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Utilizar o olhar infantil como perspectiva narrativa traz consigo a possibilidade de desenvolver elementos que são constantes no imaginário sobre a criança. Alguns signos comuns, como a inocência, a sinceridade e a pureza, tipicamente associados à infância, fazem com que eles sejam geralmente utilizados para contrapor a mentira (com sua sinceridade), a indecência (com sua pureza) e a maldade (com sua inocência).

A utilização do olhar infantil como contraponto àquilo que antagoniza com o ideal de infância é constante nas produções culturais, desde What Maisie Knew (1897), de Henry James (1843-1916), aos filmes e séries atuais. Na utilização da perspectiva infantil, tal movimento é acompanhado, também, por um efeito de desvelamento da verdade: sob o olhar da criança, nada pode ser escondido; sem a maldade da percepção adulta, que esconde, mente e dissimula, aquilo que a criança vê seria o mais próximo do real.

No filme Unbreakable (2000), por exemplo, o protagonista David Dunn (Bruce Willis) está em um trem e uma mulher se senta ao seu lado. David esconde a sua aliança e começa a conversar com a mulher, fazendo perguntas gerais até questioná-la quanto tempo ela ficará em Philadelphia. A mulher mostra a sua própria aliança e diz ser casada. Em um momento constrangedor, ela se levanta para procurar outro assento e David, embaraçado, recoloca a aliança. Todo esse tempo a câmera é posicionada na poltrona a frente dos dois, alternando a posição à medida que os personagens desenvolvem o diálogo, como uma cabeça que vira para um lado e para o outro (Figuras 10 e 11).

Figura 10 - Cena do Filme Unbreakable (2000), ilustrando a perspectiva infantil

Fonte: Captura de tela. UNBREAKABLE. Direção: M. Night Shyamalan. Estados Unidos: Buena Vista Pictures, 2000. Streaming, 106 minutos, son., color.

Figura 11 - Cena do Filme Unbreakable (2000), ilustrando a perspectiva infantil

Fonte: Captura de tela. UNBREAKABLE. Direção: M. Night Shyamalan. Estados Unidos: Buena Vista Pictures, 2000. Streaming, 106 minutos, son., color.

Ao se ver só, o protagonista olha para o espaço entre as poltronas da frente e se depara com uma criança (Figura 12), que observava a interação entre ele e a mulher.

Figura 12 - Cena do Filme Unbreakable (2000), ilustrando a perspectiva infantil

Fonte: Captura de tela. UNBREAKABLE. Direção: M. Night Shyamalan. Estados Unidos: Buena Vista Pictures, 2000. Streaming, 106 minutos, son., color.

Esse olhar infantil, no filme de M. Night Shyamalan, representa o olhar que observa as coisas exatamente como são (capta o momento da retirada da aliança, da tentativa de conquista e do arrependimento, quando David recoloca a aliança): não se pode, frente ao olhar da criança, tentar dissimular ou mentir. Além disso, sugere o sentimento de culpa e constrangimento, pois há um paralelo entre a inocência da criança e a tentativa de traição de David.

O olhar da criança como aquela que vê a realidade escondida ou manipulada também é utilizado na série televisiva American Horror Story: Cult (2017). Em sua sétima temporada, a série conta a reação dos moradores e moradoras da cidade fictícia de Brookfield Heights após as eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos. Uma proprietária de restaurante fica perturbada com a vitória de Donald Trump, enquanto Kai (Kit Walker), um sociopata, constrói um culto e utiliza o medo dos cidadãos para conquistar poder.

Em determinado momento da série, Kai separa os homens de seu culto e promove conversas doutrinadoras entre eles. Numa dessas conversas, Kai conta sobre Jim Jones, um homem que, em seu próprio culto, levou dezenas de pessoas a praticar suicídio coletivo. Na história de Kai, Jesus Cristo desceu à Terra e ressuscitou Jim Jones e seus seguidores. Todos os homens ao redor de Kai não o contestam e, com suas expressões de fascínio, demonstram acreditar na história do mestre. No entanto, uma criança olha na Wikipédia, lê os dados e afirma categoricamente: “Ele morreu com um tiro, foi cremado e suas cinzas foram jogadas ao mar. Então, o que você disse não pode ter acontecido”. A criança continua fazendo os questionamentos, sem acreditar na história de Kai, e é retirada da sala à força.

A criança como a reveladora da verdade e dos pecados é, pois, um topos da produção cultural. A criança pode ser uma estratégia para dar um efeito de real para as coisas narradas: seu olhar atravessa a manipulação e dissimulação, pois, ao não possuir os códigos morais da sociedade, a criança não se dispõe a participar desses jogos. Partindo da ideia de que as pessoas não conseguem ver a realidade das coisas por estarem enviesadas ideologicamente, por serem vítimas de manipulação ou por, elas mesmas, praticarem essa manipulação, um modo eficiente de ressaltar a realidade dos fatos em contraposição a alguma manipulação é mostrá-los através dos olhos de um narrador que não tem nenhuma formação ideológica e não seria alvo de nenhuma manipulação de discurso. Desse modo, tanto no filme quanto na série, houve não só o efeito de captura da

realidade, como também o desvelamento de intenções escondidas através da visão infantil.

Não diferente acontece em Cartucho. A eleição de uma narradora criança em uma situação de guerra foi fundamental para construir uma estética específica, que está embasada no olhar e na estilização da voz infantil através da narração. A pessoa que narra é quem define o que será dito e como o será. Desse modo, quando uma escritora ou escritor escolhe quem narra o romance, já tem aí o esboço do como. Fernandes (1996) afirma que

O muro da narração é o narrador. É ele quem mostra um pouco da cena, é ele quem esconde, torna turvo, deixando-nos apenas vozes no ar. Poder-se-ia dizer que o narrador é um narrador, o único que tem acesso ao que acontece do outro lado do muro e nos conta o que está vendo. De uma ou outra forma, na narração existe um muro que esconde revela (1996, p. 32).

O ato de esconder e revelar, ou seja, a seleção dos objetos a serem narrados, é um dos elementos para a construção estética e a manipulação dos efeitos. Em nosso caso, a narradora poderia ter contado as memórias a partir da sua perspectiva de adulta, explicando ou desenvolvendo as cenas vistas; no entanto, foi escolhido estetizar a voz infantil, narrando aquilo que a criança vê ou escuta. Em Cartucho, essas escolhas desenvolvem uma série de efeitos que analisaremos a seguir.