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2.1 ESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA NO MUNDO

2.1.2 O nascimento e a destruição das manufaturas

Enquanto modo de produção específico, o capitalismo nasceu no momento em que foi possível que determinado investidor reunisse no mesmo local, ou no mesmo campo de atividade, sob suas ordens, um certo número de trabalhadores que deveriam atuar simultaneamente para produzir a mesma espécie de mercadoria15. Este primeiro momento da produção capitalista, denominado manufatura, vai aproximadamente de meados do século XVI ao último terço do século XVIII (MARX, 2006).

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Em seu panfleto revolucionário O Direito à Preguiça, escrito em 1880, Paul Lafargue revela como a ética burguesa tornou-se ética proletária, identificando a “paixão pelo trabalho assalariado e alienado” como um caso de loucura: “uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Esta loucura tem como conseqüência as misérias individuais e sociais que, há dois séculos, torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole. Em vez de reagir contra essa aberração mental, os padres, economistas, moralistas sacrossantificaram o trabalho.” (LAFARGUE, 1983, p. 25).

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Marx (2006), ao tratar da acumulação primitiva, afirma que “como os meios de produção e os de subsistência, dinheiro e mercadoria em si mesmos não são capital. Tem de haver antes uma transformação que só pode ocorrer em determinadas circunstâncias [...]. Duas espécies bem diferentes de possuidores de mercadorias têm de confrontar-se e entrar em contato: de um lado, o proprietário de dinheiro, de meios de produção e de meios de subsistência, empenhado em aumentar a soma de valores que possui, comprando a força de trabalho alheia; e, do outro, os trabalhadores livres, vendedores da própria força de trabalho e, portanto, de trabalho. Trabalhadores livres em dois sentidos, porque não são parte direta dos meios de produção, como escravos e servos, e porque não são donos dos meios de produção, como o camponês autônomo, estando assim livres e desembaraçados deles” (p. 828).

O desenvolvimento da manufatura, desde o artesanato, ocorreu de duas formas, a saber: por meio da combinação de ofícios anteriormente independentes, que se tornam especializados e, sob o comando do mesmo capitalista, passam a se configurar como operações parciais na produção de uma única mercadoria, como, por exemplo, a manufatura de carruagens, que transformou costureiros em geral em costureiros de carruagens; de maneira oposta, a segunda forma caracterizou-se pela decomposição de um mesmo ofício em suas diferentes operações (combinação do trabalho de muitos trabalhadores que, inicialmente, produziam a mercadoria por inteiro). Assim, os trabalhadores começaram a realizar apenas uma parte específica do processo devido à necessidade do capitalista de aumentar a velocidade da produção.

Em vez de o mesmo artífice executar as diferentes operações dentro de uma seqüência, são elas destacadas umas das outras, isoladas, justapostas no espaço, cada uma delas confiada a um artífice diferente e todas executadas ao mesmo tempo pelos trabalhadores cooperantes. [...] A mercadoria deixa de ser produto individual de um artífice independente que faz muitas coisas para se transformar no produto social de um conjunto de artífices, cada um dos quais realiza, ininterruptamente, a mesma e única tarefa parcial. (MARX, 2006, p. 392).

Pôde-se, neste contexto, observar a emergência de uma manufatura global, no sentido da reunião de diferentes manufaturas, quer dizer, da combinação das manufaturas de produtos que são utilizados como meios de produção, como matéria prima ou como produtos parciais em um processo global de produção de mercadorias.

Sobre o caráter das manufaturas, Marx (2006) indica a existência de manufaturas heterogêneas e manufaturas orgânicas. No caso das primeiras, o artigo produzido resultava do “simples ajustamento mecânico de produtos parciais independentes” (p. 397). O trabalhador encarregado da montagem final do produto recebe, na manufatura heterogênea, uma série de peças que são produzidas anteriormente de forma esparsa, o que torna a congregação dos vários trabalhadores em uma mesma oficina desnecessária. Não obstante, MARX (2006) ressalta a fundamental diferença entre a condição dos trabalhadores parciais que, apesar de trabalhar em seus próprios domicílios, encontram-se vinculados ao dono da manufatura, e a condição do artífice independente que atende seus próprios clientes.

Percebemos, assim, a relação existente entre os fluxos de produção criados pelas manufatures heterogêneas e as atuais formas de trabalho subcontratado (terceirizado), por encomenda e em domicílio, vigentes, principalmente, em alguns ramos industriais, tais como têxtil-vestuário, fabricação mecânica e transformação de plásticos. Especificamente sobre os trabalhadores em domicílio, Bihr (1998, p. 85) afirma que estes se encontram “envolvidos em

uma forma aparentemente arcaica de submissão do trabalho ao capital, à qual no entanto a crise conferiu um novo vigor em certos ramos”.

No caso das manufaturas orgânicas, os artigos produzidos resultavam de uma seqüência de operações e manipulações conexas, o que tornava a presença da matéria-prima obrigatória em todas as fases da produção. O necessário transporte do artigo em produção de mão em mão configurou-se como um limite que, mais tarde, foi superado pelo processo de industrialização. Marx (2006) explica que, estando justapostas no espaço e não mais sucessivas no tempo, as diversas operações parciais, nas manufaturas orgânicas, garantiram a produção de maior quantidade de mercadorias em menor tempo.

O período manufatureiro estabelece conscientemente como princípio a diminuição do tempo de trabalho necessário para a produção de mercadorias, e, de maneira esporádica, chega a utilizar máquinas, sobretudo para certos processos preliminares simples que têm de ser executados em larga escala e com grande emprego de força. [...] Mas, em geral, a maquinaria desempenha, no período manufatureiro, aquele papel secundário que Adam Smith lhe atribuiu, ao compará-la com a divisão do trabalho. (MARX, 2006, p. 402-403).

Tendo em vista que a execução de uma etapa do trabalho dependia do término da anterior, e que cada etapa envolvia operações diferentes que, por isso, precisavam de espaços de tempos desiguais para fornecer uma mesma quantidade de produtos, emergiu a necessidade de uma proporção diferente de trabalhadores responsáveis por cada etapa da produção. Os grupos isolados de trabalhadores parciais podiam tanto ser formados por elementos homogêneos, ou seja, por sujeitos que exerciam as mesmas funções parciais, como ser constituídos por elementos heterogêneos que executavam diferentes funções. Assim, nas manufaturas, além da subdivisão qualitativa do trabalho, uma subdivisão quantitativa se fez necessária.

A eficiência derivada da divisão do trabalho nas manufaturas – o que atribuiu a estas claras vantagens em relação à produção artesanal – pode ser entendida, sobretudo, por meio da figura do trabalhador coletivo16, que Marx (2006, p. 403) chegou a definir como

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Observamos que Marx (2006) já destaca as vantagens da utilização da força coletiva de trabalho pelo capitalista antes do desenvolvimento da divisão manufatureira do trabalho propriamente dita, ou seja, na cooperação simples (ponto de partida da produção capitalista), “quando os trabalhadores se complementam mutuamente, fazendo a mesma tarefa ou tarefas da mesma espécie” (p. 380). A maior produtividade da jornada de trabalho coletiva é explicada devido à elevação da potência mecânica do trabalho, “ou por ter ampliado o espaço em que atua o trabalho; ou por ter reduzido esse espaço em relação à escala da produção; ou por mobilizar muito trabalho no momento crítico; ou por despertar a emulação entre os indivíduos e animá-los, ou por imprimir às tarefas semelhantes de muitos o cunho da continuidade e da multiformidade; ou por realizar diversas operações ao mesmo tempo; ou por poupar os meios de produção em virtude do seu uso em comum; ou por emprestar ao trabalho individual o caráter de trabalho social médio” (MARX, 2006, p. 382). Tratando-se da cooperação capitalista de forma específica, o autor observa que “o capitalista paga a cada um dos 100 [trabalhadores] o valor da sua força de trabalho independente, mas não paga a força combinada dos 100. [...] A força produtiva do trabalho coletivo desenvolve-se gratuitamente quando os

“mecanismo específico do período manufatureiro”. Se por um lado os artesãos, com o desenvolvimento das manufaturas, foram perdendo a capacidade de exercer seu ofício em toda a extensão – o que os tornou limitados –, por outro lado, enquanto órgãos automáticos especializados, passaram a ser uma das partes do trabalhador coletivo, que se caracteriza pela combinação de muitos trabalhadores parciais.

A repetição contínua da mesma ação limitada e a concentração nela da atenção do trabalhador ensinam-no, conforme indica a experiência, a atingir o efeito útil com um mínimo de esforço. [...] A manufatura produz realmente a virtuosidade do trabalhador mutilado, ao reproduzir e levar sistematicamente ao extremo, dentro da oficina, a especialização natural dos ofícios que encontra na sociedade. (MARX, 2006, p. 394).

Para maximizar o funcionamento do trabalhador coletivo, os diversos trabalhadores parciais que o constituíam precisavam ser separados, classificados e agrupados de acordo com suas qualidades dominantes. Algumas operações exigiam força, enquanto outras, destreza ou, ainda, atenção concentrada. Não obstante, nenhum indivíduo possuía todas essas qualidades ao mesmo tempo e de forma idêntica. Assim, inicialmente, as características específicas de cada indivíduo configuraram a base da divisão do trabalho nas manufaturas. Com o passar do tempo, a ausência de qualquer formação passou a imperar nas manufaturas. Os mesmos trabalhadores que não serviam para o artesanato devido à falta de capacidade total para realizar um ofício, serviam perfeitamente para o esquema manufatureiro: “a estreiteza e as deficiências do trabalhador parcial tornam-se perfeições quando ele é parte integrante do trabalhador coletivo” (MARX, 2006, p. 404).

Tendo em vista as diferentes operações realizadas pelos trabalhadores parciais, o que constituía uma determinada hierarquia nas forças de trabalho, nas manufaturas foram desenvolvidas escalas de salários correspondentes ao nível de complexidade do trabalho e às respectivas exigências de formação. Existiam trabalhos para indivíduos hábeis, assim como trabalhos que não exigiam qualquer habilidade específica, quer dizer, que qualquer ser humano seria capaz de realizar. Todavia, mesmo em relação aos trabalhos mais complexos, os custos de aprendizagem decaíram quando comparados à formação do artesão, uma vez que sua função foi simplificada. Como resultado, na manufatura houve a desvalorização relativa do valor da força de trabalho, o que significou, para o capital, acréscimo imediato de mais- valia, “pois tudo o que reduz o tempo de trabalho necessário para reproduzir a força de trabalho aumenta o domínio do trabalho excedente” (MARX, 2006, p. 405).

trabalhadores são colocados em determinadas condições, e o capital coloca-os nessas condições” (MARX, 2006, p. 386).

Em relação ao valor da força de trabalho no período manufatureiro, que transcorreu aproximadamente entre 1550 e 1750, Marx (2006) comenta a respeito de uma exceção que possui fundamental importância para o tema da presente investigação: trata-se das “novas funções gerais resultante da decomposição do processo de trabalho, as quais não existiam no artesanato ou, quando existiam, desempenhavam papel inferior” (p. 405). Assim, é possível localizar, como uma das mencionadas novas funções, a emergência dos gerentes, que pode ser explicada, sobretudo, pela necessidade de fazer funcionar, de maneira racional, o mecanismo denominado trabalhador coletivo.

A necessidade de gerentes encontra-se relacionada ao incremento da divisão do trabalho na manufatura17, que se difere da divisão social do trabalho, muito embora a ela esteja ligada, tendo em vista que a primeira depende do desenvolvimento da segunda. Em contrapartida, à medida que aumentou a divisão manufatureira do trabalho, houve a multiplicação da divisão social do trabalho, uma vez que a fragmentação e a diferenciação no processo de produção de mercadorias, que anteriormente eram fabricadas de forma total pelos artífices, deram origem a diversas novas manufaturas independentes.

As características peculiares da divisão manufatureira do trabalho (que a diferem da divisão do trabalho na sociedade), como, por exemplo, o fato do trabalhador parcial não produzir mercadorias – que apenas podem ser produzidas por meio do mecanismo do trabalhador coletivo –, a concentração dos meios de produção nas mãos do capitalista, e, principalmente, a autoridade do dono da manufatura sobre os trabalhadores, fundamentam a necessidade da existência de um trabalhador especial que controla os demais em nome do capitalista.

A divisão manufatureira do trabalho pressupõe a autoridade incondicional do capitalista sobre seres humanos transformados em simples membros de um mecanismo que a ele pertence. A divisão social do trabalho faz confrontarem-se produtores independentes de mercadorias, os quais não reconhecem outra autoridade além da concorrência, além da coação exercida sobre eles pela pressão dos recíprocos interesses [...]. Na sociedade que rege o modo capitalista de produção, condicionam-se reciprocamente a anarquia da divisão social do trabalho e o despotismo da divisão manufatureira do trabalho. (MARX, 2006, p. 411).

Em contraste com o artesão, que realizava todas as operações relacionadas ao seu ofício sob as leis das corporações (que impediam a transformação do mestre artesão em capitalista), o trabalhador das manufaturas, vendedor de sua força de trabalho, efetua operações parciais

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Não obstante, mesmo antes da divisão manufatureira do trabalho, ou seja, nos processos de produção baseados na cooperação simples de natureza capitalista - onde a divisão do trabalho e a maquinaria ainda não desempenhavam papéis centrais -, a exigência do comando do capitalista sobre muitos assalariados induziu o surgimento de funções ligadas à direção do processo produtivo; funções essas que foram ocupadas por um “tipo especial de assalariados” (MARX, 2006, p. 385).

sob a autoridade do capitalista – que pode se manifestar pela intervenção de outros trabalhadores designados para tanto. Neste sentido, Marx (2006) sugere a existência da regra geral: à medida que diminui a intervenção da autoridade tradicional na divisão social do trabalho, aumenta a divisão manufatureira do trabalho (criação específica do modo de produção capitalista), assim como a subordinação à autoridade de um só.

Por outro lado, quando comparado com o indivíduo que exercia suas atividades mediante a cooperação simples de natureza capitalista, o trabalhador parcial das manufaturas possui características significativamente distintas. Apesar do organismo coletivo que trabalha, tanto na cooperação simples, como na manufatura, ser uma forma de existência do capital, no primeiro caso não há modificações substanciais do modo de trabalhar do indivíduo, enquanto que no segundo há uma completa revolução, pois a manufatura se apodera radicalmente da força individual de trabalho. Nas palavras de Marx (2006, p. 415), a manufatura

deforma o trabalhador monstruosamente, levando-o, artificialmente, a desenvolver uma habilidade parcial, à custa da repressão de um mundo de instintos e capacidades produtivas, lembrando aquela prática das regiões platinas onde se mata um animal apenas para tirar-lhe a pele ou o sebo. Não só o trabalho é dividido e suas diferentes frações são distribuídas entre os indivíduos, mas o próprio indivíduo é mutilado e transformado no aparelho automático de um trabalho parcial.

A potencial independência do trabalhador em relação ao capitalista, que na cooperação simples apenas vendia sua força de trabalho devido à falta de meios materiais para produzir mercadorias, desapareceu em função do desenvolvimento da divisão manufatureira do trabalho. Neste novo cenário, o indivíduo tornou-se completamente dependente da oficina do capitalista, tendo em vista sua incapacidade para a produção de mercadorias de forma autônoma. O planejamento e as decisões sobre o mecanismo de funcionamento do trabalhador coletivo não são compartilhados pelos vários trabalhadores parciais que o compõem. Destarte, a separação entre o trabalho manual e o trabalho intelectual se evidencia, possibilitando o direito de se ganhar a vida sem ser pelo trabalho das próprias mãos. A dissociação começou com a cooperação simples, incrementou-se na manufatura e se completou na indústria moderna. No transcorrer deste processo, o trabalhador coletivo (forças produtivas sociais) foi se fortalecendo, a expensas do empobrecimento dos vários trabalhadores parciais (forças produtivas individuais).

A especialização dos trabalhadores em apenas uma operação, somada à eliminação das lacunas existentes na passagem de uma operação para a outra e à utilização de ferramentas especializadas, adaptadas exclusivamente às operações dos trabalhadores parciais, incrementaram significativamente a produtividade do trabalhador coletivo das manufaturas e o domínio do trabalho excedente pelo capitalista. Do ponto de vista econômico, o

desenvolvimento da manufatura – que no início ocorreu de forma mais espontânea para, em seguida, adquirir uma lógica racional – significou o aumento da produção de mais-valia relativa e a expansão do valor do capital; “Ela desenvolve a força produtiva do trabalho coletivo para o capitalista, e não para o trabalhador, e, além disso, deforma o trabalhador individual.” (MARX, 2006, p. 420).

Em relação aos obstáculos enfrentados pelos produtores capitalistas no período manufatureiro, a habilidade manual, fundamento da manufatura, ocupou um lugar central. Como inexistia uma estrutura material consistente de produção independente dos trabalhadores (maquinaria), “lutava o capital constantemente contra a insubordinação do trabalhador” (MARX, 2006, p. 423) que, quanto mais destro, mais poder possuía na relação com o capitalista. Não obstante, com a produção de ferramentas, aparelhos mecânicos e máquinas, inicialmente levada a efeito pelas próprias manufaturas, começaram a desaparecer as barreiras que os ofícios manuais, até então o princípio regulador da produção social, representavam ao capital.

Deste modo, o desenvolvimento da manufatura redundou em sua própria destruição, uma vez que, “o período manufatureiro desenvolveu os primeiros elementos científicos e técnicos da indústria moderna” (MARX, 2006, p. 433). Desde 1750 as próprias máquinas começaram a produzir, na Inglaterra, cada vez mais ferramentas de máquinas-ferramenta, o que se intensificou significativamente do decorrer do século XIX, devido ao desenvolvimento tecnológico. Assim, a produção manufatureira, se torna inadequada e vai sendo removida.