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O neomoderno A continuidade do espírito moderno

2.2 Arquitetura Contemporânea e sua relação com o paisagismo

2.2.4 O neomoderno A continuidade do espírito moderno

Distante da discussão sobre a contemporaneidade que se travava no contexto mundial, no Brasil a arquitetura contemporânea realiza um percurso de continuidade com o período anterior recente que é a arquitetura moderna. Nesta evolução alguns fatores foram apontados por diversos pesquisadores, com enfoques diferentes, mas que apresentam similaridades. Bastos (2003) aponta como idéia dominante no pensamento nacional: O entendimento de uma arquitetura contemporânea brasileira que se coloca em continuidade e não como ruptura com a arquitetura moderna, valorizando coerência construtiva, adequação climática, adequada relação entre custo e benefício. (2003, p.255).

Bastos (2003) distingue seis traços característicos da Arquitetura Brasileira Contemporânea: (i) coerência construtiva; (ii) adequação física e climática; (iii) preeminência da realidade existente, do contexto; (iv) inserção cuidadosa do edifício no

meio urbano ou natural; (v) qualificação dos espaços internos e externos; e (vi) referências à arquitetura popular e tradicional.

Destas características colocam-se em relevo as que parecem de importância crucial e que se replicam também de certa forma, no paisagismo contemporâneo.

Os itens (iii) e (iv) citados por Bastos (2003) implicam numa mudança radical de atitude frente ao projeto. No modernismo o foco do projeto era o edifício isolado, e na corrente modernista do internacional style, isso foi radicalizado a ponto do edifício poder estar em qualquer contexto urbano ou país. Esta descontextualização total provocou muitas críticas, entretanto na arquitetura brasileira, gradativamente o agenciamento começou a tornar-se importante, como um movimento de afastamento do objeto do projeto e uma ampliação da escala, uma visão mais geral. Sintomaticamente, os projetos passaram a ser mais completos, o paisagismo passou a ser incorporado ao projeto arquitetônico.

Esse movimento de ampliação também ocorre com o paisagismo, originalmente relacionado apenas ao desenho de jardins e praças, considerando apenas os aspectos estéticos e cênicos, ao longo do tempo foi abarcando escalas e propostas maiores, incorporando as variáveis sócio-econômicas mais próprias do campo do desenho urbano.

O interesse crescente na recuperação da nova vida nos espaços públicos é certamente uma idéia instigante. Em uma sociedade na qual cada vez mais a vida diária acontece na esfera privada (...) existem sinais claros que a cidade e os espaços urbanos receberam um novo e influente papel como espaço e fórum públicos (GEHLe GEMZOE, 2002, p.20).

Um segundo paralelo entre a arquitetura e o paisagismo contemporâneos é quanto à adequação física e climática. Nas décadas de 1980 e 1990, a crise energética e as preocupações mundiais com a saúde do planeta, a agenda 21 e movimentos ecológicos se refletiram na arquitetura e também no paisagismo.

“Se a arquitetura do século XIX fosse definida pela construção em metal – o Palácio de Cristal e assim por diante – e a do século XX, pelo despojamento modernista na decoração e a superfície limpa, Então a arquitetura do século XXI deveria ser sobre humanismo, sobre a percepção de que estamos construindo em um mundo frágil. Sustentabilidade não tem a ver só com energia, mas com toda a história, a cidade” (Renzo Piano in Folha de São Paulo, 2008).

Outro traço característico do paisagismo contemporâneo é o tratamento dos espaços exteriores como arquitetura da paisagem, o que no paralelo traçado entre arquitetura e paisagismo contemporâneos está sugerido na qualificação dos espaços

internos e externos. Tanto na arquitetura quanto no paisagismo contemporâneos, paralelo ao movimento de afastamento e ampliação da escala, houve um movimento de aproximação no projeto, que foi detectado por Bastos (2003), mas que também é bastante evidente nos projetos recentes de paisagismo que apresentam um detalhamento precioso.

Este processo de continuidade do moderno também se verifica na Europa, e mais especificamente na Espanha, onde a obra teórica e a prática profissional do arquiteto Hélio Piñon apresenta uma aproximação com a arquitetura contemporânea brasileira. Coincidentemente ele organiza um livro sobre a obra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, em que expõe seu pensamento sobre a arquitetura exemplificando com as obras do arquiteto paulista. Mahfuz (2003) apresentando a Praça da Sinagoga projeto de Hélio Piñon para cidade de Onda, Espanha (2001) identifica através da análise do projeto, alguns critérios:

Do estudo deste projeto podem-se tirar as seguintes conclusões: 1. O projeto de espaços abertos é também arquitetura, e sendo assim pode ser resolvido com os mesmos recursos projetuais aplicados a projetos de edificação ou desenho urbano; 2. Não obstante o uso de vegetação, qualquer espaço aberto (jardim, praça, largo, parque, etc.) é artifício, produção cultural. Portanto, não faz sentido tentar imitar a natureza; o elemento natural deve ser tratado de modo a enfatizar o caráter artificial desse espaço. Plantas, pisos, bancos e luminárias são igualmente materiais de que dispõe o arquiteto; 3. Se é artifício e, mais especificamente, arquitetura, todo espaço aberto deve ser ordenado de modo claro e inteligível, permitindo que seus usuários se envolvam com ele não só com o corpo, mas também com o intelecto (MAHFUZ, 2003, p.1).

Esta corrente de pensamento da arquitetura de continuidade do moderno retoma os ideais modernos de se construir um arcabouço teórico em que a arquitetura é explicada pela realidade da obra e não como algumas correntes contemporâneas que buscam analisar a obra arquitetônica com base em conceitos filosóficos, biológicos, psicológicos, etc.. Assim sendo a importância da forma é retomada, a definição formal volta a ser a preocupação central do projeto.

...enquanto na arquitetura tradicional todos os subsistemas convergem e se confundem com a estrutura formal, a sua independência na arquitetura moderna permite o abandono da imitação como procedimento fundamental, possibilitando o uso de esquemas ordenadores de qualquer origem, até da própria história da arquitetura (MAHFUZ, 2006, p.23).

Esta relação do projeto pensado de modo autônomo, segundo estratégias próprias da arquitetura, se transpõe em certa medida para os projetos de paisagismo, conforme se verificará ao longo do estudo.