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4. O PÚBLICO E O PRIVADO E AS POLÍTICAS PÚBLICAS NAS MEDIAÇÕES DO

4.2.1. O público e o privado e as políticas públicas

Pensar e refletir sobre Políticas Públicas requer a compreensão da funcionalidade do Estado como um dos pilares do sistema sociometabólico do capital na função de assegurar e conservar os negócios privados da economia política de mercado, agindo coadunante com as exigências do processo desenfreado da expansão mundializada do capital, nas relações de interesses na determinação e preservação das relações capitalistas no conjunto da sociedade de classes.

Como pudemos observar, no bojo da redefinição da sociedade civil e da esfera pública em que se encontra apagado o fundamento liberal de separação, entre o público e o privado, ocorreram processos simultâneos de publicização da economia e privatização do Estado, adaptados as novas necessidades da reprodução sociometabólica do capital tornando essas esferas ressignificadas e abstraídas de

suas bases e conteúdo, criando simulacros que escamoteiam as contradições e os reais interesses de classe dessas esferas.

Contraposta à esfera privada, destaca-se a esfera pública como um reino da liberdade e da continuidade. Só a luz da esfera pública é que aquilo que é consegue aparecer, tudo se torna visível a todos. Na conversação dos cidadãos entre si é que as coisas se verbalizam e se configuram; na disputa dos pares entre si, os melhores se destacam e conquistam a sua essência (HABERMAS, 1984).

Conforme Leher (2005), “os liberais compartilham a crença de que a esfera pública se realiza na (e está circunscrita à) sociedade civil” [...], isto é, há um amálgama entre as referidas esferas para gerar um pacto de harmonia social, sem deixar transparecer que é uma esfera organizada pela economia política de mercado, portanto, conforme o autor, [...] é possível aos liberais reivindicar que o público e o privado são dimensões complementares inscritas na sociedade civil (LEHER, 2005, p.130). A sociedade civil é, portanto, convertida no lócus da democracia, lugar do diálogo e da tolerância, das diferenças, e não da força e dominância econômica, política e militar.

Estado/público e mercado/privado não constituiriam polos antagônicos, pois existe uma esfera externa a ambas as dimensões, a sociedade civil, que faz um amálgama entre as referidas esferas, atenuando suas tensões suas contradições. [...]sociedade civil que é convertida no lócus da democracia, lugar destinado à tolerância, ao agir comunicativo, esfera em que prevalecem os melhores argumentos, e não a força econômica, política e militar dos dominantes. É como se as assimétricas relações de produção não constituíssem a sociedade civil. Igualmente, sob esse prisma, o Estado perde sua feição classista, particularista, pois a miraculosa sociedade civil pode modificar a sua natureza com os ventos da democracia (LEHER, 2005, p.130).

Para Carvalho (2010), o Estado capitalista projeta dentre suas características a de assegurar as relações capitalistas no conjunto da vida social. A medida em que avança o processo histórico de desenvolvimento do capitalismo, essas normalizações e políticas estatais passam a regular não só as condições gerais da propriedade e das trocas, mas invade o conjunto das relações sociais, interferindo nas possibilidades e limites de utilização dos serviços e espaços públicos, organizando e redefinindo as reivindicações sociais, patrulhando as manifestações políticas e culturais, estabelecendo o horizonte da cidadania capitalista.

Desta forma, é pela via da sociedade civil que sob o constante apoio ao Estado tem-se impetrado o círculo vicioso da conservação do continuísmo no poder, como corolário dos grupos dominantes hegemônicos, por meio de importantes mecanismos políticos, que hoje se configuram referendadas na esfera pública, pelas armadilhas das políticas públicas para se prevalecer os interesses do privado, garantindo o pacto social a viabilização de toda uma estruturação espacial, de normatizações e legislações, de contenção militar e policial, para a manutenção do modo de produção capitalista.

O campo social é parte intrínseca e fundamental das transformações do próprio Estado, através das profundas modificações da relação Estado/sociedade, em direção à constituição de um Estado ampliado. A construção de sistemas de proteção social na fase atual do capitalismo está distante de ter acabado com as dicotomias anteriormente mencionadas como co-constitutivas desta forma de organização social e exercício do poder, por outro lado, a emergência dos sistemas de Bem-Estar social como produtos das políticas públicas orientadas à reprodução social e econômica das classes expressa a insuficiência das dicotomias anteriores para dar conta da dinâmica das relações sociais (FLEURY, 1994).

Para Lessa (2013) na gênese e difusão do "mito" do Estado de Bem-Estar colaboram muitas teses, dentre elas as que afirmam que, “no interior do movimento dos trabalhadores e partidos revolucionários, tendem a substituir a exploração do homem pelo homem como fundante do Estado, por uma concepção de transição ao comunismo que se daria pela mediação do Estado (LESSA, 2013, p. 133). O autor evidencia que, o segundo elemento, intimamente articulado ao primeiro, será a negação do caráter de classe do Estado.

Uma redefinição da esfera pública burguesa processou-se com o Estado de Bem–Estar, [...] onde a concorrência intercapitalista e o mercado de trabalho passam a ser regulados de fora [...] por uma racionalidade administrativa, ainda que o suporte material seja o conflito de interesses, ou a luta de classes (OLIVEIRA, 1999, p. 56).

Para o autor (1999), a grande depressão de 1929 foi marco da universalização de medidas de Bem-Estar produzindo a naturalização de processos a, perda da centralização do trabalho e as profundas modificações na classe operária:

 A burguesia no seu processo de intensa acumulação do capital, da concentração e da centralização, cujo emblema é a globalização, que se expressa na privatização do público, ou ideologicamente a desnecessidade aparente do público;

 Os discursos das multinacionais ultrapassam e tornam obsoletas os Estados nacionais;

 O Estado de Bem-Estar produziu transformações da classe trabalhadora, a uma espécie de naturalização das conquistas e direitos, ao tornarem-se praticamente universais liberaram-se de sua base material da própria classe, com o abandono da militância.

O autor reflete que todo esse processo é a privatização do público. Mais do que a privatização das empresas estatais, a subjetivação descrita é a privatização da esfera pública, sua dissolução, apropriação privada dos conteúdos públicos e de sua redução aos interesses privados. Nesse sentido, a administração do Estado de Bem-Estar é a produção do consenso, que produziu a anulação política do dissenso.

A natureza do Estado Brasileiro no final da dos anos de 1990, quando se implanta o neoliberalismo no Brasil, só pode ser esclarecida à medida que se toma a leitura da totalidade. Isso posto, partiu-se da hipótese de que as políticas públicas em um Estado neoliberal, mesmo quando representam os anseios das comunidades e grupos sociais pobres menos favorecidos, são elaboradas para a conformação dos interesses dos detentores do capital. Conforme ressalta autora, “as pesquisas realizadas oferecem um panorama da ação política do Estado, da atuação da sociedade civil e da situação social e econômica da população submetida aos programas e projetos das políticas públicas estudadas, particularmente em Sergipe”.

(SANTOS, 2015, p. 222).

Para Santos (2015) considerando a natureza de classe do Estado, as políticas públicas revelam as contradições existentes em suas formulações, na medida em que perpetuam a desigualdade social, no entanto, figuram como emancipadoras para aqueles que foram alvo de sua intervenção. As políticas públicas brasileiras carregam em seu conteúdo a característica da redução do público ao privado. O Estado, portanto, atua de um modo que o planejamento e a intervenção na economia asseguram os interesses particulares do grupo que o domina e constitui. Desse modo, o uso privado da coisa pública demonstra que as práticas e ações políticas são personificadas e revelam a estrutura do poder.

4.3. AS DISSIMULAÇÕES DO ESTADO NA NOVA ORDEM IMPERIALISTA DO