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Fui muito bem recebida pela professora e pela turma. Logo de início já foi possível observar a boa relação construída com as crianças no ambiente. Sobre a importância da afetividade para o aprendizado, Leite (2012, p. 365) afirma:

[...] é possível defender que a afetividade está presente em todas as decisões assumidas pelo professor em sala de aula, produzindo continuamente impactos positivos ou negativos na subjetividade dos alunos. Trata-se, pois, de um fator fundante nas relações que se estabelecem entre os alunos e os conteúdos escolares. A qualidade da mediação pedagógica, portanto, é um dos principais determinantes da qualidade dos vínculos que se estabelecerão entre os sujeitos/alunos e os objetos/conteúdos escolares. (LEITE, 2012, p. 365)

Em alguns momentos, os efeitos da boa relação construída entre alunos e professoras ficaram em bastante evidência, como quando em um determinado dia de observação, notou-se a evolução de um dos alunos quanto à identificação e escrita do nome sem auxílio da “ficha dos nomes”. Ao trocar de professora, o mesmo aluno se sentia incapaz de escrever o próprio nome sozinho, embora o tivesse acabado de fazer em uma atividade concluída recentemente. Tentamos encorajá-lo a praticar sozinho, mas após pouca insistência, a criança falou: “Com essa professora eu não sei fazer meu nome”. Observou-se, a partir dessa experiência, que as relações vão afetar, também, diretamente a confiança da criança em si e na aceitação da

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possibilidade de errar sem se sentir culpado. O educador incentiva, através de gestos, a confiança que deve ser depositada no potencial do aluno e a ter segurança no professor que a ensina.

Percebeu-se, também, a importância de explorar as palavras estáveis, como o nome da criança, o nome da escola, o dia da semana, para o processo de alfabetização, pois segundo Coutinho (2005, p. 54), é uma atividade a ser explorada com crianças que apresentem os níveis pré-silábicos ou silábicos de escrita, visto que: O trabalho com palavras estáveis, como os nomes dos alunos da turma, também pode auxiliar na percepção de que partes iguais se escrevem de forma semelhante, e partes (sílabas ou letras) presentes no nome de um aluno também podem ser encontradas nos nomes de outros colegas. (COUTINHO, 2005, p. 54).

Em suas aulas, a professora costumava iniciar com uma rápida acolhida onde todos se sentavam em roda no chão e começava um momento de conversa mediada por ela, quando os questionava sobre o dia da semana e o dia do mês que estavam situados. Ainda sentados, cantavam coreografando uma música sobre o respectivo dia da semana, assim, dando continuidade ao trabalho com palavras estáveis como afirma Rego, citando Teberosky (1994) sobre a importância desta prática:

Para Teberosky (1994) a formação de um vocabulário estável de palavras a partir dessas práticas seria o principal referencial da criança para a descoberta do sistema alfabético, uma vez que esta dar-se-ia a partir dos conflitos vivenciados pela criança entre a sua concepção original de escrita e a escrita convencional dos nomes. (TEBEROSKY, 1994 apud REGO, 2006, p. 6)

Após esse primeiro momento, os alunos iam para as suas carteiras, a professora relatava as atividades que fariam naquele dia e fazia a cópia da agenda.

Pôde-se perceber, durante as observações, que a professora utilizava de diversos métodos, buscando sempre meios para que houvesse entendimento sobre o assunto que estava sendo abordado no momento e proporcionando a leitura e escrita das palavras. Quando questionada sobre qual método ela mais utiliza para a prática alfabetizadora ela afirmou: “método analítico com linha sociointeracionista” e explicou: “Gosto do analítico pois parte do todo para o particular. Considero que a leitura é um ato global” (PROFESSORA).

A mesma informou que recebe formação continuada uma vez por mês, ocorrendo de abril a dezembro pela Secretaria Municipal de Educação (SME) e coloca a oferta da formação continuada como um ponto de grande importância para dar suporte a sua prática como educadora:

Capacitar a minha prática pedagógica e me ajuda a melhorar a qualidade da educação, norteando meu planejamento. A diversidade de necessidades

dentro do espaço escolar é muito grande, então nas formações existem muitas trocas de vivências, estratégias e experiências, e também, inovações com novas metodologias de ensino que atualizam nossas práticas, melhorando o processo de ensino-aprendizagem que ocorre na escola. Então a formação é uma forma de oferecer suporte para melhorar a minha prática. (PROFESSORA)

Ainda no que se refere a formação de professores Lima e Sales (2004) afirmam sobre como a seriedade e o compromisso dessa prática pode trazer bons resultados:

Acreditamos que a clareza do compromisso com a postura reflexiva da formação de professor pesquisador é um procedimento metodológico que promove o diálogo e conduz a conhecimentos significativos. Dessa forma podemos ir inventando e reinventando maneiras de estabelecer essas interações [...] (LIMA e SALES, 2004, p. 23)

A respeito do planejamento, ela afirma que o faz semanalmente na escola e que costuma adotar os livros didáticos que vão de encontro com o Projeto Político Pedagógico (PPP) da instituição, utiliza a BNCC e “...quando necessário, pesquiso na internet e, quando possível, com a professora que divide a sala comigo” (PROFESSORA).

Em todas as aulas a professora trabalhava atividades do livro didático, mas sempre procurava maneiras diferenciadas para realizar essas atividades e garantir o entendimento do assunto abordado. Por exemplo, costumava trabalhar com vídeos, músicas e animações com a lousa digital. Em outra atividade, ela trabalhou com os alunos a hora de saber falar e escutar, quando trouxe uma pequena bola. Só poderia falar aquele que estivesse com a bola na mão e, enquanto isso, todos os outros escutavam atenciosamente. Constantemente as crianças eram estimuladas a ter uma participação ativa. Ressalta-se, a percepção de que a professora procura ir além de ensinar conteúdos, promovendo atitudes de respeito e convivência amigável entre as crianças.

A oralidade no processo de alfabetizar letrando se faz ferramenta de grande valor, pois ao estimular a fala dos alunos, junto da prática de reconhecimento da escrita e leitura, poderá ser trabalhando o reconhecimento da fala nas palavras escritas e, assim, ocasionar aquilo que Morais e Leite (2005) explicam sobre reflexão fonológica:

Ao constatar que trem é uma palavra pequena e que moranguinho é uma palavra grande, assim como ao dar-se conta de que papai e pateta começam parecido, apesar de não terem nada em comum no mundo real, uma criança está exercendo um funcionamento que chamamos de metalinguístico, isto é, ela está exercitando uma capacidade humana de reflexão consciente sobre a linguagem. (MORAIS; LEITE, 2005, p. 72-73)

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Nas práticas, foi relatado pela professora a importância de trabalhar através da interdisciplinaridade, sempre que possível, trazia questões sobre letramento, como por exemplo: nas atividades das variadas disciplinas realizava leituras coletivas, reconhecimento de letras, significado de palavras, interpretação textual e fazia uma relação com a realidade dos alunos levando em consideração aquilo que Albuquerque (2007) apresenta como conceito de alfabetizar:

[...] sabemos que ser alfabetizado, hoje, é mais do que “decodificar” e “codificar” os textos. É poder estar inserido em práticas diferenciadas de leitura e escrita e poder vivenciá-las de forma autônoma, sem precisar da mediação de outras pessoas que sabem ler e escrever. (ALBUQUERQUE, 2007, p. 21)

O progresso da aquisição da leitura e escrita é muito importante para este momento, uma vez que os alunos estão iniciando o ciclo de alfabetização determinado pela BNCC, onde existe uma grande preocupação quanto ao seu desenvolvimento e, dessa forma, a professora sempre buscava interligar as disciplinas que estavam sendo trabalhadas, fosse História, Ciências, Geografia ou qualquer outra com o processo de alfabetização. De acordo com a BNCC:

Nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental, a ação pedagógica deve ter como foco a alfabetização, a fim de garantir amplas oportunidades para que os alunos se apropriem do sistema de escrita alfabética de modo articulado ao desenvolvimento de outras habilidades de leitura e de escrita e ao seu envolvimento em práticas diversificadas de letramentos. (BRASIL, 2018, p.59)

No que se refere à professora observada, pode-se dizer que se trata de uma ótima profissional, bastante experiente e que consegue atingir seus objetivos em sala de aula. Apesar de ainda ser bem fixa ao que é solicitado nos livros (o que se acredita ser uma exigência vinda por parte da escola), ela consegue desenvolver em sala um ambiente com bastante diálogo, acordos, uma turma participante e estimulada a aprender mais. Quanto ao método utilizado por ela, não se pode dizer que havia um específico, mas sim que sempre buscava pautar-se na teoria do sociointeracionismo. Em suas falas, reforçava a importância do que o outro tem para ensinar e entendia que essa interação ajudava até mesmo no seu trabalho. Além disso, gostava de usar os materiais disponibilizados pelo PAIC para as rodas de leitura e para elaboração do planejamento utilizava as recomendações da BNCC.

Essa experiência reforça o entendimento sobre os indivíduos como seres sociais e ativos. Foi observado que as crianças são protagonistas do seu desenvolvimento e que as relações são fundamentais para essa aprendizagem. Além

disso, a importância das capacitações, experiências e conhecimento de técnicas são fundamentais para a condução desse processo de ensino.

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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Antes de iniciar essa pesquisa, existia uma inquietação sobre como os métodos iriam afetar o aprendizado dos meus futuros alunos. Sempre me perguntava que metodologia me traria êxito como educadora, qual delas atingiria melhor o meu público. Apesar de entender que existem grandes diferenças de necessidades em sala de aula, sempre me baseei nas minhas experiências como aluna e nos modelos que me faziam aprender ainda mais rápido. Buscando conhecer mais sobre as diversas maneiras de aprender a ler e a escrever, lendo os teóricos e observando um pouco da prática, nasce uma visão ainda mais grandiosa sobre esse processo.

Como falado anteriormente, buscou-se estudar essa temática partindo de três pontos, no qual o primeiro objetiva entender como a legislação ou programas sobre alfabetização influenciam na nossa sociedade, como eles afetam na atuação do professor e como eles podem ser fatores positivos para essa aquisição de conhecimento. Observando essa primeira parte e partindo para um ponto mais reflexivo, entendo os programas e seus intuitos de melhorar e contribuir para a alfabetização das crianças, buscando orientações que auxiliem a prática docente como o fornecimento de materiais direcionados, formação para os profissionais, etc.

É de grande importância que o governo realmente assuma esse compromisso social nesse momento da educação básica. Alfabetizar-se e letrar-se serão ferramentas usadas durante toda a vida dos sujeitos, tanto para as coisas mais simples, como para formação de indivíduos conscientes do seu papel como cidadãos. Entretanto, a leitura dos documentos nos faz refletir que, mesmo com a qualidade do que é proposto, ainda há um distanciamento entre os documentos e a realidade, nos deixando a ideia de que aparentemente o foco não está fortemente ligado a formação das crianças, mas sim a compor dados que comprovem que os programas estão funcionando e que a política de governo está dando certo e, para isso, são realizadas provinhas e testes padronizados como se todos ali avaliados fossem iguais no que se refere ao aprendizado.

Seria interessante, adotar uma medida que aponte a criança como o ponto de partida do ensino, buscar compreender quais a dificuldades são encontradas diariamente em sala e as necessidades que precisam ser atendidas, incluindo também as questões que envolvem o contexto de aprendizagem, como o ambiente escolar, além de buscar uma outra forma de analisar aquilo que está sendo aprendido,

considerando variadas formas de avaliações para que, assim, pudesse contemplar a todos.

No segundo momento do trabalho, foi feito um estudo sobre o que alguns autores trazem referente aos métodos de alfabetização. Primeiro buscou-se entender do que se tratavam os métodos, como se dão o funcionamento e a aplicação. Como foi estudado, os métodos surgiram com a necessidade de modelar aquilo que seria ensinado, partindo de vários pontos de visão. Em alguns momentos, ficou entendido que a melhor maneira de se alfabetizar alguém seria partindo das menores partes que formavam as palavras, enquanto que em outros, percebeu-se que na verdade essa aprendizagem deve partir de um todo, trazendo palavras e frases que fizessem parte do cotidiano dos alunos, para assim haver o reconhecimento das letras e seus significados. É muito interessante quando conhecemos esses dois “pontos de partida”, pois entende-se que em algum momento isso foi testado e, em algumas situações, comprovadas, o que já nos faz trazer uma precoce conclusão: pessoas diferentes, em contextos diferentes, logo as aprendizagens também serão diferentes entre elas.

Logo após, encontra-se um estudo baseado em hipóteses de aprendizagem que as crianças possuem antes de entrarem na escola, partindo do entendimento que as crianças não chegam à escola sem saber de nada, mas que elas possuem hipóteses sobre leitura e escrita. As pesquisas de Ferreiro e Teberosky investigam crianças das mais variadas idades e contextos sociais e os resultados, apoiados em Piaget, nos remetem ao seu construtivismo, que vai apontar o indivíduo como um ser ativo nas suas aprendizagens, além de mostrar que desde o início o homem traz consigo conhecimentos que serão ricos e importantes para auxiliar o seu desenvolvimento. Esse estudo apresenta um olhar mais sensível aos processos de letramento, encarando o aluno como o ponto de partida e entendendo que este tem capacidade para se desenvolver. O construtivismo representa um momento de buscar novos olhares para a educação, traz uma visão ampla do conhecimento e novas ideias sobre “o que é aprender”. Acredita-se que todos os métodos possuem suas validades e relevância para determinados contextos. O mais importante é nos apropriarmos de todos os existentes em busca de melhorar cada vez mais a prática docente.

No terceiro e último ponto, verificou-se como acontece o processo na prática. Houve a oportunidade de presenciar a vivência de sala de aula, observar quais metodologias são adotadas, como as crianças se comportam e o que pode afetar a aprendizagem. Na prática é que entendemos como a diversidade da sala de aula exige

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que o professor esteja preparado para as adversidades encontradas. Apesar de realizar o planejamento, por muitas vezes o roteiro do que seria feito teve que ser alterado pelos mais diversos motivos. É nesse momento que o professor deve se apropriar de vários conhecimentos e técnicas para poder seguir e oferecer um ensino significativo para seus alunos. Observar a prática é um momento indispensável para a formação do professor, pois a partir dali entendemos que, além do que aprendemos teoricamente, existe uma prática que envolve nossos conhecimentos, mas também envolve o lado humano de ensinar e aprender.

A construção deste trabalho representou, particularmente, um enriquecimento sobre o ensino na alfabetização. Ficou ainda mais firmado como essa prática é transformadora para a formação dos indivíduos e como a ação docente vai se comparar à de um médico, pois o professor precisa ter um olhar clínico para identificar as necessidades que a turma apresenta. Por isso, é necessário que ele tenha propriedade das opções de conhecimento e de técnicas que poderão auxiliar a sua prática docente. Ademais, esse trabalho também possibilitou uma sensibilidade para com o outro. Entrar em contato com as crianças e ouvir, nos “bastidores”, aquilo que as ajudam, o que as desmotivam e o que elas precisam, me fez ampliar o significado daquilo que antes considerava “ser professor”. Ficou fixado ainda mais forte, mesmo que ainda tenha muito o que aprender, que ser professor é formar e transformar vidas.

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