2 ENTRE PERNADAS E ESQUIVAS: OMISSÃO, RESISTÊNCIA E
4.2 O nome da academia, símbolos e instrumentos
No que tange ao nome da academia, denominada Centro de Cultura Física, Decaneo
(1997) afirmou ter sido o autor da sugestão. Para isto, fundamentou-se no fato de que, durante
o período de regulamentação da capoeira, pela Federação Baiana de Pugilismo (FBP), não era
permitido o uso do termo Academia, ou Escola, em entidades esportivas. Segundo Decaneo
(1997, p. 43),
Durante o longo período de luta pela regulamentação da capoeira pela FBP, para
enquadrar a “academia” na legislação vigente que não permitia o uso do termo
Academia, bem como de Escola, em entidades esportivas, sugeri a substituição do
nome clássico para “Centro de Cultura Física”. Mais expressivo e abrangente,
complementado pelo atributo de “Regional Baiano”, alusivo à luta regional baiana.
O termo "academia" surge não apenas na capoeira, ele deu-se nas manifestações
corporais compreendidas como esporte e, também, em diversas artes marciais japonesas, que
se transmutaram de formas mais primitivas e mortíferas à maneiras compatíveis com as
modernizações decorridas na vida urbana, em que o Estado detém o monopólio da violência,
requerendo maior “polimento esportivo”. Este processo sucedeu com o judô, de Jigoro Kano,
e o caratê, de Gichin Funakochi. O destino destas práticas foi a academia de lutas e a
universidade, em seu cuidado com a Educação Física (SODRÉ, 2002). Conforme Sodré
(2002, p. 59),
Mas também há o cuidado com a administração ritualística de força e violência, que
acompanham como fenômenos de estrutura todo movimento de aglutinação social.
Etimologicamente, as duas palavras se equivalem, com o sentido originário de poder
de transformação e realização [...].
Um emblema foi desenvolvido para representar a academia, baseado na estrela de
cinco pontas de Salomão, personagem bíblico conhecido como o mais sábio dos reis. O
símbolo conhecido como Cinco Salomão ficava disposto no interior de um círculo ou envolta
numa cruz.
O uso do escudo com um signo assemelha-se ao adotado por alguns esportes que
possuem um brasão em suas vestimentas para representá-los. A aproximação com os esportes,
inclusive no modo de vestir, mais uma vez pode ser explicado pela necessidade de angariar
legitimidade e reconhecimento. Sobre a vestimenta, Decaneo (1997, p. 45) esclarece:
[...] me acostumei a ver gravado pelos carroceiros na estrutura dos seus
veículos de carga, com a troca da estrela de cinco pontas pela de seis pontas,
para melhorar o efeito estético, acrescentando na área central, um pequeno
círculo contendo a letra R, abreviação de Regional.
Naquela ocasião desenhei vários modelos com molduras diferentes, bem
como símbolos e siglas, dos quais as mãos habilidosas de Da. Berenice,
minha Mãe Bena (então Rainha e Senhora da Casa de Bimba) confeccionou
os protótipos; modelos em tamanho natural, bordados em azul à mão, sobre
tecido branco; dentre os quais a escolha do Mestre, e dos alunos consultados,
recaiu, por unanimidade, no atual escudo.
A necessidade de imitar o comportamento dos grupos estabelecidos como forma de
romper a barreira emocional em relação à capoeira, bem como distanciá-la da percepção de
uma prática percebida como selvagem, para aproximá-la de gestos civilizados, foi uma
estratégia assumida por Mestre Bimba. Mas não só por ele, negros e mulatos adotaram
comportamento de imitação em relação a muitas das técnicas sociais utilizadas pelos
indivíduos brancos, na tentativa de ascender de status social (FERNANDES, 2008).
Outras práticas corporais também eram vivenciadas na academia, como o samba,
implantado através da sugestão de outro aluno mais antigo, Cisnando Lima, que acreditava ser
este de extrema relevância no aprendizado do movimento dos pés, necessário à compreensão
da ginga. A partir de então, o samba seria utilizado no preparo dos capoeiristas da academia.
A musicalidade também se manteve bastante presente na regional. Outros mestres, a
exemplo de Sinhorzinho, no Rio de Janeiro, valorizavam bastante a performance atlética e
propunha a retirada da música da capoeira, o que Mestre Bimba não fez. Muito pelo contrário,
ela manteve-se como uma forma de compor tanto a capoeira como o maculelê, o samba,
dentre outras, que eram realizadas na academia. Mestre Bimba chegou a participar de festivais
de ritmo, em um deles, o elogio a sua musicalidade veio do periódico Tribuna da Imprensa
(1956, s.p.), ao concluir que “houve o 'Festival' de ritmos e capoeiras. A música que
acompanhou demonstrações agradou mais que as brigas. Alguém sugeriu ao mestre Bimba
que procurasse Ari Barroso e Dorival Caymmi para que os três lançassem o moderno balé
baiano”.
“O berimbau impõe o ritmo à prática da capoeira... mudando-se o toque impõe-se a
mudança do estilo”. Esta fala de Decâneo (1997, p. 182) reflete a importância do berimbau
para a capoeira regional, além de evidenciar como este instrumento, melodicamente pobre, é
capaz de ditar a forma e os movimentos a serem realizados durante o jogo. O Correio
Brasiliense (1970, s.p.) destacou a importância da música para a capoeira. “[...] A música é
complemento dispensável, porém ela exerce inegável influência sobre o capoeirista, que age
com maior ou menor rapidez, conforme o estímulo das ondas sonoras”.
A biriba era a árvore selecionada para construir o berimbau. Depois de colhida ficava
alguns dias à sombra para secar e, posteriormente, eram dados os acabamentos finais. O
tamanho era medido em palmos, de 6 a 7 palmos, que correspondia a 1,5 m,
aproximadamente, e um diâmetro de 2,5 cm. Várias cabaças eram testadas até dar o som
ideal.
A estética do berimbau da Luta Regional diferenciava-se daquele confeccionado em
Angola. O primeiro era utilizado sem tinta, apenas com verniz, e o segundo era colorido.
Bimba acreditava que pintar o berimbau podia intervir na sonoridade. O costume de manter o
berimbau envernizado acabou se perpetuando entre muitos grupos de regional, que ainda
mantém o mesmo costume de Bimba.
A aprendizagem dos toques, neste instrumento, era um treino a parte no Centro de
Cultura Física. O aluno que quisesse ter acesso ao conhecimento do berimbau pagava outra
mensalidade, de igual valor aquela paga para treinar a capoeira com o Mestre. Muitos não
tinham condições, por isto optavam por não se inscrever no curso (DÓRIA, 2011).
A orquestra da regional, instalada na “boca da roda”, era composta pelos seguintes
instrumentos: um berimbau, dois pandeiros, acompanhados por palmas e nenhum atabaque.45
Conforme Sodré (2002), o berimbau aumenta a energia e “[...] o jogo, os corpos dos jogadores
e, eventualmente, a violência, são estrategicamente controlados pelo berimbau e levados a um
estado de relaxamento, que favorece a flexibilidade do corpo e a concentração mental [...]”.
Sobre as modificações na orquestra realizadas pela capoeira regional, o Correio Paulistano
(1950, p. 23) fez a seguinte observação:
[...] suas demonstrações eram acompanhadas por uma orquestra de músicos
africanos denominados “agogôs” (na Bahia), composta de “berimbau”, “ganzá” e
pandeiro. É necessário não confundir o berimbau de capoeira com um outro
instrumento de sopro. O “berimbau de capoeira” é um grande arco, instrumento
45
Atabaque é um instrumento de percussão afro-brasileiro. Pode-se defini-lo como um tambor cilíndrico, com
formato cônico, que possui em sua extremidade mais larga uma pele de animal, de onde se propaga o som.
usado exclusivamente para acompanhar a luta nacional por excelência. O “ganzá” é
uma caixa de folha de flandres, munido de cabo e com seixinhos, a qual, produzindo
som quando agitada, serve de instrumento musical. Hoje, usa-se apenas o
“berimbau” nas lições de capoeira do Mestre Bimba.
Segundo Decanio (1997), a priori, não havia nada estabelecido, apenas um limite
máximo ou mínimo de instrumentos na roda, e quem o definia era Mestre Bimba, sempre
preocupado com “[...] a pureza do “ritmo da Regional”, mais rápido, mais quente e mais
forte”. No entanto, no período de elaboração do anteprojeto de regulamentação da Capoeira
para a Federação Baiana de Pugilismo, foi adotada a seguinte formação: um berimbau e dois
pandeiros.
Bimba acreditava que um bom capoeirista deveria sentir a marcação do pandeiro e
observar o toque, o significado e o ritmo (CAMPOS, 2009). No que se refere aos toques de
berimbau, a capoeira criada por Mestre Bimba estabelece os seguintes: São Bento Grande,
Santa Maria, Banguela, Cavalaria, Iúna, Idalina, Amazonas. Conforme Campos (2001, p. 62),
[...] A rigor, cada toque tem um significado e representa um estilo de jogo: São
Bento Grande é um toque que tem ritmo agressivo, indica um jogo alto, rápido, com
golpes aprimorados e bem objetivos, um “jogo duro”; Banguela é um toque que
chama para um jogo compassado, próximo, corpo a corpo, curtido, malicioso e
floreado; Cavalaria, um toque de aviso, chama a atenção dos capoeiristas de que
chegaram estranhos na roda; outrora avisava da aproximação de policiais; a Iúna,
um toque especial, imita o passo arisco da ave, interpreta seu saltitar miúdo à beira
da lagoa. Para os alunos formados por Mestre Bimba, um toque mágico, que incita
nos praticantes um jogo amistoso, curtido, malicioso e com a obrigatoriedade dos
golpes de projeção; Santa Maria é um toque simples que incita um jogo rápido e
solto, muito utilizado com o toque de São Bento Grande; Amazonas, toque de
criação do mestre contendo uma riqueza de variações melódicas; e Idalina é um
toque que suscita um jogo manhoso. Os toques de Amazonas e Idalina são toques
que se prestam bem para apresentações, devido à riqueza e à complexidade das
dobras.
No jogo eram cantadas as quadras, os corridos e os cantos. Os primeiros são versos
curtos usados para abrir uma roda, os segundos também são músicas curtas, com a finalidade
de motivar a roda; já os terceiros são cantos de entrada que contam histórias de louvação e
enaltecimento de praticantes.
Sobre o uso do berimbau, a Tribuna da Imprensa(1952, s. p.) fez suas observações:
O Berimbau é quem dita o jogo. Se toca “São Bento Grande” o jogo é ligeiro,
vistoso. Se o toque é “Benguala”, é “jogo de dentro”, com faca. Se é “Santa Maria”
é jogo de baixo, lento, em que os Camarados se enroscam como minhocas ao rez do
chão, sem juntas, caindo docemente, como se fossem de algodão. Se é “São Bento
Pequeno” a luta é quase um samba.
Dando sequência, o próximo tópico do trabalho prossegue evidenciando os principais
elementos presentes na metodologia de Mestre Bimba.
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
(páginas 169-173)