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O Paradigma de Olhar Preferencial Intermodal

3. METODOLOGIA

3.1. O Paradigma de Olhar Preferencial Intermodal

Para investigar a hipótese de que crianças na segunda fase da aquisição (09 a 24 meses) adquirindo o PB são capazes de compreender a estrutura sintática canônica na língua e correlacionar esta informação com a informação semântica do contexto, proponho a adaptação de um dos testes descritos em Hirsh-Pasek & Golinkoff (1996, cap. 5). A partir dele, além de avaliarmos a compreensão das crianças brasileiras, podemos avaliar o método utilizado e suas adaptações em relação ao experimento original, como: i) uso de vídeos figurando pessoas em vez de personagens animados42; ii) local de testagem mais familiar (em vez de em um laboratório,

testamos as crianças dentro de sua escola), mas com menor possibilidade de controle ambiental (i.e., barulho, iluminação, etc.); e iii) ações diferentes, para evitar certos problemas de adaptação dos vídeos, todos a serem detalhados mais à frente.

O método utilizado é conhecido na literatura como Paradigma de Olhar Preferencial Intermodal (Intermodal Preferential Looking Paradigm, doravante IPLP) (SPELKE, 1979), e pretende avaliar a compreensão de crianças muito novas a partir da preferência por um entre dois ou mais estímulos visuais simultâneos. O termo “intermodal” vem do fato de se examinar a compreensão simultânea entre estímulo auditivo e visual. O experimento de Spelke (1979), fundador do método, consistia em apresentar a crianças de 4 meses dois eventos, como um burro caindo em cima de uma mesa e um par de mãos batendo palmas, acompanhados de um estímulo auditivo condizente com apenas um dos eventos, como o som de palmas. Ao observar que as crianças passavam mais tempo olhando para o evento correspondente ao estímulo auditivo do que para o não correspondente, percebeu-se que poderia ser possível estudar a compreensão linguística infantil a partir do método (GOLINKOFF ET. AL., 1987).

42 Trabalhos como os de Crain & Thornton (1998) e Naigles & Tovar (2012) lidam com a assunção de que crianças se sentem socialmente mais à vontade com personagens animais do que humanos. No entanto, como não há interação direta com os personagens neste teste, e também devido aos bons resultados da pré-testagem (a serem explicitados mais à frente), escolheu-se manter os personagens humanos.

O IPLP foi usado por diversos autores, como Piotroski & Naigles (2012), Naigles (1990), Houston-Price et. al. (2007), dentre outros, para estudar a compreensão tanto lexical quanto sintática em crianças com desenvolvimento padrão e também em crianças com desenvolvimento atípico, como autistas, por autores como Naigles & Tovar (2012). Os experimentos mais antigos em geral eram feitos em laboratórios de aquisição e os estímulos visuais apresentados em televisores conectados a videocassetes sincronizados, enquanto um experimentador escondido anotava a direção do olhar da criança durante o teste (on-line). Experimentos mais recentes, como o último citado, podem apresentar uma versão mais “portátil” do experimento, rodando os estímulos em computadores conectados ou não a projetores e monitores externos, sendo aplicáveis tanto em laboratórios quanto nas casas dos participantes, em escolas ou hospitais. Nesse caso, muitas vezes a codificação dos dados é feita somente off-line43, analisando-se os

vídeos das crianças gravados no momento do teste através de programas de eye-tracking e de gravação manual de dados, como o DTE (NAIGLES & TOVAR, op. cit.), o Habit 200044, e o

Lincoln Infant Lab Package (2008)45.

3.1.1. Por que testar compreensão

HP&G levantam duas razões principais para se testar a compreensão infantil. Em primeiro lugar, como já visto na fundamentação teórica, é possível estudar a aquisição de estruturas que ainda não são produzidas mas são compreendidas pelas crianças, revelando o lado “não- observável” do conhecimento infantil. Hallé et. al. (2008), por exemplo, mostrou que crianças compreendem palavras funcionais muito antes de utilizá-las em sua própria fala, ao observar que bebês franceses de 11 meses são capazes de reconhecer palavras conhecidas em sentenças quando acompanhadas das palavras funcionais apropriadas, mas não quando acompanhadas de sílabas

nonsense.

Em segundo, o estudo da compreensão pode revelar certas estratégias de processamento da informação linguística pelas crianças, abrindo novas possibilidades de estudo sobre o processo de aquisição da língua materna. Pode-se, por exemplo, descobrir possíveis estratégias de 43 Sem levar em conta a passagem do tempo.

44 http://habit.cmb.ucdavis.edu/

segmentação de palavras acessadas por crianças muito novas, como mostrado pelos experimentos de Jusczyk e colegas, já mencionados anteriormente (JUSCZYK, HOUSTON & NEWSOME, 1999; JUSCZYK, 1999). Embora a produção possa algumas vezes revelar estratégias de processamento das crianças através de erros e omissões, é possível corroborar as hipóteses geradas pela produção através de testes de compreensão.

As vantagens do IPLP em relação a outros testes de compreensão é que ele não pede a realização de ações, como apontar ou encenar uma atividade (BROWN, 1958; SHATZ, 1978), obtendo dados através de uma resposta natural às crianças e adultos: voltar a atenção a um estímulo visual condizente com o estímulo auditivo ouvido (TANENHAUS ET. AL., 1995, apud HIRSH-PASEK & GOLINKOFF, 1996). Quanto menos necessidade de ação por parte do sujeito, menos suscetível a problemas em relação à disposição da criança a cooperar e presença de bias (não relacionados ao processo de aquisição ou ao conhecimento linguístico) para agir de certa maneira em certas situações46. Isso garante um maior controle dos resultados, pois a quantidade

de fatores que influenciam a performance infantil no teste é minimizada.

3.1.2. Possíveis problemas

Embora o experimento pareça ter tido sucesso ao ser aplicado em crianças aprendizes do inglês por HP&G e Golinkoff et. al. (1987), é possível observar certos problemas tanto em relação à sua versão original quanto às adaptações feitas por esta dissertação. À primeira vista, poderíamos pensar que o método não leva em conta o bias infantil a preferir informação nova a antiga (novelty bias) (COHEN, DELOACHE & STRAUSS, 1979), já que ele pede que a criança encontre correspondências entre estímulos no input. No entanto, a predisposição a procurar por correspondências em seu ambiente, sejam linguísticas ou não, parece sobrepor-se ao bias para novidade, como demonstrado por experimentos como os de Starkey, Spelke e Gelman (1983), em que crianças de 10 meses preferiam a imagem que mostrava o mesmo número de objetos quanto 46 Por exemplo, chutar a bola ao ver uma pode ser apenas a repetição de uma resposta já treinada na presença deste objeto, e não a obediência ao comando “chute a bola” (NELSON, 1973). Da mesma forma, crianças na fase das primeiras palavras possuem uma tendência a dizer “sim” para perguntas mesmo sabendo que a resposta é “não”, por falta de habilidades verbais e de controle inibitório (MORIGUCHI ET. AL., 2008).

o número de batidas que ouviam, e de Meltzoff & Borton (1979), em que crianças de 29 dias olhavam por mais tempo para uma forma que elas haviam explorado pelo tato do que para outra que elas não haviam explorado. Além disso, experimentos intermodais apresentam dois estímulos visuais igualmente novos, sendo a escolha entre eles dada pela correspondência com o estímulo auditivo.

Outro problema, relativo à adaptação do método, é o fato de que mesmo com os esforços para se ensinar os nomes dos personagens no início da testagem, as crianças poderiam acabar não os aprendendo ou aprendendo apenas um deles. Se o segundo problema ocorresse, ou seja, se apenas um nome fosse aprendido, o reconhecimento deste em posição de agente ou paciente ainda serviria para identificar a ação correspondente; em um experimento semelhante de Gertner, Fisher & Eisengart (2006) com verbos inventados, observou-se que mesmo trocando o nome dos agentes por um pronome, como em “ele está gorpando o pato” (2006, p. 688), as crianças eram capazes de identificar a ação correspondente pela posição do paciente (já que as ações e os papéis de agente e paciente eram diferentes em cada vídeo).

Se o primeiro problema ocorrer, isto é, se nenhum nome for aprendido pelas crianças, ainda há uma estratégia que elas poderiam usar a fim de identificar os papéis de cada personagem nas sentenças transitivas. Como foram escolhidos um menino e uma menina como personagens, as crianças poderiam identificar seu gênero pelo artigo feminino ou masculino e usar esta informação para determinar qual nome se refere à menina e qual se refere ao menino. Lew- Williams & Fernald (2007) observaram que crianças de 34 meses aprendizes do espanhol eram capazes de usar pistas de gênero gramatical para identificar palavras em testes de compreensão

on-line, localizando mais rapidamente o objeto correspondente ao estímulo linguístico quando

apresentadas a dois objetos de gêneros gramaticais diferentes do que de mesmo gênero.

Por fim, uma questão pendente da metodologia do IPLP surge justamente do fato de não se exigir nada da criança além de assistir aos vídeos sendo apresentados. Como o procedimento coloca a criança em uma posição passiva, fica difícil medir seu nível de atenção. É possível que ela aparente estar assistindo às cenas, mas na verdade estar completamente alheia à atividade, apenas obedecendo passivamente ao comando de sentar-se e olhar para os vídeos. A fim de acessar a atenção das crianças no decorrer do teste, diversas estratégias são adotadas, como acender e apagar uma luz de centro nos intervalos das cenas e observar se elas voltam sua atenção

a ela, e medir a preferência por uma das telas durante o tempo de teste47. As crianças que

demonstram preferência muito alta (75% ou mais do tempo total de fixação do olhar) por uma das telas durante o teste têm seus dados descartados da contabilização, assim como também se descartam todas as etapas de teste em que as crianças não olharam para a luz de centro nos intervalos que as precedem. O lado ruim destas estratégias é que um grande número de dados precisa ser descartado; os que permanecem, no entanto, devem trazer informações mais confiáveis sobre a performance infantil frente ao teste proposto.

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