As teorias do crescimento e do comércio têm alguns traços em comum. Ambas destacam o papel dos fatores elementares à produção (capital, trabalho), à tecnologia e ao
capital humano como condicionantes da aplicação efetiva dos fatores disponíveis. O ponto em comum é a produtividade, conceito-chave para a produção, obviamente, mas também fator condicionado do comércio.
A questão da direção da causalidade deve ser tratada com atenção. Ao estudar os efeitos do comércio sobre o crescimento, pode-se examinar o crescimento pelo aumento de capital ou trabalho, ou então o crescimento pelo aumento da produtividade. No caso da inovação, uma vez que a ampliação do conhecimento é maior conforme o tamanho de conhecimento já acumulado e aplicado, o aumento da produtividade se autorreforça.
3.6.1 As origens comuns de crescimento e comércio
Conforme descrito acima, o comércio, do ponto de vista macroeconômico, pode afetar o crescimento de várias formas:
1) efeitos de eficiência: “cada um faz o que sabe fazer (relativamente) melhor”: i) ganho de produtividade através de especialização conforme vantagem comparativa, ou;
ii) ganho de produtividade mediante especialização que proporciona economia de escala;
2) efeitos de desenvolvimento: oportunidades de empurrar a fronteira de possibilidades de produção, através de acesso à tecnologia, acesso ao conhecimento, acesso a mercados e externalidades (WINTERS, 1999).
Premissas e condições preexistentes assumidas: mercados eficientes, ampla transferibilidade de tecnologia e conhecimento.
3.6.2 Oferta, demanda, termos de comércio e crescimento
Suponha que seja possível distribuir as tarefas de produção conforme as vantagens comparativas e vantagens de escala, da melhor forma possível, para que a eficiência agregada em nível mundial seja maximizada. Provavelmente, isto significa, por exemplo, que os países desenvolvidos deixem de subsidiar a produção agrícola, que é transferida para países mais pobres, que dispõem de condições geográficas e climáticas apropriadas.
A produção é escalada de tal maneira que as habilidades da força trabalhadora presentes em cada país sejam aproveitadas de melhor forma possível, com remuneração
adequada aos níveis relativos de preços. Em outros termos: consegue-se alocar a produção na curva da fronteira de possibilidades de produção do mundo. Comércio livre entre os países garante formação de preços corretos sempre que esta alocação continua adequada mesmo diante de mudanças de preferências ou de tecnologias. Nesta situação, não haveria mais perdas de peso morto e elevar-se-ía o nível de renda mundial para o melhor possível em virtude das condições dos países (WINTERS, 1999). Isto ainda implica que, embora cada um faça aquilo que sabe fazer relativamente melhor, muitos estarão criando pouco valor por hora trabalhada, ou seja, o nível de renda destes ainda estará aquém do nível de renda dos países desenvolvidos. O desenvolvimento dos países atrasados não é garantido de forma alguma. Precisa-se ampliar as fronteiras, de preferência aquelas dos países menos desenvolvidos; necessita-se aumentar a produtividade.
3.6.3 Efeito do comércio sobre desenvolvimento e produtividade
Precisa-se então identificar se existem ainda outros efeitos do comércio, talvez não diretamente relacionados aos termos de comércio ou aos custos de produção, que sejam capazes de estimular o desenvolvimento dos países atrasados para que estes alcancem os países desenvolvidos em longo prazo: convergência. Verifica-se que a convergência tem sua origem na teoria de Solow (produtividade inicial baixa permite crescimento mais rápido); esta, entretanto, não é garantida; será que o comércio pode criar ou estimular condições propícias para que a convergência ocorra?
Alvarez e Robertson (2001) listam três mecanismos citados em pesquisas que atrelam (aumento de) produtividade e comércio: vender para mercados externos que exigem tecnologia mais avançada, investimento externo direto, e comércio em insumos intermediários (semiacabados). Os autores estudaram os três efeitos do ponto de vista microeconômico, a empresa e seus incentivos para inovar, para Chile e México. Eles mencionam que diversos outros estudos não chegaram a conclusões definitivas sobre, por exemplo, o crescimento acentuado de Taiwan, ou eventuais mudanças de produtividade em países recém- liberalizados, como Chile, ou a influência da produtividade na decisão de exportar. Neste estudo, porém, encontraram uma relação positiva, o que foi possível porque estudos anteriores utilizaram medidas pouco confiáveis de produtividade e não utilizaram dados microeconômicos. O mecanismo que mais parece fomentar a inovação é a espoliação em si:
participação em mercados externos tem um reflexo na produção de itens, na inovação e na produtividade das empresas.
A consequência prática desta conclusão seria simples e positiva: o comércio tem um efeito positivo direto sobre o desenvolvimento, deve então sempre estimular oportunidades de exportação. Não mencionado por Alvarez, mas igualmente provável, é a possibilidade que a presença de produtos concorrentes importados no mercado local também traga um estímulo para melhorar o produto e a produtividade. Logo, a liberalização deve trazer desenvolvimento.
O problema com esse raciocínio é que não se fala sobre e como produtores locais podem fazer para poder ser minimamente competitivos em, pelo menos, alguns produtos. Se não existir uma transição gradual, uma estrutura capaz de inovar e levar a inovação ao mercado, a liberalização pode ter o efeito contrário: a produção local pode acabar sendo substituída pela importação.
Finalmente, a direção da causalidade deve ser considerada: o engajamento em exportação talvez possa aumentar a produtividade, mas com certeza produtividade maior aumenta a exportação. Bernard e Jones (1996) intitulam seu estudo "Performance excepcional de exportação: causa, efeito, ou ambos?" e alegam que a exportação, em muitos casos, não traz mudanças significativas de produtividade. Um produtor local encontrou um mercado externo onde conseguia competir, o que sem dúvida é bom, mas sem efeitos grandes sobre a produtividade.
Suponha que haja um grupo de países de grau de desenvolvimento semelhante e que praticam comércio entre si. Um efeito importante é que, nesse caso, não haverá grandes efeitos sobre a remuneração dos fatores, pois, apesar de o comércio "incorporar" fluxos de fatores, como já citado antes, o fluxo líquido é próximo a zero. O grande desafio do comércio "tradicional", lidar com os efeitos redistributivos entre os que ganham e os que perdem com o comércio, deixam de existir. Entre países semelhantes, comércio maior tende a ser mais fácil de implementar. Isto significa, por outro lado, que talvez não se devesse preocupar demais com estes casos; a integração de mercados entre países semelhantes ocorre com muito mais facilidade; por exemplo, a EEC, a partir dos anos 1950, e EUA e Canadá, nos anos 1960. Pode-se dizer que boa parte das liberalizações e conquistas no âmbito da OMC se concentrou em comércio de manufaturados entre os países avançados. O grande desafio continua sendo o envolvimento dos países com disponibilidade de fatores diferentes.