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O Naturalismo brasileiro e o anticlericalismo

A percepção das obras tidas por “naturalistas” no Brasil foi profundamente marcada por uma espécie de rejeição coletiva por parte dos intelectuais brasileiros, desde escritores de vulto, como Machado de Assis (1839-1908), a religiosos moralistas, como o padre Senna de Freitas (1840-1913).149 Este clima de suspeição manteve-se incólume entre os críticos literários até meados da década de 1980 — merecendo aqui excetuar Araripe Júnior, que, entre 1881 e 1894, estudou, com afinco, os autores naturalistas nacionais, e reconheceu o valor estético das obras de alguns deles — devido a popularização da ideia de que o romance naturalista brasileiro, ao pretender resgatar de forma unívoca a gênese do homem, da sociedade e de suas relações na modernidade científica e autoritária, bem aos moldes do racionalismo francês, resvalou num perigoso discurso de “tudo saber” e “tudo provar”, convertendo-se, assim, numa escola literária esteticamente pobre.

Mesmo O Cortiço, de Aluísio Azevedo, — tendo sido reconhecido como obra de alto valor estético desde a sua publicação, em 1890 — não escapou ao processo de “categorização naturalista positivista” por parte dos críticos, ao receber destaque pelo uso de elementos estéticos característicos e singulares da escola naturalista francesa, a saber: o racismo, o determinismo social e biológico e o pessimismo.

Parece-nos redutor que o romance naturalista nacional seja analisado sob uma perspectiva rígida e parcial, reduzido a uma mera transposição estético-discursiva de ideologias autoritárias importadas da Europa na segunda metade do século XIX. Vale questionar qual é a gênese deste repúdio radical e totalizador da estética naturalista no país. Bueno150 arrisca enveredar por este caminho e conclui que, tal postura adotada por parte da crítica, foi resultante de uma estratégia de dissociação da nacionalidade literária de uma produção percebida como sendo esteticamente pobre.

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José Joaquim de Sena Freitas nasceu em Ponta Delgada (Açores) em 27 de julho de 1840. Foi condiscípulo de Antero de Quental. Teve grande produção literária e ficou conhecido por ser um grande polemista. Tornou-se presbítero religioso, professando na Congregação da Missão de São Vicente de Paulo. Foi uma das figuras mais notáveis do catolicismo português do período do liberalismo. Tornou-se célebre a polêmica que travou com o escritor brasileiro Júlio César Ribeiro Vaughan a propósito do romance A Carne, publicado por este em 1888. Filiando-se na corrente do Naturalismo, o romance pareceu aos leitores impregnado da preocupação de exibicionismo sensual, o que provocou a irritação de muita gente. Vários críticos, entre eles José Veríssimo e Alfredo Pujol, atacaram o romance. O ataque principal partiu do padre Sena Freitas, com o seu artigo "A carniça", publicado no Diário Mercantil. O romancista, espírito orgulhoso e altivo, republicano, inimigo acérrimo de batinas, replicou com uma série de artigos intitulados O Urubu Sena Freitas (1888).

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Partindo desta concepção, observa-se que os discursos narrativos produzidos no século XIX, especialmente em sua segunda metade, buscavam corporizar a substância autêntica do Brasil como desmundo. Nesse contexto, a estética naturalista é encarada como um corpo estranho, em uma literatura nacional em formação, esta preocupada fundamentalmente em romper com modelos literários universalizantes, como era o caso do Naturalismo, em prol de uma literatura eminentemente nacional.

Nesse sentido, Schwarz151, argumentando que esta vertente nacionalista da literatura resistiu aos séculos, chegando a ser força motriz no discurso dos nacionalistas de direita de 1964, afirma que: “Esperavam achar o que buscavam através da eliminação do que não é nativo. O resíduo, nesta operação de subtrair, seria a substância autêntica do país. A mesma

ilusão funcionou no século XIX [...]”. Nota-se, por conseguinte, que a rejeição dos críticos ao

Naturalismo não se deveu simplesmente à forte presença do cientificismo e do positivismo na produção literária em questão, mas, especialmente, em virtude de seu caráter importado, cópia de um modelo social que, pretensamente, não se aplicaria à realidade social e cultural do país. A necessidade visceral do escritor naturalista brasileiro em recorrer a discursos diversos fundamentados nas descobertas científicas de então, na tentativa de reconstituir de forma mais objetiva a realidade intrincada de um Brasil fissurado por tantas marcas sociais, fez com que o Naturalismo permanecesse sob um longo regime de suspeição. Esta era a leitura que se fazia da escola no país e que impulsionava seus detratores a rejeitarem-na com maior força, impedindo de se fazer uma análise mais imparcial a respeito da produção de escritores classificados como naturalistas/realistas, tratando-os de forma monolítica.

Um caso curioso é o de Aluísio Azevedo que, mesmo declarando expressamente no prefácio de O Homem que esse era o seu primeiro romance naturalista, teve a maior parte de suas obras classificadas como “naturalista”, o que, para seus detratores, equivalia dizer que o escritor maranhense se limitou a transferir para a literatura, as ideias frias do positivismo de Auguste Comte (1798-1857) e do determinismo de Hippolyte Taine (188-1893), o que de fato nos parece simplista e injusto. Estranhamente, o mesmo escritor chegou a ser “acusado” de ser pouco naturalista em razão de sua não obediência aos rígidos limites da observação objetiva dos fatos sociais propostos por Zola, o que, segundo os críticos, o conduziu a um discurso passional e moralista, fugindo, fatalmente, da sã fronteira da observação e descrição dos fatos sociais, segundo a proposta da escola literária em questão:

151 SCHWARZ, Roberto. Nacional por subtração. In: ______. Que horas são?: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras,

É preciso notar, além disso, que o Naturalismo como o romancista maranhense o praticou em O Mulato, não seguia a linha da impassibilidade, da objetividade pretensamente neutra, da não interferência. Era, muito ao contrário, polêmico, combativo, crítico, e não apenas no terreno anticlerical152.

A partir deste ponto, faz-se necessário examinar duas questões que intervêm diretamente na apreensão e entendimento do romance naturalista brasileiro, por parte dos críticos, até meados da década de 1980. Primeiramente, trata-se de confrontar a “realidade chapada” da estrutura narrativa naturalista com o que Araripe Júnior153 nomeou de “qualidades da incorreção” do Naturalismo no Brasil, o que, em outras palavras, implica analisar até que ponto a literatura naturalista no país foi subserviente aos valores ideológicos do Naturalismo ortodoxo francês. Intimamente associada à primeira questão, a seguinte refere-se à produção literária nacional vislumbrada sob a perspectiva do que Schwarz154 intitulou de “caráter postiço” e “inautêntico” da literatura nacional.

Identificamos, em algumas obras de Aluísio Azevedo, como O mulato e O homem, esta mesma lógica binarista, em que os antagonismos do pensamento oitocentista tornam-se esteticamente visíveis, bem como a frontal oposição entre os interesses da Igreja e os da nação. Acreditamos que a gênese deste pensamento se encontra no mito do “país novo”, no qual o Brasil é vislumbrado como nação ainda não realizada. Antevendo um porvir venturoso, o escritor naturalista constrói uma narrativa ficcional socialmente comprometida, em que dois “brasis” antagônicos se confrontam. O catolicismo, neste contexto, é parte indissociável do velho Brasil, colonizado, escravocrata, inculto e economicamente atrasado, que o escritor naturalista propõe combater ferozmente por meio da pena e da instrução laical das massas. Embalado por este ideal, deve-se ao Naturalismo a proeza de ter introduzido no país a educação secular.155 Esta percepção militante e binária entre forças que se revelam inconciliáveis, é resultante do tom belicoso que reinou no curso do século XVIII e XIX e que, segundo Le Goff156, ainda não foi dirimida até a contemporaneidade:

[...] o modernismo está presente na longa tensão entre que agita o cristianismo e, em especial, a Igreja Católica, desde a Revolução Francesa até os nossos dias. O aspecto católico do conflito antigo/moderno transformou-se na confrontação da Igreja conservadora com a sociedade ocidental da Revolução Industrial.

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SODRÉ, Nelson Werneck. O naturalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965. p. 179.

153 ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar. Estilo tropical: a fórmula do naturalismo no Brasil. In: ______. Obra crítica de

Araripe Júnior. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1960. v. 2, p. 68.

154 SCHWARZ, Roberto. Nacional por subtração. In:______. Que horas são?: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras,

1987. p. 29-48.

155

TINHORÃO, José Ramos. A província e o naturalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. p. 37.

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Nesse sentido e a título de ilustração, Raimundo Antonio da Rocha Lima157, fundador da Academia Francesa em Fortaleza — destinada a divulgar os benefícios da filosofia positivista e da ciência — chegou a criar, em 1874, naquela mesma cidade, a Escola Popular (ou Escola Noturna), que oferecia aulas gratuitas, à noite, a quem quisesse comparecer. O vínculo entre o Naturalismo e a instrução das massas era muito forte, à medida que os acadêmicos acreditavam na necessidade da informação como elemento fundamental para o progresso da nação. É o que Candido158 chamou de “ideologia ilustrada”, em que a educação traria “automaticamente todos os benefícios que [permitiriam] a humanização do homem e o progresso da sociedade”.

Dentro do contexto nacional, identificamos, e com bastante clareza, nas obras naturalistas, a relação simbiótica entre literatura e ciência. O texto pretende ser literário e, para isso, recorre a elementos estéticos que o caracterizam como tal. Por outro lado, reflete com profusão, o pensamento coletivo dos intelectuais de então, movido a querelas entre o Império e a Igreja Católica, ligado aos ideais de evolução e progresso, bem como aos estudos de natureza sociológica e biológica desenvolvidos por Comte, Darwin e Spencer. A derrocada da estética romântica refletiria em si a vitória da razão sobre a metafísica, da ciência sobre a superstição, do liberalismo político sobre a monarquia e seu braço ideológico, a Igreja:

É que no Brasil o Romantismo, longe de ser apenas uma escola ou uma doutrina literária, era uma expressão de vivência sócio-cultural, simbolizava o panorama cultural de uma época, e intimamente se ligava ao regime político e à confissão religiosa em que se arrimava espiritualmente esse regime. [...] De fato, o Romantismo, o império, o oficialismo católico e o sistema escravocrata eram as faces literária, política, religiosa e econômica do tetraedro ideal do estado monárquico brasileiro. Do combate que, no anfiteatro das ideias, se ia travar sob a bandeira do Realismo materialismo e cientificista, tinham o mesmo sentido e eram vitórias naturais do mesmo esforço, não apenas a sua substituição ao Romantismo, mas também ao advento da Abolição, da República e da separação da Igreja do Estado.159

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Nasceu em Fortaleza no ano de 1855, de família modesta. Matricula-se em 1867 no Liceu do Ceará, e mais tarde no Ateneu. Aos dezesseis anos, no intuito de estudar, muda-se para Recife, retornando rapidamente para sua cidade natal por problemas de saúde. Ajuda na fundação da Academia Francesa, bem como na criação da Escola Popular em Fortaleza. Colabora com as publicações Fraternidade e O Cearense, sendo designado “encarregado” da Biblioteca Pública da Província após curta estadia no Rio de Janeiro. Morre vítima de beribéri, em Maranguape, no ano de 1878, cidade em que procurava a cura (CORDEIRO, 1997). Mesmo reconhecendo o papel da religião na compreensão do universo, Rocha Lima era um racionalista, com um pensamento de fundo positivista, crítico da influência eclesiástica sobre a estrutura estatal, como bem expressado por Montenegro (1978, p. 146): “Parece emergir da leitura de Rocha Lima a preocupação de divulgar a obra demolidora dos valores tradicionais encetada por Darwin, Spencer [...], mas em sintonia com o clamor dos intelectuais que ansiavam por transcender os quadros mentais do Catolicismo ou da civilização forjada com o auxílio de seus valores, premidos pelos condicionamentos socioeconômicos emergentes. Perecebiam, por certo, o antagonismo entre o progresso econômico no mundo capitalista e a estrutura mental elaborada pela herança católico-feudal [...]”.

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CANDIDO, Antonio. Literatura e subdesenvolvimento. In: MORENO, César Fernández (Coord.). América Latina em sua

literatura. São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 349.

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É por se valer de uma linguagem excessivamente científica que encontramos, frequentemente, críticas aos textos da escola naturalista. O Mulato, por exemplo, normalmente apontado pelos críticos como a primeira obra nacional a utilizar os processos específicos do Naturalismo, é taxada, por muitos, como um texto literário paradigmático demais, sistemático, canhestro, previsível e sem espontaneidade160. Trata-se, de fato, de um discurso centrado na concepção da arte pela arte, em que a qualidade estética de uma obra ficaria seriamente comprometida, em virtude de seu estreito vínculo com ideias sócio- políticas ou, ainda, na transplatação de métodos cientificos, estranhos à própria natureza da literatura.

Interessante notar que o fato do Brasil ter vivido “problemas de ajustamento” neste período — incluindo a querela entre o Império, a Maçonaria e a Igreja — fez com que o Naturalismo nacional fosse vislumbrado como uma das “fórmulas literárias legítimas” de nossa literatura, da mesma forma que o romance social de 1930 e 1940.161 Em outras palavras, o Naturalismo brasileiro, provavelmente só não resultou em um fiasco, pelo fato de ter sido tardio, tendo chegado ao país muitos anos após ter-se difundido na Europa, em um período em que se instaurava entre nós um ideal republicano.

As críticas concernentes ao discurso naturalista se restringem basicamente à apreensão de elementos internos, vinculados a questões estéticas formais, tais como sua originalidade frente ao panorama literário de época, desconsiderando, geralmente, os elementos externos, como o papel social da obra162, o que é absolutamente compreensível dentro da crítica literária, mas nem sempre desejável.

De fato, a estética naturalista pode ser avaliada a partir de suas aspirações iniciais. Isso implica reconhecer que a escola literária em questão pretendia libertar a literatura de qualquer tentativa de departamentalização estética, “absorvendo todos os gêneros, mesclando-os e os diluindo, incorporando os discursos de outras áreas do saber, hipertrofiando cada vez mais o descritivo em detrimento do narrativo”163. Veremos que, no contexto nacional, a profusão simbiótica de discursos mais variados na tessitura da narrativa literária não condenou, necessariamente, as obras naturalistas brasileiras ao Hades da mediocridade. Nesse sentido, cremos merecer atenção o pensamento de Araripe Júnior a esse respeito.

160

MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira: 1877-1896. São Paulo: Cultrix, 1977-1978. BOSI, Alfredo.

História concisa da literatura brasileira. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1976.

161

CANDIDO, Antonio. Critica radical. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1991. p. 308, tradução nossa.

162 Id., 1965, p. 87-88. 163

CATHARINA, Pedro Paulo Garcia Ferreira. Estética naturalista e configurações da modernidade. In: MELLO, Celina Maria Moreira de; ______ (Org.). Críticas e movimentos estéticos: configurações discursivas do campo literário. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006. p. 118.

A visão de Araripe Júnior em relação ao Naturalismo no país é construída a partir do princípio de que tal escola literária conseguiu assimilar e reproduzir localmente os saberes oriundos da Europa, sem resvalar numa imitação cultural barata dos valores do Velho Mundo, inclusive os de natureza estética. Para ele, o Naturalismo nacional não pode ser reduzido a um simples fenômeno de “nativização” da estética importada da França, à medida que extrapolou os limites fronteiriços que lhe outorgariam o título de “Naturalismo autêntico”.

Assim sendo, o Naturalismo europeu, ao alçar bandeira em território brasileiro, perdeu definitivamente o seu caráter ortodoxo, transformando-se, assim, em produto desviado e, por conseguinte, em algo absolutamente novo. Em outras palavras, a inautenticidade da cópia fez com que o Naturalismo no país alcançasse uma dimensão estética robusta e desvinculada, em muitos aspectos, da proposta de corrente francesa. Não se trata de negar a inautenticidade de nossa produção literária, mas de reconhecer sua singularidade como cópia. Em relação a nossa independência cultural, Candido164 é bastante objetivo:

Encaremos portanto serenamente o nosso vínculo placentário com as literaturas européias, pois ele não é uma opção, mas um fato quase natural. Jamais criamos quadros originais de expressão, nem técnicas expressivas básicas [...]. E embora tenhamos conseguido resultados por vezes originais no plano da realização expressiva, reconhecemos implicitamente a dependência.

A gênese do processo de desfiguração do Naturalismo por meio do rompimento conceitual relativo do pensamento de Zola, é entendida por Araripe Júnior como um fenômeno empírico, livre de qualquer método ou estratégia consciente desenvolvida por nossos escritores. É por meio desse fenômeno empírico — chamado por Araripe Júnior de “obnubilação” — que a literatura naturalista nacional, pretensamente imitação fiel da original francesa, com todo o seu arcabouço racional, darwinista e descritiva, converte-se num produto “falho” e “adulterado”. Para ele, é graças a esta “sã degeneração” — que na prática significava um afastamento da filosofia positivista da qual o Naturalismo europeu se nutria — que o Naturalismo nacional tornou-se vigoroso e relevante, tornando-se menos cartesiano e, por conseguinte, mais dialético. Ou seja, ao confrontar os ideais positivistas e darwinistas à realidade de um país escravocrata, onde a imensa maioria da população era analfabeta, em que uma elite almejava instalar uma república, o texto literário se converte numa síntese de contradições absolutamente singulares, que se tornariam mais tarde elementos identitários da nação brasileira, contraditória em sua essência.

164 CANDIDO, Antonio. Literatura e subdesenvolvimento. In: MORENO, César Fernández (Coord.). América Latina em sua

Efetivamente essas contradições sociais no século XIX e que perduram até hoje, se constroem sob uma perspectiva estética dialética, em que um mundo ideal e desmundos reais se tocam, numa troca conflitiva de impressões positivas e negativas, muito distante da objetividade e racionalidade do modelo europeu cartesiano:

De um lado, tráfico negreiro, latifúndio, escravidão e mandonismo, um complexo de relações com regra própria, firmado durante a Colônia e ao qual o universalismo da civilização burguesa não chegava; de outro, sendo posto em xeque pelo primeiro, mas pondo-o em xeque também, a Lei (igual para todos), a separação entre o público e o privado, as liberdades civis, o parlamento, o patriotismo romântico etc. A convivência familiar e estabilizada entre estas concepções em princípio incompatíveis esteve no centro da inquietação ideológico-moral do Brasil oitocentista.165

É nesse sentido que Schwarz, comentando um trecho de um livro de Silvio Romero intitulado Machado de Assis, publicado em 1897, vislumbra na cópia, ou em suas palavras, na nossa singular “inautenticidade”, o elemento mais importante no processo de construção da identidade nacional do Brasil: “a marca ubíqua de “inautenticidade”” veio a ser concebida como a parte mais autêntica da produção literária nacional, algo como um “penhor de identidade”. Schwarz166 vai mais além ao afirmar que a literatura oitocentista, por circunstâncias históricas, passa a funcionar com regras próprias, o que faz com que seu pensamento se aproxime do de Araripe Júnior, ao defender os atributos qualitativos do “Naturalismo torto” do país:

Privados de seu contexto oitocentista europeu e acoplados ao mundo da sociabilidade colonial, os melhoramentos da civilização que importávamos passavam a operar segundo outra regra, diversa da consagrada nos países hegemônicos. Daí o sentimento tão difundido de pastiche indigno [...]. Em palavras de Sérgio Buarque de Holanda: “A presteza com que na antiga colônia chegara a difundir-se a pregação das ‘ideias novas’, e o fervor com que em muitos círculos elas foram abraçadas às vésperas da Independência, mostram de modo inequívoco, a possibilidade que tinham de atender a um desejo insofrido de mudar, à generalizada certeza de que o povo, afinal, se achava amadurecido para a mudança. Mas também é claro que a ordem social expressa por elas estava longe de encontrar aqui o seu equivalente exato, mormente fora dos meios citadinos. Outra era a articulação da sociedade, outros os critérios básicos de exploração econômica e da repartição de privilégios, de sorte que não podiam, essas ideias, ter o sentido que lhes era dado em parte da Europa ou da antiga América inglesa (...). O resultado é que as fórmulas e palavras são as mesmas, embora fossem diversos o conteúdo e o significado que aqui passavam a assumir.

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SCHWARZ, Roberto. Nacional por subtração. In: ______. Que horas são?: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 43.

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De fato, o Naturalismo aqui chegou e se desenvolveu de forma considerável, mas seu conteúdo e significado foram redimensionados a partir da sistematicidade da sociedade brasileira. Em oposição ao Naturalismo zoliano, que propunha desvendar a verdade por meio de um rígido método de observação dos fatos sociais, encontramos nas entrelinhas dos textos

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