CAPÍTULO III – A INTERNET COMO PLATAFORMA AUDIOVISUAL
3.2 O nascimento da Internet
A tecnologia do videotexto não tinha capacidade para transmitir conteúdo audiovisual, por isso, o serviço estava mais próximo das publicações impressas do que do rádio e da televisão.
Apesar de ser uma tecnologia inovadora para época, o videotexto tornou-se obsoleto pela digitalização dos meios. Graças ao acesso a dados computadorizados e sua interatividade que “se antecipou o que se falaria mais tarde sobre a Internet e a World Wide Web” (BRIGGS; BURKE, 2006, p.294).
As primeiras atividades desenvolvidas na Arpanet eram a troca de informações sobre programas de computadores através do, hoje corriqueiro, e-mail. Os primeiros programas de correio eletrônico já utilizavam o sinal “@” nos endereços, convenção mantida até hoje (ERCILIA;
GRAEFF, 2008, p.12-14). Aos poucos, as trocas de mensagens entre os pesquisadores começaram a extrapolar o campo científico e militar, passando também para troca de mensagens pessoais. Era o primeiro indício de que a rede começava a tomar vida própria, ganhando novos usos, mudando a concepção original de seus criadores. Em 1979, por meio de conexão discada e com acesso ainda limitado, as norte-americanas The Source e CompuServe disponibilizaram os primeiros serviços de correio eletrônico e suporte técnico para usuários de computadores pessoais.
Por envolver a segurança nacional, a Arpanet ficou fechada à poucos institutos governamentais e universidades. A importância estratégica era tal que posteriormente foi rebatizada de Darpanet, com “d” de defense (defesa)219. Por causa dessas restrições, algumas instituições acadêmicas queriam ter uma rede própria e criaram seus grupos de pesquisa. Essas universidades ganham o apoio da National Science Foundation (NSF).
A NSF não via com bons olhos o domínio dos militares sobre as redes de comunicação de dados e decidiu investir US$ 5 milhões na criação de sua própria rede denominada CSNet (Computer Science Network), com o objetivo de conectar todos os laboratórios de computação dos Estados Unidos. Entre 1975 e 1985, utilizando fontes de financiamento diferentes, foram criadas várias redes de comunicação de dados como a UUCP, Usenet, Bitnet, Decnet. Essas redes locais se conectavam apenas com os computadores da mesma organização. “Máquinas IBM só falavam
219 Em 1962, o cientista russo Viktor Mikhailovich Glushkov propôs a criação de uma rede de computadores nacionais de acesso remoto em tempo real, interligada por cabos de telefonia. O projeto OGAS, “Sistema Automatizado de Todo Estado para o Recolhimento e Processamento de Informações para Contabilidade, Planejamento e Governança da Economia Nacional, URSS” (o título já fala por si) abrangeria a maior parte do continente e teria estrutura piramidal dividida em três níveis: um computador central em Moscou conectaria até 200 centros de computadores de nível médio em cidades relevantes que, por sua vez, iria ligar até 20.000 computadores distribuídos em locais-chave da economia russa. O projeto da rede teria um design descentralizado, em que qualquer usuário autorizado poderia entrar em contato com outro usuário sem a necessidade de permissão direta do computador central. Para Glushkov, que era conhecido por fazer citações de Marx de memória, a computação em rede poderia direcionar o país a uma era que o autor Francis Spufford chamou mais tarde de "abundância vermelha", seria o início do "socialismo eletrônico". Mas o OGAS exigiria muito dinheiro tinha como opositor do projeto o ministro das Finanças, Vasily Garbuzov. Sem financiamento e supervisão estatal, o programa de rede nacional foi descartado pelo estado soviético nos anos 1970. A ironia desta história é que as primeiras redes mundiais de computadores surgiram nos EUA graças a fundos governamentais e ambientes de pesquisa colaborativos bem regulamentados. Ou seja, a Internet nasceu graças aos capitalistas que se comportam como socialistas cooperativos, e não aos socialistas que se comportam como capitalistas competitivos (PETERS, 2007).
com máquinas IBM. Burroughs, só com Burroughs, Fujitsu, só com Fujitsu” (SIQUEIRA, 2008, p.127)
Em 1983 ficou definido que todos os computadores conectados ao Arpanet passariam a utilizar o TCP/IP (Transmission Control Protocol/Internet Protocol), o protocolo de comunicação usado entre computadores de arquiteturas totalmente diferentes. O TCP/IP “é uma coleção de instruções que diz aos computadores conectados à Internet como as informações devem ser trocadas para que os outros computadores possam ‘entendê-las’. É como se fosse a língua falada por todos os computadores que fazem parte da rede” (ERCILIA; GRAEFF, 2008, p.13).
A National Science Foundation lançou em 1986 a NSFNet com o objetivo de fazer uma rede internacional (International Network) de redes interconectadas (Interconnected Network).
Esta ‘rede de redes’ recebeu a denominação de “inter net”. A NSFNet usava o TCP/IP a uma velocidade de 56 Kbps. Ela estimulou redes regionais nos Estados Unidos e montou uma estrutura de conexões de Internet no país. No início dos anos 1990, os militares resolveram criar a sua própria rede, a Milnet, e a Arpanet foi extinta. Nos anos seguintes, outros países aderiram à NSFNet, o que fez crescer o interesse de quem estava fora das redes acadêmicas. “Assim, em 1991, a NSF permite o uso da rede para fins comerciais e a partir de 1995 transfere sua estrutura para a iniciativa privada”
(OLIVEIRA, 2011, p.25).
Antes da Internet tornar-se aberta a todos, outras tecnologias surgiram para fortalecê-la, como a World Wide Web (www), ou Teia de Alcance Mundial, criada pelo físico inglês Timothy Berners-Lee e desenvolvida nos laboratórios do CERN220, na Suíça. Em seguida foram criados o protocolo de transferência de hipertexto - o HTTP (HyperText Transfer Protocol); a linguagem de marcação de hipertexto - o HTML (HyperText Mark-up Language); além da URL (Uniform Resource Locator), que é o endereço que permite localizar um site na web.
O HTML é um código usado para criar documentos de hipertexto, onde o usuário pode clicar numa palavra grifada em azul e abrir um novo link com o assunto a que se refere. Já o HTTP é um protocolo para a troca ou transferência de hipertexto. Baseado no TCP/IP, é o conjunto de regras de comunicação entre os computadores que faz funcionar a World Wide Web.
220 A Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire), conhecida como CERN (antigo acrônimo do francês para Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire) é o maior laboratório de física de partículas do mundo, localizado na Suíça, na fronteira com a França, perto de Genebra. Fundado em 1954, foi uma das primeiras joint ventures da Europa e agora tem 22 estados membros (CERN, 2017).
Criado em 1993, o Mosaic foi o primeiro browser (programa de navegação) da web com informações dispostas de forma gráfica, que depois originou o Netscape, o primeiro navegador comercial, que difundiu a Internet mundialmente.
No campo da política, o empurrão que faltava para que a Internet penetrasse na consciência dos norte-americanos veio no início dos anos 1990, quando o então candidato à Presidência Bill Clinton decidiu usar em sua campanha a concepção de uma América conectada por redes de educação e informação (ERCILIA; GRAEFF, 2008, p.14). O então senador Al Gore, candidato à vice-presidente na chapa de Clinton, já promovia há anos, no Congresso, a ideia de que as telecomunicações de alta velocidade seriam um motor para o crescimento econômico e para a melhoria do sistema educacional.
Al Gore, cujo pai, patrocinou a Federal Aid Highway (lei federal de ajuda às estradas), de 1956, comparou o desenvolvimento da Internet com a abertura de autoestradas interestaduais por todo o país, chamando a nova rede de “super estrada da informação” (information superhighway).
Bill Gates221, no livro A Estrada do Futuro (1995), diverge da metáfora da autoestrada, porque o termo “sugere paisagens e situação geográfica, uma distância entre vários pontos, implica a ideia de que é preciso viajar para ir de um lugar para outro”, enquanto que a nova tecnologia das comunicações justamente “elimina as distâncias”. O termo estrada sugere ainda que todo mundo está conduzindo um veículo na mesma direção e a Internet é exatamente o contrário disso. “Se parece mais com uma porção de estradas vicinais, onde todo mundo pode olhar para o que bem entender ou fazer aquilo que seus interesses particulares determinarem” (GATES, 1995, p.16-17).
Em apenas uma década, a rede mundial de computadores cresceu num ritmo surpreendente. De acordo com a ITU - International Telecommunication Union222, de 1992 a 2001, a Internet expandiu de sete para cerca de 501 milhões de usuários espalhados pelo mundo. Apesar da baixa taxa de penetração no período, praticamente todos os países (95% deles) dispunham de conexão on-line (gráfico 10).
221 Segundo Bill Gates “o termo autoestrada implica também na ideia de que talvez devesse ser construída pelo poder público, o que na minha opinião seria um grave erro na maioria dos países. Mas o grande problema mesmo é que a metáfora salienta a infraestrutura do empreendimento não suas aplicações” (GATES, 1995, p.17).
222 ITU ou UIT (União Internacional de Telecomunicações), em português, é a principal agência das Nações Unidas para as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Está sediada em Genebra, na Suíça, e sua composição inclui 191 Estados Membros e mais de 700 membros e associados do setor. Sua principal missão é levar os benefícios das TICs a todos os habitantes do mundo (ITU, 2017).
Gráfico 10 - Número de usuários e países conectados na Internet (1990-2001)
Nota: No gráfico à direita, "países" refere-se a 225 países ou territórios conhecidos.
Fonte: ITU, 2003
Em 2002 a Internet alcancou 1 bilhão de usuários e no final de 2005 ultrapassou a marca do segundo bilhão. Em 2016, dos quase 3,5 bilhões de pessoas que usavam a Internet, 2,5 bilhões estavam em países em desenvolvimento e um bilhão nos países desenvolvidos. Mas quando analisamos as taxas de penetração da Internet a diferença é gritante: 81% dos usuários estavam em países desenvolvidos, contra 40,1% em nações em desenvolvimento e apenas 15,2% nos estados menos desenvolvidos.
Ilustração 57 – População mundial sem Internet em 2016
Fonte: ITU, 2016
De acordo com o estudo “ICT Facts and Figures 2016” da União Internacional de Telecomunicações, mais da metade da população mundial – 53% ou 3,9 bilhões de pessoas – não tem acesso à Internet. Nas Américas e nas regiões da CEI223, cerca de um terço da população está offline. Enquanto quase 75% das pessoas na África são não-usuários, apenas 21% dos europeus estão desconectados. Na Ásia & Pacífico e nos Estados Árabes, a percentagem da população que não utiliza a Internet é muito semelhante: 58,1 e 58,4%, respectivamente (ilustração 57).
O acesso à Internet pode assinalar a diferença entre exclusão social e igualdade de oportunidades. Conforme o relatório “A Situação Mundial da Infância 2016” da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), se não forem adotadas soluções para disseminação da web, a disparidade existente entre as nações mais desenvolvidos e os países em desenvolvimento crescerá consideravelmente. Se observado o público de 15 a 24 anos, 60% dos jovens africanos não têm acesso à rede, enquanto que apenas 4% dos jovens europeus estão nesta condição (UNICEF, 2016).
O relatório também mostra que:
• Em nível global, os jovens com idade entre 15 e 24 anos são o grupo mais conectado. Desse grupo, 71% têm o hábito de acessar a Internet, contra 48% da população total.
• Um terço dos menores de 18 anos acessa a Internet no mundo.
• 29% dos jovens entre 15 e 24 anos (346 milhões de pessoas) não têm acesso à Internet.
Nicholas Negroponte, no livro A Vida Digital (1995, p.159), já vislumbrava o que hoje se tornou um fato: “a comunidade de usuários da Internet vai ocupar o centro da vida cotidiana. Sua demografia vai ficar cada vez mais parecida com a do próprio mundo”. Cada vez mais conectados à Internet, a multiplicação de dispositivos em rede nos colocou na Era do Zettabyte. De acordo com relatório de junho de 2017, da Cisco, líder mundial em TI e redes, o tráfego global de IP em
223 A Comunidade dos Estados Independentes (CEI) é uma organização intergovernamental criada em 1991 e composta por 11 das 15 países que formavam a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Atualmente os países integrantes da CEI são: Armênia, Azerbaijão, Belarus, Cazaquistão, Moldávia, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Uzbequistão. A sede do comitê executivo da CEI é localizada em Minsk, capital da Bielorrússia.
2016 foi de 1,2 ZB (zettabyte) ou 96 EB (exabyte) por mês224. A circulação de dados na Internet deve triplicar ao longo dos próximos 5 anos, chegando a 3,3 ZB por ano até 2021.
Velocidades maiores são necessárias para acompanhar o crescimento do consumo. Se há 20 anos ficávamos estupefatos com a comunicação de dados à velocidade de 9,6 quilobits por segundo (Kbps), hoje, as transmissões entre corporações podem alcançar centenas de gigabits por segundo (Gbps). A velocidade média da banda larga fixa global deve passar dos atuais 27,5 Mbps para 53 Mbps em 2021 (CISCO, 2017, p.2). E a propensão é só aumentar: durante uma conferência nos Estados Unidos, em 2014, um grupo especializado em comunicações óticas de alta velocidade da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU) usou um tipo especial de fibra óptica e conseguiu atingir a incrível velocidade de 43 terabits por segundo (Tbps) de um único laser. Essa velocidade seria o suficiente para transferir 215 filmes em alta definição entre dois computadores, em apenas um segundo.
Gráfico 11 - Evolução global das Tecnologias da Informação e Comunicação (2001-2017) 225
224 1 EB (exabyte) equivale 1.000.000.000.000.000.000 Bytes enquanto que 1 ZB (zettabyte) corresponde a 1.000.000.000.000.000.000.000 (1021) Bytes. A título de comparação, 1 exabyte de dados equivale a 36 mil horas de vídeo em HD.
225 Fontes: ICT Development Index 2017 e ICT Facts and Figures 2017. Disponível em: <http://www.itu.int/en/ITU-D/Statistics/Pages/stat/default.aspx>; <https://www.itu.int/net4/ITU-D/idi/2017/index.html#idi2017economycard-tab&AFG> Ranking IDI; <https://www.itu.int/net4/ITU-D/idi/2017/#idi2017economycard-tab&BRA> Índice IDI Brasil.
O estudo da Cisco também prevê que número de dispositivos conectados a redes IP será mais do que três vezes a população mundial em 2021, com 3,5 equipamentos per capita ou 27,1 bilhões de dispositivos em rede, índice superior aos atuais 2,3 aparelhos por habitante em rede ou 17,1 bilhões de dispositivos.
No gráfico 11 é possível notar que o crescimento na quantidade de equipamentos conectados tem sido puxado pelas assinaturas de telefonia móvel. Estima-se que atualmente haja mais de 7 bilhões de assinaturas de celulares no mundo. Conforme o “ITU ICT Development Index” (IDI), entre as tecnologias analisadas, as subscrições de telefone celular apresentam a maior taxa de desenvolvimento, saltando de 15,5 assinaturas por 100 habitantes, em 2001, para 103,5 em 2017. O número de usuários individuais de Internet também obteve enorme expansão passando de oito para 48 indivíduos no mesmo período.
A densidade populacional da subscrição de banda larga fixa evoluiu de 0,6, em 2001, para 13,1 em 2017. Já as assinaturas ativas de banda larga móvel ampliaram de quatro subscrições em cada grupo de 100 pessoas, em 2007, para 56,4, em 2017. Com o barateamento dos dispositivos móveis, os números da telefonia fixa (STFC) são os únicos que caíram, de 16,6 assinaturas, em 2001, para apenas 13, em 2017 (ITU, 2017).
Em relação ao índice de desenvolvimento das tecnologias da informação e das telecomunicações, ao analisarmos especificamente o Brasil, percebe-se que o desempenho do país melhorou ao subir duas colocações no índice global, de 67º lugar em 2016 para 66º em 2017, de acordo com o ranking IDI.
A porcentagem de usuários individuais da Internet disparou de 2,87%, em 2001, para 59,68%, em 2016 (gráfico 12). Esse número é semelhante ao de outras fontes, como a “Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios” (PNAD CONTÍNUA 2016), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, que registra 63,6% dos domicílios brasileiros com acesso à Internet. Esses saltos numéricos na disseminação das tecnologias não são uniformes e dependem de razões políticas e mercadológicas.
Os fatores do sucesso da Internet rápida variam de país para país e incluem a concorrência de diferentes plataformas, como modem a cabo, DSL (linha de assinante digital), fibra óptica e wireless (conexão sem fios); desenvolvimento de tecnologias e aplicativos de banda larga, além de preços acessíveis, como pacotes de taxa fixa. Já os motivos que podem atrapalhar a implantação
de banda larga incluem monopólios e baixos níveis de concorrência, propriedade cruzada entre redes de telefonia e TV a cabo e limites de dados para pacotes com preços fixos.
Gráfico 12 - Usuários individuais da Internet no Brasil (2000 – 2016) 226
Vimos que a Internet e a banda larga têm avançado a passos largos, mas a grande proporção de pessoas sem conexão ainda é um enorme obstáculo para a expansão das plataformas de vídeo sob demanda, como a Netflix, Amazon Prime Video ou Globoplay. Com a potencial universalização do acesso à rede e à banda larga (que pode demorar décadas, dependendo da situação política e/ou economia de cada país), a tendência para o futuro é que haja mudanças significativas na maneira de se consumir conteúdos audiovisuais.
Tão importante quanto a disseminação da banda larga é a manutenção da neutralidade de rede. Em janeiro de 2017, o presidente Donald Trump nomeou Ajit Pai como presidente da Comissão Federal das Comunicações dos Estados Unidos (FCC), um crítico aberto da legislação que garantia a neutralidade da Internet. Em 14 de dezembro de 2017, numa votação apertada com 3 votos a 2, a FCC revogou a “Ordem da Internet Aberta de 2015” (2015 Open Internet Order) que
226 Fonte: The World Bank: International Telecommunication Union, World Telecommunication/ICT Development Report and database <https://data.worldbank.org/indicator/IT.NET.USER.ZS?locations=BR&view=chart> Acesso em: 26 jul. 2017.
0 10 20 30 40 50 60
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2,87 4,53
9,15 13,21
19,0721,02
28,1830,8833,83
39,22 40,65
45,6948,5651,04 54,55
58,33 59,68
Em %
enquadrava a Internet como um serviço de utilidade pública, como água ou telefonia, e decidiu que a banda larga fixa voltasse a ser classificada como “serviço de informação” e a Internet móvel, como “serviço de interconexão”. Classificadas dessa forma, as duas modalidades de conexão saem da esfera da FCC e passam a poder ser comercializadas de acordo com os interesses do mercado227.
As empresas de telecomunicações foram favoráveis à decisão, já as companhias que usam a web para entregar conteúdo foram contra. “A neutralidade das redes também poderia desencorajar os provedores de banda larga a investir em novos serviços de banda larga de alta velocidade e impedi-los de gerenciar suas redes de forma mais eficiente” (FILHO; CASTRO, 2008, p.153).
Criada durante o mandato do democrata Barak Obama, a “Ordem da Internet Aberta de 2015”
proibia os provedores de serviços de Internet de bloquear qualquer conteúdo ou priorizar um site em detrimento a outro, e também impedia a cobrança por serviços prioritários. A interrupção ou limitação do acesso só poderia ser feita por falta de pagamento ou quando o pacote de dados chegasse ao fim.
Ilustração 58 – Empresas de conteúdo de mídia pertencentes a provedores de Internet (EUA) 228
227 O fim da neutralidade de rede é o ponto mais alto da série de flexibilizações regulatórias que a FCC vem fazendo durante a gestão de Donald Trump na Casa Branca. A comissão já havia abrandado regras que impediam a concentração de rádios e estações de TVs para um mesmo concessionário, além de limitar um programa que subsidiava o acesso à banda larga para a população de baixa renda.
228 Fonte: <https://www.statista.com/chart/7755/media-companies-owned-by-broadband-providers/> Acesso em: 25 jan. 2017.
Os maiores provedores norte-americanos de Internet, como a Comcast, AT&T e Verizon estão fazendo grandes investimentos em suas empresas de conteúdo (ilustração 58). Com o fim da neutralidade, a Comcast poderia limitar a velocidade de acesso ao HBO Now, que pertence à sua maior concorrente: AT&T. A Netflix e a Amazon Prime Video podem ser prejudicadas no envio de dados, durante a exibição de filmes, caso não façam alianças com os provedores de Internet.
Agora essas companhias poderão favorecer o tráfego de rede daquelas empresas com as quais fecharam acordos financeiros e discriminar conteúdos, direcionando todos os outros para uma rota mais estreita e lenta.
No Brasil a neutralidade de rede é garantida pelo Marco Civil da Internet. O art. 9º da lei 12.965/2014, que diz: “O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação” (BRASIL, 2014). Posteriormente, a presidenta Dilma Rousseff assinou o decreto 8.771/2016 que regulamentou a lei.