4. GEOLOGIA REGIONAL
4.1. O Orógeno do Leste Africano e suas suturas
Conforme foi indicado no capítulo introdutório, o Orógeno do Leste Africano (East African Orogen, EAO), denominado por Stern (1994) abrange uma região de rochas supracrustais ao norte, o Escudo Árabe-Nubio, e o Cinturão de Moçambique (Mozambique Belt, MB) ao sul. A história geológica do EAO, resumida na figura1, adaptada de Li et al.(2008), resulta da quebra parcial do Supercontinente Rodínia em vários blocos continentais durante a primeira metade do Neoproterozóico, e as sucessivas colisões de vários desses blocos para criar o Gondwana no final do Neoproterozóico e início do Paleozóico.
O Escudo Árabe-Nubio, que representa o setor norte do cinturão, é caracterizado por material crustal intra-oceânico, juvenil. Os ofiolitos que ocorrem na porção norte do cinturão são alóctones, e foram formados durante as fases iniciais do orógeno, por volta de 900 Ma, e suas assinaturas químicas são consistentes com o desenvolvimento em ambientes relacionados a arcos
de ilhas no interior do “Oceano Moçambique” (Wilson et al, 1997, ver figura 1).
Para amalgamação ao longo do EAO as primeiras colisões arco-continente e continente- continente são registradas em cerca de 880-930 Ma justamente no Escudo Árabe-Núbio. Outros eventos colisionais são detetados em 800 Ma, entretanto os episódios mais importantes são aqueles associados ao ciclo orogênico Pan-Africano, entre 650 e 500 Ma, que culminou com o fechamento do Oceano de Moçambique.
A arquitetura do EAO muda dramaticamente ao longo do orógeno. Se na parte Norte aparece crosta juvenil Neoproterozóica, de caráter oceânico, a parte Sul designada como cinturão de Moçambique, é caracterizado por rochas granitoides de alto-grau, interpretadas como oriundas de margens deformadas de continentes em colisão. Esses processos de colisão continente-continente, do tipo Himalayano, retrabalharam regiões amplas de margens cratônicas antigas e dessa forma o MB seria um cinturão policíclico, afetado por intenso tectonismo desde o final do Neoproterozóico até o Paleozóico inferior. Em especial, eventos tectônicos Mesoproterozóicos são importantes no MB, de modo que permanece problemático separar eventos Grenvillianos dos Pan-Africanos. Além disso, colisões sucessivas, começando em cerca de 800 Ma e terminando
por volta de 500 Ma indicam o longo período de convergência que caracteriza o EAO (Stern, 1994; Wilson, et al., 1997; Shackleton, 1997, entre muitos outros).
A figura 4, adaptada de Shackleton (1997), mostra a situação do MB após a orogenia Pan-
Africana, com a situação relativa de regiões cratônicas e as faixas móveis resultantes dessa orogenia. Essa figura mostra os limites das regiões cratônicas da Tanzânia (parte mais oriental do Craton do Congo), Madagascar, Dharvar, e Kalahari (incluindo a parte mais ocidental do continente Antártico, tradicionalmente unido a este). São indicadas também as faixas móveis por ele indicadas como Grenvillianas, e da mesma forma, são indicadas as regiões das faixas móveis
Pan-Africanas, com as respectivas tendências estruturais.
Quantas são as suturas resultantes das colisões Pan-Africanas? Qual seria, na visão de Shachleton (1997), a colisão terminal dessa orogenia? Em seu trabalho paradigmático, em que o MB é examinado de norte para sul, ele inicia considerando que diversas zonas ofiolíticas, que marcam suturas Pan-Africanas, podem ser traçadas desde o Egito, através do Sudão e da Etiópia, até o Mozambique Belt em Kenya. Na busca de uma convergência terminal, sugere a Zona de Nabitah, na Arábia, na parte oriental do Escudo Árabe-Núbio, cuja continuação pode ser traçada através do Kenya central, a leste da klippe ofiolítica Baragoi, e daí ao longo da shear zone de Barsaloi (ver figura 4). Em seguida, a mesma zona de sutura segue para o Sul até Cóbuè, onde apresenta deformação Neoproterozóica intensa associada ao metamorfismo de alto-grau, com empurrões e
nappes voltadas para WNW, e atinge largura expressiva, de ca. 70 km. Ao Sul de Cobué, perto de
Tete, as estruturas Neoproterozóicas desaparecem sob coberturas Fanerozóicas.
Mais para o sul, a polaridade tectônica, voltada para S e SW no limite oriental do Zambezi Belt, circunda o Craton do Zimbabwe, e volta-se para W. Ao mesmo tempo aparece a zona de transcorrência de Manica, com direção N-S, justamente na região objeto deste trabalho. Nesta área, em associação com os empurrões e dobras fechadas, que apresentam a mencionada vergência para W, observa-se metamorfismo regional nas rochas metassedimentares que aumenta até o facies anfibolito alto (zona da sillimanita) em ca. 10 km a partir da margem do craton. Na opinião de Shackleton (1997), a similaridade no estilo de metamorfismo, de facies anfibolito alto, e dos empurrões genericamente voltados para W e NW, indica a continuidade entre as zonas
Fig.4. Mapa da parte sul do Orógeno Leste Africano mostrando principais unidades geológicas no Leste e Sudeste da Árica, Madagascar, sul da Índia, Srilanka e East Antartica (Shackleton, 1976 & Lawver et al., 1998). Cinturões: C=Cóbuè; LI=Limpopo; LU=Lúrio; M=Manica; UB=Ubendiano; V=Vohibory; ZA=Zambezi. Ofiolitos: WP=Oeste de Pokot; B=Baragoi; M= Moyale. A inserção, na zona de transcorrência de Manica, indica a área de estudo. Observam-se empurrões para W nos crátons de Zimbabwe e Tanzania.
deformadas de Cóbuè e Manica, e seu alinhamento representaria a mesma sutura colisional Neoproterozóica.
Mais para o sul, uma grande exposição de rochas Fanerozóicas esconde a possível continuação da sutura por ca. 500 km, até Dronning Maud Land, tendo em vista que o continente Antártico é colocado adjacente ao Africano na reconstrução do Gondwana. Na Antártica, a sutura é colocada perto de Heimfrontfjella (ver figura 3), onde ocorre a extensão oriental do Craton do Kalahari, com rochas de idade Grenvilliana, afetadas por retrabalhamento Neoproterozóico em alto-grau e empurrões com vergência para W.