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O papel do professor

No documento 2010JussaraMorandiniStrehl (páginas 74-77)

3 MAL-ESTAR DOCENTE E PREVENÇÃO

3.2 Interação com a comunidade escolar

3.2.3 O papel do professor

Percebe-se, diante de todo esse panorama, que a tarefa do professor não é só desenvolver o conteúdo de sua disciplina. Sua atividade passa a ser mais com- plexa e dinâmica, exige muitos outros conhecimentos e tarefas que antes não eram de sua competência, mas que devido às transformações sociais acabaram sendo cobradas, também, da escola.

Sobre essas novas incumbências do professor, Gasparini, Barreto e Assun- ção (2005), afirmam que o docente, na atualidade, expandiu a sua missão para fora das paredes da sala de aula e extrapolou a mediação do processo de conhecimento

do aluno. O professor, além de ensinar, participa da gestão e do planejamento esco- lar, que significa mais dedicação e se estende às famílias e à comunidade. Sabe-se que hoje o professor, também, tem tarefa de garantir a articulação entre escola e comunidade.

A professora entrevistada aponta sobre essa realidade em que, muitas vezes, o professor envolve-se e resolve problemas que julga não ser de sua responsabili- dade, mas diante da situação é necessário adotar alguma atitude.

[...] pelo acumulo de funções que o profissional tem, que o professor tem, ‘né’, tem que resolver vários problemas que às vezes não é nem de sua competência mas que acaba abraçando que com o aluno ali você tem que tomar algumas decisões, algumas medidas, situações que vem da família e que na verdade a gente deveria estar contribuindo e não resolvendo essas situações (ENTREVISTADA 08).

Para Esteve (1999), as mais diversas fontes concordam em assinalar que, nos últimos anos, tem aumentado as responsabilidades e exigências que se proje- tam sobre os educadores, coincidindo com o processo histórico de uma rápida trans- formação do contexto social, o qual tem influenciado, significativamente, nas modifi- cações do papel do professor. Isto implica em uma fonte importante de mal-estar para muitos deles, já que a maioria não sabe ou, simplesmente, não tem aceitado acomodar-se às novas exigências.

Essa nova realidade de exigências que o professor encontra nas escolas e que muitas vezes não se vê capaz de lidar, julgando-se incompetente por não saber como agir ou pela falta de conhecimento, é perceptível nos trechos das entrevistas: “[...] não, eu não estudei para isso, eu estudei para dar uma disciplina, não para e- ducar [...] Claro, educar faz parte do educador, mas não regras básicas, valores, isso me angustiava” (ENTREVISTADA 06).

Professor e aluno hoje é a mesma coisa [...] Não existe assim, ‘ó’, o profes- sor, ‘né’, tem o conhecimento para passar. Claro que a gente aprende com as pessoas, só quem dá a letra, como dizem os adolescentes, quem dá a letra é o professor, vamos seguir por aqui, no momento que o aluno come- çar a fazer isso acabou a aula. Acabou a aula, acabou, o conhecimento não existe, prá que, que existe escola. Eu, sabe como é que eu me sinto falando em escola regular, eu me sinto uma, como é que se diz aqueles que cuidam de presidiário [...] A gente [...] Penitenciário, eu me sinto um agente peniten- ciário e não uma professora (ENTREVISTADA 01).

Mosquera (1978), referindo-se ao papel do professor na sala de aula, acres- centa que a sua tarefa requer muitas aptidões e que, muitas vezes, são quase im- possíveis de serem possuídas, pois, além do número de alunos que compõe a sala de aula, existem as individualidades de cada aluno, uma vez que a tarefa de ensinar requer metodologia e implicações psicossociais, e envolve tomada de decisões.

Nos dias atuais, exige-se muito mais do professor em sala de aula, pois o processo de inclusão aumentou, além da diversidade, as dificuldades que ele tem que saber administrar. Outro fator que se deve levar em consideração é, também, que muitas vezes o professor não esta preparado para enfrentar esta realidade, e isto pode ser uma fonte geradora de desconforto, como podemos observar na fala da professora a seguir.

[...] é impossível, ‘tu’ não consegue, então hoje vou atender dois, três, aqui dos surdos, dois, três ali do ‘ACELERA’ e o restante eu trabalho um todo, toda a explicação no quadro, mas depois eu tenho que sair dali e ir para de- terminados grupos e ainda manter aqueles sem machucar ninguém. Então hoje ‘tu’ é guarda, ‘tu’ é professor, ‘tu’ é interprete, ‘tu’ é [...] uma série de papéis num ambiente (ENTREVISTADA 03).

Atualmente, o professor ensina seu conteúdo, avalia, é conselheiro, é amigo e assessora as famílias que, diante deste novo contexto social, também já não sabe bem qual é o seu papel. Como expõe a professora a seguir:

[...] escola é pra transmitir conhecimento, não é pra educar filho de nin- guém. Professor não é pai, não é mãe, não é tio, não é parente. É professor [...] A sociedade quer o quê, que a professora tire o traficante da droga, a prostituta da rua, que ‘tu’ seja psicóloga, ‘né’, e ‘tu’ não é [...] (ENTREVISTADA 01).

Soratto e Olivier-Heckler (2002b) afirmam que se atribui uma importância in- discutível a educação, e a escola é vista, muitas vezes, como uma extensão da fa- mília. Os professores acabam assumindo o papel de conselheiro, amigo e confiden- te. Não se pode esquecer-se de que sua função principal é oferecer condições de aprendizagem e desenvolvimento para seu aluno; todo este esforço faz com que o trabalho do professor se torne desgastante. As autoras acrescentam que, diferente

de muitas profissões, o trabalho do professor se reveste de várias peculiaridades que não são levadas em conta.

[...] hoje o aluno que a gente recebe, ele vem com uma série de problemas e desemboca onde, nas nossas mãos e a gente tem que ‘dá’ conta tanto da aprendizagem quanto de recebimento de pais, da própria coordenação e is- so a gente tem que lidar com isso [...] (ENTREVISTADA 03).

Para Esteve (1999), as investigações sobre o esgotamento dos professores mostram que a acumulação de expectativas e responsabilidades nas suas tarefas diárias estão desproporcionais ao tempo e ao meio que dispõe para realizarem seu trabalho. O professor está sobrecarregado de trabalho: deve manter a disciplina, mas ao mesmo tempo ser simpático e afetivo; deve atender as individualidades dos alunos, com os mais lentos tem de ser uma aprendizagem mais devagar, com os mais rápidos tem de ser uma aprendizagem mais rápida; tem que cuidar do ambien- te da sala de aula; programar aulas; avaliar; orientar; receber pais, informar para e- les como está o desempenho de seu filho; organizar diversas atividades burocráti- cas; enfim, uma lista interminável de exigências.

Além de todas as exigências impostas pela realidade do trabalho do profes- sor, que tem de saber contorná-las para conseguir desempenhá-lo da melhor manei- ra possível, os docentes se defrontam com outro problema, que é a falta de apoio dos colegas.

No documento 2010JussaraMorandiniStrehl (páginas 74-77)