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O papel dos festivais como vetores de desenvolvimento local

CAPÍTULO 4 ​ UM MIMO DE FESTIVAL

4.1. O papel dos festivais como vetores de desenvolvimento local

Nas últimas décadas, esses festivais foram potencializados pela reconfiguração da indústria da música das últimas décadas, em que ocorreu a diminuição do valor econômico e cultural da música gravada e, por outro lado, houve a ascensão da importância dos concertos ao vivo como negócio (Herschmann, 2010; De Marchi, 2010).

Dessa forma, as apresentações ao vivo tomaram posição central na indústria musical nas últimas décadas, por conta do alto valor que o consumo dessa experiência (Pine e Gilmore, 2001) adquiriu aos olhos do público envolvido nesse mercado. Tendo em conta essa prerrogativa,​toda venda feita a um cliente precisa ser tratada como um evento memorável. Ou seja, todo consumidor deve se sentir importante, pois a lembrança dessa experiência é o que fará com que sua marca seja lembrada.

Os festivais costumam ser identificados como eventos rituais, que constituem momentos excepcionais da vida social de uma sociedade por expressarem os conflitos culturais de uma forma dramatizada (Turner, 1974).

Nesse contexto, os membros de uma comunidade participam para declarar e celebrar seus laços sociais, religiosos, étnicos, nacionais, linguísticos e históricos (Bennett ​et al.​, 2014).

E dentro dessas dinâmicas, dá-se, por conseguinte, a formação de um sentimento de pertencimento (Cohen, 1982; Bagnall, 2009) que envolve os indivíduos que experimentam a vivência de uma prática cotidiana em conjunto.

Afinal, partindo da perspectiva de Bourdieu (1979, p. 17) de que o gosto musical possui uma relevância categorizadora de classe, pode-se pontuar que o festival usa a música como elemento estratégico para construir um sentimento de pertencimento em que envolve audiência, equipe, artistas e demais agentes para a construção de um evento.

E essa participação ainda confere a estes frequentadores um capital social (Bourdieu, 1979), conferindo-lhe um poder de distinção que torna a pessoa, portanto, um membro reconhecido na comunidade como pertencente àquele tipo de cultura, distanciando-lhe dos demais.

Ou seja, esse tipo de evento passou a desempenhar um importante papel como espaço de articulação da identidade (Aitchison e Pritchard, 2007) e proporciona a reunião, em um determinado espaço-tempo, de uma diversidade de estilos de vida que se encontram.

Além disso, os festivais também estão conectados com os circuitos e cenas musicais locais, uma vez que atuam como importante espaço de socialização e um

importante propulsor da produção musical da região. É muito comum, inclusive, bandas que começam com a meta de tocar neste ou naquele festival.

Todavia, fora o aspecto das sociabilidades, os festivais também exercem forte influência nas dinâmicas do mercado da música local e, por consequência, promove uma ativação das relações entre os agentes desse setor.

Afinal, os festivais de música têm desempenhado um expressivo papel de estabelecimento de conexões entre profissionais do setor, audiência, entidades públicas e privadas. Dessa forma, vêm consolidando-se como uma importante arena que promove o encontro de sociabilidades, disputas, estilos de vida, entretenimento e estratégias de posicionamento de marca de diversas empresas.

E isso é independente do seu porte, uma vez que até os pequenos festivais possuem relevância em todos esses aspectos e, muitas vezes, mantém uma periodicidade maior e efeitos a longo prazo mais significativos nos seus territórios do que grandes festivais, ou até mega eventos.

Afinal, para executar essa produção, é necessário envolver toda a estrutura de agentes do setor musical identificada no Capítulo 2 que, por meio da prestação de serviços e disponibilização de produtos contribuem para o funcionamento dessa estrutura complexa, que, dependendo do porte, pode envolver milhares de trabalhadores, tais como voluntários; artistas; produtores; comunicadores; técnicos de sonorização e iluminação; fornecedores de produtos e serviços; parceiros de logística (alimentação, hospedagem e transporte); bem como equipes de limpeza e segurança.

E, dessa forma, os festivais funcionam como laboratórios de experimentações de uma indústria em reconfiguração que são capazes de promover expressivas repercussões nas comunidades em que se estabelecem e seus arredores, destacando-se entre outras:

(a) o estímulo à economia local, principalmente nos setores ligados ao turismo, como hotéis, comércio e restaurantes;

(b) encorajamento de novos artistas a seguirem na área, fortalecendo os segmentos de educação musical e de formação gestora;

(c) fomento à capacitação de profissionais das áreas técnicas fundamentais para a execução dos shows;

(d) impulsão à criação e manutenção de novos espaços públicos e privados de concertos ao vivo que levam ao estabelecimento de uma agenda capaz de manter ativado esse ciclo de produção e distribuição de bens musicais.

Além das forças que exercem nas cidades em que são realizadas, os festivais ainda são capazes de influenciar pessoas de outros municípios para se deslocarem para viver aquela experiência e as dinâmicas identitárias por ela promovidas, como observa Dowd ​et al​.: “reunidos de locais geograficamente dispersos e longe das expectativas da vida cotidiana, fãs e artistas podem mergulhar em uma cultura particular e experimentar diferentes identidades” (2004, p. 149).

Da mesma forma, dependendo da capacidade de absorção da cidade que atua como sede do festival, o evento consegue atuar distribuindo suas energias de atração para os município em torno. Desde já é importante apontar que isso ocorre em Amarante durante a realização do MIMO Festival. Com ocupação de 100% de leitos, muitos festivaleiros precisam buscar outras opções de locais para pernoitar.

Como apurado acima, ao mesmo tempo em que os festivais funcionam como um ambiente de consumo e experimentação repleto de sociabilidades peculiares, eles também movimentam economicamente o setor turístico da cidade, pois ajudam a elaborar uma imagem da cidade que estimule a ida dos participantes.

Nesse contexto, além dos shows, os festivaleiros aproveitam o investimento53 realizado para ir e se manter na cidade nos dias de evento e também buscam conhecer os principais pontos turísticos e aproveitar as particularidades daquele local. Esse ​lifestyle​ festivaleiro é um aspecto significativo da vida cotidiana contemporânea.

Por oportuno, sobre esse efeito impulsionador do turismo, vale informar que Portugal possui um interessante histórico nesse sentido. Afinal, Vilar de Mouros tornou-se um relevante destino turístico por conta do “Festival de Vilar de Mouros”, que foi o primeiro festival de música do país. Esse evento teve sua primeira edição na década de 60 e é realizado até hoje no país.