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Capítulo 4: Glauber Rocha e a televisão

4.4 O olhar de Glauber

Segundo a pesquisadora em semiótica Regina Mota é possível identificar alguns aspectos de linguagem nos quadros de Glauber no Abertura. São eles: a alegoria que surge como figura de linguagem que visa dizer algo para significar outra determinante; o épico, permitia usar a rua como cenário para revelar as “estruturas épicas próprias da realidade brasileira”417, a anti-entrevista possibilitava fazer com ele mesmo ou um entrevistado a mudança de curso do discurso para torná-lo mais abrangente e polissêmico; o manifesto voltado a discussão da cultura brasileira e do processo de redemocratização do Brasil; o personagem seria a criação de uma figura significativa da cultura brasileira, a partir da “junção do personalidade de Glauber e sua persona”418 e o direto, onde Glauber exercita a interatividade com o público.

A partir das observações de Regina Mota, considero que o recurso de maior importância utilizado por Glauber Rocha no programa Abertura foi a alegoria. A utilização desse recurso linguístico, próprio da literatura, cabe muito bem ao cinema419 e também a televisão420. Utilizo o conceito de alegoria definido pelo crítico literário José Adolfo Hansen que diz:

A alegoria é a metáfora continuada como tropo do pensamento e consiste na substituição do pensamento em causa por outro pensamento, que está ligado, numa relação de semelhança, a esse mesmo pensamento.421

417MOTA, Regina. A épica eletrônica de Glauber: um estudo sobre cinema e TV. Belo Horizonte: Editora

UFMG, 2001. p. 97.

418 MOTA, op. cit. p. 98.

419 Ismail Xavier no seu livro Alegorias do subdesenvolvimento demonstra a força da alegoria nos filmes

Terra em Transe de Glauber Rocha, O Bandido da Luz Vermelha de Rogério Sgarzela e Matou a família e foi ao cinema de Júlio Bressane. XAVIER, Ismail. Alegorias do Subdesenvolvimento. São Paulo:

Brasiliense, 1993.

420 A alegoria tem sido motivo de discussões na análise da constituição da linguagem imagética,

representando “novos modos de ver e compreender o mundo, novas estratégias da inteligência que passam não apenas pelo racional, mas também pelo sensível, pela esfera das emoções.” ver: OROFINO, Maria Isabel. Mediações na produção de TV: um estudo sobre o Auto da Compadecida. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006. p. 191.

A alegoria era uma das grandes forças usadas na maioria dos quadros, conduzindo as imagens a um sentido diferente do que enunciado a princípio. Assim, “cada matéria ou combinação de elementos de linguagem videográfica pode significar uma outra coisa, todas elas visando a imagem do e para o Brasil”.422 A análise desse recurso de linguagem imprime sentido a teatralização desenvolvida que aponta para lugares imaginários:

o povo participando do processo político, o artista intervindo nas decisões das políticas culturais, os intelectuais pensando em experimentar o poder, etc. Utilizando personagens-emblemas e elementos da cultura brasileira, ele produz uma intervenção simbólica na realidade, ainda amordaçada do país.423

A dimensão alegórica do pensamento de Glauber Rocha nos remete as influências do Tropicalismo e, de forma particular, a uma característica desse movimento, a carnavalização.

O objetivo do movimento tropicalista visava destruir os falsos mitos e profanar as relíquias que lhes eram associadas, por meio do procedimento de carnavalização: misturando o candomblé, o rock, o folclore da América Latina e as novas tecnologias (guitarras elétricas, sons eletros-acústicos, ruídos etc.). Propôs uma (re)leitura de uma ideia de Brasil, inspirada nas ideias modernistas de Oswald de Andrade que a percepção estética convencional julgava cafona, atrasada e de mau gosto.424

A alegoria tropicalista foi, em grande parte, o ponto de partida para a análise da realidade brasileira empreendida no Abertura. A carnavalização fez com que num tom anárquico, o apresentador reafirmava a proposta que se aproximou. Como já dissemos, do trabalho de Chacrinha.

422 Idem, p. 97. 423 Idem, p. 97.

424FISCHER, Catarina Justus/Ovanil Fabrício/Vera A. Assumpção Tavares de Carvalho. O movimento

tropicalista e a revolução estética, Caderno de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura. São Paulo, v. 3, n. 1, 2003, p. 149.

4.4.1 – Glauber começa a falar na televisão

A primeira aparição de Glauber Rocha no programa Abertura é como entrevistado e não como entrevistador425 em março de 1979. Célia Portela teve uma conversa com o cineasta que pode ser caracterizada como uma anti-entrevista. Durante o tempo todo, ele assume o comando e dirige o diálogo como se fosse o responsável pelo quadro, deslocando e conduzindo a entrevista. Célia ficou sentada na cadeira giratória acompanhando o entrevistado que, em pé, se move o tempo inteiro com o acompanhamento da câmera, se distanciando do padrão de entrevista televisiva. 426

Célia Portela: Me responda. O aconteceu na China?

Glauber: Na China? Olha aqui. Você veja... Antes de eu responder o que aconteceu na China, eu estou lendo aqui a declaração do Sr.Karlos Rischbieter , ministro da Fazenda, o Sr. Karlos Rischbieter . Ele diz o seguinte: se o governo brasileiro não eliminar a extrema pobreza que existe no país, corremos o risco de termos um novo Irã ou uma nova Índia, onde a grande massa da população não participa do processo de modernização econômica. Para ele, até hoje, apenas os trabalhadores apertaram o cinto, e não se pode combater a inflação jogando toda carga em cima dos assalariados. Você já ouviu falar da China?

Célia Portela: Mas me diz. O que aconteceu na China?

Glauber: Na China? Olha aqui, por exemplo, o Papa esteve no México. Você já imaginou o Papa todo vestido de ouro, como um filme de Buñnuel, beijando a terra sagrada do México, diante de milhões de índios miseráveis? Isso é que ultrapassa a imaginação de Gabriel Garcia Márquez naquele livro Cem anos de solidão. O Papa no México. Agora eu preciso que me façam outra pergunta. Célia Portela: Você quer que faça uma nova pergunta?

Glauber: Por exemplo. Eu estou aqui olhando a revista Veja. Carmem Miranda. Você veja aqui.

Célia Portela: Então eu te pergunto outra coisa. Glauber: O que você acha da Carmem Miranda? Célia Portela: Eu acho sensacional, me diz uma coisa...

425 ROCHA, Glauber. Programa Abertura, Rede Tupi, Rio de Janeiro, fevereiro de 1979. Entrevista

concedida a Célia Portela

426 Os quadros não possuem nomes específicos, por isso estou conferindo uma nomenclatura própria, apenas

Glauber: Eu acho a Carmem Miranda um produto do imperialismo para conquistar o subdesenvolvimentismo brasileiro. Eu sou contra Carmem Miranda.

Célia Portela: Você é contra?

Glauber: Eu sou contra. A Carmem Miranda é uma mistificação.

Célia Portela: Agora eu quero te perguntar: Você tem medo da TV brasileira ou é a TV brasileira que tem medo de você? (Em meio à pergunta Glauber intervém.) Glauber: Essa pergunta já me fizeram no Trailer.

Célia Portela: E não pode fazer outra vez?

Glauber: Pode, mas a entrevista corre o risco de ficar monótona. Eu estou aqui fazendo publicidade da revista Veja sem querer; mas a gente tem que aproveitar o programa da Abertura para quebrar. Eu achei ótima essa capa – A China e a África, não a China e a América. Na China está acontecendo uma coisa muito importante, uma revisão crítica e dialética do socialismo. Isso abre uma perspectiva histórica para um país que ficou mumificado pela teoria do maoísmo. Felizmente, houve em tempo uma revisão dialética e o povo chinês pode entrar no barato de uma neorecapitalização que não destrói a perspectiva do socialismo, mas abre possibilidades para que o socialismo possa ser feito na paz, na liberdade e no progresso, adotando uma política nova, uma política revolucionária, de todos aqueles que pensam em salvar o povo da fome e da miséria. Porque o que o povo precisa é realmente de comida e escola. O salto tríplice: o salto econômico, o salto alimentar e o salto cultural.

Célia Portela: Muito bem. Está respondido o que eu perguntei.

Glauber: Então tudo bem. Eu acho que corta então. Corta porque já acabou. 427 A pergunta inicial sobre a China demora a ser respondida, pois apesar do interesse de Glauber no tema, ele se lança na discussão sobre a realidade mais próxima. Com a revista na mão, lê a declaração do ministro da Fazenda,Karlos Rischbieter, sobre a necessidade de acabar com a miséria no Brasil, caso contrário, correríamos o risco de nosso país se tornar um Irã ou uma Índia, onde não existia participação do povo no movimento de modernização econômica. Enfatiza a fala do ministro que considera que os trabalhadores eram os que mais sofriam com as políticas econômicas o que não poderia continuar. Apesar de não haver uma fala de exaltação, apenas o fato de citar o ministro da Fazenda e a crença de que o povo tinha um papel efetivo no desenvolvimento econômico do país, já denota certa admiração pelo ato. Mais uma vez aí, é demonstrada a fé do entrevistado no governo do general João Baptista Figueiredo, já exaltado por ele

427ROCHA, Glauber, Programa Abertura, Rede Tupi, Rio de Janeiro, fevereiro de 1979. Entrevista

na imprensa.428 Esse tema se mistura ao discurso contra o imperialismo representado pela

figura de Carmem Miranda. Aliás, tema caro ao entrevistado que não perde a chance de atacar o potencial imperialista dos Estados Unidos. Depois da tentativa de resgatar o comando da entrevista ao questionar sobre se Glauber teria medo da TV brasileira ou seria o contrário, ele se nega a responder porque considera a questão já desgastada por ter sido feita fora do ar. A monotonia a que faz referência de uma questão ainda não discutida junto ao público do programa, não deixa de ser uma provocação para se pensar a linguagem da TV e uma recusa ao ensaio, defendendo a espontaneidade do entrevistado. Deixando de forma brusca o tema e mudando de assunto, volta à primeira questão e atribui maior significado para os acontecimentos da China que começava a passar pelas reformas econômicas e políticas de Deng Xiaoping, considerando que se tratava de mudanças de caráter dialético positivas para amenizar os efeitos do maoísmo na cultura chinesa, sem abandonar o socialismo que deveria ser feito na paz, mas propondo a perspectiva de uma “neorecapitalização”. A visão das transformações demonstra um olhar otimista e esperançoso de redemocratização da China. Ali ficava claro que o olhar de Glauber era o da abertura e sua crença tanto nas intenções do governo chinês quanto no brasileiro eram a demonstração disso. As falas, um tanto desconexas deixam a apresentadora visivelmente transtornada. A presença de Glauber retrucando e querendo demarcar território deixou Célia Portela, várias vezes, constrangida, com muita dificuldade de tomar a direção da entrevista, com sua fala sendo encoberta pelo entrevistado, inclusive sem conseguir efetivamente ter sua resposta, apesar de considerar que sim. Até o final é uma demonstração da figura dominadora, e até mesmo autoritária do entrevistado que não se permitiu entrevistar, descaracterizando a proposta inicial. A postura de diretor prevaleceu tanto que ele próprio finaliza a entrevista dizendo que se tudo foi dito então “corta”.