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3. RELAÇÃO UNIVERSIDADE-ESCOLA NA FORMAÇÃO DOCENTE INICIAL

3.1 O PAPEL DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DA COMPLEXIDADE

Na complexidade das relações que se estabelecem hoje entre a humanidade e dela com a natureza, surge à fragmentação e a dualidade entre ciências naturais e humanas tendo como pressuposto e marco histórico na chamada Revolução Científica do século XVI. Tais pressupostos mostram-se hoje como insuficientes, principalmente no que se refere à educação formal em que há a necessidade de abordagens para a inclusão a relação sociedade/natureza, bem como a universidade-escola no âmbito de seus estudos.

Os conhecimentos fragmentados servem prioritariamente para os usos técnicos não permitindo a articulação necessária para a auto-reflexão e aproximação às realidades do cotidiano.

Nesta linha de pensamento, Raynaut (2011) define este momento como de revolução intelectual:

Talvez se possa dizer que estamos passando por um movimento de revolução intelectual e moral equivalente àquele produzido durante a Renascença,... Estamos em um momento crítico do desenvolvimento do pensamento humano. Ao mesmo tempo assistimos ao triunfo da ciência como instrumento de mudança de nossa existência individual e coletiva e ao questionamento do papel da mesma, junto com dúvidas sobre a natureza do conhecimento que ela traz. Muitas certezas estabelecidas sobre a herança do positivismo científico e da utopia do progresso e da modernidade vacilam (RAYNAUT, 2011, p. 2).

A educação, neste contexto, como processo de formação acadêmica, deveria ser reformulada. Várias teorias na atualidade tentam abordar de uma forma mais contextualizada os problemas enfrentados pela Educação Básica, Técnica e Superior no Brasil, no entanto, nota-se que nem sempre é conseguido transpor as barreiras da diversidade cultural e social, mantendo-se na superficialidade, alcançando apenas as discussões teóricas. A educação, apesar de nem sempre ser tratada assim, é ato político (FREIRE, 2011). Ao longo da história da educação no nosso país, pode-se observar que a mesma tem sido tratada como moeda de barganha por políticos, além de estar presente em todos os discursos e geralmente, ausente ou desprestigiada em seus planos de governo.

Por outro lado observa-se que os investimentos em educação e desenvolvimento econômico têm sido historicamente tratados de forma muito desiguais. Ressalta-se, de acordo com Sen (2010), que o desenvolvimento deve ser entendido como liberdade, ou seja, não pode ser concebido apenas no seu aspecto econômico, mas, sobretudo, para o desenvolvimento humano e social. Já Morin (2003, p. 20), defende a ideia de uma “cabeça bem-feita e não uma cabeça cheia”, da necessidade de aprender a lidar com o acúmulo de informação e a superficialidade dos conhecimentos.

Para Freire, (2011, p. 15), “[...] só na verdade, quem pensa certo, mesmo que, às vezes, pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo. E uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas”. Nota-se que as incertezas fazem parte do processo de descoberta e construção de conhecimentos. Portanto, é preciso saber lidar com as incertezas e dúvidas promovendo movimento intenso de trocas e diálogos favorecendo as descobertas conjuntas entre os diversos grupos de atores sociais.

Neste sentido, infere-se que a temática do papel da educação na construção social é de suma relevância. Pensar em desenvolvimento social é até certo ponto antagônico a se pensar apenas o crescimento econômico, de acordo com Furtado (1974), ou seja, significa levar em consideração todos os aspectos que conformam a vida sócio-cultural do indivíduo. É neste bojo que a educação insere-se como um dos fatores determinantes para alcançar tão nobre objetivo.

A educação apresenta-se, no parecer de Freire (2011), como um elemento substancial para a autonomia humana, libertando-se e recusando-se a um tipo de “ensino bancário”, (FREIRE, 2011, p. 13). Assim, de acordo com Morin (2003, p. 20), “[...] reforma do ensino deve levar à reforma do pensamento, e a reforma do pensamento deve levar à reforma do ensino”. Estas mudanças na educação devem ser reformuladas no contexto de uma sociedade em vias de transição, pois para Freire (2014, p. 51), “não há educação fora das sociedades humanas e não há homem no vazio”. Porém, entende-se que o processo educativo é complexo e está permeado pela multiplicidade de relações humanas e epistemológicas, as quais exigem que os programas de formação docente busquem novos olhares, volte-se para trabalhos e programas interdisciplinares e interinstitucionais. Observa-se, nesta direção, que o PIBID tem potencial teórico-prático para trazer novos rumos para os programas de formação de professores.

Neste sentido, nota-se que programas que concentram seus fundamentos teórico- práticos na complexidade das relações e epistemologias apontam como possíveis “caminhos ou soluções” a necessidade de “descolonizar” (FREIRE, 2014, p.51) a educação e os programas de formação docente, buscando assim, uma educação para a liberdade (idem, ibdem), construída a partir do diálogo de saberes (SANTOS, 2010) e levando em consideração as Epistemologias do Sul, de acordo com Santos (2013), as quais se centram no fato de “dar voz” aos povos e conhecimentos historicamente considerados periféricos que ocorrem fora do “prestigiado” circulo eurocêntrico, permitindo que outros conhecimentos possam lançar “feixes de luz” (MINAYO 2000) permitindo a construção coletiva.

Observa-se a urgência de pensar a educação com um papel central no desenvolvimento social do indivíduo e não apenas como um complemento na formação, que dá status, ou ainda, como necessidade primordial para sobrevivência no mercado de trabalho. Neste sentido, não se pode pensar inocentemente que a educação será única e exclusivamente “redentora” de todos os problemas sociais.

Nesta direção faz sentido pensar no diálogo de saberes (SANTOS, 2010), para o enfrentamento das questões complexas vividas pela educação na atualidade como acesso,

permanência, formação inicial e continuada, as quais perpassam a temática da dissertação, revelando a complexidade da relação universidade-escola. Neste sentido, o diálogo de saberes tem sido apresentado por diversos autores (SANTOS, 2010, LEFF, 2010, MORIN, 2003) como possibilidade de enfrentamento dessas complexidades enfrentadas pela educação e, concretamente neste estudo, os desafios da formação docente inicial. Para aprofundar nesta discussão apresenta-se na continuação considerações sobre o conceito de políticas públicas e ainda, o PIBID como política pública de educação.