Capítulo III – A atuação do BNDES na América do Sul
3.2. O apoio do BNDES a projetos de infra-estrutura na América do Sul
3.2.2. O papel do CCR nos financiamentos do BNDES
Subscrito pelos Bancos Centrais de 12 países85 da América Latina, o Convênio de Pagamentos e Crédito Recíproco86 (CCR) é um convênio cujo objetivo original era a
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Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, México, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.
86 Criado originalmente em 1965, ainda sob a tutela da ALALC, o CCR foi ratificado, no âmbito da ALADI,
96 economia de divisas e a facilitação do comércio intra-regional. Seu mecanismo de funcionamento se baseia na postergação dos pagamentos comerciais entre seus membros. Através do Convênio, cada Banco Central participante deve estabelecer linhas de crédito recíproco com cada um dos demais Bancos Centrais. Na medida em que o importador e o exportador entrem em acordo para a realização de determinada transação (em dólares) no âmbito do CCR, o Banco Central do importador recebe deste os débitos, em sua própria moeda, do valor da transação equivalente em dólares. Já o Banco Central do exportador transfere a este, também em sua própria moeda, o valor da transação equivalente em dólares.87 Conforme as operações sejam cursadas pelo CCR, os débitos e créditos oficiais vão sendo somados e a diferença é compensada, em dólares, de forma multilateral a cada quadrimestre (BIANCARELI, 2010). Como bem resume Rüttimann et al (2008), “trata-se de um sistema de pagamentos composto pela combinação de dois mecanismos fundamentais: uma câmara de compensação entre bancos centrais, acoplada a acordos de crédito” (p.83).
Do ponto de vista das operações levadas a cabo pelo BNDES Exim, a grande contribuição do CCR se dá pela redução dos riscos comerciais, cambiais e políticos nelas envolvidos. Isso ocorre em razão da assunção, pela autoridade monetária, de tais riscos que, de outro modo, seriam assumidos pelo setor privado (BIANCARELI, 2010). Tal fato se deve a três compromissos assumidos pelos Bancos Centrais envolvidos: o primeiro é o da conversibilidade, ou seja, os pagamentos efetuados em moeda local pelas instituições financeiras devem ter conversão imediata para dólares; o segundo é o da transferibilidade, segundo o qual os pagamentos convertidos em dólares pelo Banco Central do importador devem ser transferidos ao Banco Central do exportador; e, por fim, o do pagamento da dívida líquida entre os Bancos Centrais até a data final da compensação multilateral (RÜTTIMANN et al, 2008; BIANCARELI, 2010).
Como destacado por esse último autor, a mitigação dos riscos se deve ao fato de os Bancos Centrais dificilmente deixarem de honrar seus compromissos assumidos não apenas bilateralmente, mas com todos os demais países associados ao CCR. Como resultado prático da redução dos riscos, o Convênio acaba funcionando como uma espécie de
87 Como lembra Biancareli (2010), “estas transações entre os agentes privados e as autoridades monetárias
são feitas por meio de bancos comerciais, que utilizam para tanto uma série de instrumentos tradicionais de crédito comercial (como letras de crédito, notas promissórias etc.) como em qualquer outro caso” (p. 15).
97 garantia, o que facilita a ampliação do acesso ao crédito oferecido pelo BNDES. Nas palavras de Rüttimann et al (2008).
O principal desafio na estruturação de financiamentos para países da América Latina consiste na obtenção de garantias adequadas a um custo competitivo. Nesse sentido, o uso do CCR tem se revelado um fator relevante na estruturação das garantias dos financiamentos brasileiros para a região.
Como ilustração dessa relevância, a Tabela 3.6 e o Gráfico 3.3 apresentam, respectivamente: índices sobre a intensidade do uso do CCR nas operações do BNDES na América do Sul; e a participação dos desembolsos no pós-embarque cursados no CCR no total desembolsado, na mesma modalidade, para exportações destinadas aos países da região.
No período compreendido entre 2001 e 2010, 71,4% do total desembolsado pelo BNDES Exim pós-embarque para exportações destinadas à América do Sul fez parte de operações cursadas no âmbito do CCR. O país que utilizou mais intensamente o Convênio em suas operações com o Banco foi o Equador, seguido de Paraguai, Argentina e Venezuela. Afora o Paraguai, os outros três países, além de terem recebido quase 80% dos financiamentos pós-embarque para a América do Sul no período considerado, também concentraram a quase totalidade (cerca de 95%) do uso do CCR pelo BNDES.
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Tabela 3.6. Participação dos países da América do Sul e do uso do CCR nos financiamentos do BNDES Exim pós-embarque no acumulado 2001-2010
Período 2001-2010 Participação do país no desembolso total do BNDES Exim pós- embarque (em %) Uso do CCR em operações do país com o BNDES (em %) Participação do país no uso do CCR pelo BNDES (em %) ARGENTINA 49,22 87,56 60,32 BOLIVIA 0,51 18,12 0,13 CHILE 11,38 0,00 0,00 COLÔMBIA 0,71 0,00 0,00 EQUADOR 10,42 98,66 14,39 PARAGUAI 2,30 91,03 2,94 PERU 4,65 35,40 2,31 URUGUAI 1,03 25,23 0,36 VENEZUELA 19,78 70,64 19,55 TOTAL CCR 100,00 71,45 100,00
Fonte: adaptado de Rüttimann et al (2008) e atualizado a partir dos dados obtidos junto ao BNDES Exim.
Esses números, contudo, não captam as variações na utilização do CCR ao longo do tempo. É pertinente lembrar que cada país tem autonomia para regulamentar internamente o funcionamento do Convênio. Em muitos casos, maiores restrições ao uso do CCR têm impactos negativos na concessão de crédito pelas instituições financeiras, exemplo de situação que vigorou no triênio 2001-2003 (RÜTTIMANN et al, 2008). Assim, nos momentos em que muitos países aumentaram as restrições internas ao uso do CCR, os desembolsos do BNDES Exim pós-embarque para exportações destinadas à América Sul sofreram queda significativa.
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Gráfico 3.3. Desembolsos do BNDES Exim pós-embarque para exportações à América do Sul (em US$ milhões) e o uso do CCR (em %)
35% 29% 22% 63% 86% 68% 92% 67% 90% 74% 0 200 400 600 800 1.000 1.200 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 E m U S$ m il hõ es Sem CCR Com CCR
Fonte: adaptado de Rüttimann et al (2008) e atualizado a partir dos dados obtidos junto ao BNDES Exim.
Em síntese, o CCR representa redução de riscos para o agente que financia a operação. No caso do BNDES, banco nacional que atua regionalmente, sua utilização é de grande importância na medida em que funciona, na prática, como um mecanismo bastante efetivo de garantia decorrente da assunção, pelo Banco Central, dos riscos que caberiam ao setor privado. Desse modo, o Convênio contribuiu para a viabilização de diversas operações, especialmente as de infra-estrutura que, como argumentado no segundo capítulo, apresentam maiores complexidades e incertezas. Pode-se dizer, na verdade, que importantes operações financiadas pelo Banco, como os gasodutos argentinos e a hidrelétrica equatoriana de San Francisco,88 não se teriam viabilizado sem o uso do CCR.
88 No final de 2008, o governo equatoriano anunciou que havia solicitado junto à Câmara de Comércio
Internacional o fim do pagamento dos US$ 243 milhões contraídos junto ao BNDES e referentes à hidrelétrica de San Francisco. A alegação equatoriana era de que a obra fora realizada com diversas irregularidades técnicas jurídicas. Dentre tais irregularidades, destacou-se principalmente o suposto mau uso do CCR. A acusação era de que nem todos os bens importados do Brasil eram, de fato, brasileiros, apesar de terem sido tratados como tal. Segundo Pontes Quinzenal (2008), esse argumento pretendia “afastar a
aplicação do CCR, que implica a responsabilização solidária de todos os Bancos Centrais da região pelo pagamento da dívida garantida ao BNDES, em caso de inadimplemento” equatoriano. Não obstante as ameaças equatorianas, os pagamentos ao Banco não apresentaram problemas.
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3.2.3. A carteira do BNDES Exim pós-embarque referente a projetos de infra-