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O NOTÁRIO E A UNIÃO INTERNACIONAL DO NOTARIADO

No documento PÁGINA DE REGISTRO DE APOIO E FOMENTO (páginas 27-30)

Notário, ou tabelião, é o profissional do Direito, dotado de fé pública, a quem é delegado o exercício da atividade notarial.17 Na definição de Brandelli, “o notário é um agente público delegado que desempenha uma função pública em caráter privado, não havendo subordinação nem hierarquia em relação ao Estado”. Complementa o autor que há, neste caso, uma fiscalização do Estado-delegante para garantir a boa prestação da função delegada, possuindo os notários, entretanto, independência funcional.18

O notário desempenha um mister jurídico, privativo dos que têm formação jurídica, assim como o juiz, o promotor de justiça e o advogado. Por exceção e previsão legal, também podem exercer a função de notário aqueles que, tendo mais de 10 anos de exercício em serventia notarial, forem aprovados em concurso público de provas e títulos.19

Por meio de delegação recebida do Poder Estatal, os notários são “[...] particulares que com o exercício das atividades inerentes a tais funções colaboram com a administração pública, desempenhando funções que caberiam ao Estado”.20

O tabelião, perante a sociedade, tem uma função que o direito lhe impõe. Ao realizar essa função, é que pratica o ato notarial cuja natureza é pública, regrada pelos princípios de direito administrativo do gênero, porém, de direito notarial propriamente. Por outras palavras, o tabelião pratica atos peculiares ao ofício público que exerce, regrados por normas jurídicas próprias, subsidiado por outras de direito administrativo.21

Gaiger Ferreira22 pondera a respeito dos planos de atuação, ou planos de atenção do notário, todos de igual importância, acreditando que deve o notário, no exercício de sua função, observar igualmente as perspectivas do plano individual, do plano do Estado e do plano da sociedade – para que possa, ao enfrentar paradoxo entre eles, sopesá-los e definir qual dos planos merece ser privilegiado diante da situação fática.

17 BRASIL. Lei nº 8.935, de 18 de novembro de 1994. Lei dos notários e registradores. Artigo 3º. Notário, ou tabelião, e oficial de registro, ou registrador, são profissionais do direito, dotados de fé pública, a quem é delegado o exercício da atividade not arial e de registro. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8935.htm. Acesso em 01 dez. 2020

18 BRANDELLI, Leonardo. Teoria geral do direito notarial. 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p.83

19 BRANDELLI, Leonardo. Teoria geral do direito notarial, p.86

20 SANDER, Tatiane. Atividade notarial como função de justiça preventiva. São Leopoldo: Oikos, 2005, p.38.

21 SANDER, Tatiane. Atividade notarial como função de justiça preventiva, p. 39.

22 FERREIRA. Paulo Roberto Gaiger. O segredo profissional do notário no Brasil. In Revista de direito notarial. Ano 1. n, 1. Jul-Set/2009.

p. 27.

No plano individual, a atuação do notário deve voltar-se à segurança jurídica da vida privada, qualificando juridicamente a vontade das partes e elegendo o instrumento público adequado, após ouvir e investigar todos os aspectos envolvidos, orientando de forma imparcial sobre a consequência das decisões tomadas e dos negócios realizados.23

Em face do Estado, o notário é seu agente, por meio da dação da fé pública. Por ela, o Estado tem a certeza do fiel cumprimento das leis e dispõe de eficaz e responsável fiscal de tributos devidos e, assim, o atendimento notarial é, para o Estado, eficaz por seu aspecto jurídico e econômico. “A intervenção de um profissional do direito com plena especialização e foco no serviço que realiza evita nulidades e falsidades dos atos jurídicos privados, barateando a administração da justiça”.24

No plano da sociedade o notário colabora para a consecução e eficácia dos direitos de cada um e de todos, está a serviço da cidadania, do indivíduo integrado à sociedade de modo produtivo, operando atos jurídicos cuja eficácia gera riquezas que levam ao desenvolvimento global.

Como profissional imparcial, é imprescindível para a inclusão social, além de servir de repositório dos atos da vida privada, em uma sequência de momentos da vida que constituem e retratam a história do grupo social.25

Outro aspecto de fundamental importância no que se refere à atuação notarial diz respeito ao sistema jurídico no qual esteja inserido o ato ou instrumento notarial sendo que o Brasil adota o modelo de notariado do tipo latino, ou romano-germânico.

O sistema romano-germânico é o sistema jurídico mais disseminado no mundo, baseado no direito romano, tal como interpretado pelos glosadores a partir do século XI e sistematizado pelo fenômeno da codificação do direito, a partir do século XVIII. Pertencem à família romano-germânica os direitos de toda a América Latina, de toda a Europa continental, de quase toda a Ásia (exceto partes do Oriente Médio) e de cerca de metade da África.

Em diversos países de tradição romano-germânica, o direito é organizado em códigos, cujos exemplos principais são os códigos civis francês e alemão (Code Civil e Bürgerliches Gesetzbuch, respectivamente). É, portanto, típico deste sistema o caráter escrito do direito.

Outra característica dos direitos de tradição romano-germânica é a generalidade das normas jurídicas, que são aplicadas pelos juízes aos casos concretos. Difere, portanto, do sistema jurídico anglo-saxão (Common law), que infere normas gerais a partir de decisões judiciais proferidas a

23 FERREIRA. Paulo Roberto Gaiger. O segredo profissional do notário no Brasil, p. 86.

24 FERREIRA. Paulo Roberto Gaiger. O segredo profissional do notário no Brasil, p. 29.

25 FERREIRA. Paulo Roberto Gaiger. O segredo profissional do notário no Brasil, p. 29.

respeito de casos individuais.

O notariado do tipo latino, de tradição romano-germânica, tem se expandido gradualmente, abrangendo hoje países em quatro continentes, além de algumas cidades dos Estados Unidos e Reino Unido, atingindo, por estimativas da União Internacional do Notariado26, mais de 3.000.000 de pessoas, ou seja, mais da metade da população mundial vive sob esse sistema, incluindo países que decidiram adotá-lo mesmo sem pertencer à tradição jurídica romano-germânica, como o Japão e a China.

A União Internacional do Notariado é uma organização não governamental que se destina a promover, coordenar e desenvolver a função e as atividades dos notários em todo o mundo.27 Sua atuação tem por finalidades, entre outras, colaborar no plano internacional com a harmonização das legislações notariais nacionais, estabelecer e promover relações com outras organizações do sistema de direito continental a fim de colaborar em âmbitos de interesse comum28. São seus objetivos: 1) apoiar ações de interesse social, entre elas a criação de um titulo seguro simplificado de propriedade acessível aos desfavorecidos e também evitar que a ausência de registro de nascimento das crianças em zonas rurais as privem de seus direitos elementares; 2) estreitar laços de participação com as organizações internacionais como o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas, Organização Internacional do Direito ao Desenvolvimento, entre outras; 3) Favorecer a circulação das escrituras notariais que incrementam o caráter transfronteiriço dos efeitos contratuais; 3) desenvolver uma rede mundial do notariado; e 4) fortalecer a formação profissional dos notários.

Por abranger e regular a atividade notarial com princípios comuns em todos os 83 países membros pode ser considerada como uma forma de governança transnacional na medida em que promove a harmonização de legislações diversas sob o manto de princípios que constituem a essência da instituição notarial e que por meio de seus instrumentos públicos efetivam e regulam relações privadas que geram efeitos transnacionais.

Tal raciocínio encontra substrato nos objetivos acima elencados que se desenvolvem concretamente por meio da organização em uma atuação efetiva e direta e que, por seus próprios

26 UNIÓN INTERNACIONAL DEL NOTARIADO. Disponível em: https://www.uinl.org/c/document_library/get_file?uuid=a297bc59-e5c1-4e1b-b807-8220670305ff&groupId=20181. Acesso em 01 dez. 2020

27 UNIÓN INTERNACIONAL DEL NOTARIADO. Disponível em: https://www.uinl.org/c/document_library/get_file?uuid=a297bc59-e5c1-4e1b-b807-8220670305ff&groupId=20181. Acesso em 01 dez. 2020.

28 UNIÓN INTERNACIONAL DEL NOTARIADO. Disponível em: https://www.uinl.org/c/document_library/get_file?uuid=a297bc59-e5c1-4e1b-b807-8220670305ff&groupId=20181. Acesso em 01 dez. 2020.

fundamentos revela características de transnacionalidade antes expostas, pois “ocorrem de forma recorrente para além das fronteiras nacionais e requerem um compromisso regular e significativo de todos os participantes.”29

Ressalte-se, ainda que a União Internacional do Notariado adota desde 2013 um “Acto Uniforme”30 de Deontologia Notarial e Regras gerais de Organização dos Notários, integrando princípios que têm sido estudados e disseminados por mais de 60 anos pela organização e que incorporam as questões que têm impactado a realidade social relacionadas à ação do notário na ecologia, informática, lavagem de dinheiro, proteção de dados pessoais, cultura da legalidade e a sua dimensão social.

Por outro lado, também a atuação notarial individualmente considerada e concreta pode ser caracterizada como transnacional diante da exigência de conexões e desconexões que a globalização produz.

No documento PÁGINA DE REGISTRO DE APOIO E FOMENTO (páginas 27-30)

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