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PROJETAR COM INTENÇÃO

3 O PAPEL DO DESIGN

O Design tem se apresentado cada vez mais como disciplina projetual capaz de pensar e operar para além das estruturas e formas materiais. Abordagens como design de serviços, design estratégico, design de experiências exploram o potencial de projetar estruturas e relações intangíveis, articulando interfaces em cenários cada vez mais complexos. Neste emergente contexto de trabalho do design, quatro aspectos se mostram especialmente significativos no cruzamento entre design e ecossistemas de aprendizagem. São eles:

3.1 METADESIGN

Caio Vassão propõe o “Metadesign” como abordagem para o estudo, intervenção e cria- ção de ecossistemas, por tratar-se de uma ferramenta capaz de lidar com a extrema com- plexidade e com a demanda pela construção coletiva de entendimento sobre o projeto. De acordo com Vassão (2010) o Metadesign pode ser interpretado de três formas:

Metadesign 1: “Processo de projeto do próprio processo de projeto”. Nesta abordagem o design é responsável pela criação de um “ambiente de decisões” para que o designer possa se distanciar de seu objeto de projeto. Neste nível o designer decide quais estratégias são mais apropriadas para lidar com o projeto em questão, podendo, por exemplo, definir um fluxo e um conjunto de ferramentas para cada etapa do processo. Algumas ferramentas comumente utilizadas neste nível são: plantas, esquemas, diagramas, templates, maquetes, protótipos, entre outras;

Metadesign 2: “Projeto de segunda ordem”. Nesta abordagem, o produto do processo de design não são entidades concretas como ferramentas e objetos, mas abstratas, como regras ou princípios para a criação de ferramentas, processos e objetos. Esta percepção pode ser ampliada para a criação de objetos abstratos que norteiam a criação de outros objetos abstratos. Um exemplo de projetos de segunda ordem é a definição de princípios, regras ou requisitos para o estabelecimento de processos ou relações;

Metadesign 3: Esta abordagem relaciona-se diretamente ao princípio de autocriação dos sistemas complexos, a habilidade de “criar a si mesmo”. Segundo Vassão (2010), o me- tadesign atua então como produtor de sentido no ambiente de projeto. Permite criar o que Maturana e Varela chamaram de padrões de organização para a materialização de estruturas.

O metadesign trabalha pela elaboração de estruturas invisíveis e permite tangibilizar as partes do sistema que não tem materialidade. As interconexões e relações em sistemas sociais comumente são formadas por acordos tácitos, não planejados ou sobre os quais dificilmente a comunidade debruça a sua reflexão. O design tem o potencial de conferir tangibilidade para estas estruturas abstratas. Esta tangibilidade permite a designers e não designers, envolvidos no contexto de criação, uma maior clareza e manuseabilidade destes conceitos. Vassão destaca o papel do metadesign no projeto de ecossistemas:

“o Metadesign pode ser compreendido como uma abordagem para o projeto de Ecossistemas, entendo estes como entidades complexas por excelência, pré e pós-existentes a quem queira interferir, direcioná-los ou desenvolvê-los. Ainda mais, o Metadesign convida a compreender o objeto de conhecimento denomi- nado “Ecossistema” como uma entidade artificial, criada para mapear a concre- tude vivida tanto no meio ambiente, como por meio da tecnologia – nas cidades, na economia e na cultura.” (VASSÃO, 2016)

3.2 DIAGRAMAS

O desafio de planejar ou intervir em sistemas complexos se intensifica na medida em que li- dar com estes sistemas exige abordar todas as diversas dimensões (social, ambiental, eco- nômica, tecnológica, etc), em múltiplas escalas (indivíduo, grupo, organização, comunida- de, território, rede) ao mesmo tempo. Frequentemente a análise destes sistemas complexos envolve evidenciar a relação entre aspectos tangíveis e intangíveis. A utilização de diagra- mas pode permitir a representação e sobreposição de múltiplas camadas e perspectivas de arranjo dos sistemas complexos. Esta forma de representação tem sido amplamente uti- lizada para o estudo de ecossistemas naturais e humanos. Sua utilização pode transcender

a mera expressão dos elementos e de suas conexões tangíveis, mas permitir a visualização de fluxos, interconexões, interdependências e até relações qualitativas e subjetivas.

O uso de diagramas torna-se uma estratégia poderosas para a visualização e manipu- lação de estruturas visíveis e invisíveis, mas é fundamental evitar que excessivas simpli- ficações levem à obsolescência dos diagramas ou sistematizações. Essa tarefa exige o desenvolvimento de capacidade de abstração e sistematização da informação, de forma que conserve e expresse as características intrínsecas dos sistemas complexos e possa ser observada manipulada por diversos atores simultaneamente.

3.3 DESIGN DIFUSO X DESIGN ESPECIALIZADO

No âmbito dos sistemas complexos, o envolvimento transversal dos diversos atores envol- vidos no contexto é fundamental para um desenvolvimento relevante do projeto. O designer deixa o local de criador solitário de soluções e passa a utilizar suas competências projetuais como ferramenta para moderar processos cocriativos que envolvem diversos atores com competências, conhecimentos e interesses diversos. O designer se desloca do papel de autor da solução e do projeto para o papel de facilitador e catalisador de um espaço de cocriação, o qual inclui a participação de atores diversos. O design tem então um papel de condutor nos processos criativos, e assim, tem o potencial de assumir contornos de mobili- zação para a criação e a ação social. Como exposto por Vassão:

“Design como uma força na cultura e sociedade, com potência política e de en- gajamento, envolvendo ética de colaboração e produção distribuída pelo tecido da sociedade.” (VASSÃO, 2010)

3.4 AMBIENTES FAVORÁVEIS

Devido às características intrínsecas de imprevisibilidade e incontrolabilidade dos siste- mas complexo, a forma mais eficaz de lidar com eles é criar ambientes favoráveis para

que processos aconteçam na direção da emergência de resultados desejáveis. Esta ideia se relaciona intimamente com os conceitos de plataformas e de ecossistemas habilitantes propostos por Manzini (2008). Segundo ele, “Uma plataforma habilitante é um sistema de produtos, serviços, comunicação e o que mais for necessário para implementar a acessi- bilidade, a eficácia e a replicabilidade de uma organização colaborativa”.

Alguns exemplos de ecossistemas habilitantes significativos são: “Sistemas avançados de produtos/serviços especificamente projetados para tornar mais fácil e fluido o funcio- namento das organizações colaborativas; Espaços experimentais que funcionam como incubadoras sociais(...) e se prestem à realização dos mais diversos experimentos socio- técnicos; Produtos e Espaços Multi-usuário concebidos para a utilização compartilhada e colaborativa; e Espaços Flexíveis que possam ser utilizados por comunidades em um ‘mix’ de funções públicas e privadas, respondendo de modo inovador à demanda por es- paço e abrigo.” (MANZINI, 2008). O pensamento e a abordagem projetual do design tem o potencial de influenciar, interferir e transformar gradativamente estes espaços, para tor- ná-los potencialmente mais aptos a fornecer suporte a atividades que se deseja exercer.

“Ecossistemas habilitantes, como todos os demais ecossistemas, são entidades complexas que não podem ser completamente modificadas com um único pro- jeto de design (Isto é, com um único modo de intervenção, baseado em uma única maneira de pensar e de ver as coisas). Para modificar esse ecossistema é preciso uma pluralidade de projetos, a operação em diferentes níveis e com fundamentos distintos.” (MANZINI, 2017)

Por sua vez, os participantes do próprio ecossistema contribuem para que o ambiente de criação se mantenha sempre vivo e em constante evolução por meio da ação das próprias pessoas e iniciativas que os compõe. As estruturas da plataforma influenciam a qualidade das atividades realizadas em seu meio, bem como o produto destas atividades, e podem ser construídas gradativamente, com intencionalidade. Desta maneira, com clareza sobre seus princípios orientadores, é possível considerar uma plataforma ou ecossistema habilitante como um terreno fértil para o cultivo do pensamento, valores e práticas da cultura integrativa.

4 APRENDIZAGEM COMO ECOSSISTEMA: FRAMEWORK