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A estruturação de trabalho contemporânea, marcada pela competitividade e desenvolvimento de novas tecnologias, permite o surgimento de novas formas de gestão. As organizações passam a ser vistas como um sistema dinâmico e orgânico. O planejamento deixa de caber somente à cúpula, a comunicação passa a ser feita de forma estratégica e se busca por parte dos funcionários, o desenvolvimento de habilidades não apenas técnicas (KANAN; AZEVEDO, 2006).

A produtividade e o desempenho são fatores que sempre estiveram presentes no campo do trabalho. Zanelli (2002) aponta que a perspectiva da psicologia relativa ao trabalho vai de encontro com a priorização do desenvolvimento da pessoa, através da participação e planejamento. Esse crescimento individual é capaz de promover mudanças em todas as estruturas da organização, pois produzir também é uma forma de alterar o ambiente.

A verdade é que a questão do trabalhador com a produção é bastante complexa. Zanelli (2002) traz a ideia de que fatores como motivação, habilidades, valores morais e o próprio significado de produzir não podem ser vistos separados do sujeito. Para o autor, o aumento da produção deve ser pensado “priorizando a melhoria na qualidade de vida de quem produz, de quem consome e a preservação máxima do ambiente (ZANELLI, p.35, 2002).

O avanço tecnológico aumentou ainda mais o trabalho penoso e trouxe diferentes formas de sofrimentos. Como já foi tratado no capítulo anterior, o trabalho está ligado ao sofrimento. Dejours (1998) fala do sofrimento patogênico e criativo. O sofrimento criativo é o agenciador de realização do verdadeiro trabalho, é o que produz o processo criativo. O sofrimento patogênico por sua vez, diante da impossibilidade de mobilizar recursos defensivos, empurra o sujeito para uma incapacidade. Cabe ao psicólogo organizacional se atentar a

essas características de sofrimentos também individuais que se originam também das constantes mudanças e novas demandas (FLACH, 2009).

Zanelli, Bastos e Rodrigues (2014) apontam para as inúmeras possibilidades de atuação da psicologia na área da POT. Os autores citam algumas delas, mas buscam não reduzi-las a um modelo único, apenas expõem um conjunto de atividades que costumam se esperar de um profissional, considerando três campos intradisciplinares que estruturam a área: Psicologia Organizacional, Psicologia do Trabalho e Gestão de Pessoas.

Dentro do campo interdisciplinar da Psicologia Organizacional, encontramos a disciplina de Comportamento organizacional, onde as atividades se voltam para diagnósticos de clima organizacional, pesquisas sobre satisfação, comprometimento e envolvimento no trabalho, diagnósticos de cultura organizacional, processos grupais, rotatividade, turnover, absteísmo. Outra disciplina ainda desse campo é o Desenho Organizacional, onde as atividades são voltadas para a análise de cenários, planejamento estratégico, design organizacional, modelos de gestão, arranjos flexíveis de trabalho. A última disciplina citada dentro da área é a Consultoria Organizacional, onde a assessoria e consultoria são prestadas às organizações com o objetivo de diagnosticar, intervir e promover mudanças organizacionais.

A Psicologia do trabalho destaca as disciplinas de Higiene do Trabalho, abrangendo atividades como segurança e prevenção de acidentes, programas de ajustamento de bem-estar, programas de qualidade de vida no trabalho e assistência psicossocial; saúde do trabalho: realização de diagnósticos de saúde e adoecimento no trabalho; identifica fatores de trabalho, da organização e da gestão propiciadores de adoecimento, clínica do trabalho, diagnóstico e manejo de estresse no trabalho e síndrome de burnout;. A ergonomia: Análise do trabalho e de suas cargas físicas e mentais, Avaliação ergonômica de equipamentos e ferramentas de trabalho, Planejamento, implementação e avaliação de intervenções ergonômicas, Análise da interação homem- computador; A orientação profissional e de carreira: Análise de interesses e aspirações vocacionais, Orientação e aconselhamento nas escolhas

profissionais; Emprego, desemprego e empregabilidade: Manejo dos impactos psicossociais do desemprego, Construção de estratégias de recolocação no mercado de trabalho.

A Gestão de pessoas, abrange as disciplinas de Administração de pessoal, incluindo atividades como: movimentação e desligamento, remuneração e benefícios, planejamento de recursos humanos; Análise de Trabalho: descrição de rotinas e fluxos de trabalho, análise de postos de trabalho, definições de competências exigidas para os cargos, Alocação de desenho e tarefas, layout de postos de trabalho. Recrutamento e seleção: Diagnósticos de necessidades de pessoal, realização de pesquisas salarial, identificação de candidatos, planejamento do processo seletivo, definição de instrumentos usados no processo de avaliação, realização de avalição psicológica com o objetivo de seleção, atuação no processo de admissão. Treinamento e desenvolvimento de educação; Avaliação de desempenho; Relações de trabalho

Diante das inúmeras atividades e disciplinas destacadas por Zanelli, Bastos e Rodrigues (2014) consegue-se ter um panorama da diversidade e interdisciplinaridade da POT e sua atuação nas organizações. Independente das áreas e da proximidade com atividades de outras formações, a psicologia sempre irá contribuir com a sua forma de interpretação dos fenômenos humanos, individuais ou coletivos no contexto de trabalho.

A revista Diálogos que é organizada pelo Conselho Federal de Psicologia, em seu ano 4 e número 5, lançada em dezembro do ano de 2007, traz à tona a discussão sobre os desafios e novos rumos da POT. Em entrevista para a revista Antonio Virgínio Bittencourt Bastos trata das produções que se tem na área na atualidade e destaca que: “o desafio é não pensar a área como técnicas para lidar com crises de gestão. É entender sua complexidade” (BASTOS, p. 16, 2007).

A função primordial do psicólogo dentro das organizações é contribuir para um ambiente de trabalho saudável e que assegure tanto as necessidades

do empregado quanto da organização. Se no passado o objetivo era desenvolver ferramentas para atender as demandas de produção e lucratividade, na sociedade contemporânea busca-se fornecer meios para que os sujeitos e organizações sejam capazes de lidar com as mudanças (BASTOS, 2007).

Existe um compromisso ético da POT com a saúde do trabalhador e esse fator deve ser desenvolvido dentro da prática. É importante que o profissional não se atende somente para as questões mecanicistas e se volte para as relações de trabalho, o ambiente e a dinâmica da organização e principalmente a subjetividade e o adoecimento dos trabalhadores (SANTOS; CALDEIRA, 2015).

Dado o exposto, as práticas do psicólogo nas organizações contemporâneas devem se apoiar na busca por um equilíbrio entre os interesses das organizações e o desejo do sujeito. Apesar dos desafios da psicologia em estar nessa posição de ‘’ mediação’’ e de se haver também com as inúmeras transformações do cenário contemporâneo, é importante se atentar para as novas possibilidades de intervenção e relembrar que todos os momentos desafiadores da história da POT foram cruciais para movimentar novas construções.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve por objetivo abordar questões que dizem respeito a construção histórica da POT enquanto disciplina e área de atuação, e os desafios e práticas contemporâneas. Através da retomada de eventos marcantes na história humanidade é que percebemos a maneira que a psicologia foi se estruturando frente as demandas das épocas.

O trabalho é um fator determinante na vida das pessoas, mas também é produtor de sofrimento na medida em que a individualidade é anulada diante das exigências que se apresentam muitas vezes no cenário das organizações. Ao remeter à produção artesanal, o trabalhador era capaz de criar seu produto conforme seus critérios e tinha autonomia para modificar e ajustar ao seu gosto. Além disso, existia uma forte ligação subjetiva com o que produzia. A partir dos processos de industrialização, o trabalhador passa a vender sua força de trabalho e se submeter aos ajustes de uma organização, que exige um ritmo diferente de produção e o coloca como uma peça na engrenagem.

A psicologia surge como uma aliada na busca pelo avanço do desenvolvimento econômico, trabalhando no ajuste técnico do homem à organização. Com a psicometria, aplicada aos processos de recrutamento e seleção, os primeiros passos foram dados para a inserção da profissão no ambiente de trabalho.

Hoje, depois de uma longa caminhada para ocupar outros espaços dentro das organizações, a POT se estrutura como uma disciplina que contribui para a qualidade de vida e saúde do trabalhador. Com o olhar mais abrangente, levando em conta todos os fenômenos que se apresentam, se construiu uma base mais sólida para discussões e pesquisas sobre o trabalhador e as organizações, partindo da ideia de que exista uma unidade entre os dois.

Os desafios contemporâneos incluem um dinamismo e uma modificação dos vínculos de trabalho. O que se espera de um trabalhador vai muito além do das competências técnicas, habilidades pessoais estão sendo cada vez mais

valorizadas. Esse fator se dá pelas constantes mudanças e a necessidade de reaprender algo. A tecnologia é um grande exemplo disso.

A questão que cabe à POT é de responder também ao que se produz dessas relações, assim como em todas as outras épocas que construíram e atravessaram a história da profissão. Não deixamos de estar inseridos em um contexto social e, assim como ele se movimenta, nos movimentamos também.

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