A presença dos componentes do RCM na população tornou-se um importante problema de saúde pública. As transições epidemiológica e nutricional caracterizadas, respectivamente, pela alta prevalência das DCNT’s em detrimento das doenças infecciosas e parasitárias, e o aumento do excesso de peso têm expressado grande impacto nos índices de mortalidade da população mundial (LOPEZ-JARAMILLO, LAHERA, e LOPEZ-LOPEZ, 2011; FERDINAND et al. 2014; MALTA, 2014). Esse quadro já é visível também em crianças e adolescentes, sendo o maior número de componentes encontrados nos indivíduos classificados como obesos (KLUNDER-KLUNDER et al., 2013), com resistência insulínica (GOLBATO et al., 2014) e a elevação da pressão arterial (PINTO et al. 2011).
Atualmente 2,1 bilhões (30%) de pessoas no mundo apresentam excesso de peso, enquanto que no Brasil esta prevalência é de 68,3% na população com mais de 18 anos (IHME, 2014; BRASIL, 2014). Em relação às causas de mortes, das 57 milhões de mortes no mundo em 2008, 36 milhões (63%) foram atribuídas as DCNT’s nas quais as DCV foram a principal causa (48%), seguida do câncer (21%), doenças cônicas respiratórias (12%) e diabetes (3,5%) (WHO, 2012). Em 2011, elas foram as responsáveis por 72% das causas de mortes no Brasil, com destaque para doenças do aparelho circulatório (31,3%), câncer (16,3%), doença respiratória crônica (5,8%) e diabetes (5,2%) (BRASIL, 2011).
Estudos têm demonstrado que a presença dos componentes do RCM como obesidade abdominal (GONZÁLEZ, 2010; LEE et al., 2008), hipertrigliceridemia, redução do HDL-c e hipertensão arterial (ARSENAULT et al. 2010; SANTOS et al., 2013; KAPLAN et al., (2014), tem sido associada ao desenvolvimento das DCNT com destaque para as DCV, DM2 e câncer. No Brasil, um estudo realizado para avaliar a associação entre fatores de risco cardiovascular e indicadores antropométricos em pacientes portadores de DCNT, observou que 74% apresentaram glicemia > 100mg/dL, 56% HDL-c reduzido, 82% elevada CC e 78% excesso de peso (MENDES et al., 2012).
O RCM tem como fatores desencadeantes, mecanismos genéticos, história familiar, excesso de peso, metabolismo lipídico anormal, inflamação, hipertensão, resistência insulínica, tabagismo e inatividade física (BRUNZELL et al., 2008; CHATTERJEE, 2012; LI et al, 2013). O hábito alimentar da população tem contribuído em sobremaneira para o aparecimento de alguns fatores causais expressivos no desenvolvimento dos componentes do RCM.
Atualmente a população brasileira apresenta um consumo baseado na dieta ocidental, caracterizado pelo alto valor calórico, maior consumo de carnes, leite e derivados ricos em gorduras e, baixo consumo de frutas, cereais, verduras e legumes (IBGE, 2010). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) aproximadamente 2,7 milhões de mortes por ano em todo mundo podem ser atribuídas a esse consumo alimentar inadequado, estando entre os dez principais fatores de risco para a carga total global de doença em todo o mundo (WHO, 2003).
A I Diretriz sobre o consumo de gordura e saúde cardiovascular expõe sobre a participação das gorduras e do carboidrato simples na gênese das DCV. Segundo a Diretriz, o alto consumo de lipídeos saturados e trans se correlaciona com a elevação do LDL-c e, consequentemente, com o aumento do risco cardiovascular. Além disso, o tipo de gordura consumido pode influenciar também outros fatores de risco, como a resistência à insulina e a
pressão arterial. Quanto aos carboidratos simples, de rápida absorção, a alta ingestão favorece um desequilíbrio entre a oferta de lipídeos e os demais nutrientes, possibilitando o estabelecimento de hipercolesterolemia, excesso de peso, desenvolvimento da obesidade e alterações pós-prandial como hiperglicemia, hiperinsulinemia e hipertrigliceridemia, todos associados ao risco cardiovascular aumentado (SANTOS et al., 2013). Unger e Scherer (2011) ratificaram que a presença dos componentes do RCM está associada ao excesso de calorias e alta ingestão de gordura e carboidrato simples sendo a glicose promotora de substrato para de lipogênese de novo. Eles ainda relatam que estes nutrientes potencializam a resposta secretora de insulina, o que leva a hiperinsulinemia que regula positivamente a expressão do fator de transcrição lipogênico (SREBP-1c) e suas enzimas.
O padrão do consumo alimentar de pacientes com componentes do RCM tem sido marcado pelo baixo consumo de frutas, legumes e hortaliças, leites e derivados e altos valores de sódio, colesterol e gordura total (GADGIL et al, 2013; ADAIR et al., 2014; LIMA, 2014; COSTA, BRITO e LESSA (2014). Dessa forma, a adoção de hábitos alimentares saudáveis tem se destacado entre as estratégias utilizadas por diversos programas que objetivam reduzir ou prevenir a instalação dos componentes do RCM resultando nas melhorias na curva de insulina e glicose, redução de gordura visceral, fator de necrose tumoral, circunferência da cintura, triglicérides, pressão arterial sistólica e diastólica e maior concentração de adiponectina, podendo este efeito variar entre 15 a 40% (KANT, 2010; ALMEIDA-PITITTO et al., 2012; BOUCHONVILLE et al, 2014).
Assim, a adoção do padrão ocidental da dieta marcada por uma maior ingestão energética de gordura saturada e alimentos processados e a baixa ingestão de fibras dietéticas associa-se ao maior risco de desenvolvimento dos componentes do RCM (TAKAHASHI, 2011; DE OLIVEIRA, 2013). Além disso, a maior oferta calórica à célula está associada a maior produção de EROs desencadeando a instalação dos componentes do risco também pelo EO (DEVARAJ et al., 2008).
Estudos demonstram que indivíduos jovens saudáveis já apresentam fatores modulatórios do EO, em especial a alimentação inadequada, que resultam na redução da CAT do plasma podendo contribuir para instalação dos componentes do RCM e, consequentemente, das DCNT decorrentes. A prevalência de sedentarismo, excesso de peso/obesidade e o alto consumo de sal, álcool, energia e gordura saturada tem contribuído para este quadro (PETRIBU, CABRAL e ARRUDA, 2009; CORREIA, CAVALCANTE e SANTOS, 2010; GOMES et al., 2012).
Em Sergipe, o baixo consumo de frutas e legumes e verduras foram encontrados, respectivamente, em 67,7% e 84,4% dos universitários. Além disso, as mulheres demonstraram inadequação para o consumo de frituras, embutidos e doces e na troca de principais refeições por lanches (p<0.05). Entre os homens observou-se menor preocupação com a retirada de gordura aparente das carnes e maior frequência de consumo de bebidas alcoólicas (p<0.05) (FEITOSA et al. 2011). Esses resultados corroboram com Amor, Ferreira e Barbosa (2012) que ao avaliarem o Health Eating Index (Índice de Qualidade da Dieta, varia de 0 a 10) desses universitários observaram que 85,5% necessitavam modificar sua alimentação, uma vez que houve baixo consumo de hortaliças (3,2±2,0 pontos), leites e derivados (4,6±2,8 pontos), leguminosas (5,92±3,0 pontos) e cereais (6,0±2,5 pontos). Ao utilizar a EAR como ponto de corte, as principais inadequações encontradas foram para o ácido fólico (98,5%), ferro (83,1%), fibras (76,9%), magnésio (92,3%), potássio (96,9%), cobre (100%), vitamina D (100%) e E (61,5%). Por fim, em relação à adequação energética e de macronutrientes, vale ressaltar que a população com dieta inadequada possuiu uma dieta hiperprotéica (369%) e hiperlipídica (231%).
4 CASUÍSTICA E MÉTODOS