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O nascimento da criança e a transição para parentalidade

Embora hoje a família, enquanto contexto de desenvolvim- ento, ou como principal “nicho ecológico”, seja alvo de muitas pes- quisas, esta sua característica, de acordo com Kreppner (2000), foi por muito tempo negligenciada. Apenas nas décadas de 60 e 70, com a difusão dos estudos etológicos, é que a família foi redescoberta e situada como um contexto importante, espaço de mediação entre in- divíduo e sociedade.

A ideia de continuidade de características entre as espécies en- contra certo respaldo em outras abordagens que por meio da com- paração com o comportamento animal fundamenta as explicações da conduta humana. A perspectiva coconstrutivista, segundo a qual os processos psicológicos superiores são culturalmente construídos, afirma que só a partir do mundo cultural é que se pode construir, ativamente, a rede de conhecimento e significados. Bastos e Almei- da Filho (1999, p. 61) corroboram esta ideia ao afirmar que: “[...] os indivíduos constroem ativamente seus próprios contextos, dentro dos limites socialmente articulados pela cultura e [...] a dinâmica re- sultante fundamenta-se em práticas coletivas e significativas que o próprio sistema cria para se autoproduzir.”

As mudanças por que passa o corpo feminino durante a gravi- dez, o parto, a amamentação e o puerpério não requerem o apoio da cultura para que se realizem, mas são acionadas por mecanismos de caráter biológico que as tornam inevitáveis. No momento em que o

óvulo é fecundado tem início uma série de transformações inerentes às combinações da cadeia de genes que determinam desde as carac- terísticas físicas do embrião até sua alimentação e posição no ventre materno. Este é um dos processos humanos em que a vontade e a compreensão dos genitores não interferem diretamente na manifes- tação dos acontecimentos. A mãe é incapaz de sequer imaginar as feições exatas do filho que carrega em seu ventre e muito menos de precisar as divisões celulares e até mesmo os movimentos que ele re- aliza durante os nove meses. No entanto, é exatamente diante do as- pecto de desconhecimento ou de mistério quanto aos passos desses processos que surge o “maravilhamento” com a criança e o sentido de presente que esta traz para a família.

A expectativa em torno da chegada do filho leva os pais a pre- pararem-se para acolhida de um ser que ainda não conhecem. A espe- ra do desconhecido transforma a família, introduzindo novos signos e símbolos. Se, de um lado, o aspecto simbólico não tem uma finalida- de imediata, mas é inerente à expectativa de ser genitor, este universo simbólico o prepara para ingressar em contextos culturais complexos e inovadores que concretizados pela cultura, oferecem suporte, como o sistema de saúde, a família extensa, a creche, os parques, dentre outros.

Do ponto de vista do corpo feminino, os acontecimentos acio- nados durante a gravidez pelos sistemas neuronais e hormonais re- querem constante adaptação a mudanças. O protagonismo feminino contribui com a decisão de viver essas transformações buscando bem estar e de assumir a dramaticidade que estes processos desencadeiam. Marcada pela temporalidade, a parentalidade é intransitiva, irreversí- vel e atemporal. Embora acionada por dispositivos fisiológicos, a ma- ternidade toma parte dentro de um processo amplo de coconstrução e de diálogo com a cultura, desde as tradições familiares, até os valores e normas que uma comunidade apresenta para dar significado à mu- dança.

O nascimento de uma criança surpreende os pais e os deixam gratos pela forma com a qual a natureza mesma esculpe suas próprias características naquele novo ser. É ainda mais verdadeira a gratidão, muitas vezes ao lado do pesar e da perplexidade, dos pais quando aco- lhem crianças que não têm a formação completa de seu corpo físico. Neste caso, ainda é mais presente e aguda a busca pela origem desses processos.

Desde muito cedo, as crianças trocam experiências com os pais e outros membros da família, assim como a reconhecem suas in- tenções. Kreppner (2000) analisou a interdependência entre criança e família na trajetória de desenvolvimento, evidenciando o papel da família como o principal contexto de desenvolvimento e como a insti- tuição responsável pela transmissão da cultura.

A troca de informações na família é um processo recíproco, pois os membros familiares enviam mensagens simbólicas e espontâ- neas, assim como também as recebem, compartilhando, deste modo, aspectos subjetivos uns dos outros, e sentindo-se participantes de uma rede de apoio mútuo.

A evidência de que a criança depende do adulto desde o ventre materno estende-se para a vida do adulto, pois não é possível garantir a continuidade, permanência e atualidade de processos de natureza neuronal-fisiológica que garantem a vida humana. Do mesmo modo, não é possível atribuir-se a própria identidade sem o outro. A pes- soa não tem origem em si mesma, portanto, só é possível tornar-se adulto na relação com outra pessoa. As características próprias do ser humano são transmitidas por vias muito amplas que ultrapassam as definições biológicas. Tais relações são marcadas por uma qualidade, por uma integralidade de doação incondicional. Este espaço define o âmbito da iniciativa de educar a criança, gesto indispensável à conti- nuidade da vida humana. O dom inicial da existência mostra sua de- manda por confiar no outro, naquele que possui condições de acolhê- -lo e de fazê-lo crescer.

A vida manifesta na criança através do nascimento necessita do apoio de pais dispostos a dar continuidade à profunda lógica da novidade: “nascer é início e novidade”, como afirma Arendt (1989, p. 516).