CAPÍTULO 3 – A LEITURA SOCIOAMBIENTAL DO TERRITÓRIO RURAL
3.3. O ORDENAMENTO TERRITORIAL E O PLANEJAMENTO DO DESENVOLVIMENTO
Na Europa, do Século XIX, era quase que inexistente a preocupação para com os elementos naturais na construção das cidades e nos ambientes rurais. O despertar para o planejamento destas áreas surgiu no século XX, e generalizou-se após a Segunda Guerra Mundial, enquanto uma prática urbanística, conhecimento que foi sistematizado para a resolução de problemas urbanos originados na época da Revolução Industrial com o acentuado crescimento das cidades (MAFRA; SILVA, 2004 p.09).
Ao longo do Século XX, o desenvolvimento “econômico”, em atividades agrícolas de grandes propriedades, com obtenção de lucros, e atendimento as demandas internacionais, gerou concentração fundiária reduzindo a consciência da agricultura familiar, êxodo rural, especialmente de jovens que buscavam nas cidades novas oportunidades (FONSECA; SILVA, 2012 p. 12-13).
Com o processo da globalização do capital e a financeirização da economia, verificou-se processos de transformações espaciais. O meio rural, sofreu influência por conta da interligação da agricultura com a indústria através da introdução de
inovações tecnológicas na produção, fato que caracteriza a Revolução Verde, décadas de 60 a 80 (FONSECA; SILVA, 2012 p.09).
Na década de 90, o modelo de produção de larga escala reestruturou o espaço agrário, não ocorrendo de forma homogênea, acelerou o agronegócio de monocultura. Na década de 2000, inicia-se valorizações da agricultura familiar através de políticas públicas possibilitando novas dinâmicas territoriais (FONSECA;
SILVA, 2012 p.09). Neste período ocorre-se, a reformulação nos conceitos que contemplavam o planejamento13, passando a serem elaborados a níveis regionais que integrassem a espacialização de um conjunto amplo de dados comparados, sobrepostos e avaliados de maneira holística (SANTOS, 2004 p. 16-18), essas informações racionalizariam os processos decisórios indutores de modificações em uma região (GRAZIANO, 1997).
As intervenções sobre os territórios, conforme Fonseca e Silva (2012 p.02), também acontece por meio de planos e programas de ação, que são instrumentos normativos para colocar em prática o planejamento territorial (FONSECA; SILVA, 2012 p.04)
Segundo Fonseca e Silva (2012) o Estado foi um dos principais agentes na transformação dos espaços, ao viabilizar a ampliação e a reprodução de capitais nos diferentes territórios. Mafra e Silva também colocam que (2004, p. 45) “o ordenamento do território, a organização espacial das sociedades humanas e das suas atividades, é um pressuposto essencial para o desenvolvimento”.
Desta forma, o território para Pecqueur (2005, p.1), é o resultado de uma construção social dos seus atores locais. Assim o desenvolvimento territorial não
13Entende-se por planejamento e políticas territoriais o conjunto de normas e intervenções ditadas ou adotadas pela iniciativa pública, tendo em vista o ordenamento do território, isto é, a formação e o desenvolvimento dos centros urbanos, a distribuição espacial da ocupação do solo no interior dos mesmos e nas regiões envolventes e sua utilização por parte dos diversos agentes (MAFRA; SILVA, 2004 p.3). Para Santos (2004 p. 24-25), é um meio sistemático que direciona as informações, as análises, os procedimentos, os métodos, as legislações e a gestão para se chegar às decisões ou as escolhas acerca das melhores alternativas, num determinado espaço e tempo, para o aproveitamento dos recursos naturais e promoção do desenvolvimento em prol da sociedade. Para Fonseca, Silva (2012 p.02), o planejamento se transforma no termo gestão, designado como um processo de intervenção sobre o território que acontece por meio dos diversos atores sociais – poder público, empresas, sociedade, etc. correspondente a uma estrutura analítica e estratégica, na sua essência em um conjunto coerente de políticas, que estabelecem ou modificam o ordenamento territorial
pode ser resultante de uma medida de Estado ou ainda resultado de um planejamento sem a participação do público alvo.
Segundo Pecqueur (2005, p.12-13) há duas concepções do território: o território dado, e o território construído:
O território dado é a porção de espaço que é objeto da observação. Neste caso, postula-se o território como pré-existente e analisa-se o que aí acontece. É, de qualquer forma, o território a priori; não se procura analisar sua gênese e as condições de sua constituição; é apenas um suporte. Já o território construído: é o resultado de um processo de construção pelos atores. O território não é postulado, é constatado a posteriori. Isto significa dizer que o território construído não existe em todo lugar; podemos encontrar espaços dominados pelas leis exógenas da localização e que não são territórios. Pecqueur (2005. p. 12-13).
Essa concepção está ligada à discussão do poder na definição do espaço, diferenciando-se da abordagem do desenvolvimento rural, que se utiliza da concepção de território dado “rural” (SCHNEIDER; TARTARUGA, 2004).
Para Haesbaert (2004) o território tem três vertentes básicas: a jurídico- política, em que o território é considerado como espaço controlado por um “poder”, podendo ser do Estado (institucional); a cultural ou simbólico-cultural, em que o território é visto como um produto de apropriações simbólicas da coletividade; e a econômica, em que o território serve como fonte de recursos. Outra característica a ser observada nos territórios é sua dinamicidade, conforme o autor.
Em Miranda (2002, p.23): “Um território representa uma trama de relações com raízes históricas, configurações políticas e identidades que desempenham um papel ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico”.
De acordo com Lefebvre (apud SCHENEIDER; TARTARUGA, 2004) o território pode ser concebido enquanto um espaço apropriado para servir as necessidades e as possibilidades de uma coletividade, com uma “apropriação”
simbólica e identitária, além de funcional e outra como territórios dominados, o lugar onde se organizam formas de cooperação, onde se decide a divisão social do trabalho, onde os atores atuam para o desenvolvimento.
Conforme Sabourin (2002 p.23-24), o território é um ambiente de vida, de ação e de pensamento de uma comunidade que promove construções de identidades locais. O território é mais do que uma delimitação física, é “um espaço no qual a eficiência das atividades econômicas é intensamente condicionada pelos laços de proximidade e pelo fato de pertencer a esse espaço".
Para Abramovay (2003 p.88): "um território representa uma trama de relações com raízes históricas, configurações políticas e identidades que desempenham um papel ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico”. A abordagem territorial ao desenvolvimento, com base em Abramovay (2003), permite observar instituições e redes de ações cooperativas (bens públicos, educação, saúde e informação) entre outros que somam ao tecido social.
A abordagem territorial ao desenvolvimento, é defendida por Sabourin (2002 p.23), que expressa “a preocupação pela integração e pela coordenação entre as atividades, os recursos e os atores, por oposição a enfoques setoriais ou corporativistas que separam o urbano do rural, e o agrícola do industrial”. Para o autor os territórios são construídos a partir de estratégias da população local, que se torna ator de mecanismos de aprendizagem no coletivo, com a aquisição de conhecimentos e de informações comuns, por meio da prática ou experiência.
O desenvolvimento do território, conforme explana Pecqueur (2005, p.12), é dotado de características precisas apoiadas na dinâmica de “especificação” dos recursos por um conjunto de atores, com o processo de mobilização que leve à elaboração de uma estratégia de adaptação aos limites externos, na base de uma identificação coletiva com a cultura local, exigindo uma ação pública adequada.
Desse modo, a abordagem territorial do desenvolvimento pressupõe um espaço e as relações sociais nele existentes (SCHNEIDER; TARTARUGA, 2004 p.100).