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O Objeto perdido

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1.8. O Desejo

1.8.3. O Objeto perdido

No senso comum, a palavra falta sugere a existência de algo que está ausente, mas que poderia estar presente, não fosse por alguma contingência. Para a psicanálise a palavra falta não indica para uma ausência contingente, mas para um aspecto central na condição do ser humano, que consiste na impossibilidade de completude e satisfação do desejo. Desta forma, a falta é de natureza estrutural e, como tal, estruturante da subjetividade. Nessa perspectiva pode-se falar de duas faltas. Lacan assim as caracteriza:

Duas faltas aqui se recobrem.Uma é da alçada do defeito central em torno do qual gira a dialética do advento do sujeito a seu próprio ser em relação ao Outro – pelo fato de que o sujeito depende do significante e de que o significante está primeiro no campo do Outro. Essa falta vem retomar a outra, que é a falta real, anterior, a situar no advento do vivo, quer dizer, na reprodução sexuada. A falta real é o que o vivo perde, de sua parte de vivo, ao se reproduzir pela via sexuada.91

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Por falta real caracteriza-se o aspecto de nascimento do ser humano que implica o corte do cordão umbilical, de forma que com esse corte, o que a criança perde não é a mãe, mas esta enquanto uma parte de si mesma. É essa primeira separação que caracterizará o ser humano como incompleto, lançando-o numa busca de objetos exteriores com os quais procurará preencher essa falta. O primeiro objeto a ocupar esse lugar de objeto substituto será o seio da mãe.

Na sua busca pelos objetos visados como capazes de restabelecer a completude, o ser humano é submetido ao significante, na medida em que suas necessidades são dirigidas a um Outro que as nomeará. Isso transforma necessidades em demandas, de forma que o objeto da pulsão se transformará em objeto do desejo. Em Freud, o desejo está associado às primeiras experiências de satisfação. A experiência do alívio de tensão proporcionado pela satisfação parcial da pulsão deixa traços de memória no psiquismo. Diante de novas tensões, num primeiro momento, o psiquismo da criança reproduz de forma alucinatória esses traços associados à experiência de satisfação. Quando o aparato psíquico já está constituído, a procura por um objeto adequado para satisfação da pulsão é guiada por esses traços de memória, (representações) ligados a um objeto recalcado, objeto da fantasia, e aponta para um vazio, para um objeto que já foi perdido. Este anseio, essa busca, é o que constitui e define o desejo, que visa sempre reencontrar as primeiras experiências de satisfação. Por isso, o desejo está intrinsecamente ligado a uma falta, que nenhum objeto pode suprir. Se o desejo é posto em causa por uma falta, por um vazio, Lacan pergunta: que objeto é esse que causa o desejo? Não no sentido de qual o objeto do desejo, mas de causalidade. Então Lacan responde com o que considera sua maior contribuição à psicanálise: o objeto a. Esse objeto é um nada, o vazio da diferença que se dá no encontro do desejo do sujeito com o desejo do Outro. É aquilo que fica disjunto do sujeito porque se perde.

Na construção do conceito de objeto a Lacan remete para uma descoberta feita por Freud ao observar um de seus netos. Freud observou que um menino, de um ano e meio, nos períodos de ausência da mãe fazia uma brincadeira repetitiva com um carretel. Este carretel estava amarrado a uma linha e era repetidamente jogado para longe de si e depois puxado de volta. Nesse processo o menino emitia o som “o-o- o” quando era jogado e o som “a-a-a” quando puxado de volta. Freud interpretou esses sons como significando “fort” e “da”, as palavras alemãs para “sai” e “volta” ou “aqui”, e, portanto, como uma forma de assimilar o desaparecimento e o retorno da mãe. Lacan reconhece nessa brincadeira um momento de constituição do sujeito através da simbolização primordial na qual se dá e se elabora a separação da mãe e da criança. Até então não havia essa distinção para a criança, de forma que a mãe que se ausentava era um pedaço arrancado da própria criança. Através da linguagem estabelece-se uma posição subjetiva que efetiva uma separação do sujeito com o Outro (mãe) e, além da separação, produz uma simbolização na qual o ‘fort – da’ realiza um duplo distanciamento: da mãe para o carretel, deste para a linguagem. Nessa operação de separação em que o sujeito é constituído ocorre sua alienação porque fica subordinado ao significante que o representa na cadeia significante sem que ele de fato lá figure, tornando-o sujeito evanescente; mas, nessa operação, também se produz um resto, aquilo do sujeito que se perde, não porque a mãe se ausenta, mas pelo processo de simbolização no qual produz-se uma substituição que impõe a ausência da coisa – a mãe.

Esta experiência demonstra como, pela linguagem, o simbólico exerce um domínio sobre o real. A simbolização ajuda suportar o real e, ao mesmo tempo, o engendra, pois se não houvesse o simbólico a separação não se efetivaria, também não haveria falta. Ao ingressar na linguagem, produtora da separação, o objeto fica estabelecido e ao mesmo tempo perdido. Antes não há falta nem objeto. Para recuperá- lo o sujeito só dispõe da linguagem. Em cada tentativa de reencont rar o objeto perdido – a coisa (Das Ding), pelo processo de simbolização, se evidenciará como mais faltante. Isso determina a lógica do desejo que, guiado pelos traços das primeiras

experiências de satisfação, quando encontra um objeto para ocupar o lugar do objeto perdido, só pode constatar que este é faltoso. Isso impõe a lógica do desejo que consiste em sempre afirmar que: ‘Isto não é aquilo’. Esse desencontro garante a permanência do desejo e a possibilidade do próprio sujeito que só se constitui com a separação e a perda do objeto, simultaneamente. Não há sujeito sem objeto perdido. O objeto a de Lacan é o furo, o vazio “[...] testemunha de das Ding como objeto perdido.”92 A mãe não é a coisa , mas ocupa o lugar desta. O desejo incestuoso é o desejo pela coisa; satisfazer esse desejo equivaleria a cessar toda demanda, pela qual o sujeito e o inconsciente se constituem. Pela metáfora paterna, que realiza a castração, o objeto perdido passa a ser vivido não como perdido, mas como proibido.

O objeto a é a elaboração lacaniana para o ‘Das Ding’, A Coisa, em Freud e Heidegger. Conforme GUIMARÃES, Lacan apóia-se nas considerações de M. Heidegger sobre o

vaso grego como metáfora da criação: o vaso construído pelo oleiro com suas próprias mãos em torno de um vazio central. Heidegger compreende a "coisa” como sendo o próprio vazio, criado, cercado, instalado pelo vaso no seu dado “positivo” material – exatamente como o objeto perdido, causa do desejo de Lacan. O vaso é assim uma criação material que ao ser configurado produz o vazio central, tal como o objeto a para Lacan é criado pelo significante, em torno do real. Em outras palavras, o vazio não seria o que já estava antes, mas o que só apareceria ao ser margeado, torneado. Uma coisa paradoxal, portanto, que coincide com sua própria falta, ou melhor, que não é senão enquanto faltante, logo, “impossível”.93

Nesse sentido, o real também só é a partir de sua articulação com os outros dois registros. O objeto a se constitui exatamente como o vazio central no ponto de entrelaçamento dos três registros.

As fantasias vão preencher esse lugar vazio e se fixar no objeto imaginarizado. As fantasias são, assim, uma retificação da realidade, viabilizando o cumprimento do

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GARCI-ROZA. Introdução à metapsicologia freudiana. Vol. 3 . p.154.

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desejo. As recordações fazem uma função de tela sobre as quais a fantasia é projetada, garantindo uma relação de continuidade entre o sujeito e o objeto perdido. Nesse sentido, a fantasia é o recurso para a criação de uma realidade, funcionando como uma matriz pela qual o sujeito regula sua relação com os outros humanos e com o mundo.

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