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O NASCIMENTO DOS FILHOS E O CUIDADO DA PROLE

No documento Terapia Não Convencional-Jay Haley (páginas 175-200)

A chegada de uma criança cria mães, pais, avós, tios e tias e produz repercussões em todo o sistema familiar. A criança pode ser uma adição bem-vinda ou uma dificuldade, e pode cimentar ou dis­ solver um casamento. Usualmente, todas as incertezas sobre a esta­ bilidade do casamento vêm à tona com a chegada do bebê. Uma no­ va forma de compromisso é exigida com as responsabilidades de criar uma criança. Os contratos matrimoniais também se alteram. A mu­ lher que escolheu um marido que podia facilmente dominar, com fre­ qüência se sente vulnerável no momento da maternidade e deseja um homem que possa tomar conta dela. Este tipo de marido sempre se surpreende com as novas exigências da esposa. As sogras que haviam sido excluídas reaparecem como avós, trazendo novas conseqüências para o casal. Quando algum tipo de problema emocional aparece, o contexto é a rede familiar mutante.

Com freqüência, com a chegada de um novo bebê, é a mãe que começa a manifestar sintomas. Fica deprimida, age de maneira es­ tranha, é diagnosticada como psicótica pós-parto, ou se comporta de algum modo que gera preocupações quanto ao seu estado. Quan­ do a mãe, ao invés da situação familiar total, é enfocada, em geral ela é enviada para um hospital mental, se a perturbação for grave. Esta abordagem é um tratamento conservador, destinado a proteger a mãe e a criança. Enquanto fica encarcerada, ajudam-na a com­ preender o que a está angustiando em relação ao fato de ter se tor­ nado mãe. Do ponto de vista da família, a hospitalização é uma in­ tervenção radical com conseqüências infelizes.

Esta abordagem passa por cima do efeito da hospitalização no contexto familiar global. Problemas óbvios são ignorados, como, por exemplo, o de quem ficará responsável pelo bebê enquanto a mãe estiver na clínica psiquiátrica. Em geral, o bebê é absorvido por al­ gum setor da família; é comum o marido levá-lo para a sua família,

onde será cuidado pela avó. A criança é integrada neste sistema fa­ miliar, enquanto a mãe fica isolada da família. Quando retorna de seu retiro psiquiátrico, ela descobre que o filho faz parte de outra família. Não é incomum a mãe ter que lutar para ter o filho de vol­ ta; ou pode ficar observando, impotente, enquanto outros tomam conta da criança. Se a mãe volta a ser hospitalizada, isto é conside­ rado um agravamento de seus problemas em torno da maternidade. Não se percebe que o motivo real é que ela fica brava e insiste em tom ar conta de seu filho, ou se comporta com impotência exaspera­ da em relação à falta de confiança de seus parentes. Em tais casos, o marido é apanhado entre a esposa, que foi rotulada por especialis­ tas como mentalmente enferma, e sua mãe, que se tornou muito li­ gada ao novo bebê. Ele se torna inseguro em relação ao que fazer quando a mãe expressa a queixa, justificável, de que não quer que uma ex-paciente mental tome conta de seu neto. O estigma da hospi­ talização mental pode colocar o casamento num beco sem saída e neste caso o tratamento cria um problema que supostamente deveria resolver.

Um caso pode ser citado para ilustrar as dificuldades, assim co­ mo o mistério, de uma crise por ocasião do nascimento de um filho.

Uma mulher de vinte e poucos anos deu à luz seu primeiro fi­ lho e ficou extremamente perturbada. Chorava e protestava que não prestava para nada, que não era capaz de tomar conta do bebê. Quan­ do chegou o momento de deixar o hospital, ela ainda estava pertur­ bada, apática e chorando constantemente. O marido levou-a, e ao bebê, para a casa de sua família, ao invés de ir para sua própria ca­ sa. Enquanto vivia com a família dele, a esposa começou a se tratar com o psiquiatra local. Após algumas semanas de entrevistas sem resultados, foi colocada num hospital mental para um período de observação. Segundo o relatório médico: “ O internamento foi pre­ cipitado por ela ter tomado, certa manhã, dez ou doze comprimidos de aspirina, o que assustou bastante o marido e seus parentes, com quem eles continuavam morando. Esperava-se que ela e o marido pudessem voltar para sua casa logo que ela saísse do hospital, mas isto não era provável” . Depois de duas semanas no hospital, ela de­ monstrou alguma melhora, encarada como “ um tanto artificial, uma coisa usada para atingir o ponto de deixar o hospital” .

Ela começou a fazer terapia individual várias vezes por sema­ na, que incluía várias visitas domiciliares devido à “ sua alegada in­ capacidade de vir ao consultório” . Nas entrevistas, ela soluçava e salientava que era um fracasso. Depois de quatro meses de tratamento sem resultado, o psiquiatra buscou outros meios de lidar com ela. M andou-a consultar dois outros psiquiatras. Um diagnosticou seu

caso como uma “ desordem esquizoafetiva num indivíduo um tanto imaturo” , e pregava que um tratamento com choques seria apropria­ do, porque ela não estava progredindo na terapia. O outro psiquia­ tra considerou que ela tinha “ uma estrutura de caráter histérica, com evidência de elementos compulsivos obsessivos” , acreditando haver um “ mínimo de fatores psicóticos” . Ela também foi encaminhada a um psicólogo para fazer um teste de Rorschach, e ele achou que havia “ ausência de traços psicóticos” . Ela forneceu apenas três res­ postas para dez cartões.

Depois dessas consultas, o psiquiatra me encaminhou a paciente. Eu devia submetê-la à hipnose e verificar se seria possível obter um alívio dos sintomas, ou ao menos uma clarificação do que estava por trás de sua enfermidade, enquanto ela continuava a terapia indivi­ dual.

Quando entrevistei a mulher, ficou evidente que ela seria um sujeito hipnótico extremamente difícil. Por isso, o uso da hipnose foi abandonado. (Mais tarde, fiquei sabendo que antes da sessão ela havia declarado ao marido: “ Ninguém vai me hipnotizar!” .)

Como não fazia mais nada além de soluçar, trouxe o marido para a sessão, e entrevistei o casal. Deste modo, a esposa foi encora­ jada a soluçar menos e falar mais — tinha que falar para corrigir o que o marido dizia sobre sua condição.

O marido era um rapaz agradável, que trabalhava com o pai e estava confuso com o estado da esposa. Enfatizou que ela afirma­ va ser incapaz de tomar conta do bebê, mas na realidade podia dar banho e alimentar a criança com competência. A esposa interrom­ peu-o para declarar que não podia, e por essa razão é que a mãe dele fazia tudo pela criança. Ela também deu um jeito de dizer que não sentia que a criança era realmente sua, já que não estava cuidando dela. Quando o marido voltava do trabalho, não vinha conversar com ela sobre o filho, dirigia-se à mãe e discutia com ela as atividades diárias da criança. Tudo porque ela era tão imprestável e inadequa­ da, afirmou, em meio a um novo acesso de soluços.

É possível enxergar esse problema de diferentes pontos de vis­ ta. Quando se considera somente a esposa, percebe-se que, devido à sua vida passada, a maternidade teve para ela um significado espe­ cial, que precipitou a ansiedade e o sofrimento quando deu' à luz a criança. O tratamento deveria então ajudá-la a compreender o signi­ ficado da sua infância, relacionado à situação atual, assim como suas idéias inconscientes.

Se este ponto de vista fosse ampliado, o marido poderia ser in­ cluído no quadro. Era um jovem amável, que parecia relutante em abandonar sua família de origem e assumir responsabilidades adul­

tas. Trabalhava para o pai e parecia ser incapaz de se opor à mãe e apoiar a esposa quando alguma questão surgia. Tornando-se inca­ paz, a esposa queria forçá-lo a ter mais responsabilidade no casa­ mento. Ele respondera jogando a responsabilidade sobre sua própria família.

No contexto familiar mais amplo, o jovem casal estava viven­ do uma situação anormal. A casa deles estava vazia, e a sogra estava funcionando como mãe do bebê, e não como avó. A mãe real ficava cada vez mais isolada do marido e do círculo familiar, enquanto o marido estava retornando ao papel anterior de filho não separado.

Deste ponto de vista mais amplo, o objetivo do tratamento era óbvio: o jovem casal deveria estar em seu próprio lar, com a mãe tomando conta da criança, como as mães normais fazem. Mesmo que ela não conseguisse tom ar conta do bebê, uma ajudante paga seria mais apropriada do que uma parente. Uma empregada poderia ser despedida quando a mãe melhorasse, mas uma parenta seria mais difícil desalojar.

Para resolver a dificuldade, um procedimento simples, basea­ do no estilo de terapia de Erickson, foi encetado. Como a esposa se definia como incapaz, a conversa foi conduzida, em grande par­ te, com o marido, enquanto ela participava com objeções. A con­ versação recaiu sobre seus planos futuros, e o marido disse que o que mais queriam era retornar ao próprio lar. A esposa, lacrimosa, concordou. Quando perguntado, o marido disse que, quando vol­ tassem para casa, poderia ficar sem trabalhar algumas semanas, pa­ ra ajudar a esposa a se adaptar a tomar conta do bebê. Desde que a premissa havia sido estabelecida — iam voltar para casa —, a úni­ ca questão era saber quando. Um tanto abruptamente, perguntei ao marido: “ Seria muito cedo voltar para casa nesta quarta-feira?” . O que eqüivalia a dois dias depois. Ele, um tanto indeciso, porém amá­ vel, disse que achava que seria possível. A esposa parou de soluçar e protestou que dois dias não seriam suficientes; a casa ficara fecha­ da durante meses, teria que ser limpa. Quando perguntado, o mari­ do concordou que poderia folgar no dia seguinte, e, em dois dias, os dois colocariam a casa em ordem para quarta-feira. A esposa fi­ cou brava e afirmou que eles não conseguiriam; o quarto do bebê precisava ser pintado, e havia muita coisa a ser feita. Eu disse a ela que poderiam se mudar quarta-feira. Ela, teimosamente, disse que não podiam. Voltei a afirmar que podiam. Ela declarou, brava, que eles não poderiam, de modo algum, se mudar antes de sábado. Che- gou-se a um acordo, e eles concordaram com quinta-feira, com a es­ posa feliz por ter argumentado que quarta-feira era muito cedo. Du­ rante os três dias seguintes, ela esteve tão ocupada limpando, fa­

zendo compras e arrumando a casa que não teve tempo para refletir sobre a mudança. Os sogros se defrontaram com um fato consuma­ do, e a única coisa que puderam fazer foi ajudar na mudança.

Ao invés de tirar duas semanas de férias para ficar com a espo­ sa, o marido retornou ao trabalho dentro de uma semana. A jovem mãe passou alguns dias chorando, mas tomou bem conta da crian­ ça. Dentro de duas semanas, não só tinha parado de soluçar, mas expressava plena confiança em sua habilidade como mãe e se com­ portava adequadamente. Parou o tratamento psiquiátrico.

Um procedimento de tratamento deste tipo levanta dúvidas: em­ bora a mãe pareça normal, será que o problema foi mesmo solucio­ nado? O que estava por trás do sintoma? E quanto ao futuro? A mulher continuou normal e o bebê se desenvolveu bem, tornando-se uma criança feliz, saudável (o que já era, mesmo no período de an­ gústia da mãe). O que estava por trás do sintoma nunca se tornou conhecido.

Este caso prova que o tratamento pode caminhar surpreenden­ temente rápido se se adota a premissa de Erickson segundo a qual um objetivo de tratamento a longo prazo deve ser um objetivo ime­ diato. Se a “ cura” é definida como a mulher tomar conta de seu fi­ lho em sua casa, ao lado de um marido disposto a assumir responsa­ bilidades, então o tratamento deve proceder imediatamente à obten­ ção desse fim. O objetivo não pode ser atingido enquanto a situação de vida for imprópria; a questão é fazer surgir um contexto de vida mais normal. Para modificar o contexto social, não se tem, necessa­ riamente, de tratar todos os membros da família, como alguns tera­ peutas familiares sugeririam. Muitas vezes, a intervenção através de um indivíduo pode mudar a situação, ou, como neste caso, um casal pode mudar sua posição e atingir uma situação de normalidade, que para este casal estava funcionando bem no estágio de ter filhos; o que eles precisavam era de assistência para ultrapassar a crise que os impedia de fazer a transição para este estágio.

Quando um jovem casal tem filhos com sucesso, passa alguns anos tomando conta de crianças pequenas e aprendendo a complexa tarefa de se tornarem pais. Embora possam ocorrer problemas, a crise mais comum desse período ocorre quando as crianças chegam à ida­ de escolar e se envolvem mais com a comunidade. Neste momento, filhos e pais começam a dar os primeiros passos rumo à autonomia.

Se uma criança desenvolve um problema nesta época, em geral ele se deve ao comportamento social, que era adaptativo dentro do lar, mas não era apropriado para este início de atividades externas. Um problema comum é a incapacidade de a criança ir à escola.

Quando isso ocorre, o problema pode estar em casa, na escola ou no confronto entre o lar e a escola. Usualmente, a dificuldade está dentro da família, mas isto não quer dizer que em qualquer proble­ ma da criança toda a família deva ser tratada; no entanto, quer di­ zer que o terapeuta deve estar cônscio do contexto familiar quando intervém.

Erickson desenvolveu uma variedade de procedimentos para tra­ tar os problemas das crianças. Às vezes, coloca os pais em tratamen­ to; outras vezes, meramente solicita sua cooperação de uma certa ma­ neira; enquanto em muitos casos deixa os pais de fora e estabelece, essencialmente, uma aliança com a criança contra os pais e o mundo mais amplo.

A importância crucial do “ brincar” em toda terapia de Erick­ son se torna mais evidente em seu trabalho com crianças, mas ele não faz ludoterapia, no sentido usual do termo. Como com os adul­ tos, seu objetivo não é ajudar a criança a descobrir como se sente a respeito dos pais ou o que as coisas significam para ela, mas indu­ zir a mudança; uma moldura de “ brincadeiras” é um modo de fazer a mudança ocorrer. O dr. Erickson utiliza também a hipnose com crianças, mas deve ficar claro que não é o tipo usual de hipnose. Ele não emprega uma indução formal de transe, mas responde à criança em seus próprios termos, considerando isto uma parte da técnica hip­ nótica. Um exemplo desta técnica é o modo como lidou com um aci­ dente ocorrido com um de seus filhos. (Ele menciona muitas vezes incidentes que envolvem seus próprios filhos para ilustrar seus argu­ mentos.)

Robert, de três anos de idade, rolou pela escada dos fundos. Na queda, cortou os lábios e um dos dentes de cima foi empurrado de volta ao maxilar. Ele estava sangrando profusamente e gritando muito de dor e de susto. Sua mãe e eu fomos ajudá-lo. Uma rápida olhada para ele, caído no chão, gritando, a boca sangrando profusa­ mente e o sangue respingando no pavimento, revelou que se tratava de uma emergência que requeria medidas imediatas e adequadas.

Não se fez nenhuma tentativa de levantá-lo. Ao invés disso, quando ele parou para tomar fôlego antes de recomeçar a gritar, eu lhe disse rápida, simples, solidária e enfaticamente: “ Isto dói horri­ velmente, Robert. Isto dói terrivelmente” .

Naquele exato momento, sem nenhuma dúvida meu filho en­ tendia o que eu estava falando. Ele podia concordar comigo, e sabia que eu concordava plenamente com ele. Por isso, podia me escutar com respeito, pois eu demonstrava que compreendia totalmente a si­ tuação. Na hipnoterapia pediátrica, nada é mais importante do que falar assim ao paciente, de modo que ele possa concordar com você,

respeitar sua inteligência em apreender a situação de acordo com o entendimento que ele próprio tem dela.

Então disse a Robert: “ E continuará doendo” . Com esta sim­ ples afirmação, nomeei seu próprio medo, confirmei seu julgamento da situação, demonstrei minha inteligência na apreensão de toda ques­ tão e minha inteira concordância com ele, pois naquele momento ele só podia entrever toda uma vida de angústia e dor para si mesmo.

O passo seguinte para ele, e para mim, foi declarar, quando no­ vamente tomou fôlego: “ E você realmente quer que a dor pare” . De novo, concordávamos plenamente, e ele se sentiu ratificado, até mes­ mo encorajado, em seu desejo. E era seu desejo, que nascia inteira­ mente dentro dele e constituía sua própria necessidade urgente. Com a situação assim definida, pude então fornecer uma sugestão com al­ guma certeza de que seria aceita. Esta sugestão era: “ Talvez pare de doer em pouco tempo, num minuto ou dois” . Era uma sugestão que estava totalmente de acordo com suas próprias necessidades e dese­ jos, e, como foi qualificada por um “ talvez” , não estava em contra­ dição com a compreensão que ele tinha da situação. Assim, ele con­ seguiu aceitar a idéia e iniciar suas respostas.

Quando ele fez isto, iniciou uma mudança rumo a outra ques­ tão importante, importante para ele como uma pessoa sofredora, e importante quanto ao significado psicológico global da situação — uma alteração que em si mesma era importante como medida preli­ minar para modificar e alterar a situação.

Com muita freqüência, na hipnoterapia, ou em qualquer utili­ zação da hipnose, há uma tendência a superenfatizar o óbvio e rea­ firmar desnecessariamente sugestões já aceitas, ao invés de criar uma

situação de expectativa que permitiria o desenvolvimento das respos­ tas desejadas. Todo pugilista conhece as desvantagens de treinar de­

mais; todo vendedor sabe que é tolo insistir demais. Os mesmos ris­ cos humanos existem na aplicação das técnicas terapêuticas.

O procedimento seguinte foi levar Robert a reconhecer o signi­ ficado do ferimento para ele — dor, perda de sangue, corpo machu­ cado, uma perda da totalidade de sua auto-estima narcisista normal, de sua sensação de bem-estar físico, algo tão vital na vida humana.

Robert sabia que estava ferido, que era uma pessoa danificada; podia ver seu sangue no chão, sentir o gosto dele em sua boca, vê-lo em suas mãos. E, mesmo assim, como todo ser humano, ele também desejava uma distinção narcisista em sua infelicidade, aliada ao dese­ jo, ainda mais narcisista, de conforto. Ninguém deseja uma reles dor de cabeça; se for preciso suportar uma dor de cabeça, que ela seja tão colossal que somente o sofredor possa agüentá-la. O orgulho hu­ mano é tão curiosamente bom e reconfortante! Por conseguinte, a atenção de Robert foi duplamente dirigida para duas questões vitais, cuja importância ele pôde compreender através de declarações simples:

“ Quanto sangue está espalhado pelo chão! É um sangue bom, ver­ melho, forte? Observe atentamente, mamãe, e veja! Penso que sim, mas quero ter certeza” .

Assim, estabeleceu-se um reconhecimento aberto e destemido dos valores importantes para Robert. Ele precisava saber que aquela infelicidade era catastrófica aos olhos dos outros, assim como aos seus, e necessitava provas tangíveis que pudesse apreciar. Quando declarei que aquilo era “ uma quantidade enorme de sangue” , Robert podia de novo reconhecer a apreciação inteligente e competente da situa­ ção, de acordo com suas necessidades não formuladas, mas nem por isso menos reais. A questão sobre a qualidade, a vermelhidão e a for­ taleza do sangue associou-se a um jogo psicológico ao ir ao encontro da significação do acidente para Robert. Numa situação onde a pes­ soa se sente seriamente machucada, há uma necessidade esmagadora de um sentimento compensatório, de virtude satisfatória. Assim, sua mãe e eu examinamos o sangue sobre o pavimento e expressamos a opinião de que era um sangue bom, forte, vermelho. Deste modo, nós o reafirmamos, mas não só numa base emocionalmente recon­ fortante; nós o fizemos na base de um instrutivo exame da realidade. No entanto, qualificamos aquela opinião favorável ao afirmar que seria melhor que examinássemos o sangue contra o fundo bran­ co da pia do banheiro. Neste momento, Robert já havia parado de chorar, e sua dor e medo não eram mais os fatores dominantes. Ao

No documento Terapia Não Convencional-Jay Haley (páginas 175-200)

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