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4 FORMAS DE ATUAÇÃO DA MILITÂNCIA

4.2 MOVIMENTO NEGRO E ESTADO

4.2.2 O Negro e a Constituinte

Por volta de 1984 o tema da reforma constitucional passa a integrar mais uma luta do movimento negro. As lideranças se preparam para negociar suas reivindicações, tendo em vista o processo político de sucessão presidencial. Durante o ano de 1985 proliferam encontros locais, municipais e estaduais objetivando criar condições para a participação da população negra nesse processo político. Contudo, é na campanha eleitoral de 1986, que o tema da reforma da constituição ganha mais projeção. Para os ativistas, o discurso da participação estava associado aos movimentos sociais, pois isso poderia lhes assegurar a autonomia em ante aos partidos, ao mesmo tempo em que demarcava o seu descontentamento em relação à representação política. As questões levantadas por esses movimentos estava relacionada à representatividade e participação direta. O principal argumento era de que uma pessoa branca não poderia representar de forma legítima a população negra, tampouco um homem poderia bem representar as mulheres, assim por diante (RIOS, 2014 p.153). Defendiam veementemente que os interesses da população afro- brasileira só poderiam ser adequadamente representados a partir da presença do próprio negro no processo decisório.

Além desse ser um canal de expressão e representação de suas demandas, também implicava na presença física de negros, na condição de parlamentares. Uma bandeira levantada pelo núcleo baiano do MNU era de que “Parlamento para valer só com o negro no poder”. Partiam da compreensão de que, nessa conjuntura, os partidos políticos tornaram-se o único meio de representação política que dava acesso à Assembleia Nacional Constituinte, excluindo automaticamente as demais formas de ação coletiva, tais como os movimentos sociais e associações. Nesse sentido, os demais segmentos populacionais corriam o risco de não terem suas demandas devidamente apresentadas e contempladas naquele processo (RIOS, 2014 p.154).

Nos anos preparatórios para a constituinte, houve muita mobilização do povo negro. Em Brasília aconteceu a Convenção do Negro, de onde surgiram muitas reivindicações para a Constituinte. O regimento interno da Assembleia Nacional Constituinte criou 24 comissões temáticas, dentre elas, a “subcomissão dos negros,

populações indígenas, pessoas deficientes e minorias54”, essa atuação garantiu que

as propostas de emendas parlamentares tivessem alinhamento político com este

54 Nessa comissão, o movimento negro contou com quatro constituintes negros, Benedita da Silva

movimento social. Na Carta Magna, o racismo passou a ser crime inafiançável e imprescritível, alterando a Lei Afonso Arinos, de 1951, que considerava as ações racistas apenas como “contravenções penais”, podendo ser reparadas mediante pagamento monetário. Também foi a partir daí que foram concedidos direitos territoriais e culturais aos quilombolas (RIOS, 2014 p.167). Deste modo, as mobilizações que antecederam a Assembleia Nacional Constituinte e as ações que culminaram no Centenário da Abolição, foram processos decisivos na construção do negro como sujeito político legítimo na esfera pública, integrando o tema da injustiça racial à agenda nacional (idem).

Embora os movimentos sociais tenham conseguido importantes avanços na Reforma Constitucional, após as eleições de 1989 a implementação dos novos direitos constitucionais em grande parte foram frustradas. Houve o esvaziamento de conselhos e outros espaços de negociação política no governo de Fernando Collor de Mello. A grande maioria da das lideranças negras se posicionaram contra o governo (RIOS, 2014 p.172). Diante desse fechamento político, os militantes foram em busca de fortalecer seus vínculos na sociedade civil e nas esferas municipais e estaduais por meio de organizações e iniciativas políticas, culturais e assistenciais, através da ampliação de alianças políticas, ou mesmo da captação de recursos através de organismos internacionais.

Depois da constituição de 1988, boa parte das lideranças negras teve que se agregar às organizações não governamentais, como as ONGs. Em 1990 fizeram uma marcha em Brasília exigindo medidas de enfrentamento das desigualdades raciais brasileiras. Este ato impactou intelectuais de diferentes orientações, nacionais e estrangeiros, levando-os, à convite do Presidente Fernando Henrique Cardoso, a realizar o seminário Ações Afirmativas e Multiculturalismo, que foi organizado em 1996 pelo Ministério da Justiça. O clima de desconfiança com as instâncias do governo pairava sobre os ativistas e estudiosos das questões raciais. Muitos dos participantes do evento, dentre ativistas e intelectuais, acreditavam que o encontro serviria apenas como um espaço para abrir o diálogo, como uma forma de incluir os militantes na política nacional, pois não acreditavam que, em curto espaço de tempo, haveria qualquer avanço no país, em relação às políticas de inclusão para a população negra. No entanto, lentamente foram aparecendo iniciativas no interior do Estado (além das iniciativas nas estruturas universitárias), que ganhava consistência à medida que a militância se tornava forte e persuasiva nas exigências pela redução das

desigualdades raciais, cujo combate deveria se dar através de políticas públicas orientadas para a população negra (RIOS, 2014, p.170).

Com o passar dos anos as mudanças foram acontecendo, não apenas no movimento social e entre as suas lideranças, tais mudanças também ocorreram no campo cultural e acadêmico, na ampliação das arenas e redes transnacionais e o movimento e a luta antirracista ganhando cada vez mais legitimidade no espaço público, ampliando a atuação nas camadas sociais, se comparado aos restritos espaços nos quais circulavam essas ideias durante a Ditadura Militar. Foi nessa conjuntura política que se espalharam por todo o país organizações voltadas para os segmentos populacionais pretos e pardos (RIOS, 2014, p. 174-175).

Antes da Constituição de 1988, a temática do racismo era restrita aos círculos políticos, aos espaços universitários e a imprensa alternativa. As medidas do Estado para responder às demandas do movimento negro eram restritas e insuficientes. Paulatinamente, a partir da década de 1990, o debate sobre relações raciais deixa de ser um tema marginal, passando a ter maior visibilidade no espaço público, incluindo reações organizadas (RIOS, 2014, p. 170).