Capítulo II. Fundamentação Teórica
2.3. Onomástica
2.3.1. Antroponímia
2.3.1.6. O Nome próprio e seus significados: os contextos
O significado de um nome próprio é dado pelas circunstâncias ou pelas descrições que apresenta. As teorias que explicam as funções do nome, de acordo com Ferrari (2008, p. 33), podem ser divididas em dois grandes tipos: as descritivistas ou teorias clássicas da referência dos nomes próprios e as causais. Segundo o mesmo autor, as teorias dos nomes de tipo descritivistas afirmam a existência de uma relação de igualdade entre o nome próprio e a descrição definida, e a relação do nome com o objeto está mediada por uma descrição.
O poder do nome reside na força do seu significado, porque é ali que se busca a sua capacidade. O significado do nome, muitas vezes, depende da imitação que se faz da coisa ou
entidade que serve como modelo. O nome, por sua vez, deve ser definido como uma imitação e a imitação pode ser bem ou mal feita.
Um nome pode ser bem ou mal atribuído, isto é, quando o nome é mal atribuído ou imitado não apresenta semelhanças entre o nome e a coisa imitada. A não adequação do nome e da coisa imitada pode fazer com que a coisa imitada se sinta mal representada, como também mal interpretada. Em Crátilo descreve-se o nome como uma exibição da coisa por meio de sílabas ou letras e, ainda, se afirma que a distinção entre os nomes bem e mal instituídos reside na adequação das letras que os constituem (Platão, 2001, p. 24). Os nomes bem atribuídos são semelhantes às coisas.
Se um nome atribuído a uma coisa e esta coisa não mostrar os seus efeitos, então, o nome deve ser substituído para se adequar à coisa (Dulley, 2015, p. 166). Não deve haver distinção entre o nome e a coisa nomeada. Logo, espera-se que a pessoa nomeada tenha qualidades desejadas pela família, embora nem sempre se obtém essas concordâncias ou mesmo coerência, mas é este o caminho que muitas famílias utilizam para nomear ou atribuir nomes aos seus filhos. Pode observar-se que dentre os nomes atribuídos, os significados, ou seja, os melhores significados são aqueles que surgem, normalmente, de atribuição de nomes dentro de um contexto. Isto significa que, o momento em que a criança nasce é determinante e joga um papel muito forte para se atribuir um nome à criança. Por esta razão, hoje em dia, temos nomes como Márcio (por ter nascido no mês de março); Fazenda (por ter nascido numa fazenda); Alegria (por ter nascido num dia de festa ou de muita alegria); Domingos (por ter nascido no domingo), etc.
Os nomes próprios em Angola, muitas vezes, são atribuídos de acordo com cada situação ou contexto, conforme referimos muitas vezes ao longo do trabalho, e pode ser determinada de acordo com as necessidades sociais ou o papel social dos pais que também pode influenciar fortemente na escolha do nome. Os pais, quando pensam em atribuir um certo nome ao filho ou à filha, antes ou depois de a criança vir ao mundo, pretendem sempre relacioná-lo a um evento, uma situação de alegria ou mesmo, em certos casos, tentam relacioná-lo com os momentos tristes. Vasconcellos (1928, p. 23), no seu estudo antroponímico, faz uma abordagem clara sobre o dito anteriormente de seguinte modo:
Em todo o caso convém observar que os nomes pessoais nascem, em regra, de expressões da língua comum, isto é, ou de palavras simples, de derivados e de compostos, ou de frases: e referem-se em seus primórdios, conforme as línguas, a coisas e fenómenos da Natureza, ao tempo (como duração), à geografia, a qualidades físicas e morais dos indivíduos, a circunstâncias, necessidades e ocupações da vida
ordinária, à religião ou à magia, à guerra, a domínio (em todo o sentido), a estados sociais, etc. (Vasconcellos, 1928, p. 23)
Na cultura dos bakongo25, o nome próprio “Yamba” é atribuído a crianças, maioritariamente femininas, quando nascem no momento em que a família está numa infelicidade de perda de um dos membros na família (situação de óbito). A esta criança, como referimos anteriormente, dá-se o nome de “Yamba” que quer dizer tristeza, infeliz ou infelicidade. O nome em causa, neste âmbito, representa uma infelicidade. Como esta, existem muitas outras situações, mas também há nomes atribuídos em momento de felicidade como, por exemplo, o caso do nome “Matondo” que quer dizer “agradecimento”. Este nome é atribuído quando uma família pretende agradecer a Deus por lhe ter dado mais um membro ou, se calhar, o filho desejado, isto é, quando nasce, a família suplica “Matondo Kwanzambi”, tendo o mesmo significado dito anteriormente, “agradecimento” ou mesmo “graças a Deus26”, ou
ainda, “agradecemos a Deus”.
Os exemplos representados pelos nomes “Yamba” e “Matondo” enquadram-se nos fatores ou contextos culturais ou ainda tradicionais, pois, cada cultura tem a sua maneira de fazer as coisas, como também de as perceber. Quando se pensa em atribuir nome a alguém por homenagem27, isto é, homenagear alguém porque representa para esta ou aquela família um orgulho, pensa-se diretamente nos feitos e qualidades que esta pessoa possui e podem ser benéficas à pessoa nomeada. Isto significa que, ao atribuir este nome por homenagem, não se pensa, em princípio, na origem e significado do nome do homenageado e nem no significado que possa ter, muito menos como foi aplicado desde o seu surgimento, mas pensa-se nas qualidades do homenageado. Por conseguinte, o significado será aquilo que a pessoa homenageada representa para aquela família. O contexto em causa é familiar ou social, pois, o relacionamento existente no seio familiar ou social condiciona toda a situação.