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3. A AÇÃO, ESSA VELHA, MAS NEM TANTO CONHECIDA,

3.5. O objeto (litigioso) do processo, a ação e o mérito

Ao julgar, o magistrado tem diante de si todas as alegações das partes, além das provas colhidas no processo. Toda essa matéria compõe o objeto de conhecimento do juiz, que deve ser por ele avaliado, com o fim de decidir o caso em julgamento (art. 131 do CPC).

Quando a doutrina faz alusão à expressão objeto do processo – também chamado de objeto litigioso do processo –, contudo, quer indicar conceito diferente. Trata-se de construção voltada a indicar os contornos mínimos de um caso em julgamento, de maneira a apontar quantos casos em julgamento existem, se o caso continua o mesmo ou foi alterado no curso do processo e, ainda, se o caso já foi julgado ou não.86 O objeto do processo é, assim, um fundamental parâmetro para a atuação do Poder Judiciário, pois atribui uniformidade, e, por consequência, previsibilidade e segurança, à atividade de aplicação do direito.

O termo objeto (litigioso) do processo é utilizado predominantemente na Alemanha, onde, ao contrário do que ocorre na Itália e no Brasil, a doutrina

85 Talvez alguns autores tenham dificuldade em continuar atribuindo à ação posição primordial no processo por não vislumbrarem sua composição pelos elementos partes, causa de pedir e pedido. Os três elementos são encarados como componentes de outra categoria, como a demanda, por exemplo. Voltaremos ao tema adiante. Note-se, contudo, que, ainda que os três elementos não formassem a ação, seria preciso dar destaque especial à categoria supostamente formada por estes elementos, dada sua enorme importância para a configuração de institutos capitais do processo.

86 “Uma definición del objeto litigioso debe probar su eficacia em las cuestiones decisivas del proceso. Debe ser adecuada para explicar simple y claramente cuándo hay más de un objeto litigioso, cuándo se modifica ese objeto y cuándo está fundada la excepción de litispendencia”

(SCHWAB, Karl Heinz. El objeto litigioso en el proceso civil, p. 249).

não é afeita a trabalhar o processo a partir da ação. Naquele país, o termo encontra referência inclusive no Código de Processo Civil nacional (ZPO), em que é equiparado à anspruch, a qual pode ser traduzida como pretensão processual.87

Historicamente, a doutrina alemã apresentou três versões para a pretensão processual: a pretensão foi definida ora como a afirmação de um direito material, ora como a causa de pedir (estado de coisas) e o pedido, e ora como o pedido, simplesmente.88

Karl Heinz Schwab, o jurista alemão que redigiu a obra mais conhecida sobre o assunto, pelo menos aos brasileiros – Der streitgegenstand in zivilprozess”89 –, foi um dos autores que definiu a pretensão processual como o pedido.90 Na visão do autor, o pedido, somente, definia o objeto do processo, embora a causa de pedir servisse para individualizá-lo em determinadas ocasiões: “Objeto litigioso es la petición de la resolución designada en la solicitud. Esa petición necesita sin embargo en todos los casos ser fundamentada por hechos. Aquí estriba una función sustancial del § 253 II 2 de la ZPO. Sólo em algunos pocos casos el estado de cosas expuesto com fines de fundamentación sirve para individualizar, pero nunca con la consecuencia de convertir el estado de cosas en elemento del objeto litigioso”.91

Cândido Dinamarco, que qualifica de decepcionante a conclusão de Schwab, menciona que a obra do jurista, redigida em 1954, foi o último trabalho de fôlego produzido a respeito do objeto do processo na doutrina alemã, e que, após isso, “os estudiosos entendiaram-se do tema do objeto do processo e não se conhecem escritos posteriores que hajam conduzido a resultados mais conclusivos”. 92

87 A respeito, cf. DINAMARCO, Cândido Rangel. Fundamentos do processo civil moderno, p.

213-214. Dinamarco destaca que a doutrina alemã apressa-se em esclarecer que a pretensão do ZPO não é a mesma do Código Civil alemão (BGB), pois é categoria do direito processual, ao contrário desta, que é do direito material.

88 Cf. DINAMARCO, Cândido Rangel. Fundamentos do processo civil moderno, p. 217.

89 Para a elaboração deste trabalho, foi consultada a tradução espanhola da obra, cujo título é El objeto litigioso en el proceso civil.

90 Embora reconhecendo que a posição majoritária entendia que a causa de pedir também formava o objeto do processo: “Debido a la posición especial que em nuestra opinión corresponde a la solicitud, nuestra teoria se diferencia de la opinión actualmente dominante para la qual el objeto litigioso consiste en solicitud y estado de cosas” (SCHWAB, Karl Heinz. El objeto litigioso en el proceso civil, Epílogo).

91 Idem, p. 251.

92 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil, v. 2, p. 185.

Parece-nos com muita clareza que o objeto do processo não pode ser apenas o pedido. Se o objetivo da construção teórica é estabelecer os contornos mínimos de um caso em julgamento, a simples apuração do pedido formulado é insuficiente para distinguir um caso em julgamento de outro. É possível imaginar muitos casos que, apesar de conterem o mesmo pedido formulado, são distintos entre si, por conta da diversidade de fundamento que os sustentam. Cobranças de dívidas de mesmo valor, por exemplo, apresentam pedidos idênticos, mas podem ser fruto de uma série de atos jurídicos distintos, o que as torna diferentes. Da mesma forma, tentativas de rescisão de um mesmo contrato serão diferentes se fundadas em inadimplementos distintos. Assim, a causa de pedir, além do pedido, também importa para a identificação de um caso em julgamento e, por conta disso, faz parte do objeto do processo.

A importância dos fatos para a identificação do caso em julgamento, aliás, não parece despercebida sequer por quem sustenta ser o pedido, simplesmente, o objeto do processo. Karl Schwab, por exemplo, e como visto, assentou em seu Der streitgegenstand in zivilprozess que a fundamentação, em determinados casos, serviria para individualizar o objeto do processo.93 Ora, se a fundamentação serve para individualizar o objeto do processo, determina-o, o que significa dizer que ela também o compõe. O simples emprego de outra palavra não altera a essência do fenômeno.

As partes também importam para a identificação do caso em julgamento, já que um direito ou um dever estão sempre vinculados a uma pessoa determinada.

A dificuldade em apontar o que compõe, efetivamente, o objeto do processo, que ainda hoje existe na doutrina, talvez esteja na defeituosa prática, infelizmente comum, de visualizar o processo civil apartado do direito material, como se aquele não servisse justamente à aplicação deste. Seja por imaginar

93 “Sólo cuando se peticiona la prestación [condena] o también la declaración de deudas em especie o de dinero, la solicitud por si sola resulta generalmente insuficiente para discernir si hay uno o más objetos litigiosos. En esos casos, la fundamentación jurídica sirve para individualizar las pretensiones procesales. Algo similar ocurre con la modificación de la demanda. También em su caso la solicitud determina generalmente por sí sola la identidad del objeto litigioso. Sólo es necesario recurrir a una fundamentación cuando aun después de modificado el estado de cosas se peticiona el mismo número de deudas en espécie o la misma suma de dinero” (SCHWAB, Karl Heinz. Obra citada, p. 250).

desnecessário pensar o processo civil a partir dos conceitos fundamentais do direito material, seja por desconhecer mesmo tais conceitos, deixa-se de explicar o fenômeno processual a partir do que ocorre fora e antes do processo, com prejuízo para a sua compreensão.

É preciso perceber, contudo, que no processo as coisas se passam assim: uma pessoa, acreditando ser titular de um direito e sentindo ter este direito lesado ou ameaçado de lesão por alguém, vai a juízo solicitar a adoção de uma providência pelo Poder Judiciário contra este sujeito. Para tanto, deve narrar ao magistrado, um terceiro que a princípio não conhece o que acontece entre as partes, por que é titular de um direito e como este direito foi lesado ou está sendo ameaçado de lesão, para que o Estado, constatando a veracidade das informações trazidas e caso seja necessário, possa agir em seu lugar para atuar forçadamente o direito descumprido ou ameaçado de descumprimento pelo réu.94

Ou seja, o autor deve permitir ao Poder Judiciário a visualização de uma ação que deseja seja adotada, e é esta ação que forma o objeto do processo – note-se que a identificação da ação dependerá da indicação das partes, da narração da causa de pedir e da dedução do pedido; partes, causa de pedir e pedido, assim, e não por acaso, são os três elementos da ação, conforme veremos melhor adiante. Caso o autor requeira ao Poder Judiciário mais de uma ação – o que dependerá da variação de um de seus elementos –, haverá tantos objetos do processo quantas forem as ações requeridas. A ação proposta, assim, é o objeto do processo.

Pode-se argumentar que a conclusão é particularizada – e, portanto, destituída de utilidade prática –, porque esta ação a que nos referimos não é a ação majoritariamente reconhecida pela doutrina nacional, mas, sim, a ação de direito material, entendida hoje como o exercício de um direito subjetivo independentemente da vontade ou do comportamento do devedor. De fato, a ação a que nos referimos é justamente a ação de direito material, cuja adoção defendemos acima.

É preciso observar, contudo, que ainda que se atribua os três elementos – partes, causa de pedir e pedido – a outra categoria, por se negar

94 Há exceção no caso de exercício de direitos potestativos, como veremos adiante.

validade ao conceito de ação de direito material, será impossível abrir mão dos elementos para compor o objeto do processo. Ainda que se diga que os três elementos são, por exemplo, da demanda, será preciso pensar o objeto do processo a partir deles.

Chiovenda, por exemplo, que, conforme suas clássicas lições, entendia que o processo servia à atuação da vontade da lei e que a ação nada mais era do que o poder jurídico de realizar a condição para atuação desta vontade, concebia o objeto do processo como a vontade concreta da lei cuja atuação é requerida95 mais a própria ação.

Em relação à ação, Chiovenda deixava claro que a operação de sua identificação levava em conta a ação vista em exercício. Como, em sua opinião, a ação se exercia por meio da demanda, Chiovenda, equiparava, então, a identificação da ação à identificação da demanda – embora preferisse falar em identificação da ação, dado que o problema teria origem na ação.96

Em qualquer dos casos, porém, Chiovenda não descuidava que a identificação das categorias era determinada pelos três elementos. “Toda ação resulta de três elementos, os quais se nos oferecem claramente, desde que se

95 “De quanto se assentou, resulta que objeto do processo é a vontade concreta da lei, cuja afirmação e atuação se reclama, assim como o próprio poder de reclamar-lhe a atenção, isto é, a ação.” (CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito Processual Civil, v. 1, p. 50).

Ainda que se ratificasse a teoria de Chiovenda a respeito da jurisdição e da ação, pensamos que a inclusão da vontade concreta da lei cuja atuação é requerida no objeto do processo seria discutível. Analise-se, por exemplo, o seguinte trecho da obra do autor: “Se uma relação jurídica simplesmente se deduz em juízo como título ou causa da vontade a ser atuada (supra, ns. 2, 5). Uma coisa, portanto, é que uma vontade de lei seja deduzida em juízo, outra é que forme objeto do processo” (Idem, ibidem).

O trecho indica que somente haveria outro objeto do processo se existisse uma outra reclamação de atuação da vontade da lei. Note-se, agora, que essa outra reclamação de atuação de vontade da lei parece ser justamente a dedução de outra causa de pedir e pedido.

O caso, assim, é certamente de pluralidade de objetos do processo, mas não pela existência de pluralidade de atuações de vontades da lei, mas, sim, pela existência de pluralidade de ações. Isso indicaria, a nosso ver, a possibilidade de pensar o objeto do processo apenas a partir da ação.

96 “Conhece-se por identificação das ações a operação por meio da qual se confrontam entre si várias ações com o fim de estabelecer se são idênticas ou diversas. E a doutrina da identificação propõe-se fornecer os critérios para semelhante operação. O problema encara as ações em seu exercício; e, pois que a ação se exerce com a demanda, identificação das ações significa identificação das demandas. Como, no entanto, os critérios para resolvê-los são extraídos da essência da ação, o assunto se enquadra neste lugar, tanto mais que a freqüência das ocasiões que o processo oferece para a aplicação desses critérios exige que sejam fixados em via geral” (Idem, p. 353).

analise a propositura de uma demanda judicial, conforme a tenha o autor formulado mais ou menos explicitamente; e essa análise é da máxima importância para a doutrina da identificação das ações e para todas as doutrinas que dela se desenvolvem (coisa julgada, litispendência, novidade da demanda, poderes do juiz).”97 Da mesma obra: “Daí deriva esta primeira proposição: duas ações e duas demandas são idênticas quando têm de comum todos os três elementos. A diversidade de um só elemento acarreta diferença de ação.”98

A equiparação do objeto do processo à ação parece-nos perfeita porque, em primeiro lugar, representa justamente o que o conceito significa e, em segundo lugar, evita falar em duas ordens de categorias processuais autônomas, uma relacionada à ação e outra ao objeto do processo. Aliás, diante da identidade das categorias, indaga-se mesmo se não seria conveniente para o ensino e emprego do direito processual deixar de utilizar o termo objeto (litigioso) do processo, ou, ao menos, diminuir a ênfase atribuída a ele. Lembre-se que a expressão é utilizada predominantemente na Alemanha, onde a doutrina não costuma trabalhar o processo a partir da ação. No Brasil, onde a ação sempre ocupou posição de destaque, seja na doutrina, seja no próprio ordenamento processual, não há necessidade de que isso ocorra.

O que importa, sobretudo, é evitar que a utilização do termo traga confusão à compreensão do processo civil ao invés de facilitá-la. Cândido Dinamarco, inegavelmente e com méritos um dos maiores processualistas brasileiros, limita o objeto do processo, por exemplo, ao pedido, definindo-o como “a pretensão a um bem da vida, quando apresentada ao Estado-juiz em busca de reconhecimento ou satisfação”.99 Embora Dinamarco indique que é na capacidade de absorver pedidos e dar-lhes solução segundo o direito que se encontra a utilidade do processo,100o autor reconhece que o pedido, por si só, é insuficiente para definir outras categorias processuais, como chegou a sustentar a doutrina alemã. De modo que se indaga qual, afinal, seria a utilidade em trabalhar com esse conceito de objeto do processo, que não se confunde com a ação nem com a demanda, nem gera repercussão para outras

97 Idem, p. 31.

98 Idem, p. 354.

99 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil, v. 2, p. 180.

100 Idem, p. 184.

categorias processuais. Indaga-se, aliás, por que utilizar a expressão objeto do processo, ao invés de fazer menção apenas ao pedido, já que os conceitos equiparar-se-iam.

Outro conceito em processo civil que não deveria ser apartado da ação proposta é o conceito de mérito. Há julgamento de mérito quando o juiz avalia se a ação proposta pelo autor deve ser realizada ou não. A ação será procedente, e deverá ser realizada pelo Poder Judiciário no lugar do autor, se constatada a existência de um direito descumprido ou ameaçado de descumprimento. De outro lado, a ação será improcedente, e o Poder Judiciário deverá declarar o fato, quando não constatar a existência de um direito descumprido ou ameaçado – seja porque o próprio direito não existe, seja porque, embora exista, não foi descumprido ou ameaçado. Em ambos os casos, porém, haverá julgamento de mérito.

Ao contrário, não haverá julgamento de mérito quando o juiz não avaliar se a ação proposta pelo autor deverá ser realizada ou não, seja por conta de questões processuais, seja pela própria impossibilidade de identificação de uma ação proposta.

A equiparação entre mérito e ação proposta pode ser confirmada por outro raciocínio: só haverá julgamento de mérito se tiverem sido indicadas as partes, a causa de pedir e o pedido, que formam o conteúdo mínimo de um julgamento que não se limita a questões processuais.