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Capítulo III: Almas que migram

3.6 O Padre e seus romeiros

Novamente a utilização da obra de Lourenço Filho se faz necessária, isso se deve ao fato de que ele vivenciou Juazeiro nas primeiras décadas do século XX, ou seja, podemos dizer que ele foi uma espécie de “espectador” In

Loco, e presenciou Juazeiro com seu patriarca vivo, fazendo parte da primeira

geração de romeiros. Seu relato traz uma riqueza de detalhes demonstrando o acurado de suas observações:

A maneira pela qual o padre Cícero se dirige aos romeiros, ouve lamentações e queixas, recebe dinheiro e outras dádivas, aconselha e receita (...). Vimo-lo nessa curiosa tarefa. Tivemo-lo ao pé, e estávamos por detrás da mesma janela gradeada, juntoaos batentes da qual se comprimiam, da outra banda, dezenas de alucinados, devotos e penitentes, peregrinos que suaram até o sangue para atingir a suspirada Meca do Cariri, malucos que lhe levavam os últimos tostões, mães aflitas que rogavam a bênção aos filhos moribundos, e com os quais afrontavam, num desespero de leoas feridas, naquele ajuntamento dantesco, que as repelia e maltratava. O padre mal distingue, naquele tumultuar, o que todos se esforçam por dizer-lhe, e contenta-se em receber as espórtulas, os mimos singelos ou valiosos, os rosários, medalhas e bentinhos... Aos mais próximos, que lhe renteiam as faces, exibindo por vezes chagas sangrentas, ou os lábios comidos pela bouba, ou as faces maceradas pelo jejum, os olhos desfigurados pelo tracoma, ele receita... (...) Algumas vezes, distribui esmolas. Contudo, mais recebe que dá. E... quando se sente fatigado, quando as mãos em súplica já avançam pelas frestas da janela, e o atingem na sotaina, nos braços ou no peito, e já o empurram e já o empuxam, violentas e ameaçadoras, ele, por sua vez, levanta a destra, como sinal de silêncio, sustenta-a no ar, por um instante, os olhos postos no céu, reverentemente, e desce, enfim, sobre aquela miséria e degradação, a bênção que a todos, indistintamente, consola e aplaca... Depois do que, aferrolhada por prudência a janela, lava as mãos, tranqüilo e satisfeito, e vai merendar. (p. 45-55)

A maestria com que Lourenço Filho nos relata é notável, suas palavras parecem nos transportar metafisicamente até aquela cena do velho sacerdote abençoando seus romeiros da janela de sua casa. No livro de Maria da Conceição Campina(1985), há um relato especialmente comovente da própria autora romeira que transcreve uma fala do Padre Cícero.

Como foi que eu (Pe. Cícero) arranjei amigos? Foi protegendo os pobres. Eles gostavam de mim e votavam comigo que, graças a Deus nunca perdi. Saí da prefeitura quando quis que eu mesmo entreguei a José Geraldo da Cruz. Se eles fizessem como eu fiz, não tinha quem os vencesse, porque o povo ajudava eles, porque não tem quem possa com uma nação grande e revoltada, eu fiz assim: quando os romeiros começaram a chegar aqui, sem ter nada, eu saía pelos sítios pedindo morada aos amigos para eles, depois começou a chegar gente só de visita e me dava dinheiro, e eu juntei e pensei: eu vou é comprar terra pra botar eles pra morar e trabalhar. E assim fiz. Separei uma parte da terra para eles fazerem as casas, criar galinhas, cabra de leite e um animalzinho para carregar as suas carguinhas e o resto eu cerquei de arame pra botar roça. Tanto para mim quanto para eles. E eu só cobrava dos rendeiros meia quarta de tarefa, o restante era do rendeiro, pois eles é quem trabalhava. O dono é eles. Se eles não limpassem a terra coberta de mato, não daria nada de futuro. (...) (Campina, 1985. p.179).

É notório que a explicação dada por esta romeira não tem como foco uma explicação religiosa. A interpretação do discurso nos aponta a sofisticação de sua fala elaborada e construída a partir do que ela viu, ouviu e leu a respeito do Santo Padrinho, ela não tem um olhar de fora para dentro, mas justamente ao contrario, ela está no que Braga chama de “primeira geração de romeiros”, ou seja, peregrinos que viram Cícero em vida. Ainda sobre essa narrativa pode-se desconstruir a ideia de que, os romeiros eram vítimas ignorantes dos trâmites e maquinações do Patriarca de Juazeiro.

Cabe-nos ainda ao nos debruçarmos sobre a relação do Padre Cícero com seus romeiros perceber que esse enlace envolvia a feição, mas também severidade com que combatia o pecado. Entretanto, longe de construir um falso moralismo e de ser um mero acusador, Cícero se diferencia novamente, “Odiar o pecado e amar o pecador” fórmula medieval complexa e núcleo duro do evangelho cristão que nos parece traduzir como se deve portar um verdadeiro católico no ato de não condenar, mas converter.

Alguns relatos de época dão conta das intervenções severas feitas por Cícero quando se tratava sobre a vida e a moral da cidade. Um desses relatos

nos chama atenção por ser quase cômico feito por Amália

Oliveira29,(BRAGA,2007, p.108) é exemplar:

Um dia alguém lhe avisa que está havendo um samba no Cajueiro. Após a reza do rosário, o Padre toma sua frugal refeição, e dirigi-se, acompanhado de um dos amigos, para o Cajueiro, levando seu cajado, já usado, àquela época, quando fazia essas diligências.

Estavam todos no maior entusiasmo, dançando, bebendo e cantando, quando um dos „espias‟ que sempre ficava a disposição vigiando, alarmou o grito: „lá vem seu Padre!‟ Foi um verdadeiro estouro de boiada; tocadores e dançadores correram logo, ficando apenas uma das sambistas que embriagada pelo álcool e pelo calor da dança, não viu a saída dos companheiros e ficou no terreiro dançando e cantando – „quando eu quero eu quero – Quando eu quero é já‟ (bis).

O Padre aproximou-se e falou zangado, quase empunhando o cajado: „O que tu queres mulher? ‟e a mulher, entre surpresa e atordoada, ajoelhou-se, pondo a mão em atitude de quem ora, respondeu aflita – „Quero me confessar, seu Padre‟.

O Padre Cícero contava essa história rindo do espanto da dançarina. (Oliveira, 2001: p.64)

Para lançarmos um olhar sobre essa narrativa, é imperativo que não cometamos um anacronismo, não é possível perceber o que foi narrado com “os olhos de hoje” admitindo que lemos o mundo com nossos conceitos, se fizermos isso, lançaremos nossos valores em uma época que não os cabe. Padre Cícero antes de qualquer coisa era um homem do seu tempo, com valores do seu tempo, valores que hoje parecem, nos apresenta-lo retrógrado, sua forma de agir e julgar estava em seu contexto histórico, para, além disso, a narrativa supracitada tem dois pontos que devem ser observados.

O primeiro aponta para algo demasiado humano no Santo Sacerdote. O achar graça, o rir da lembrança dessa situação. Nesta ultima frase, Amália nos oferece uma imagem de um homem simples, e se assim podemos colocar, o mais distante de um mito.

29

A autora não precisa uma data. Pelos dados que ela fornece, aparentemente trata-se de algo que ocorreu num período que Juazeiro ainda mantinha uma população não muito grande, capaz de em todas as suas extensões serem moralmente controlada pelo Padre.

Em segundo, ele relata algo que seja a ser um contraponto disso, entretanto, um contraponto que é igualmente humano e distante de um mito hagiográfico. Um Padre Cícero moralizador e até mesmo repressor, bem distante do relativismo moral que vai emergindo no século XX.