Para além dos embates sobre o espaço público, que motivaram pensadores por muitas décadas, a ideia de opinião e sobretudo de opinião pública que emerge desse espaço também pode ser investigada à luz de muitos autores. Há que se fazer referência àqueles que se notabilizaram, pelo rigor de suas pesquisas, no espaço da chamada Escola de Chicago.
Walter Lippmann, jornalista e filósofo, no livro Liberty and the News (1920), considerada sua primeira grande obra, se apresenta como um pensador que acredita no jornalismo como uma possibilidade de legitimar a opinião pública e realizar o ideal democrático. Lippmann (1920) defendia que somente uma
6 O psicólogo francês, Gustave Le Bon, é o autor do livro “A Psicologia das Multidões”, publicado em
imprensa livre poderia permitir o acesso aos serviços de informação, ao debate e à crítica que seriam fundamentais para que uma grande sociedade não ficasse submetida ao poder único do governo.
Mas, segundo Rüdiger (2014), essa ideia foi sendo abandonada por Lippmann depois da publicação, em 1922, do clássico Opinião Pública, quando ele passa a não acreditar mais em salvar a democracia pela reforma do jornalismo.
Na obra clássica, além de um estudo aprofundado sobre a estrutura
social, sobre o jornalismo e as ações governamentais e suas relações com a sociedade, Lippmann (2008) sistematiza um conceito de “opinião pública” que mesmo depois de muito tempo e tendo sido revisitado, criticado e atualizado, permanece como uma formulação rigorosa para se tratar do tema.
Aqueles aspectos do mundo que têm a ver com o comportamento de outros seres humanos, na medida em que o comportamento cruza com o nosso, que é dependente do nosso, ou que nos é interessante, podemos chamar rudemente de opinião. As imagens na cabeça destes seres humanos, a imagem de si próprios, dos outros, de suas necessidades, propósitos e relacionamentos, são suas opiniões públicas. Aquelas imagens que são feitas por grupos de pessoas, ou por indivíduos agindo em nome de grupos, é Opinião Pública com letras maiúsculas (LIPPMANN, 2008, p.40).
Há que se destacar a frase “as imagens nas cabeças destes seres humanos” que revela muito do pensamento de Lippmann sobre a opinião pública, não como resultado de uma elaboração apurada, mas como percepções.
Sobre como compreendemos o mundo à nossa volta, Lippmann (2008) lança mão da teoria de John Dewey para explicar que de toda a confusão de informações a que somos bombardeados todos os dias, absorvemos o que nossa cultura já definiu para nós, de forma estereotipada. O autor retoma o tema na obra O Público Fantasma e se diz desiludido com a democracia e com a capacidade do público de tomar decisões políticas. Lippmann escreve: “[...] O apelo à intuição cosmopolita, universal e desinteressada, existente em todos, equivale a um apelo a ninguém" (LIPPMANN, 1993, p.168 e 169)
Dewey (2012), contemporâneo de Lippmann, também concordava com a importância da ação da imprensa na nova sociedade que se estruturava nas
primeiras décadas do século XX, mas ele relativizava essa importância e considerava a imprensa apenas uma ferramenta a ser utilizada pelos grupos sociais para serem ouvidos. Dewey publicou The Public and Its Problems: An
Essay in Political Inquiry, em 1927, livro que alimentava o diálogo com Lippmann.
Mesmo assim, esse encontro de ideias deve ser entendido dentro do contexto histórico e não como um choque de posições totalmente antagônicas. Dewey concordava com a crítica que Lippmann fazia ao público e à própria democracia, mas considerava que o poder dos grupos era essencial para resolver os problemas da sociedade. “A cura para os males da democracia é mais democracia” (DEWEY,2012,p. 327). A teoria dos dois pensadores, Lippmann e Dewey, sobre público e democracia pode ser considerada precursora das ideias que iriam fundar os princípios do que, nos Estados Unidos, é apresentado como
Civic Journalism ou Public Journalism (TRAQUINA; MESQUITA, 2003).
Numa leitura contemporânea dos fenômenos associados ao público e suas opiniões, Charaudeau (2013) afirma que é difícil definir opinião pública na perspectiva das mídias que, não raro, a apresentam como uma entidade com certa homogeneidade, “quando resulta de um entrecruzamento entre conhecimentos e crenças de um lado, opiniões e apreciações de outro”. A complexidade para a compreensão da opinião pública, segundo o autor, decorre, em alguma medida, do fato de termos que compreender antes os contextos onde elas se formam. No olhar de Charaudeau, mesmo que se pense a opinião pública pelo viés racionalista, como a ideia de opinião consensual, do século XVIII, na perspectiva do instinto da multidão manipulada que marca a visão do fenômeno no século XIX, ou a partir do olhar da estatística do período da Segunda Guerra Mundial,
ela depende desse entrecruzamento múltiplo, e não se pode abordá-la razoavelmente caso não se levar em conta duas séries de parâmetros: a distinção dos lugares de pertinência (trata-se da opinião pública imaginada pela instância midiática, a que emana das realizações do próprio informativo, ou daquela que é construída através do estudo dos comportamentos do público?); a natureza dos julgamentos do grupo que as expressa (trata-se de crenças , opiniões ou apreciações?)( CHARAUDEAU, 20013, p. 123 e124).
Definir o que é opinião pública e como se comportam os públicos no universo complexo das tecnologias de comunicação e informação da atualidade,
que possibilitam, para citar Martino (2015), que possamos falar em esferas públicas no plural, dada as muitas possibilidades e escalas para conexão entre as pessoas, exige um olhar tão complexo quanto o é o problema estudado.