Não dormem os inimigos do cristianismo. Agem secretamente e muita vez (sic)onão percebemos.
Esse espírito de descristianização que anda pelo mundo, parece infiltrar-se nas almas mais discretas do século e, por longo tempo, fiéis a Nosso Senhor. Propaga-se muito, sem dúvida, mal e o numero de nossos adversários cresce; mas, por outro lado, alarga-se a doutrina do Evangelho até as mais distantes regiões do globo, como nos noticiam os missionários abnegados, que por lá andam.
O momento é de grandes sacrifícios.
Preparemos os caminhos para a boa nova (...) A Igreja venceu, vencerá, pois, até o fim do mundo(...)
Deus verdadeiro só há um. Não pode haver senão uma única religião boa e verdadeira, é conseqüência lógica. Entretanto, os homens se afastam do primeiro Princípio e do seu verdadeiro fim (...) A nós, coadjutores de Cristo, impõe-se a missão grave da pregação divina, e constante; o dever de empunhar a pena para sanar os males causados pela imprensa detratora dos costumes e da religiosidade dos povos! (...)
Arregimentemos nossas forças para o fulgor e a vitória total do cristianismo sobre as conciencias (sic) das nações, dos povos e dos indivíduos e,
particular. Encorajemo-nos todos para esta luta. Até as criancinhas, como sempre foram, a predileção de Jesus, até elas podem ingressar neste exercito de oração, exemplo e palavra, cujos soldados, com o emblema da cruz, batalham pelo maior reinado de Deus sobre a terra. E como? Rezando na linguagem pura de seus corações.
(...) Desempoeiremos os púlpitos, e algum tempo jazeram no silencio e no abandono. Preguemos o Evangelho. Empunhemos a pena pela boa imprensa e façamos que esta seja preferida, ou melhor, a única procurada pelos católicos.212
Entre o rol de inimigos da igreja na década de 40, a umbanda já estava incluída, mas ainda sobre outras denominações, como já foi mencionado acima. A partir disso, o discurso católico sobre a umbanda pode ser dividido em três momentos: de 1940 a 1951, de 1952 a 1960 e de 1961 a 1965213. O principal critério utilizado para essa divisão foi em primeiro lugar, a utilização do termo “umbanda” ou termos relacionados como, por exemplo, “umbandistas” pelas fontes católicas que se deu pela primeira vez em 1952. Em segundo lugar, a diminuição drástica de matérias envolvendo as religiões mediúnicas na passagem da década de 50 para a década de 60. Essa divisão não deve ser tomada de modo estanque, pois na verdade, tem o objetivo de organizar o material coletado a partir de algumas características comuns observadas em cada período.
A igreja católica enquanto instituição sofreu algumas mudanças nesse intervalo de 25 anos, algumas mais substanciais, mais significativas, outras menos, portanto, o seu discurso com relação às religiões afro-brasileiras, especialmente a umbanda, também passou por mudanças. Pode-se dizer numa frase que a igreja foi da acusação generalizada ao campo mediúnico, passando pela acusação mais específica a cada religião mediúnica até a mudança de perspectiva em meados dos anos 60, quando abandona relativamente o tom acusatório.
Nesse primeiro momento, o termo “umbanda” nem qualquer outro que remeta diretamente como: “umbandista”, “espiritismo de umbanda”, “umbandismo” etc, aparecem na documentação. Esse primeiro momento é constituído por um discurso generalizante acerca das religiões mediúnicas de modo que a acusação a umbanda ainda estava embutida sob outras denominações como foi possível concluir após a análise do conjunto das fontes. Através de vários elementos encontrados nos textos, é possível perceber, mesmo
212
O Lampadário, 12 de setembro de 1942, p.2.
213
As tabelas de quantificação foram elaboradas “por períodos inteiros” para facilitar a visualização do aumento do número de matérias referentes aos cultos mediúnicos, dos anos 40 para anos 50 e o grande declínio nos anos 60. A observação atenta dos gráficos demonstra essas diferenças quantitativas com maior facilidade.
quando utilizavam apenas “espiritismo”, que não se fazia referência apenas ao espiritismo kardecista, mas também a umbanda e as demais religiões afro-brasileiras.
Há uma grande variedade de termos utilizados, de modo que formam uma lista considerável e bastante curiosa. Entre os termos e expressões empregados para fazer referência às religiões mediúnicas de maneira geral foram encontrados: “espiritismo(s)”, “alto espiritismo”, “baixo espiritismo”, “centros altos”, “centros baixos”, “diversos tamanhos de espiritismo”, “toda sorte de espiritismo”, “espiritismo vestido com suas diversas roupas”, “macumba”, “macumbas”, “macumbismo”, “práticas de macumbas”, “hábitos fetichistas”, “fetichismo”, “fetichismo africano”, “candomblés”,214 “feitiçaria”, “feitiçarias”, “baixa feitiçaria”, “prática de baixa feitiçaria”, “bruxaria”, “magia negra”, “magia branca”, “benzeções”, “superstição”, “superstições” e “curandeirismo”.
Entre os termos utilizados para fazer referência aos lugares de cultos das religiões mediúnicas foram encontrados: “centros” e “terreiros”. Para fazer referência aos praticantes das religiões mediúnicas: “espírita(s)”, “espiritista(s)”. Para denominar as autoridades religiosas: “pai de santo”, “bruxo(s), “curandeiro(s)”. Para indicar as reuniões ou sessões: “sessões mediúnicas”, “sessões trevosas de espiritismo”, “sessões de Pai Jacó” e “sessões escuras de espiritismo”. Costumavam ainda citar nomes de entidades umbandistas, como: “caboclo sete encruzilhadas” ou apenas “caboclo”. E, finalmente, utilizavam o termo “espíritico(s)” ou “espírita(s)” para fazer referências aos fatos ou fenômenos.
Algumas observações devem ser feitas acerca da lista acima. Primeiro, fica evidenciado pelos vários termos e expressões utilizados que há um discurso católico sobre a umbanda mesmo antes do aparecimento do termo. Segundo, alguns termos não são peculiaridades do discurso católico, pois já haviam sido utilizados antes da década de 40 bem como foram usados concomitantemente por outros setores da sociedade, como por exemplo, médicos, juízes e aparato policial. 215 Terceiro, o uso recorrente de termos no plural para fazer referências as religiões mediúnicas – “macumbas”, “candomblés”, “espiritismos” etc – pode ser interpretado como mais uma estratégia do discurso católico, haja vista que era uma maneira de retirar a identidade tanto do espiritismo kardecista, quanto da umbanda e demais religiões afro-brasileiras. Quarto, há muitos termos
214
É importante observar que apesar da igreja utilizar como uma das categorias acusatórias a palavra “candomblés”, tudo indica que o candomblé só chegou à cidade na década de 80. Para maiores informações ver TAVARES & FLORIANO, op.cit., p.173-176. In: TAVARES & CAMURÇA (org) In: Minas das
devoções,
215
pejorativos, depreciadores e alguns até revestidos com certo tom de ironia, muito presente em várias matérias encontradas no jornal.
Uma série de textos foi selecionada e serão transcritos em ordem cronológica – salvo quando houver necessidade de fazer algum recuo em função das próprias fontes – para que se percebam as mudanças nos discurso católico através do tempo. O primeiro deles é de 1940, escrito por padre Leopoldo Aires, que apareceu numa espécie de seção criada pelo jornal, intitulada “Conversas sobre o espiritismo”:
Conversas sobre o Espiritismo O CONGRESSO DELES
“Reuniram-se há pouco tempo na capital do paiz (sic) alguns
jornalistas adeptos do espiritismo e a isso deram o nome de congresso. Como todo congresso, o dos jornalistas espíritas formulou conclusões. Como todas as conclusões espíritas, as deste congresso são um tanto divertidas.
Exemplo: a conclusão n.5. Afirma se aí, com entono devéras catedrático,“que o espiritismo tal como é praticado e compreendido no Brasil, orientado pela codificação Kardeciana e servindo ao Evangelho... não pode deixar de ser encarado no seu tríplice aspecto – científico, filosófico, religioso – (...) O congresso não se quiz misturar com o que eles chamam “o baixo espiritismo”, isto é, a macumba. Por isso, a ressalva: “orientado pela
codificação Kardeciana,” que vale como dizer á macumba: “eu t’esconjuro”! Quer dizer que o congresso também sabe excomungar...
Como é compreendido e praticado, não só no Brasil, mas também em toda parte, o espiritismo nada tem, nem pode ter de científico. Reúnem-se em determinado lugar certas pessoas que acreditavam voltar á terra os espíritos dos mortos. Sucedem durante a reunião, fenômenos que os espíritas classificam como entrecomunicação dos mortos e vivos. Por que será isso científico? Talvez o fosse, se aí se aplicassem os métodos da ciência experimental, com o fim de se eliminar qualquer ilusão dos sentidos.
Na observação dos fatos ditos espíriticos, concorrem várias causas de erro que podemos enumerar pela ordem de freqüência, (G. Danvile). Essas causas são:1 – Insuficiência de precauções quanto á fiscalização dos fenômenos. 2-Insuficiência de noções científicas por parte dos que testemunham os fenômenos. 3- Tendência da paixão a deformar a visão exata dos fatos. 4- Influencia de um operador, capaz de provocar a visão de fatos imaginários. Ora, não é preciso ter assistido a nenhuma sessão de espiritismo, mas basta ter conhecimento dos espiritistas e ouvir o que contam, para que na origem dos fatos relatados reconheçamos aquelas causas. Quaes as precauções tomadas para a verificação dos fenômenos? Nenhuma. Os ambientes, em que tais fenômenos se processam, são os mais suspeitos. As testemunhas dos fatos são indivíduos cientificamente analfabetos. A presença de um ou outro que não merece esta classificação não vae (sic) além de um por dez mil. Mas este comparece a sessão com todas as intenções possíveis, menos a de averiguar os fenomenos.(sic) O influxo da paixão, deformativo da visão serena dos fenomenos, predomina ainda mesmo no espiritista que fosse capaz de examinar cientificamente os fatos.(...)
Carlos Richet escreveu que os espiritistas deformam e desnaturam muitas experiências e observações com sua preocupação de criar uma religião nova; por isso ( afirmou) “a religião espírita è inimiga da ciência” (...).
Mas o Congresso espírita, reunido ali na União Espírita Suburbana, solenemente definiu Urbi et orbi que o espiritismo é científico...no Brasil.”216
(Secretariado Nacional de Defesa da Fé)
O texto acima faz referência a um congresso feito por jornalistas espíritas no Rio de Janeiro. Pela transcrição, pode-se perceber que os kardecistas buscavam separar-se das outras religiões mediúnicas, especialmente da umbanda, o que se explica pelo contexto de repressão da década de 40, já explicitado anteriormente. O autor trata a situação com ironia e tenta apagar as diferenças entre o espiritismo e a “macumba”. Apóia-se na ciência para tentar desmistificar o tríplice aspecto do espiritismo no Brasil, o que irá fazer muitas vezes ainda ao longo do período, pois essa era uma forma encontrada para homogeneizar o campo mediúnico.
Apesar de ser de autoria do padre Leopoldo Aires, traz entre parêntese, no final, a referência ao Secretariado Nacional de Defesa da Fé, sobre o qual é preciso prestar alguns esclarecimentos. Segundo Bandeira, 217 o Secretariado de Defesa da Fé foi criado em 1939 em obediência à determinação do Concílio Plenário Brasileiro realizado no mesmo ano. Segundo a mesma autora, o órgão de âmbito nacional foi criado para deter a invasão protestante e espírita. Após a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, o Secretariado passou a fazer parte da nova entidade católica nacional. O Secretariado produziu boletins, folhetos e artigos que eram emitidos para diversos jornais e revistas católicas do país, por isso a presença do Secretariado foi uma constante no jornal, assim como diversas explicações sobre o que de fato era o Secretariado, quais eram as suas funções, como solicitar material ao órgão, além dos vários pedidos de colaboração com o Departamento. Pedia aos “bons católicos” que “cerrassem fileiras” junto ao Departamento, 218 e enviassem para o mesmo “toda propaganda herética ou suspeita”, recorte de jornais sobre “atividades heréticas em geral” ou ainda “artigos contra a Santa Igreja”. 219 Ao longo do período pesquisado, outros nomes aparecem para o mesmo órgão na documentação, como “Departamento de Defesa da Fé e da Moral” ou somente “Secretariado de Defesa da Fé e da Moral”. Alguns exemplos podem ser vistos abaixo:
216
AIRES, Padre Leopoldo. In: O Lampadário, nº 724, 10 de março de 1940,p.2.
217
Para mais detalhes ver BANDEIRA, Marina. A Igreja Católica na Virada da Questão Social (1930-
1964).,p.55.
218
O Lampadário, 13 de setembro de 1947, p.1. Outras matérias sobre o Secretariado podem ser vistas em O
Lampadário: 22 de fevereiro de 1947, p.1; 01 de março de 1947, p.3 ; 13 de março de 1948, p.2, p.3; 25 de
setembro de 1948, p.4; 0
219