1.3. A arqueologia e os estudos sobre o Negro
1.3.1. O Negro e seus quilombos: mudando conceitos
Quilombos são outro tema de interesse abarcado pelos estudos sobre o Negro, e o Quilombo dos Palmares é sem dúvida o que rendeu mais estudos e polêmica, por sua relevância na história da resistência escrava.
As primeiras fontes escritas sobre o Quilombo dos Palmares, ou República dos Palmares como era chamado na época, são de portugueses e holandeses, algumas delas escritas em latim, a língua culta da época (FUNARI e CARVALHO, 2005). Não há fontes escritas pelos próprios negros a respeito do Quilombo dos Palmares – os documentos foram escritos pelo europeu colonizador que combatia o quilombo por ser uma ameaça ao regime escravista. O medo que se tinha em relação aos quilombos chegou até o século XIX, alimentado também pela revolução negra no Haiti (1794), que por sua vez influenciou o levantamento de dados sobre Palmares feito pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Os estudos produzidos pelo IHGB no século XIX tinham uma narrativa “romântica e nacionalista” que exaltava os feitos dos portugueses e dos indígenas cristãos na construção do Brasil, omitindo a resistência escrava. O Instituto organizou um enorme acervo sobre Palmares para registro oficial, mas sem objetivo de difusão, porque no Brasil da época ainda vigorava o regime escravista e não era interessante divulgar a resistência de Zumbi e sua gente, pois isso poderia incitar a massa escrava (FUNARI e CARVALHO, 2005, p. 31).
O segundo momento da produção sobre Palmares se deu durante o início da República, destacando-se Edison Carneiro com sua publicação “O quilombo dos Palmares” de Edison Carneiro (CARNEIRO, 1947). Também tratam do assunto Nina Rodrigues, em “Os africanos no Brasil” de 1932 (RODRIGUES, 1932), e Arthur Ramos, em “As culturas negras no Novo Mundo” de 1947 (RAMOS, 1947). O interesse desses autores era entender a formação da cultura do “povo brasileiro”, apontando o quilombo como foco de resistência cultural africana no Brasil.
Naquele contexto, a cultura afro não era bem vista pela sociedade brasileira e a fuga para o quilombo era vista como um sinal de fraqueza, enquanto a cultura africana era tida como “inferior”.
Nina Rodrigues, como os outros autores, atribui origem bantu ou banto para o Quilombo do Palmares, a partir de referências existentes em documentos contemporâneos a Palmares (RODRIGUES, [1932] 2010). De acordo com Kabengele Munanga, quilombo é de fato uma palavra de origem banto – do umbundo kilombo, que designa uma instituição política e militar que se difundiu regionalmente, na “África bantu”. Umbundo é uma das línguas faladas em Angola também de acordo com o autor, a definição do termo banto tem origem nos estudos promovidos por linguistas europeus, designando hoje “uma área geográfica contígua e um complexo cultural específico dentro da África Negra”. Os primeiros contingentes de negros escravos trazidos para o continente americano eram oriundos de culturas dessa região, graças às relações estabelecidas entre o reino de Portugal e o reino do Congo. Para Munanga, a presença dos negros bantus, e sua liderança nos quilombos, é inegável, porém, o caráter do quilombo seria transcultural já que reunia negros de outras regiões africanas e demais indivíduos marginalizados pelo regime colonialista (MUNANGA, 1995/1996, p. 58)
Os quilombos formados no Brasil guardam muitas semelhanças com o kilombo africano que se desenvolveu em Angola entre os séculos XVI e XVII, entre elas o fato de abrigarem indivíduos de diversas etnias, insatisfeitos com a sociedade opressora e que procuraram refúgio em áreas de difícil acesso. Assim, nos moldes do kilombo africano, os quilombolas no Brasil “transformaram esses territórios em espécie de campos de iniciação à resistência” (MUNANGA, 1995/1996, p. 63)
Enquanto se dava a penetração do português na região centro-ocidental de Angola, diversos grupos étnicos africanos estavam em conflito, pois a sociedade estava atravessando um
processo de reconfiguração que refutaria cada vez mais as formas de organização tradicional. São representantes desse movimento de resistência os jaga ou imbangala, caçadores do oeste africano, que começavam a invadir o Reino do Congo a partir de 1560 e desenvolveram o kilombo, como uma instituição guerreira que se colocava contra o rei do Congo e os portugueses (NASCIMENTO, 2008, p. 75-76).
No Brasil, durante e depois da escravidão existiram vários tipos de organizações quilombolas, desde pequenos agrupamentos, a grandes aldeamentos como o Quilombo dos Palmares, ou o Quilombo do Ambrósio (MG). Segundo Reis, “o quilombo podia ser pequeno ou grande, temporário ou permanente, isolado ou próximo dos núcleos populacionais; a revolta podia reivindicar mudanças específicas ou a liberdade definitiva, e esta para grupos específicos ou para os escravos em geral” (REIS, 1996, p.16).
Sobre a relação dos quilombos com o mundo exterior, Moura afirma que:
(...) se constatou no quilombo do Ambrósio, em Minas Gerais e na República de Palmares, os negros tiveram de entrar em contato com outras camadas, grupos e segmentos oprimidos nas regiões onde atuavam. Precisavam de armas, pólvora, facas e outros objetos. Realizavam então um escambo permanente com pequenos proprietários locais, mascates, regatões, a fim de conseguirem aquilo de que necessitavam, especialmente armas e pólvora... o escravo mineiro, por exemplo, ligava-se com muita frequência ao faiscador e ao contrabandista de diamantes e ouro, com eles mantendo um comércio clandestino, que era severamente combatido (MOURA, 1989, p. 24-25).
Segundo Leite (2000), na historiografia brasileira duas são as abordagens que prevaleceram sobre o quilombo – uma, de viés marxista-leninista, ligada à luta armada; e, outra, “romanticamente idealizada”, inspirada nos princípios de liberdade e igualdade propagados pela Revolução Francesa.
Para a autora, “a própria generalização do termo teria sido um produto da dificuldade dos historiadores em ver o fenômeno enquanto dimensão política de uma formação social diversa. O termo irá persistir principalmente para indicar as mais variadas manifestações de resistência” (LEITE, 2000, p. 337).
Há que se levar em conta, também, a diversidade das relações estabelecidas entre senhores e escravizados ao longo do regime escravista, já que elas se modificavam ao longo do tempo e se apresentavam de formas distintas em lugares diferentes. Essa diversidade é fundamental para entender as formações quilombolas.
Existem comunidades remanescentes de quilombo que ocupam a mesma área desde antes do final do regime escravista, outras que foram expulsas de suas terras ocupadas originalmente, se locomovendo para outros locais. Algumas comunidades quilombolas têm origem em agrupamentos de escravos fugidos, outras se formaram depois da abolição. Na década de 1970, o movimento negro levantou a bandeira do remanescente enquanto forma de resistência política pelo fato dessas comunidades terem atravessado os séculos enfrentando todo o tipo de adversidade e terem sobrevivido até os dias atuais, podendo ser localizadas tanto no meio rural quanto urbano.
Assim, o conceito de “remanescente de quilombo” foi formulado a partir de uma demanda social dos afrodescendentes, que se concretizou a partir das discussões em torno do artigo nº 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição Federal de 1988, que garante o reconhecimento da propriedade definitiva aos remanescentes que estejam ocupam as terras de comunidade de quilombo.
Mas esse conceito não foi prontamente absorvido, dada a cristalização do conceito de quilombo ancorado na imagem do Quilombo do Palmares, do guerreiro autossuficiente, sendo que as comunidades não se identificavam com essa expressão como nos explica Ilka Boaventura Leite, que fez parte do “Grupo de Trabalho sobre Comunidades Quilombolas”, formado a partir de uma solicitação feita pelo Ministério Público e da ABA – Associação Brasileira de Antropologia, para a elaboração de um parecer sobre a questão em 1994.
O termo ‘quilombo’ tem assumido novos significados na literatura especializada e também para indivíduos, grupos e organizações (...). Contemporaneamente, portanto, o termo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de uma população estritamente homogênea. Da mesma forma nem sempre foram constituídos a partir de uma referência histórica comum, construída a partir de vivências e valores partilhados. Neste sentido, constituem grupos étnicos conceitualmente definidos pela Antropologia como um tipo organizacional
que confere pertencimento através de normas e meios empregados para indicar afiliação ou exclusão (ABA, 1996, p. 12).
Dessa maneira, o conceito de remanescente de quilombo é moldado de modo a atender aos diversos grupos, com diversas origens, que reivindicam o reconhecimento e a titulação de suas terras, e como já acontecia com as terras indígenas fica a cargo de um antropólogo a preparação de um laudo, quando necessário.
Em 20 de novembro de 2003, o artigo nº 68 é regulamentado pelo Decreto 4887 que prevê a “identificação, reconhecimento das terras ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos”, sendo estes considerados “grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto- atribuição, com a trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”. O exposto demonstra que a questão dos remanescentes envolve fatores socioantropológicos e como tal é dinâmica, estando em constante transformação. E que apesar do documento formulado pelo “Grupo de Trabalho” afirmar que o termo ‘quilombo’ não se refere a “resíduos ou resquícios arqueológicos”, temos notado que em algumas situações a investigação arqueológica pode contribuir com novos elementos no processo de titulação, sem ser a evidência arqueológica condição sine qua non para a titulação, dada as particularidades de cada remanescente como discutido anteriormente e o precedente da autodenominação. O processo de reconhecimento das terras de remanescente de quilombo é complexo, pois, além dos aspectos conceituais, antropológicos e históricos considerados na elaboração dos laudos durante o processo de reconhecimento, também, por ser uma questões territorial, de posse de terra envolve muitos interesses, colocando as comunidades tradicionais em uma condição desfavorável em relação ao poder econômico, na disputa pela legalização. Os números de reconhecimentos em relação as comunidades efetivamente existentes indicam as dificuldades.
Conforme observa Little (LITTLE, 2002, p. 14), em 1995, a Comunidade Boa Vista, em Oriximiná, no Vale de Trombetas/PA, foi o primeiro remanescente de quilombo a ser reconhecido pelo Estado sob a figura jurídica da nova Constituição. Nos sete anos seguintes, 29 desses territórios conseguiram reconhecimento formal, 18 do governo federal e 11 de órgãos estaduais.
As dificuldades e o reconhecimento tardio dessa comunidade do Trombetas, que foi a primeira a ser reconhecida no Brasil, dá dimensão de como o estudo do “remanescente de quilombo” é de fundamental importância na arqueologia enquanto disciplina que aborda questões de território, memória, identidade e patrimônio.