CAPÍTULO I OS JORNAIS O ESTADO DE SÃO PAULO (BRASIL) E LA
TRIBUNA (PARAGUAI): TRAJETÓRIAS, PROJETOS POLÍTICOS
1.2. O Estado de São Paulo: trajetória e projeto político
1.2.2. O papel da “elite esclarecida” brasileira
O elitismo do OESP foi um dos traços marcantes do seu projeto político. Os representantes do jornal reafirmaram a concepção de que o “caráter nacional” era determinado pela raça e pela mistura de sangue. Repercutindo as teorias raciais do século XIX, que alcançaram o século XX, Júlio de Mesquita Filho argumentou, em 1925, que a incorporação do negro na sociedade brasileira era responsável pelo “atraso” nacional e defendeu um projeto que se centrava na formação das “elites intelectuais”.77 Na década de 1960, o jornal mantinha o elitismo como característica em seu projeto.
Para OESP, o principal “problema brasileiro” era a ausência de uma “elite intelectual” capaz de interpretar os problemas de sua época e dar a eles uma solução adequada. Em sua obra de 1925, A Crise nacional, Mesquita Filho já apontava para o lugar da educação no projeto liberal, em que “renovar o ensino significava renovar a sociedade dentro da ordem”. Segundo Capelato:
Referindo-se à “alarmante anarquia” da sociedade, definiu-a como decorrente da “falta de um sistema de ideias, princípios e ausência de um ideal”. Renovar a educação significava preencher essas lacunas e pôr termo ao espírito de rebeldia reinante no país. Delegou às “elites” a
77 CAPELATO, Maria Helena; PRADO Maria Lígia. O Bravo Matutino: imprensa e ideologia no
missão de “refundar a cultura e restabelecer a disciplina na mentalidade do povo”. Desprovido das luzes, da ciência e do espírito metódico, esse povo seria conduzido por elas no caminho do progresso78.
No projeto político do jornal paulista, a criação das universidades seria responsável pela formação dessa elite intelectual, necessária para o desenvolvimento da consciência nacional, o remédio do problema brasileiro. Entre os principais idealizadores da Universidade de São Paulo, estavam: o próprio Mesquita Filho, Armando de Salles Oliveira, interventor do estado de São Paulo, e o educador e membro da redação do OESP, e Fernando de Azevedo (1894-1974). Fundada em 1934, a Universidade de São Paulo (USP) era parte central do projeto político liberal do jornal. Integrou diversas instituições de ensino superior já existentes no estado, como as faculdades de Direito (1827) e de Medicina (1913), já responsáveis pela formação da elite paulista79.
No discurso lido por Júlio de Mesquita Filho como paraninfo da primeira turma da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras (FFCL) da USP, em janeiro de 1937, o diagnóstico e o remédio foram dados aos formandos: “o problema brasileiro era, antes de mais nada, um problema de cultura”. Mesquita Filho sintetizou, de acordo com o projeto dos “fundadores” da universidade, o papel dos formandos, que teriam “por principal missão criar um ideal, uma consciência coletiva [...] criar no espírito da juventude e instilar na alma coletiva a mística nacional”80.
No projeto político do jornal, o elitismo não passava apenas pela ambição de formar as elites intelectuais. Nesse sentido, a visão dicotômica e a leitura maniqueísta da sociedade representavam os interesses privados privilegiados de um setor dos industriais paulistas e os grandes proprietários de terra paulistas. Para defender seus interesses buscou a identificação com os políticos mais próximos para realizar o seu projeto liberal. Para o jornal, assim, as “classes produtoras” –
78 CAPELATO, Maria Helena. Os Arautos do Liberalismo: imprensa paulista 1920-1945. São Paulo:
Brasiliense, 1989. p.145.
79 Cf. CALDEIRA, João Ricardo de Castro O sistema universitário paulista. In: ______; ODALIA,
Nilo. (Org.). História do Estado de São Paulo: a formação da unidade paulista. São Paulo: Imprensa Oficial; Editora UNESP; Arquivo Público do Estado, 2010. v.2. p. 599-622.
empresários, os militares, os proprietários rurais e os trabalhadores submissos - representavam os setores progressistas da sociedade, defensores das liberdades individuais. O outro lado era representado pelos trabalhadores mobilizados, identificados pelo jornal com os projetos reformistas, que eram associados ao “getulismo”, ao comunismo e à tirania81.
Muitas vezes, a perda de privilégios que as elites possuíam transformava o elitismo do jornal em uma clara desqualificação dos desfavorecidos do país.
OESP, por exemplo, se opôs ao direito de voto para os analfabetos, debatido em junho de 1964. Nessa oposição manifestou sua crença na inferioridade intelectual e cultural da maior parte da população brasileira. Para eles, o nordeste brasileiro representava o atraso, enquanto no sul, devido à pouca mestiçagem, repousava um “espírito de coletividade realmente evoluído”. Na década de 1960, o jornal paulista manifestava sua posição em favor das elites esclarecidas e a convicção de que a solução dos problemas sociais do Brasil residiam na pureza étnica. Sua postura, apesar de extrema em alguns momentos, era coerente com o diagnóstico de Mesquita Filho em décadas anteriores, um claro desprezo pelos pobres e mestiços:
([...] o Brasil não tardará a ser dominado pela massa amorfa e inconsciente das populações nordestinas, oriundas do choque de três mentalidades antagônicas e que por isso são hoje vítimas de um psiquismo mórbido, que as impede de se integrarem no espírito de uma coletividade realmente evoluída. [...] serão precisamente eles que pelo número anularão qualquer espécie de ação que pudessem vir a exercer nos destinos do País os habitantes do Estado da Guanabara, de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul82.
O elitismo, presente em seu projeto, levou OESP a atuar contra a ampliação dos direitos civis e sociais. Ao considerarem os trabalhadores, principalmente os rurais e os nordestinos, como “massa de manobra” de interesses “subversivos”, o jornal reafirmava o seu elitismo. Apontava a ignorância da “massa amorfa e inconsciente” como responsável pela mobilização social contrária aos princípios
81 FIGUEIREDO FILHO, C. R. A escola superior de guerra e o jornal O Estado de São Paulo na
passagem do regime democrático para o regime militar. São Paulo, 2001. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001. p.68-73.
liberais. Daí a exaltada campanha contra os trabalhadores rurais, fundamentada na defesa do direito à propriedade privada, e contra os projetos que, na ótica do jornal, atacavam esse direito, como a reforma agrária.
o debate em torno às reformas de base, durante o governo João Goulart (1961-1964), o periódico paulista explicitou que caberia às elites nacionais escolher “a solução que melhor convinha aos interesses coletivos”, já que elas eram orientadas pelos preceitos da ciência e da técnica, o que no discurso do periódico significava neutralidade. Para o diário, o seu projeto de formação das elites intelectuais estaria se realizando caso essas elites assumissem o seu papel de “defesa do organismo social” contra “um governo inepto e protetor das forças empenhadas na destruição do regime”83.
Na década de 1960, a imprensa brasileira ocupou o centro dos debates sobre a reorganização do regime político. O jornal paulista, que representava os interesses dos industriais e dos grandes proprietários rurais paulistas, seguiu embasado pelas concepções elitistas de seu projeto liberal dos anos de 1930. Nesse sentido, os liberais do OESP se posicionaram mais pela defesa das tradicionais liberdades individuais do que pela ampliação dos direitos sociais. Dependendo do momento e do governo, no entanto, as garantias dos direitos individuais justificaram a defesa um regime forte que corresponderia às exigências do desenvolvimento nacional.