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O OCTAEDRO DE WITTGENSTEIN

No documento A Gramática das Cores em Wittgenstein (páginas 141-156)

Cor e Exclusão

O OCTAEDRO DE WITTGENSTEIN

A doutrina das cores é dita psicológica por dirigir-se a uma descrição direta da percepção, ao fenômeno cromático ele mesmo, sem dependência seja da produção da cor seja da condição subje- tiva de quem percebe. (Cf. Wittgenstein, 1994a, p. 24, MS 105; pp. 88-90.) Quando diz precisar de uma doutrina das cores psicológi- ca, o modelo que apresenta, sobre ser específico às cores, é sufici- ente para localizar um dado sensível segundo diversas coordena- das. O acréscimo “fenomenológica” explicitará então um retorno a essa perspectiva anterior ao “Some Remarks on Logical Form”, mas também, como veremos, uma enfática mudança de interesse: a direção gramatical a ser enfim investigada, não mais se confun- dindo gramática com a exata reprodução de um mundo percepti- vo, não mais sendo correlata de uma linguagem primária. Desse modo, a primeira exploração específica do espaço das cores vai coincidir com o deslocamento da atenção para os fatos gramaticais de nossa linguagem ordinária.

Wittgenstein dispunha, portanto, em 1929, de uma represen- tação suficientemente sofisticada do espaço das cores: um modelo cromático tridimensional. Tem consciência então de que há propri- edade internas específicas, de que uma cor se localiza segundo seus parentescos e sua relação ao preto e ao branco. O modelo a que Wittgenstein alude é provavelmente o da Farbenlehre psicológica de Ebbinghaus, se temos em conta o desenho, a descrição anterior e também uma referência a um dos traços característicos da herança

45 Desenho extraído do MS 105, in Wittgenstein, s. d., v. 7, p. 98. Wittgenstein mantém uma duradoura fidelidade a esse modelo, que destaca, em sua simplici- dade, o aspecto gramatical que lhe interessará enfim.

nativista de Hering, qual seja, o de haver pares cromáticos, inde- pendentes, separados na percepção em amarelo e azul, por um lado, e verde e vermelho, por outro. Por conta aliás dessa herança e um tanto perdido nesse seu incipiente retorno às coisas mesmas, Wittgenstein incorre momentaneamente no deslize clássico do nati- vismo de fazer derivar do fato empírico da cegueira para um dos pares a conseqüência de serem “diese Farbpaare logisch von einan- der unabhängig” (Wittgenstein, 1994a, p. 24; MS 105, p. 88).

O modelo serve-lhe, nesse momento, para uma localização da cor que breve dirá fenomenológica e enfim gramatical, sobres- saindo-se mais e mais pela vantagem de exibir o que reconhece- mos no imediato não causal da percepção cromática. Desse modo, uma vantagem desse modelo atrairá o favor de Wittgenstein: por recusar-se a ser uma métrica da cor e restringir-se ao fenômeno, ao efetivamente percebido, ele não padece de paradoxos típicos das representações estritamente contínuas, cindidas entre o visível e o possível, entre a limitada verdade da percepção e a ilimitada ver- dade da possibilidade da percepção, entre o limite de distinções que podem ser feitas e o fato de não vermos qualquer lacuna no campo visual. Há, pois, com esse desenho, anterior à redação do artigo, um pleno reconhecimento de um campo bem mais rico de relações internas, diante do qual “Some Remarks on Logical Form” seria realmente um recuo, não fosse uma opção.

Dissemos que o tema do artigo é a incompatibilidade ampla. Não nos deve bastar, porém, que o seja por acaso. Só nos interessa porque de algum modo presente e explícita a preocupação em dis- tingui-la dessas outras questões, específicas ao espaço das cores. Se não já conhecesse tal complexidade, sua autêntica opção não seria opção alguma. E tal preocupação se manifesta: (1) na remissão cons- tante a exemplos da física, fazendo o sistema cromático comparti- lhar problemas com toda linguagem que se envolva com gradações;

(2) no afastamento explícito de questões como a da complementari- dade, interiores a um Farbenraum. Isto é, o artigo não se limita à in- compatibilidade ampla por ignorância; ele, ao contrário, situa seu problema em um nível mais abstrato e descarta, também explicita- mente, parentescos outros além da simples condição da coloridade. Que uma cor tenha um toque amarelado, isso é interno em outro nível, pois o toque amarelado não é o amarelo. (Cf. Wittgen- stein, 1994a, p. 60; MS 106, p. 95.) Ser intermediária uma cor não é, nessa relação elementar, ser o produto lógico de outras cores; e uma cor amarelada não concede lugar algum para o amarelo. Este tom que enxergamos deve, portanto, encontrar outro modo de expressão, não podendo contrariar a exclusão enunciada. Não há cor fora de certas coordenadas; entretanto, a cor não é por isso o resultado de um produto lógico, nunca havendo mais de uma cor a ocupar o lugar da cor afirmada desse modo elementar. Assim, inanalisável o tom misto que múltiplas coordenadas localizam e números apresentam, do fato de a ser violeta (blaurot) jamais pode seguir-se que seja azul (blau), seguindo-se sempre que o não seja. (Cf. Wittgenstein, 1994a, p. 61; MS 106, p. 101.)

A condição elementar do enunciado espacial teria em conta apenas a incompatibilidade ampla.46 Considerando as característi-

cas do campo visual e sua saturação recíproca com as cores, qual a multiplicidade lógica da descrição do espaço por proposições em que se atribui uma cor a um intervalo? Quais as possibilidades mí- nimas de descrição que tal forma encerra? O primeiro pensamento aponta ser intolerável que estejam duas cores em um mesmo lugar. O pensamento seguinte é, porém, que poderiam estar apenas na condição composta “zu einer resultierenden Farbe” (Wittgenstein,

46 Isto resulta de uma explícita reflexão, cujo momento decisivo acreditamos expresso na anotação das páginas 71 e 73 do MS 106 (Wittgenstein, 1994a, p. 55), que comentamos a seguir.

1994a, p. 55; MS 106, p. 71), mas essa saída é recusada pelo exemplo limite das complementares: “Wie verhält es sich mit Komple- mentärfarben? Wie ergänzen sich rot und grün? Etwa zu schwarz? Aber sehe ich denn grün in der schwarzen Farbe?” (Wittgenstein, 1994a, p. 55; MS 106, p. 71.) A solução de resolver a incompatibili- dade na mistura choca-se com as complementares, com essas cores que juntas não produzem misturas significativas, isto é, misturas nas quais ainda possam ser reconhecidas.47 Mas o problema não é

sequer esse. Tal solução tampouco funcionaria com as cores mistas, pois incompatíveis, neste sentido, até mesmo diferentes graus do vermelho.48 Restrito ao impasse formulado no Tractatus 6.3751, o

nível em que o problema incomoda poderia abstrair de relações internas exclusivas do espaço das cores, pois, ao almejarem o mes- mo lugar, todas as cores são postas em pé de igualdade e todos os parentescos são suspensos.49

O mote para “Some Remarks on Logical Form” parece estar nessa extensa anotação das páginas 71 e 73 do MS 106. Com ela, Wittgenstein deliberou tentar resolver o problema da incompatibi- lidade em nível maior de abstração, inclusive por já reconhecer a

47 De uma mancha em que se conjugassem vermelho e verde, afirma: “(Merk- würdigerweise habe ich dann immer das Gefühl daß er schwarz ist)” (Wittgens- tein, 1994a, p. 56; MS 106, p. 77).

48 “Verschiedene Grade von rot sind mit einander unverträglich.” (Wittgen- stein, 1994a, p. 55; MS 106, p. 71.)

49 Aqui não se tem mais em linha de conta a possibilidade de a incompatibi- lidade resolver-se em uma cor resultante, porque se trata da percepção ela mesma e não da produção de tintas. Todo parentesco é suspenso; caso contrário, chegarí- amos no limite a afirmar a presença no visto de tons encobertos e invisíveis. “Hat es gar einen Sinn zu sagen eine vollkommen schwarze Fläche sei weiß man sähe nur das weiß nicht weil es von schwarz gedeckt sei?” (Wittgenstein, 1994a, p. 56; MS 106, p. 77.) Evidentemente, não. Afinal, por que o preto encobriria o branco, mas não o contrário? Se convivessem assim tons visíveis e invisíveis, sua presen- ça conjunta não seria afirmada no sentido que nesse caso nos interessa (Cf. Wittgenstein, 1994a, p. 56; MS 106, p. 79).

condição sui generis da gradação e o fracasso em analisá-la. O enunciado que atribui um dado grau de vermelho não pode ser analisado significativamente: “Es heißt auch nichts zu sagen daß ein Stab der 3 meter lang ist auch 2 m lang ist weil er 2 + 1 meter lang ist denn man kann nicht sagen er ist 2 m lang und er ist 1 m lang. Die Länge von 3 m lang ist etwas Neues.” (Wittgenstein, 1994a, p. 55; MS 106, p. 73.) É para essa novidade (dificilmente expressa pela linguagem ordinária, segundo julgava) que “Some Remarks on Logical Form” procura apontar,50 assumindo uma

feição própria o projeto de uma linguagem primária como modo de expressão das elementares.

Eis o ponto: haveria uma construção lógica no interior da proposição elementar “die nicht mit Hilfe der Wahrheitsfunktionen arbeitet”. Não podendo ser analisada, tal construção tem, entretan- to, “eine Wirkung auf das logische Folgen eines Satzes aus einem anderen”, pois segue-se dessa construção elementar (pela qual se atribui um certo grau, digamos, a uma mancha colorida) que ne- nhum outro grau pode estar presente; assim, “können zwei Elemen- tarsätze einander widersprechen!” (Wittgenstein, 1994a, p. 56; MS 106, p. 75.) A cláusula é interna e, entretanto, é elementar a proposi- ção — o que só pode estar associado à idéia de descrição completa: “Der Fleck ist grün beschreibt den Fleck vollständig und es ist für eine andere Farbe kein Platz mehr” (Wittgenstein, 1994a, p. 56; MS 106, p. 77). Como o que pode entrar em contradição são as proposi- ções e não as cores, isso não se mostra ainda em nossos sinais, mas precisa mostrar-se, caso lhes consideremos o símbolo: se este con- tém a forma dos objetos, deve exibir a impossibilidade da conjunção

50 Em páginas ímpares, da 71 até a 111, o manuscrito 106 recobre o texto de “Some Remarks on Logical Form” (Wittgenstein, 1994a, pp. 55-63).

na qual verde e vermelho preencheriam sozinhos, à exaustão, o mesmo espaço.51

Não se trata mais de qualquer designação em conjunto signi- ficativa. Todas as cores almejam o mesmo lugar. Não apenas pares quaisquer de cores que acaso se oponham. Cabe então descartar mesmo a mais óbvia possibilidade fenomênica, como a de ver o amarelo e o vermelho ambos no laranja. Não podemos afinal vê-los no mesmo lugar no sentido em que os vemos em separado, em lu- gares distintos. No sentido da incompatibilidade ampla aqui em questão, eles jamais se misturam, não podem ser vistos, ao mesmo tempo, como um misto fenomenal. Opera-se, pois, com as condições de constituição do espaço das cores e não com suas propriedades internas, que estabelecem quais as composições significativas: “Denn wenn ich hier gelb sehen will so muß das Rot von diesem Platz weg, und umgekehrt” (Wittgenstein, 1994a, p. 60; MS 106, p. 95). Que não possam estar em mesmo lugar ao mesmo tempo, é algo que decorre simplesmente de sua forma e da forma do espaço. E isso, que vale para todo campo da experiência que envolva grada- ção, vale em especial para esse elemento tríplice e continuamente determinado.

Wittgenstein distingue exclusão de contradição, mas sua tenta- tiva revela-se bem mais problemática do que, digamos, a da introdução do conceito de grandeza negativa em filosofia, pois a coexistência de predicados incompatíveis não seria cogitável nem representável, não se tratando de uma oposição real (como a resul- tante talvez de uma mistura), que nisso seria distinta de uma oposi-

51 “Der Widerspruch muß im Sinn der beiden Sätze liegen.” (Wittgenstein, 1994a, p. 57; MS 106, p. 81.)

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ção lógica. Mas, o que é a relação de exclusão? Que papel cumpre, a ponto de ser necessário conceder-lhe um estatuto próprio e diferen- ciá-la da contradição, caracterizando-a talvez pela assimetria na qual a proposição afirmativa diria mais que sua negação? (Cf. Witt- genstein, 1994b, p. 160; MS 106, p. 55.)

A exclusão envolveria necessidade sendo, contudo, a posteri- ori, na medida em que supõe quando menos o estabelecimento de um sistema relativo ele próprio ao mundo e não apenas às condi- ções mesmas de afiguração. A exclusão só poderia ser determina- da ou reconhecida mediante incursão empírica, ou seja, mediante prévia decisão acerca de que constantes podem substituir com sentido uma dada variável (à diferença de outras com as quais compartilhariam semelhanças sintáticas superficiais). Mas uma necessidade a posteriori parece tão problemática quanto uma sínte- se a priori, que Wittgenstein afirma absurda. O mistério real está em como se inventa tal necessidade e mesmo talvez em como se inventa qualquer necessidade — e a obra futura talvez apague as razões terminantes que então permitiam distinguir por completo contradição e exclusão.

A dificuldade de “Some Remarks on Logical Form” é clara: apresentar como necessária uma construção que depende para tanto da supressão de uma das condições de verdade, ou seja, de uma interdição empírica e não formalizável.52 Uma linha da tabela

ser toda riscada importa em decidir ao nível das condições de ver- dade, mas tão-somente em função da experiência, pois restringi- mos a possibilidade da formação do produto lógico de proposi- ções, de sorte que não tenham o sentido conjunto “a ist rot” e “a ist

52 Isso não é concedido clara ou pacificamente: “Das heißt natürlich nicht daß das Folgern nun nicht nur formell sondern auch materiell geschehen könnte. — Sinn folgt aus Sinn und daher Form aus Form.” (Wittgenstein, 1994a, p. 58; MS 106, p. 85.)

grün”. Daí o dilema: “Entweder das “und” oder die Sätze”. Em um produto, os sinais aí empregados não seriam símbolos (Cf. Wittgenstein, 1994a, p. 58; MS 106, p. 89), devendo a linha da tabe- la ser supressa, alega então, porque tanto a verdade da conjunção seria impossível, como também a conjunção das verdades. (Cf. Wittgenstein, 1994a, p. 58; MS 106, p. 87.)

Enquanto há proposições que, afastadas entre si, podem acomodar-se bem no espaço lógico, outras almejam o mesmo lu- gar. (Cf. Wittgenstein, 1994a, p. 59; MS 106, p. 93.) Se a proposição contém a forma da realidade a que se refere, a exclusão explicar- se-ia por colidirem duas proposições nessa forma, sendo seu pro- duto uma impossibilidade. É essa colisão que Wittgenstein expres- sa pela supressão de uma linha da tabela, mas com o desastroso resultado de fazer o fenômeno determinar a forma de sua expres- são, dependendo dele a postulação de uma necessidade. Temos com isso uma restrição nas condições de verdade, sobre as quais a lógica deveria silenciar ou a decisão ‘isso nunca ocorrerá’ trans- formar-se-ia em critério suficiente da necessidade lógica, conquan- to uma universalidade assim definida só seja necessária zufälliger- weise.

A incompatibilidade de que pretende dar conta com a noção de exclusão não é contraditória nem trivial. Tratar-se-ia de uma incompatibilidade outra, diferente de “Isto é verde e isto não é verde”. Portanto, vale observar, ainda que correta a retirada de condições de verdade na exclusão, é um grande engano pensar que a fortiori uma linha da contradição também devesse por isso ser supressa, uma vez que não estará malformada, não estando em nada comprometida a íntegra aplicação de notação veri-funcional a proposições contraditórias relativas a cores.53 Para Wittgenstein, 53 Um argumento simples contra tais ilações pode começar por esse óbvio: não há proposição elementar negativa, como Wittgenstein o esclarece a Russell,

em se tratando de uma contradição, cada linha deve continuar a ter sentido sim, ou toda e qualquer contradição (e logo toda e qualquer tautologia que a negue) estaria malformada; e, por sinal, no exemplo anterior, as condições de verdade resumem-se em última instância à verdade e à falsidade de “Isto é verde”, tendo apenas duas linhas a tabela. A negação não é nota do conceito,54

senão opera sobre a proposição, sendo o resultado da contradição exatamente aquilo que o incauto projetaria sobre as condições de verdade. “G.~G” continua sem sentido sem converter-se em um contra-senso.

A análise deveria explicar essa incompatibilidade, seu meca- nismo, dentro dos moldes previstos pelo Tractatus. E falha a análise porque eliminaria a condição de enunciado completo, ou seja, exa- tamente o que põe o sistema e fundamenta a exclusão,55 retirando

das proposições a sua completude, o que as levaria a “deixar um só lugar”. Por isso, Wittgenstein procura valer-se de uma notação ade- quada, que manteria o equilíbrio entre multiplicidade lógica e pos- sibilidade — mas isso torna ainda mais estranha a solução ad hoc da exclusão, ao restringir à força, em função da empiria, o que a lin- guagem ela própria não elimina. Wittgenstein esforça-se por defen- der a idéia de que uma e outra proposição atômica não podem con- tradizer-se, conquanto possam excluir-se mutuamente. Com fun-

ao explicar-lhe em carta alguns pontos do Tractatus: “Of course no elementary prop[osition]s are negative” (Wittgenstein, 1980, p. 253).

54 Não se pode, afinal, confundir um conectivo com parte de um conceito: “Man kann sagen “~Sokrates” heißt darum nichts, weil es keine Eigenschaft giebt die ~(x) heißt” (Anotação não numerada do Prototractatus, in Wittgenstein, 1989a, p. 255).

55 Se os enunciados de grau (como costumava pensar outrora) fossem anali- sáveis (e logo redutíveis, e logo elimináveis, sem quebra da forma proposicional), poder-se-ia expor a contradição dizendo que a cor R contém todos os graus de R e nenhum de B e reciprocamente. Mas, como vimos, os enunciados de grau não podem ser eliminados.

ções relativas a cores só haveria lugar para um argumento; desse modo, “RTP” (para a maioria de nós no ambiente acadêmico e para todos na vida cotidiana) entraria em alguma espécie de contradição com “BTP”, sendo sua conjunção bem mais que uma proposição falsa. (Cf. Wittgenstein, 1973, p. 35.)

Essa “espécie de contradição” encontraria sua explicação na completude do enunciado, na espécie de função que só deixa um lugar; com isso, a chave para a explicação da exclusão estaria no modo de projeção que determina a forma das entidades a que se refere. Se a proposição contiver a forma da entidade referida, duas proposições podem colidir nessa forma. Como a colocar sujeitos diferentes em uma mesma cadeira apertada, a conjunção os coloca- ria a ambos no mesmo lugar e eles colidiriam. (Cf. Wittgenstein, 1973, p. 36.) Não podendo ter lugar a combinação, a verdade da conjunção suprimir-se-ia pelo estranho motivo de não dispor sequer de condições de verdade, pois, segundo acredita então Wittgens- tein, a linha em que a conjunção das verdades resultaria na falsida- de da conjunção daria à proposição uma multiplicidade lógica su- perior à que lhe é possível. Mas, como reconhecer tais funções sem inspeção prévia da experiência?

A supressão de uma linha não pode dar-se a priori, depende da investigação de um sistema inteiro, mas em um retorno aos fenômenos; afinal, RPT não exclui SPT, por exemplo, se S estiver por sweet. Daí a conclusão: “Such rules, however, cannot be laid down until we have actually reached the ultimate analysis of the phenomena in question” (Wittgenstein, 1973, p. 37). Por um lado, afirma-se impossível uma análise, enquanto, por outro, espera-se que uma notação perfeita (que mostraria as combinações de ver- dade a serem desprezadas quando proposições relativas a grada- ções fossem definidas simbolicamente) venha a excluir a constru- ção nonsensical “RPT.BPT”. (Cf. Wittgenstein, 1973, p. 37.) Além

disso, cumpre observar que, para termos uma função como a do tipo ( )PT, cujo argumento deve ser um nome de cor, dita por con- seguinte em place e time determinados, seria preciso ter resolvido antes: (a) qual o critério de identificação de uma cor de modo que algo possa preencher a variável (sem incorrer em estruturas non- sensical), pois não dizemos (exceto em certas ocasiões) que uma cadeira está ocupada (ou seja, que alguém mais não possa sentar- se nela) porque há uma folha de papel em cima. Decidido então o que é ser cor, (b) é preciso saber se em seu critério de identificação (que não pode ser apenas lógico, uma vez que nos referimos a fe- nômenos) há impedimento a que, em algum sentido, duas cores (e não dois pigmentos) possam ocupar a mesma extensão. E (c) é preciso um sistema fechado, de modo que nenhum outro nome (lógico) venha a ser incluído, como se estivesse desde antes previs- to; neste sentido, cada exemplificação é completa e nenhuma cor é representável em algum PT (place-time) sem acarretar a exclusão simultânea de todas as outras.

Tudo isso é deveras misterioso.56 Uma dificuldade surge por

não podermos ver como atributo de ( )PT o deixar-lugar-para-

56 A exclusão não é o exato inverso da inclusão, uma vez que uma proprie- dade pode não excluir propriedades outras que não inclui. O vermelho não exclui nem inclui ser doce, propriedade que se dispõe em outra ordem categorial (Cf. Chisholm, 1974, pp. 98-100). E isto deve-se a que a exclusão ocorre segundo or- dens categoriais, supondo portanto uma variação em um contínuo. Como, além disso, a combinação de ordens categoriais distintas não pode ser a priori proscrita nem prescrita, as relações de exclusão e inclusão não supõem um quadro catego- rial único, podendo decorrer do uso certas interdições ou exigências. Pode-se bem procurar casos ou inventar casos de propriedades combinadas ou descombina- das. Entre outros, Wittgenstein fornecerá o exemplo de cores sempre ligadas a formas determinadas, fazendo reportar ao uso, a formas de vida, o que antes

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uma-única-entidade. Por exemplo, ao lado de RPT (em que red é

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