados de acordo com a apropriação feita pela sociedade. Há, contudo, a necessidade de se considerar que a produção e o significado dos lugares, na pós-modernidade, têm sido muito influenciados pela globalização e pelo próprio uso da rede mundial de computadores, a Internet (www).

Os diferentes usos e apropriações do lugar, bem como a introdução da Internet no cotidiano das pessoas e a emergência de um espaço virtual (o ciber-espaço), serão discutidos a seguir.

No documento Faróis do Saber de Curitiba (páginas 61-65)