“uma sociedade que ouve bem é capaz de decidir quais sons quer estimular e quais desejam diminuir em sua paisagem sonora” (SCHAFER, 2009, p.8). Iniciando este subcapítulo com a frase acima, é possível termos uma ideia do papel atribuído ao ouvir, sendo este a primeira experiência musical que temos. Ao recebermos os estímulos sonoros do ambiente, nós internalizamos, processamos e reproduzimos os sons. Assim, o ouvir implica não somente no desenvolvimento musical, mas também no desenvolvimento cognitivo. Desde a infância entramos em contato com os diversos sons do mundo, desenvolvendo nossa percepção sonora e nossos processos mentais.
Entramos, então, em contato com a “paisagem sonora”, termo cunhado pelo educador musical canadense Murray Schafer (2001) para definir o ambiente sonoro onde a pessoa está ou vive. Este ambiente pode conter sons de origem natural, humana e tecnológica (SCHAFFER, 2001). Dentre os naturais, temos os sons produzidos pela própria natureza, como as ondas do mar, o vento na copa das árvores e o canto dos pássaros. Nos sons de origem humana, temos os sons que criamos e também os sons que o nosso próprio corpo faz, internos ou externos. Os sons tecnológicos, também chamados de industriais, são os sons produzidos por máquinas e aparelhos.
A paisagem sonora possui então sons que permeiam o cotidiano do homem. É nesses ambientes que a criança ouve e agrega as informações sonoras à sua mente. Como aborda Filho (1971):
o ato de ouvir e apreciar consiste em receber estímulos, transformá-los em percepções e inserir estas em nosso contexto mental (psíquico, cultural, afetivo, etc). Esta inserção se dá mediante a estruturação de novas configurações mentais. Todo um mundo novo – se não um homem novo – pode surgir no campo do psiquismo (p.16).
Neste sentido, podemos absorver informações do ambiente por meio do ouvir, e, a partir disso, conseguimos nos comunicar com nossos próprios sons, como a fala. O homem, sendo um ser social, torna-se humano por meio de suas relações de comunicação com outros homens (VYGOTSKY, 1991). Ouvir e comunicar-se com os sons torna-se então essencial para construir parte desta humanização, de modo que a deficiência auditiva pode trazer problemas para as relações sociais e o desenvolvimento cognitivo (VYGOTSKI, 1995, p.87). Na música, a comunicação é feita por meio dos signos sonoros, como notas e timbres, que geram significâncias tanto para quem os cria, toca ou ouve. Os signos são o “sinal ou símbolo de algo” (PRIBERAM, 2019, n.p). Vygotsky (1991, p.11) afirma que “a comunicação sem signos é tão impossível quanto sem significado”. Assim, a música comunica com o ouvinte por meio da organização significativa dos sons, e este indivíduo entra em contato com a informação sonora interpretando-a ao seu modo.
Considerando esse papel do ouvir musical na comunicação humana, podemos entender a música como promotora do desenvolvimento cognitivo. Segundo Levitin (2010), ela pode ter sido:
a atividade que preparou nossos antepassados pré-humanos para a comunicação, por meio da fala, e para a flexibilidade eminentemente representativa e cognitiva necessária para que nos tornássemos humanos. As atividades instrumentais e ligadas ao canto podem ter ajudado nossa espécie a aprimorar as habilidades motoras, abrindo caminho para o desenvolvimento do controle muscular de requintada precisão, necessário para a fala vocal ou gestual (p.294).
Com essa participação no desenvolvimento humano, é de se esperar que as pessoas ouçam, entendam e percebam a música desde a mais tenra idade. Sabemos que, ainda na barriga da mãe, o bebê entra em contato com os sons musicais do exterior (BEYER; KEBACH, 2016). A música então chama a atenção deste ser humano em formação:
O feto não reage só aos movimentos rítmico-sonoros desse seu paraíso uterino, mas também a alguns sons do mundo exterior que, dada sua intensidade, chegariam de alguma forma até ele, abrandados pelo trajeto percorrido, como ensina o doutor Rolando Benezon (SEKEFF, 2002, p.69). Ao nascer, a audição e o desenvolvimento cognitivo do bebê vão se aprimorando juntos, desenvolvendo a sua musicalidade:
...já a partir dos dois meses os bebês são capazes de igualar altura, volume e contorno melódico das canções entoadas por suas mães, e a partir dos quatro meses já conseguem adequar-se à estrutura rítmica das canções ouvidas (SEKEFF, 2002, p.72).
A criança então cresce ouvindo e interagindo com a música por meio de suas próprias imitações e experimentações sonoras:
Mesmo um bebê muito pequeno já se sente atraído pela música e, ao ouvi- la, expressa-se com movimentos e balbucios, aderindo espontaneamente à prática. Por meio da música, a criança desenvolve suas habilidades corporais, perceptivas, sensíveis, que fazem parte da relação que estabelece com a música (KATER, 2012, p.96).
Uma prática musical muito comum em diversas culturas são as canções de ninar, que geralmente são entoadas pelas mães aos seus filhos (AMARAL, apud BEYER, KEBACH, 2016, p.13). Essas músicas ajudam a construir o repertório musical das crianças, que, ao crescerem e ouvirem tais canções, relembram sensações longínquas:
A apreciação musical das cantigas de ninar certamente nos remete a sentimentos cuja origem em nossas vivências pode ser muito antiga. Talvez possamos mesmo experimentar, ao escutá-las, uma certa sensação de tranquilidade, fruto de lembranças remotas de nossa própria infância (AMARAL, apud BEYER e KEBACH, 2016, p.14).
Deste modo, a atividade de apreciação musical pode começar a ser proposta desde quando a criança começa a perceber os sons. Nesta visão, Filho (1971) comenta que:
É a significação que transforma a coisa em objeto. Por possuir uma significação, o objeto representa para o ouvinte um interesse, no sentido psicológico do termo, e leva a uma exploração ativa, a um desejo mais amplo e variado conhecimento, a outras frequentes associações com ele, a outras reações por ele provocadas. Esta atitude de exploração ativa é que propriamente se pode chamar Apreciação Musical: reação que leva a novas reações, provocando o enriquecimento do ser, a expressão e a auto- expressão. (p.38)
O ouvir musical faz parte então de nossa percepção, estando ligado à fisiologia e constructos mentais. É em nossa capacidade de percepção sonora que podemos analisar, confrontar e transformar os estímulos musicais na nossa mente. De acordo com Filho (1971, p.16), o ato de escutar pode ser entendido como uma mensagem que é “recebida pela audição e respondida mediante a apreciação”. Neste sentido, quando se ouve, o cérebro recebe os estímulos sonoros e, por meio de suas sinapses, dá significados a estes sons. O pedagogo musical Edgard Willems comenta a respeito desta percepção e significância dos sons:
Três termos seriam necessários para situar os momentos característicos da audição. Poder-se-ia dizer: ouvir, para designar a função sensorial do órgão auditivo, que consiste em receber os sons, em ser tocado pelo som; escutar para indicar que se toma interesse pelo som, que se reage afetivamente ao impacto sonoro; entender, para designar o fato de que se tomou consciência daquilo que se ouviu e escutou (WILLEMS, apud BASTIÃO, 2014, p.23) Assim, nós recebemos os sons sobretudo pelo sentido da audição, os escutamos quando os percebemos, e os entendemos quando tomamos consciência deles. Podemos perceber que essa perspectiva de Willems se assemelha com a perspectiva da aprendizagem em Piaget (1896-1980). Para este estudioso da Psicologia, o aprendizado acontece por meio de processos cognitivos de assimilação, quando o indivíduo entra em contato com uma nova informação; de acomodação, quando ele acopla aquela informação nova a outras informações já absorvidas; o que resulta no mecanismo de equilibração, que é quando o indivíduo passa ver o mundo sob a perspectiva deste novo conhecimento (PIAGET, 2007). Os novos saberes então se complementam às estruturas cognitivas já construídas, e o indivíduo interage com aquele conhecimento a partir de suas vivências. Deste modo:
O conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos, nem de uma programação inata pré-formada no sujeito, mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas (PIAGET, apud FREITAS, 2000 p.64).
Com a ampliação de suas informações musicais, os alunos podem desenvolver uma musicalidade mais abrangente. O professor de música ocupa um papel relevante neste processo:
Sabe-se que atividades musicais criativas necessitam acima de tudo de uma abordagem cognitiva, pois, conhecendo os processos que a criança percorre na construção do pensamento musical (Beyer,1988,1993,1994,1995,1996), a prática pedagógica do professor de música poderia oferecer aos seus educandos muito mais do que uma fonte de prazer, mas também, uma possibilidade de construção e entendimento do fazer música (prática do discurso musical) e, principalmente, a compreensão do seu significado, das imagens mentais desses sons. Para Beyer, a formação de um conceito implica numa vivência anterior, em nível prático, ou seja, uma construção de esquemas sensórios-motores, simbólicos e intuitivos (FINCK, 2003, p.58).
Observamos, então, que a criatividade musical está relacionada às construções cognitivo-musicais dos indivíduos e às suas experiências sonoras anteriores. Temos assim a relevância da apreciação musical no ensino de música, pois, partindo dos modelos sonoros sugeridos pelo professor, o aluno pode construir sua mente musical.
O educador deve então auxiliar os alunos no fazer e compreender musical, proporcionando novas experiências a estes. De acordo com Vygotsky (1979), o professor é um mediador social do aprendizado, oportunizando atividades para que o educando possa alcançar os objetivos pedagógicos. Esta mediação ocorre quando o educador “se põe entre o aluno e o conhecimento para possibilitar as condições e os meios de aprendizagem” (LIBÂNEO, 2004, p.5). Ele trabalha então para que os níveis de desenvolvimento dos educandos tornem-se níveis reais de saberes e habilidades, de modo que "a zona proximal de hoje será o nível de desenvolvimento real amanhã" (VYGOTSKY, 1991, p.58).
Sendo o mediador entre a aprendizagem musical e os estudantes, o professor precisa procurar ferramentas para ajudá-los a desenvolverem suas próprias musicalidades. Tal qual o educador, a cultura é um meio bastante influenciador na construção da mente musical dos alunos. É na cultura que eles entrarão em contato com representações musicais naturalmente, realizando a apreciação musical em seu cotidiano. Tendo isso, dissertaremos a seguir sobre uma abordagem histórico-cultural da apreciação musical.