(...) A educação lúdica é uma ação inerente na criança e aparece sempre como uma forma transacional em direção a algum conhecimento, que se redefine na elaboração constante do pensamento individual em permutações constantes com o pensamento coletivo (...). (Almeida, 1995, p. 11)
A ludicidade tem sido foco de muitas pesquisas, dada a intervenção do brincar no desenvolvimento das crianças, bem como a motivação interna que a brincadeira exerce sobre elas. Sendo o brincar essencial para as crianças e para os adultos, o presente estudo busca abordar e refletir a respeito de sua relevância no contexto educacional e infantil. Na educação, o lúdico visto como aliado do processo de construção de conhecimento reforça novas
possibilidades de aprendizagem. Brincando, a criança explora situações do cotidiano, aprende a lidar com suas emoções, a interagir com o outro. Nesse contexto, cria condições de identidade e crescimento.
Vigotski (2003) pesquisou o desenvolvimento dos processos psicológicos na espécie humana, considerando que todo indivíduo sofre influência do seu meio cultural.
Para este autor o brinquedo é um grande mediador desse processo por impulsionar a criança para grandes descobertas, além de despertar cognitivamente para novas experiências e novos papéis; aguça a curiosidade para situações imaginárias e ajuda na integração social e na apropriação do mundo real.
É no brinquedo que a criança projeta-se nas atividades adultas de sua cultura e ensaia seus futuros papéis e valores. Assim, o brinquedo antecipa o desenvolvimento, com ele a criança começa a adquirir a motivação, as habilidades e as atitudes necessárias a sua participação social, a qual só pode ser completamente atingida com a assistência de seus companheiros da mesma idade e mais velhos. (Vigotski, 2003, p. 134)
Assim, muito se discute sobre sua utilidade, considerando como as atividades lúdicas podem ser potencializadas no desenvolvimento integral da criança.
O jogo é um recurso que atua na zona de desenvolvimento proximal, proposta por Vigotsky, e, nessa configuração, o/a professor/a tem papel de mediador/a no processo de construção do conhecimento da criança. O brinquedo permite a apreensão sobre a função das interações sociais no desenvolvimento e no aprendizado da criança, cumprindo papel fundamental, uma vez que o autor define zona de desenvolvimento proximal da seguinte forma:
(....) zona de desenvolvimento proximal é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução
independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. (Vigotski, 2003, p. 112)
Nessa configuração, Vigotski (2003), deu elevada importância ao papel do professor como mediador na ação do brincar na organização do pensamento infantil. Brincando, a criança transforma sua realidade no que quer, internalizando-a. Através de brincadeira de grupo as crianças se envolvem em situações imaginárias. Assim, podem exercer papéis diferentes de suas realidades, além de estarem “submetidas a regras de comportamento e atitude”. A capacidade de brincar permite às crianças uma possibilidade de resolver os problemas que vivenciam. Aprendizado e desenvolvimento estão interligados desde o nascimento de um bebê, o que significa pensar que desde antes de frequentar uma escola, a criança já carrega consigo uma enorme bagagem cultural de conhecimento.
Então, a ludicidade e a aprendizagem devem trilhar o mesmo caminho, ter os mesmos objetivos. O jogo e a brincadeira são naturalmente aprendizagem.
Brincando a criança age como se fosse maior do que é na realidade. “O jogo propicia interações e atua na zona de desenvolvimento proximal, possibilitando à criança vivenciar situações que a levam a comportamentos além dos habituais (...)”. (Rau, 2011, p. 97)
Ao brincar, a criança está sempre acima da sua própria idade, acima do seu comportamento diário, maior do que é na realidade. Na medida que a criança imita os mais velhos em suas atividades padronizadas culturalmente, ela gera oportunidades para o desenvolvimento intelectual. Inicialmente, seus jogos são lembranças e reproduções de situações reais, porém, através da dinâmica de sua imaginação e do reconhecimento de regras implícitas que dirigem as atividades reproduzidas em seus jogos, a criança adquire um controle elementar do pensamento abstrato. Nesse sentido o brinquedo dirige o desenvolvimento. (Vigotski, 2003, p. 173)
O brincar, para o autor, tem origem na imaginação construída pela criança, na medida que consegue realizar os desejos mais improváveis. Desse modo, reduz a tensão, encontrando uma forma de acomodação dos conflitos e frustrações da realidade. Para ele, “brincar leva a criança a tornar-se mais flexível e a buscar alternativas de ação. Enquanto brinca, a criança concentra sua atenção na atividade em si e não em seus resultados e efeitos. Permitir brincar às crianças é uma tarefa essencial do educador” (Vigotski, 2003, p. 64).
O Referencial Curricular de Educação Infantil30 (RCNEI, 1998, p. 58) propõe o uso de atividades lúdicas na educação de Infância, entendendo que “as crianças podem incorporar em suas brincadeiras conhecimentos que foram construindo”. O Referencial expõe o brinquedo como componente imprescindível na intrínseca relação no desenvolvimento integral da criança.
Ressalta, contudo, a valorização das brincadeiras como conceção de educação de infância nos espaços educacionais. Sem dúvida, são verdadeiros aliados na aprendizagem. Segundo o RCNEI (1998, p. 67. v. 1), o uso do brincar como recurso na prática pedagógica encaminha para práticas educativas de qualidade, entendidas como:
(...) componentes ativos do processo educacional que refletem a concepção de educação assumida pela instituição. Constituem-se em poderosos auxiliares da aprendizagem. Sua presença desponta como um dos indicadores importantes para a definição de práticas educativas de qualidade em instituição de educação infantil.
O lúdico, cumprindo seu importante papel no desenvolvimento da criança na dimensão pedagógica, reforça as áreas de aprendizagem, direcionando e incentivando a criança a apropriar-se dos desafios do conhecimento como
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resultado de conquista das habilidades a partir das percepções sociais do jogo como compreensão positiva da vida.
Sendo assim, citando a professora como mediadora do processo de ensino e aprendizagem, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI, 1998, p. 29), documento de cunho orientador da prática pedagógica aponta que:
Cabe ao professor organizar situações para que as brincadeiras ocorram de maneira diversificada para propiciar às crianças a possibilidade de escolherem temas, papéis, objetos e companheiros com quem brincar ou jogos de regras e construção, e assim elaborarem de forma pessoal e independente suas emoções, sentimentos, conhecimentos e regras sociais.
Com base nessa reflexão, os profissionais comprometidos com sua prática metodológica devem reconhecer que, no contexto escolar as crianças aprendem brincando, reconhecer que a ludicidade abrange as competências de memória, da concentração e da atenção, levando em consideração, claro, o prazer e o divertimento.
1.1.7.