3 ANDY WARHOL
3.1 O WARHOL FILÓSOFO DE DANTO
3.1.4 O novo artista
Warhol se tornou um ícone na década de 1960. Em 1980 ele afirma que, se ele tivesse morrido dez anos antes, ele teria se tornado uma figura de culto (HACKETT; WARHOL, 2006, p. 3) — o que de fato ocorreu depois de sua morte em 1987. Ele se tornou uma celebridade e suas exposições começaram a ter multidões de pessoas para ver mais o artista do que necessariamente suas obras, comoção que, naquela época, era típica com ídolos do gênero musical, como os Beatles (DANTO, 2012, p. 25). Na retrospectiva de Andy Warhol na Filadélfia, tantas pessoas foram ver Andy e Edie Sedgwick que eles tiveram que retirar os 151
quadros da parede para evitar que eles fossem amassados (HACKETT; WARHOL, 2006, p.
“Nesse quadro, de longe a mais monumental das Marilyns sozinhas, seu rosto, um minúsculo retângulo
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isolado em um enorme campo abstrato de ouro mosqueado, é ao mesmo tempo a deusa do sexo instantaneamente reconhecível da tela em preto e branco e sua memória canonizada” [Tradução livre].
“It was Henry who gave me the idea to start the Death and Disaster series. We were having lunch one day in
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the summer at Serendipity on East 60th Street and he laid the Daily News out on the table. The headline was “129 DIE IN JET.” And that’s what started me on the death series—the Car Crashes, the Disasters, the Electric Chairs….” (HACKETT; WARHOL, 2006, p. 21). “Foi Henry que me deu a ideia de começar a série Morte e Desastre. Nós estávamos almoçando um dia no verão no Serendipity na East 60th Street e ele colocou o jornal Daily News na mesa. A manchete era ‘129 MORREM EM AVIÃO’. E foi isso que me fez começar a série de mortes — os Acidentes de Carro, os Desastres, as Cadeiras Elétricas…” [Tradução livre].
Socialite amiga de Warhol.
166). Warhol observou que a exposição era ele e Eddie . E Andy adorou: “It was fabulous: 152
an art opening with no art!” (HACKETT; WARHOL, 2006, p. 166) . Andy e Edie 153
precisaram ser retirados pelas portas dos fundos para escapar da multidão. Mais do que seu sucesso, ele foi além do que outros artistas célebres foram, indo além do limite das artes:
Ele se tornou um artista para pessoas que sabiam muito pouco sobre arte. Warhol representava uma forma ideal de vida que tocava o mundo delas em muitos pontos. Ele encarnava uma concepção de vida que abraçava os valores da era em que ainda vivemos. Sob certos aspectos, Warhol criou uma imagem icônica do que a vida é. Nenhum outro artista chegou perto disso (DANTO, 2012, p. 24)
Houve o rompimento entre arte culta e arte popular no início da década de 1960, 154
como uma maneira de diminuir a distância entre arte e vida (DANTO, 2012, p. 27), um projeto que era explorado por diversos artistas da época . Warhol foi além deles ao juntar 155
sua vida com a sua arte:
O seu trabalho e a sua vida eram o mesmo porque ele transformou a sua vida na imagem da vida do artista, e foi capaz de unir as imagens que com- punham a substância da arte. Diferente de Duchamp, Warhol procurou traçar uma ressonância não tanto entre a arte e os objetos reais quanto entre a arte e as imagens (DANTO, 2004, p. 113).
“I wondered what it was that had made all those people scream. I’d seen kids scream over Elvis and the
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Beatles and the Stone —rock idols and movie stars — but it was incredible to think of it happening at an art opening. Even a Pop Art opening. But then, we weren’t just at the art exhibit — we were the art exhibit, we were the art incarnate and the sixties were really about people, not about what they did […]” (HACKETT; WARHOL, 2006, p. 168). “Eu me perguntava o que era que fazia todas aquelas pessoas gritar. Eu tinha visto jovens gritarem por Elvis, pelos Beatles e pelos Rolling Stone — ídolos do rock e estrelas de cinema —, mas era incrível pensar isso acontecendo em uma abertura de exposição de arte. Mesmo em uma abertura de pop art. Mas então, nós não estávamos apenas na exposição de arte — nós éramos a exposição de arte, nós éramos a arte encarnada e os anos sessenta eram realmente sobre pessoas, não sobre o que elas faziam” [Tradução livre].
“Foi fabuloso: uma abertura de exposição de arte sem arte!” [Tradução livre].
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A teoria de Danto é que esse tipo de mudança cultural profunda ocorria primeiramente na arte (DANTO,
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2012, p. 27).
“A Pop arte recusava-se a apoiar a distinção entre artes plásticas e arte comercial, ou entre alta e baixa arte.
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Os minimalistas fizeram arte a partir de materiais industriais – compensado, vidro laminado, secções de casas pré-fabricadas. Realistas como George Segal e Claes Oldenberg se estimulavam com o extraordinário que o ordinário pode ser: nada que um artista pudesse fazer carregava significados mais profundos que aqueles invocados por vestimentas diárias, fast food, pedaços de carros, sinais de trânsito. Cada um desses esforços visava trazer a arte à realidade, transfigurando, por meio da consciência estética, o que todos já conhecem” (DANTO, 2008, p. 24).
Warhol assim, transformou profundamente o papel do artista , com sua intuição 156
filosófica e com sua persona artística. Ao declarar que era suficiente olhar para a superfície de seus quadros para entender quem era Andy Warhol , o artista “estava rejeitando essa 157
concepção romântica da alma do artista” (DANTO, 2012, p. 30). A carreira de Warhol foi bem diferente dos artistas contemporâneos a ele , pois: 158
Mais do que qualquer outro artista de igual importância, Andy intuiu de tal forma grandes mudanças que caracterizaram os anos 60 e contribuiu para modelar a época em que viveu, que sua arte foi ao mesmo tempo parte integral dessa época e a transcendeu. Ele inventou, por assim dizer, um estilo de vida inteiramente novo para um artista, um modo de viver que incluía música, moda, sexo, uma linguagem própria, cinema, drogas e… arte. Muito além disso, ele mudou o próprio conceito de arte; seu trabalho inspirou uma transformação tão profunda da filosofia da arte que se tornou impossível pensar a arte como se fazia poucos anos antes de Warhol aparecer. Pode-se dizer que ele foi o motivo de uma profunda discontinuidade na história da arte ao eliminar da concepção usual artística a maior parte do que todo mundo julgava pertencer à essência dela (DANTO, 2012, p. 73-74).