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O ordenamento jurídico brasileiro e internacional

2. A “escravidão temporária”

2.2. A necessária discussão conceitual sobre a escravidão nos dias de hoje

2.2.2. O ordenamento jurídico brasileiro e internacional

É importante trazer à tona o que se entende por escravidão do ponto de vista do marco legal, tanto nacional como internacional. As definições são essenciais para compreender a construção do discurso político e do aparato estatal que vem sendo arquitetado – principalmente no Brasil – para erradicar essa prática. O debate conceitual teve início já nas primeiras décadas do século XX. Em 1926, a Sociedade das Nações (organização que precedeu a ONU) lançou uma Convenção que determinava a escravidão como “o estado ou a condição de um indivíduo sobre o qual se exercem, total ou parcialmente, os atributos do direito de propriedade”100. Em 1948, foi a vez da Declaração Universal dos Direitos Humanos tocar no assunto101. Oito anos mais tarde, por meio de uma Convenção Suplementar, a ONU deu ênfase à questão da servidão por dívidas como prática análoga à escravidão102.

100 “Artigo 1º

Para os fins da Presente Convenção, fica entendido que:

1º A escravidão é o estado ou condição de um indivíduo sobre o qual se exercem, total ou parcialmente , os atributos do direito de propriedade;

2º O tráfico de escravos compreende todo ato de captura, aquisição ou sessão (sic) de um indivíduo com o propósito de escravizá-lo; todo ato de aquisição de um escravo com o propósito de vendê-lo ou trocá-lo; todo ato de cessão, por meio de venda ou troca, de um escravo adquirido para ser vendido ou trocado; assim como em geral todo ato de comércio ou de transportes de escravos”. Disponível em

www.mp.pe.gov.br/.../CONVENO_SOBRE_A_ESCRAVATURA_ASSINADA_EM_GENEBRA.doc. Consultado em 24 de março de 2011.

101 Em seu artigo IV, a Declaração afirma que “ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a

escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas” (ALVES, 2009: 24).

102

De acordo com a Convenção Suplementar Relativa à Abolição da Escravidão, do Tráfico de Escravos e de Instituições e Práticas Análogas á Escravidão, de 1956, a servidão por dívidas é “o estado ou a condição resultante do fato de que um devedor se haja comprometido a fornecer, em garantia de uma dívida, seus

Além de ter se comprometido oficialmente a fazer valer as diretrizes desses documentos, regulamentando-os por meio de decretos, o Estado brasileiro também é signatário das convenções de número 29 e de número 105 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A primeira data de 1930 e dispõe sobre a eliminação de todas as formas de “trabalho forçado ou obrigatório”, definido da seguinte maneira: “todo ou qualquer trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob ameaça de sanção e para o qual ela não tiver se oferecido espontaneamente”. Abrem-se algumas exceções, no entanto, como o serviço militar obrigatório, o trabalho compulsório em penitenciárias (desde que determinado previamente por condenação do poder judiciário estabelecido) ou as tarefas necessárias em caso de emergência ou calamidade pública103. Já a segunda convenção é de 1957 e prevê a abolição de formas de trabalho que sejam utilizadas como punição por participação em greves ou por expressão de posicionamento político, como medida de discriminação de qualquer natureza, e como “método de mobilização e utilização de mão- de-obra para fins de desenvolvimento econômico”.

Nitidamente, as convenções da OIT não se detêm apenas na definição e na proibição de relações de trabalho de cunho “escravista”. O escopo das situações condenadas pela organização é sensivelmente mais amplo e envolve uma série de componentes – políticos, culturais e econômicos – que ficam mais bem delineados pela categoria de “trabalho forçado”. A evolução desse conceito também fez com que mesmo as exceções previstas nas primeiras convenções internacionais, como o trabalho obrigatório em penitenciárias, acabassem sendo repudiadas pelas legislações específicas de determinados países – como o Brasil, por exemplo104. Atualmente, a principal bandeira da OIT é a defesa do chamado “trabalho decente”, como explica Alves:

“A partir de 1998, a OIT passou a desenvolver o conceito de trabalho decente, quando da aprovação do documento intitulado Declaração Relativa aos serviços pessoais ou os de alguém sobre o qual tenha autoridade, se o valor desses serviços não for

eqüitativamente avaliado no ato da liquidação da dívida ou se a duração desses serviços não for limitada nem sua natureza definida” Disponível em: http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/OIT-

Organiza%C3%A7%C3%A3o-Internacional-do-Trabalho/convencao-suplementar-sobre-abolicao-da- escravatura-do-trafico-de-escravos-e-das-instituicoes-e-praticas-analogas-a-escravatura-1956.html. Consultado em 24 de março de 2011.

103

Disponível em http://www.oitbrasil.org.br/info/download/conv_29.pdf, consultado em 24 de março de 2011.

Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, segundo a qual os Estados- membros se comprometeriam a eliminar todas as formas de trabalho forçado, a abolir o trabalho infantil, a eliminar a discriminação no emprego e ocupação, bem como atender às exigências da própria OIT, no que diz respeito à liberdade sindical. Além disso, na 87ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho foi aprovada uma proposta prioritária da OIT pela busca do trabalho decente. (...)

A OIT define o trabalho decente como aquele que promove oportunidades para os homens e mulheres de obter um trabalho decente e produtivo em condições de liberdade, igualdade, segurança e dignidade humana (ALVES, 2009: 16)”. No Brasil, a referência à categoria de “escravidão” no ordenamento jurídico nacional já tem algumas décadas. O Código Penal (CPB) prevê, no seu artigo 149, o crime de “redução a condição análoga à de escravo” desde 1940105. O qualificativo “análogo” deriva justamente do fato de a escravidão ter sido legalmente abolida em 1888, com a Lei Áurea. Logo, do ponto de vista da doutrina do Direito, o que ocorre desde então são apenas práticas “similares”, “semelhantes” ou “equivalentes”. Porém, quando esse tipo penal foi introduzido no corpo do CPB, sua redação era bastante sucinta e pouco detalhada106. “Os juízes não o aplicavam porque entendiam ser insuficiente, embora pudessem se remeter a convenções internacionais que definem como forma contemporânea de escravidão a servidão por dívida. Por isso, concluiu-se que esse artigo devia conter uma descrição de condutas para que os juízes passassem a aplicá-lo” (CASTILHO, 2008: 181). Como resultado do incremento das ações do Estado brasileiro de combate a esse problema e do aumento de interesse pelo assunto por parte não só dos profissionais ligados ao meio jurídico, mas da sociedade civil como um todo, foi proposta uma nova redação com uma série de especificações pela Lei nº 10.803, de 11 de dezembro de 2003, cujo texto vigora até os dias de hoje:

Redução a condição análoga à de escravo

Art. 149 – Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições

105

Decreto-lei n.º 2.848, de 07 de dezembro de 1940

106 Na verdade, a descrição do tipo penal correspondia à sua própria nomenclatura: “reduzir alguém à

degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com empregador ou preposto.

Pena – reclusão, de dois a oito anos, e multa, além de pena correspondente à violência.

§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem:

I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho;

II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de

documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.

§ 2º - A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido: I – contra criança ou adolescente;

II – por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem107.

Outro artigo do CPB que incide diretamente sobre a questão do “trabalho análogo ao de escravo” é o que trata do “aliciamento de trabalhadores”. Para a realidade brasileira, é um dos instrumentos legais mais importantes, já que a promessa de salários recompensadores e a fabricação de dívidas ilegais por meio do desconto de itens como transporte – o mecanismo típico apontado por Figueira (2004) e Oliveira (1993) – constitui uma das formas mais comuns de restringir a liberdade dos peões108.

Aliciamento de trabalhadores de um local para outro do território nacional

Art. 207 - Aliciar trabalhadores, com o fim de levá-los de uma para outra localidade do território nacional:

Pena - detenção, de dois meses a um ano, e multa, de quinhentos mil réis a cinco contos de réis.

Pena - detenção de um a três anos, e multa.

107 Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil/decreto-lei/del2848.htm. Consultado em 24 de março

de 2011.

108

“Há norma administrativa do Ministério do Trabalho e Emprego, a Instrução Normativa n.65, da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), que estabelece uma série de obrigações a serem observadas, para que se faça de maneira regular a contratação de trabalhadores rurais e seu deslocamento pelo território nacional, tais como certidão liberatória emitida por este Ministério, registro em Carteira de Trabalho e Previdência Social, realização de exames médicos e formalização dos contratos por escrito, disciplinado a duração do contrato, o salário, as condições de alojamento, alimentação e de retorno à localidade de origem (ALVES, 2009: 45).”

§ 1º Incorre na mesma pena quem recrutar trabalhadores fora da localidade de execução do trabalho, dentro do território nacional, mediante fraude ou cobrança de qualquer quantia do trabalhador, ou, ainda, não assegurar condições do seu retorno ao local de origem.

§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço se a vítima é menor de dezoito anos, idosa, gestante, indígena ou portadora de deficiência física ou mental109.

Nesse ponto, é preciso fazer algumas considerações importantes sobre o ordenamento jurídico brasileiro – principalmente sobre o artigo 149. Um exame pouco rigoroso desse tipo penal mostra que sua redação é bastante ampla e genérica. A rigor, para que se caracterize uma situação “análoga à de escravo”, não é necessário que se verifiquem todas as situações previstas pelo CPB, como jornada exaustiva, condição degradante ou cerceamento de liberdade. Ao pé da letra, basta que um desses problemas salte aos olhos para configurar o trabalho “análogo ao de escravo”. Por outro lado, apesar dessa aparente pluralidade de interpretações, a aplicação da lei também está sujeita – antes de tudo – ao bom senso. Assim, ninguém ousaria considerar como escravo o bem remunerado executivo que trabalha 16 horas por dia em um banco ou em uma empresa multinacional. Tampouco seria assim chamado o empregado formalmente registrado que passa o dia em ambiente insalubre – até porque existe previsão legal para o recebimento de adicionais ao salário, em casos dessa natureza.

Mas é fato que, no meio jurídico, ainda há discrepâncias de entendimento. Existem aqueles que enxergam o trabalho “análogo ao de escravo” como o que ofende, em primeiro lugar, a dignidade humana110. Nesse sentido, estão mais próximos da noção política que o conceito de escravidão ganhou nos dias de hoje (ESTERCI, 1994). Ou seja, “trabalho escravo” é aquele que não se enquadra nos padrões mínimos e aceitáveis não só pela legislação trabalhista, mas também pelos valores incutidos no inconsciente coletivo

109 Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil/decreto-lei/del2848.htm. Consultado em 24 de março

de 2011.

110 Citando Ela Wiecko de Castilho, Sub-Procuradora Geral da República, Figueira afirma o seguinte.

“Como o conceito de escravidão, sob o ângulo jurídico, assim como as interpretações formais e conservadoras do direito estão atreladas unicamente ao critério de liberdade formal, para Castilho, era preciso incluir na conceituação dos crimes as práticas que iam contra a dignidade da pessoa. Não se trata mais de proteger a liberdade individual, mas a dignidade da pessoa humana. É, sem dúvida, um conceito mais amplo e mais apropriado à efetiva repressão das formas contemporâneas de escravidão (FIGUEIRA, 2004: 45)”.

de uma determinada sociedade. Todavia, essa visão entra em choque com a definição apregoada, por exemplo, pela ex-coordenadora da “Campanha contra o Trabalho Escravo” da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil111, que enxerga na

restrição de liberdade o componente essencial para caracterização da “escravidão” nos dias de hoje. Logicamente, não se trata da restrição de liberdade por direito de propriedade, mas por outras formas não menos engenhosas:

“‘toda a forma de trabalho escravo é trabalho degradante, mas o recíproco nem sempre é verdadeiro. O que diferencia um conceito do outro é a liberdade’. Quando falamos em trabalho escravo, falamos de um crime que cerceia a liberdade dos trabalhadores. No Brasil, essa falta de liberdade ocorre por meio de quatro fatores: apreensão de documentos; presença de guardas armados e “gatos” de comportamento ameaçador; dívidas ilegalmente impostas, e características geográficas do local que impedem a fuga.” (AUDI, 2008: 47)

Como já exposto parágrafos atrás, não é da alçada desta pesquisa de mestrado navegar pelos meandros das discussões jurídicas técnicas. Porém, não se pode deixar de reconhecer que a definição do que se entende por “condição análoga à de escravo” é realmente controversa no âmbito judicial112. Afinal, se a lei abre a brecha para que qualquer condição degradante – com toda a subjetividade que esse termo implica – possa ser considerada “condição análoga à de escravo”, então, dá-se privilégio à utilização do conceito de “trabalho escravo” como bandeira política. Na opinião do juiz federal Carlos Haddad113, que atua na Vara Federal de Marabá, por exemplo, a redação do artigo 149

111 Patrícia Audi foi coordenadora da “Campanha contra o Trabalho Escravo” da OIT no Brasil entre os

anos de 2003 e 2007.

112

Em novembro de 2006, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a competência para o julgamento dos crimes de trabalho escravo compete à Justiça Federal, e não à Justiça Estadual – também chamada de Justiça Comum. A decisão contemplou antiga reivindicação dos movimentos sociais e das entidades de defesa dos direitos humanos, que entendiam que a Justiça Estadual fosse mais sensível às pressões locais exercidas pelos latifundiários que se valiam da “peonagem”, provocando impunidade. Do ponto-de-vista técnico, atendeu também à interpretação do Ministério Público Federal de que o crime previsto no artigo 149 corresponde, na verdade, a um crime contra a organização do Trabalho como um todo, o que pela Constituição deve ser apreciado pela Justiça Federal. “As condutas que ocorrem no Pará, no Tocantins, no Maranhão, enfim, em todo o Brasil, e que configuram servidão por dívida, violam a organização geral do trabalho, ou seja, os princípios básicos que direcionam as relações de trabalho no País, tais como definidas na Constituição” (CASTILHO, 2008: 178).

113 Em março de 2009, ao analisar 32 casos de trabalho escravo no Pará de uma só vez, o juiz federal Carlos

“é extremamente ambígua, ampla. São conceitos indetermináveis, que dão para o juiz uma margem de descrição muito ampla. Mas foi uma opção feita. Quando se alterou a redação do tipo penal, foi para dar essa margem ao juiz, porque anteriormente era muito limitado. Era “reduzir alguém a condição análoga à de escravo”. E, normalmente, a interpretação era restrita à situação de escravo mesmo, açoitado, acorrentado a grilhões. Dessa maneira, colocou jornadas exaustivas, condições degradantes. Então, realmente, o magistrado tem uma ampla gama de atuação”.