Lacan, no Seminário, livro 10: a angústia (1962-63), logo no início, ressalta um ponto relevante para o desenvolvimento deste Seminário. Considera que o aparecimento de um sujeito só é possível a partir da incidência primária de um significante, denominado por ele como traço unário. Se há algo anterior a tudo, Lacan nomeia como presença do Outro (LACAN, 2005, p. 31).
Neste Seminário Lacan insere uma nova idéia, coloca o Outro como barrado, como faltoso. Ponto que já lhe servirá de base para a formulação no Seminário 16 acerca da inconsistência do Outro. O Outro como faltoso é determinante para a constituição do sujeito, de modo que é a partir do que falta ao Outro e do que não sabe, que o sujeito é impelido a avaliar sobre si mesmo, o que lhe falta, para tentar encontrar o objeto de seu desejo. Visto isto, Lacan postula que não há como ter acesso ao desejo a não ser vinculando-se ao Outro, expressando aí “a dependência necessária do sujeito em relação ao Outro como tal” (LACAN, 2005, p. 33) – frase correlata ao axioma já considerado desde o Seminário, livro 5: as
formações do inconsciente (1957-58): “todo desejo é desejo do Outro”.
Veremos que muitos pontos que Lacan circunscreve no Seminário, livro 10: a
angústia (1962-63) são desdobramentos do que começara a desenvolver no Seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-58) e em seu escrito “Subversão do sujeito e a
dialética do desejo no inconsciente freudiano” (1960), em que apresenta suas considerações teóricas a respeito do grafo do desejo, trabalhado nesta dissertação no item 2.4..
Lacan então afirma que o objeto a é um “objeto afetado pelo desejo” (LACAN, 2005, p. 35), a saber, um objeto causado pelo desejo. É a existência do inconsciente que delimita a posição do objeto marcado pelo desejo. É um objeto que deseja, no entanto, um desejo finito, uma vez que o sujeito do inconsciente é marcado pela finitude em sua própria falta. E esta “falta, que sempre participa de algum vazio, pode ser preenchida de várias maneiras”.
Neste sentido, Lacan ressalta sobre a falsa infinitude deste preenchimento, ao afirmar que o objeto que vem a preencher este vazio deve ser correlato da fantasia do sujeito, redutível ao resto da operação significante. E para elucidar esta afirmativa, Lacan fez o seguinte esboço que chamou de primeiro esquema da divisão (LACAN, 2005, p. 36).
A S ∃ %
a
No começo só se encontra o A e um sujeito a advir. A partir da constatação da falta do Outro, o sujeito se constitui como dividido; contudo, da operação significante sobra um resto, o objeto a. É do lado do Outro que se encontra o sujeito dividido e o objeto a, constitutivos da fantasia do sujeito: “a fantasia, esteio do meu desejo, está inteiramente do lado do Outro” (LACAN, 2005, p. 36), ao passo que do lado do sujeito, o que se encontra é seu o inconsciente, o Outro que ele não atinge.
Com o intuito de desenvolver a relação especular e a relação com o Outro, Lacan se vale do esquema óptico para relembrar que a função do investimento especular situa-se no interior da dialética do narcisismo. Ele traz de volta o esquema para ressaltar que “nem todo investimento libidinal passa pela imagem especular” (LACAN, 2005, p. 49). Da operação especular sobra um resto, pivô desta dialética, correlato do falo. Portanto, o falo, na medida em que não é representado no nível imaginário, apresenta-se sob a forma de uma falta.
A imagem i’(a) é caracterizada por uma falta, ela é faliciosa. Do mesmo modo, orienta e polariza o desejo. O desejo está relacionado a uma ausência. Essa ausência destaca a possibilidade de uma presença, uma presença que aparece em outro lugar, mas que é inapreensível para o sujeito (LACAN, 2005, p. 55). “A presença em questão é a do a, o objeto na função que ele exerce na fantasia”, no entanto, “o a, como suporte do desejo na fantasia, não é visível naquilo que constitui para o homem a imagem de seu desejo” (LACAN, 2005, p. 51). Deste modo, quanto mais o homem se aproxima, mais ele é desviado e afastado de seu desejo.
Lacan na extensão do Seminário, livro 10: a angústia (1962-63) formula a idéia de que a angústia não é sem objeto e que ela emergirá quando a falta vem a faltar (LACAN, 2005, p. 52). O autor concebe a angústia em um nível duplicado, “por ser a falta de apoio dada pela falta” (LACAN, 2005, p. 64). Neste sentido, o neurótico se serve da fantasia para se defender da angústia. Por outro lado, Lacan considera que o objeto a que o neurótico adota para a sua fantasia “cai-lhe quase tão mal quanto polainas num coelho” (LACAN, 2005, p. 60). Por este motivo, o neurótico nunca avança muito com sua fantasia. Contudo, é exatamente por se tratar de um a postiço que o neurótico consegue defender-se de sua angústia (LACAN, 2005, p. 61) .Visto isto, Lacan postula sobre o que engana e o que não engana, a saber: o significante e a angústia. Formulação que fornece subsídios para delinear a angústia como intermediária entre o gozo e o desejo, bem como atestar o objeto perdido como a falta radical para constituição do sujeito.
O significante é o que representa um sujeito para outro significante. O significante é um traço apagado, diferente do signo que representa alguma coisa para alguém (LACAN, 2005, p. 73). Lacan afirma que o sujeito se presentifica a partir de um traço falso. Por meio de um significante, de um traço feito para ser falso, há a emergência de um sujeito falante, um sujeito como causa. O sujeito nasce onde há a causa, a causa como um vazio. Resta para o sujeito se posicionar no lugar do Outro numa cadeia de significantes como única saída possível para transformar o traço em significante (LACAN, 2005, p. 75).
a A
∃
É no intervalo de a com A que o sujeito emerge. Há o nascimento de um significante, no entanto, como barrado, como não sabido. Todo movimento seguinte do sujeito estará pautado numa tentativa de restituição desse não sabido original . Deste modo, Lacan constata que a angústia está intrinsecamente relacionada com o objeto perdido (p. 74), bem como pontua que o significante instituído por meio de um traço falso, tem como característica principal sua possibilidade de enganar (LACAN, 2005, p. 87).
É em relação ao objeto perdido que incide a falta radical para a constituição do sujeito. Do mesmo modo, Lacan revela que quando algo chega ao saber, alguma coisa se perde, afirmando que: “a maneira mais segura de abordar esse algo perdido é concebê-la como um pedaço do corpo”, uma libra de carne (LACAN, 2005, p. 149).
No tocante à busca do objeto perdido, o autor emprega a banda de Moebius com a imagem de um inseto andando pela superfície da banda tentando alcançar o avesso de sua superfície. Contudo, trata-se de uma banda de uma face, em que o inseto está impossibilitado de chegar onde deseja por faltar uma pecinha que Lacan diz que é o próprio a. Esta falta denota a falta radical do sujeito: a “falta que o símbolo não supre” (LACAN, 2005, p. 152). Assim, “no próprio esforço de contorná-lo só fazemos desenhar mais o seu contorno, e que, à medida mesma que nos aproximamos dele, somos sempre tentados a esquecê-lo, em função da própria estrutura representada por essa falta” (LACAN, 2005, p. 150).
Lacan insere a concepção de significante num terreno em que o engano ganha a sua marca, de modo contrário, no tocante à angústia, mediante uma irredutibilidade do real, a angústia como sinal é aquilo que não engana (LACAN, 2005, p. 178). A angústia é da ordem da certeza (p. 88).