• Nenhum resultado encontrado

Se a gente não se une Deus não salva (CPT/MG, 1983, p. 4).

A partir da década de 1940, observa-se a formação de uma esquerda Católica ou de uma “ala da Igreja Católica” preocupada com as questões sociais. Convencionou-se chamá-la de Igreja Progressista, em oposição à chamada Igreja. O principal representante do setor progressista é D. Helder Câmara21 (LÖWY, 1991). Atuavam no Nordeste duas organizações vinculadas à Igreja Católica, o Serviço de Assistência Rural (SAR) e o Serviço de Orientação Rural de Pernambuco (SORPE), voltadas para ações na área educacional e médica até a década de 1960. A partir dos anos 60, os Círculos Operários cristãos, criados durante o

21 Arcebispo emérito de Olinda e Recife (PE). Teve forte atuação na defesa dos direitos humanos e no combate à violência durante a ditadura militar.

governo Vargas, voltaram sua atuação para os sindicatos rurais, com o objetivo de fazer frente aos sindicatos de orientação comunista (RAMOS, 2011). No ano de 1962, uma nova organização surge no interior da Igreja Católica, com uma orientação diferente dos Círculos Operários Cristãos, intitulada Ação Popular (AP). De acordo com Ramos (2011), a AP foi criada pela Juventude Universitária Católica (JUC) com o objetivo de conscientizar e mobilizar os trabalhadores, a partir do método de alfabetização de Paulo Freire22, lançando as bases para a sindicalização rural (RAMOS, 2011).

A Igreja Católica formou várias instituições de ação pastoral rural, como a Animação dos Cristãos para o Meio Rural (ACR), fundada no ano de 1965, que iniciou sua expansão no ano de 1968. De acordo com Koury (2010), o trabalho de mobilização e resistência dos trabalhadores rurais pelos setores mais progressistas da Igreja Católica resultou da ruptura com o Estado brasileiro, no ano 1968, e da crítica ao imobilismo e aparelhamento dos sindicatos à estrutura oficial. O termo adotado pela Igreja Católica para definir o seu trabalho de conscientização dos trabalhadores rurais e urbanos através do evangelho denominava-se

“Caminhada”. Segundo Koury (2010), “[...] estas novas tentativas [...] buscavam a formação de uma liderança rural, intitulada, no jargão católico, de animadores de base” (KOURY, 2010, p. 312). A ocupação deste espaço permitiu a projeção de vários militantes da área de influência da Ação Popular (tendência da Igreja Católica) e das Pastorais nos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STRs) associados ao “novo sindicalismo”, o qual, em linhas gerais, defendia a redemocratização, a liberdade, a autonomia sindical e a realização de eleições diretas.

Corso (2012) defende a tese de que a questão agrária aparece no discurso da Igreja até 1950 de forma marginal. Nos anos seguintes, ela foi incorporada ao discurso oficial. O movimento religioso deflagrado nos anos 1970/80 através da articulação da Comissão Eclesial de Base (CEB), segundo Pinheiro Júnior (2006, p. 28), assume o “[...] socialismo como projeto social e combatia abertamente a ditadura brasileira”. Isso não significa afirmar a inexistência de conflitos entre os diferentes grupos sociais de combate à ditadura, pois, de forma geral, os religiosos nutriam um forte sentimento anticomunista. Questões ligadas à demarcação de terras indígenas, às péssimas condições de trabalho e de vida dos camponeses no interior das fazendas, à situação dos seringueiros na Amazônia, e à expulsão dos

22 O método era organizado em três etapas: primeiramente, consistia na identificação conjunta (professor e aluno) dos temas ou palavras mais significativos na comunidade em que o aluno vivia; a segunda etapa, chamada de tematização, propunha a análise dos significados dos temas ou palavras elencados; e, por fim, a havia a fase destinada à conscientização do aluno. O curso ocorria através do Movimento de Educação de Base (MEB), criado em 1961 por orientação da CNBB.

lavradores de suas terras tornaram-se objetos de discussão e de apoio das redes de solidariedade, como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Operária Católica (JOC), as quais desempenharam papel importante nas lutas populares, com influência do marxismo.

A Comissão Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) passou a ter suas ações descentralizadas, com o surgimento das CEBS e a criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975, na cidade de Goiânia (GO). A criação da CPT mostrou a força dos adeptos da Teologia da Libertação (TdL) dentro da Igreja Católica nas ações de resistência na ditadura civil militar e na denúncia aos conflitos do campo. Alguns fatores contribuíram para o engajamento social da Igreja, entre eles a repressão contra seus membros e a nomeação do cardeal D. Paulo Evaristo Arns para Arquidiocese de São Paulo e de D. Ivo Lorscheider para a direção da CNBB.

A CPT teve uma função decisiva na formação de quadros, viabilizando suporte humano e material, garantindo a logística e, muitas vezes, a própria segurança para a realização de encontros e reuniões, dessa forma operacionalizando a criação do MST. Sua atuação contribuiu decisivamente para a construção das “oposições sindicais”, as quais passaram a disputar e romper com o sindicalismo identificado como de “estado” – associado ao imobilismo, assistencialismo e atrelado aos interesses patronais. Ancorados na Teologia da Libertação, formulada por teólogos como Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff, muitos religiosos adotaram a perspectiva dos pobres e em favor de sua libertação de toda miséria e exploração. A TdL resulta em uma expressão teológica da experiência gerada pelo Cristianismo de Libertação (CORSO, 2012), cujo eixo central é tornar os problemas da população pobre em problemas de Deus.

Segundo Corso (2012), a Igreja passou a atuar no plano discursivo e no plano organizativo, na medida em que pavimentou a construção do MST através da CPT, e simbolicamente contribuiu para a sua organização. No documento “Igreja e problemas da Terra”, aprovado pela 18ª Assembleia da CNBB (1980), encontramos a justificativa nos escritos bíblicos, referenciando profetas, discípulos e o próprio Jesus, afirmando que Deus criou a Terra para que os seus filhos vivessem em comunhão, tirando o sustento da terra de forma fraternal e justa. “Foi a avareza que repartiu os pretensos direitos de posse” (Sto.

Ambrósio, P. L. vol. 42, coluna 1.046). Mais à frente, o documento cita João Paulo II:

Os bens e riquezas do mundo, por sua origem e natureza, segundo a vontade do Criador, são para servir efetivamente à utilidade e ao proveito de todos e cada um dos homens e dos povos. Por isso, a todos e a cada um compete o direito primário e

fundamental, absolutamente inviolável, de usar solidariamente esses bens, na medida do necessário para a realização digna da pessoa humana. (CNBB, 1980, p.

296-297).

Feita toda a justificação doutrinal, o documento adentra no âmbito jurídico e defende, no item 74, a função social da terra, realizando uma crítica contundente ao capitalismo agrário e à especulação, que vêm expulsando o agricultor do campo. Referenciado nas publicações pós-Vaticano II (1962-1965), o documento afirma que são necessárias reformas em várias esferas – política, econômica, cultural e educacional –, com o objetivo de diminuir a dependência, a insegurança, e de melhorar as condições de vida e trabalho das famílias camponesas, principalmente no Norte e Nordeste. Sobre o último aspecto afirma: “São necessárias reformas em vários casos: aumentar a segurança no trabalho, estimular a iniciativa no trabalho e, portanto, distribuir as propriedades insuficientementes cultivadas por aqueles que as possam tornar rendosas” (Ibid., p. 296). E o documento segue reafirmando a necessidade de fornecer-lhes educação e possibilidades de trabalho cooperativo.

Para Löwy (1991), o Concílio Vaticano II foi um “processo paradoxal”: de um lado houve um recuo frente às experiências de um cristianismo de libertação, encabeçadas principalmente pela Ação Católica (AC), e, por outro lado, diante da flexibilização da hierarquia da Igreja, a esquerda católica, inspirada na TdL, procurou legitimar suas ações em um contexto institucional. De acordo com Corso (2012), os documentos do Concílio do Vaticano II surgem enraizados no Cristianismo, mas contam com uma interpretação com viés marxista, o que, a princípio, parece contraditório. Trata-se, todavia, de algo original criado na América Latina e que passou a servir de amparo teórico para muitas ações da Igreja, como a criação da CPT, em 1975 (CORSO, 2012).

O autor chama atenção para o fato da “Teologia da Libertação” resultar das transformações ocorridas no interior da Igreja, principalmente por meio das experiências do Cristianismo de Libertação. A partir do diálogo entre Löwy e Frei Betto, é demonstrado que a TdL torna-se a expressão/legitimação de um vasto movimento social (CORSO, 2012, p. 18-19), criado nos anos 1960. Apesar do recuo expresso nos documentos do Concílio do Vaticano II, a ala progressista da Igreja Católica se apropriou dos seus discursos, conferindo legitimidade às suas ações. No plano prático, as definições do Concílio Vaticano II acabaram fornecendo subsídios e aportes para que os integrantes da ala progressista pudessem debater, participar e encaminhar pautas sociais, como no caso da bandeira pela Reforma Agrária. Essa compreensão se fundamenta na ideia de que o Concílio do Vaticano II adotou uma postura de conciliação.

De acordo com a Puebla (México) nº 1.160 e 1.162, aprovada em 1979, a Igreja se compromete:

Assumimos o compromisso de denunciar situações abertamente injustas e violências que se cometem em áreas de nossas dioceses e prelazias e combater as causas geradoras de tais injustiças e violências aos compromissos assumidos em Puebla.

Reafirmamos o nosso apoio às justas iniciativas e organizações dos trabalhadores, colocando as nossas forças e os nossos meios a serviço de sua causa, também em conformidade com os mesmos compromissos. (III CONFERÊNCIA, 1979).

Ficam expressos os esforços da Igreja em contribuir na construção do MST através do financiamento e da logística. No ano de 1982, a CPT convocou dois encontros com camponeses e agentes das pastorais, nos municípios de Medianeira (PR) e Goiânia (GO), para discutir o crescimento da mobilização pela reforma agrária. O encontro de Goiânia, com representantes dos camponeses de todas as regiões do país, elegeu uma comissão provisória visando à criação de um movimento camponês nacional. No ano seguinte, mais dois encontros preparativos foram realizados, com apoio da CPT, para pavimentar a fundação do MST no ano de 1984 (FERNANDES, 1988; 2010). Muitas vezes, também coube à Igreja a função de garantir a segurança dos participantes nas reuniões e encontros. Conforme Brenneisen (2002), a CPT foi fundamental no processo de formação do MST, inclusive dando a esse movimento social elementos religiosos típicos da sua ação. Para a autora, essa entidade atuou como gestora de militantes ao permitir que os jovens expressassem a sua rebeldia e indignação, como em Santa Catarina. De acordo com um dos entrevistados, essa movimentação, somada ao papel de Dom José Gomes, contribuiu para que muitos militantes migrantes tenham partido de Santa Catarina.

Isso facilitou o início do Movimento sem-terra em SC. Se tu pegares os principais líderes da época, todos vieram daí, principalmente das CEBs. Lá no Oeste, em função da importância de Dom José Gomes, que era um bispo que efetivamente trabalhava junto dos camponeses, que teve a sua história muito próxima dos camponeses e das organizações e nos ajudou nesse período a organizar a luta pela terra em Santa Catarina. Então, essa militância que estava na Pastoral da Terra, ou que estava nas CEBs, e alguns inclusive que estavam nos seminários, como seminaristas, acabaram vindo para a luta. As primeiras ocupações eram o momento de colocar a sua rebeldia em ação. E muitos deles foram convidados para vir ajudar a construir o Movimento no Nordeste. (Entrevista concedida por Jaime Amorim, 2013)23

23 O quadro completo das entrevistas pode ser visto no Apêndice A.

Em todo o território nacional, com destaque para as regiões Centro-Oeste e Norte, agentes pastorais, padres e bispos ligados à Igreja Católica e outros pastores pertencentes a outras igrejas cristãs, com inspiração na Teologia da Libertação, atuaram como lideranças, denunciando os casos de violência e apoiando as lutas de posseiros, camponeses e seringueiros. Os religiosos contribuíram na organização política dos trabalhadores, através da participação em comissões, associações e sindicatos; e na esfera produtiva, estimularam a realização de mutirões e roças comunitárias, onde desenvolviam os valores políticos cristãos de solidariedade, igualdade e união (SCHREINER, 2012).

O documento “Igreja e problemas da terra” expõe em tom de denúncia a miséria, a exploração e a violência a que os trabalhadores da terra estavam submetidos. O texto critica de forma contundente a política agrícola brasileira, a qual estaria privilegiando as grandes corporações através de incentivos fiscais, contribuindo para a especulação e a concentração fundiária. Ainda dentro da linha argumentativa do documento, a noção de fatalismo, muitas vezes ouvida pelas comunidades rurais – “A responsabilidade não cabe a Deus, como se dá a entender quando se diz que „as coisas estão assim porque Deus quer‟” ou “Não é vontade de Deus que o povo sofra e viva na miséria” –, é problematizada. Assevera, buscando se afastar da ideia de passividade e subserviência comumente atribuída à Igreja quando se trata de alguma situação com maior grau de conflitividade.

Através de tópicos, narra as condições de trabalho e as estratégias dos agenciadores dos trabalhadores em vários estados do país. A ideia de que está ocorrendo uma guerra com características de “extermínio”, sobretudo na região amazônica, permeia todo o texto. No item 17, dedicado ao Nordeste, denuncia as ações do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS) e da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), os quais estariam beneficiando os grandes proprietários em detrimento dos trabalhadores rurais, criticando, assim, o papel que a agricultura familiar24 ocupava na cena nacional. Seguem outros tópicos criticando a política de incentivos fiscais, pontuando, além da situação dos migrantes e indígenas, a situação dos arrendatários, parceiros e posseiros. Esses últimos, “[...]

24 Wanderley (2009) analisa o processo de conformação das categorias “sem terra”, “assentados” e “agricultura familiar” e do seu reconhecimento político pelo Estado através da elaboração de políticas específicas e da criação de instituições para onde suas demandas deviam ser direcionadas. A autora discorre sobre a dificuldade de definir a categoria “agricultura familiar”, que, por um lado, é associada ao Programa Nacional de Desenvolvimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e, por outro, define-se a partir da sua capacidade adaptativa de determinados agricultores, dadas as exigências modernas. Diferentemente de outros países, a agricultura familiar no Brasil foi constantemente bloqueada e impedida de desenvolver suas potencialidades como forma social específica de produção (WANDERLEY, 2009). Nesses termos, a história do campesinato é marcada, definida e pautada pela busca de um espaço próprio e da legitimidade econômica e política.

quando tentam permanecer na terra, não têm meios de pagar despesas judiciais, demarcações e perícias, iniciando as ações já derrotadas” (CNBB, 1980, p. 287).

O referido documento apresenta dados da população rural criticando a sua distribuição e a gradual diminuição no número de lavradores proprietários, conforme observamos:

Em 1950, apenas 19,2% dos lavradores não eram proprietários dos seus estabelecimentos rurais. Em 1975, essa porcentagem tinha subido para 38,1%. Em 1950, para cada lavrador não proprietário havia 4,2 que eram proprietários. Em 1975, para cada lavrador não proprietário havia apenas 1,6 proprietários. (Ibid, p.

279-280).

Para refletir sobre esses dados, apresentamos o quadro descrito por José Alcides Figueiredo Santos (2002) em “Estrutura de posições de classe no Brasil. Mapeamento, mudanças e efeitos na renda”, no qual o Nordeste é a grande região dos autoempregados agrícolas. Segundo os dados apresentados pelo autor, a região engloba 35,5%. A concentração de terras no país sempre mostrou índices muito altos e, por consequência, a cada década mais camponeses sem-terra vagavam pelo país. Uma das formas de medir essa concentração é utilizando o Índice Gini. Com esse índice, podemos ver, no quadro a seguir, a concentração de terras no Brasil durante as décadas de 1970 a 1980.

Quadro 1 - Evolução do Índice Gini por Região e Brasil, 1970 a 1985.

Fonte: IBGE. Censo Agropecuário, 1985.

Como colocado pelo quadro, a concentração de terras no Brasil se mostrava (e ainda se mostra) extremamente alta, quando o índice chega muito perto do 1. Para ilustrar isso, podemos dizer que 36,62% dos proprietários rurais em 1970 tinham menos que cinco ha, e o

Região 1970 1975 1980 1985

Norte 0,831 0,863 0,841 0,812

Nordeste 0,854 0,862 0,861 0,869

Centro-Oeste 0,876 0,876 0,861 0,857

Sudeste 0,760 0,761 0,769 0,772

Sul 0,725 0,733 0,743 0,747

BRASIL 0,843 0,854 0,857 0,857

conjunto de suas terras representavam 1,32% das terras de estabelecimentos rurais. Já na outra ponta, estão os proprietários com mais de 100.000ha, que não chegam a uma porcentagem expressiva, mas detinham na época 2,4% das terras. Nos anos seguintes, a concentração fundiária só aumentou – os proprietários com menos de cinco ha passaram a concentrar 1,25%

das terras em 1975 e 1,07% em 1980. Já os grandes latifundiários, que chegaram a expressar apenas 0,001% em 1980, detinham 3,91% das terras em 1975 e, cinco anos depois, essa porcentagem subiu para 3,93% (SANTOS, J., 2002).

Quanto aos conflitos ocorridos no campo brasileiro, a CPT apresenta um mapa. Trata-se de conflitos que resultaram em vítimas fatais durante os anos de 1985 a 1996. NesTrata-se intervalo de tempo, muito rapidamente, precisamos situar a crise econômica (que resultou em expulsões dos trabalhadores das fazendas tradicionais); a apresentação da proposta do I PNRA (1985) e a resposta (política, jurídica e armada) da UDR; e a própria atuação do MST, através das ocupações de terras – que resultaram em ameaças, humilhação, despejos, violência e morte de camponeses.

Conforme podemos observar, a maior parte dos conflitos está localizada na Zona da Mata nordestina e na parte do Norte do país.

Figura 2 – Localização dos conflitos agrários.

Fonte: Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Os relatos de violência observados ao longo das entrevistas datam do final dos anos 1980 e início dos anos 90, sendo alguns extremamente recentes. Estes, portanto, não figuram no Relatório da Comissão Camponesa da Verdade25 (CCV, 2014), criada com a finalidade de apresentar e denunciar os casos de violação dos direitos humanos dos camponeses pelo Estado e agentes privados, durante os anos de 1946 a 1988, com destaque para os anos da ditadura civil militar no Brasil (1964-1985). As entrevistas demonstram a continuidade, manutenção e persistência das práticas de violação contra os camponeses e seus apoiadores mesmo após o fim da ditadura; e, ainda, que o número de violações é muito maior do que se estima. Soma-se o recorrente silenciamento dessas vozes, contribuindo, assim, para o processo político e social de invisibilização das lutas e resistências camponesas.

De acordo com o Caderno de Formação intitulado “O papel da Igreja no Movimento Popular”26 (MST, 1985b), o primeiro movimento de contestação e resistência ao regime político ocorreu à margem da Igreja, através das Pastorais. A Igreja, no documento, é descrita como a “sementeira” dos movimentos populares (MST, 1985b, p. 6). Por outro lado, também cerceava os militantes, receosa das influências políticas, as quais denominavam de

“tendência” (Ibid., p. 11). Ou seja, a Igreja atuava como uma mãe ao fomentar a criação dos movimentos populares, todavia, diante das suas próprias divisões e influências, tinha medo de perder força e respaldo frente aos seus fiéis.

Na esfera da Igreja, por exemplo, tem muito bispo falando que é ela quem vai fazer a revolução no Brasil. Uma revolução cristã. Caso contrário, qualquer coisa que acontecer não presta. A transformação do mundo só pode vir da Igreja [...], pois só ela conhece os verdadeiros valores humanos e respeita [...] (MST, 1985b, p. 8).

A citação acima é uma crítica aos setores e grupos que acreditavam que somente através da luta coorporativa se construiria a revolução social, em detrimento da organização em partidos políticos. O contrário também é verdadeiro. Muitos ingressavam no partido político e acreditavam que não precisavam mais atuar no movimento sindical ou popular. O MST defende que a organização dos trabalhadores é fundamental e que deve ser entendida de forma complementária e sem “sectarismos”. Assim, o texto busca situar os problemas da

25 No ano de 2012 foi criada a Comissão Camponesa da Verdade (CCV), como um dos resultados do Encontro Unitário dos Trabalhadores, Trabalhadoras e Povos do Campo, das Águas e das Florestas, realizado em Brasília.

Esse documento incidirá nas atividades desenvolvidas pela Comissão Nacional da Verdade (CNV).

26 Na folha de rosto do Caderno de Formação nº 8 encontramos o ano de 1985 como ano da publicação. No entanto, dentro da cronologia de publicações dos Cadernos de Formação o ano correspondente seria 1986.

Igreja ao realizar uma crítica ao seu trabalho militante, que atua negando o caráter conflitivo da realidade.

De acordo com a leitura do MST, a realidade seria “preto no vermelho”, enquanto a Igreja irá descrevê-la como “azul e branco”, referindo-se ao manto de Maria (Ibid., p. 9).

Mesmo com tal afirmação, o documento busca elementos na própria bíblia para (re)orientar o trabalho da Igreja. E diz: O próprio Jesus deixava claro a necessidade de conflito: “A paz de Jesus é a paz que entra na luta com muita compreensão da paz e do fogo. É a paz que se faz de confiança, de esperança e de coragem” (Ibid., p. 10). Ou seja, o MST continua identificando a Igreja como central no processo organizativo dos trabalhadores rurais, percebendo que as disputas enfraquecem as pautas dos próprios trabalhadores. Afirma que, com o discurso anticlerical ou anti-Igreja (já circulante entre alguns militantes), deixaria de agregar uma parcela significativa da população, que não estaria disposta a ingressar em um partido

Mesmo com tal afirmação, o documento busca elementos na própria bíblia para (re)orientar o trabalho da Igreja. E diz: O próprio Jesus deixava claro a necessidade de conflito: “A paz de Jesus é a paz que entra na luta com muita compreensão da paz e do fogo. É a paz que se faz de confiança, de esperança e de coragem” (Ibid., p. 10). Ou seja, o MST continua identificando a Igreja como central no processo organizativo dos trabalhadores rurais, percebendo que as disputas enfraquecem as pautas dos próprios trabalhadores. Afirma que, com o discurso anticlerical ou anti-Igreja (já circulante entre alguns militantes), deixaria de agregar uma parcela significativa da população, que não estaria disposta a ingressar em um partido