• Nenhum resultado encontrado

Nos estudos, destacados acima, que apresentam a distribuição de quilombos e Comunidades Remanescentes de Quilombos no Brasil, a região sul costuma assumir certa invisibilidade, pois quase não apresentam dados. Contudo, conforme Leite (1996, p. 36), existe duas possibilidades explicativas para as especificidades dos negros no sul do Brasil. Na primeira, a ausência ou presença pouco numerosa deve-se a existência de um grande sistema escravista voltado para a exportação. Na segunda, sugere-se que aí existiram relações mais democráticas e igualitárias, decorrentes de um modelo econômico implantado com menor contingente de escravos.

Para Leite (1996, p. 37), o negro desta região foi invisibilizado devido a sua ausência ou na intenção de não revelar a sua contribuição, o que se revela mais coerente, pois a invisibilidade pode ser uma estratégia de branqueamento da população. Trata-se do não querer saber, logo não ver e não se importar. Trata-se de um dispositivo de negação do outro, que pode ocorrer em diversas esferas: individual, coletiva, oficial, institucional e em textos científicos. Sendo esta uma das principais formas sob a qual o racismo se manifesta.

A invisibilidade do Paraná Negro começa a ser construída a partir da década de 1920, com a elite intelectual, que estabelece o movimento paranista. Este movimento vinculava a ideia de que o Paraná seria um “laboratório étnico”, pois este teria a capacidade de miscigenar todos os grupos, trazendo a tona um Paraná moderno e modelo para o Brasil (COFRÉ, 2010, p. 36).

Dentre os intelectuais do movimento paranista, tem-se como destaque o historiador Romário Martins e o crítico literário Wilson Martins. Segundo a análise de Cofré (2010, p. 39), um dos poucos trabalhos acerca da temática, para o Romário Martins o negro teria tido presença mínima na formação do estado paranaense, pois as atividades econômicas voltavam-se mais a uma “indústria da pecuária”, sendo os negros mão-de-obra adotada apenas na agricultura. Assim, para Wilson Martins, embora o Paraná fosse de fato laboratório étnico, os negros e índios ocupariam uma proporção quase que insignificante, havendo praticamente ausência de negros e escravidão (COFRÉ, 2010, p. 44-46).

Contudo, este argumento não se sustenta, pois outros autores como Pereira (1996, p. 58), apontam a existência de regime de escravidão no Paraná por volta de 1850. Este estaria concentrado em algumas regiões do estado como o Litoral e os Campos Gerais. Aponta-se também que o porto de Paranaguá estaria inserido na rota de tráfico de escravos para o Brasil (PEREIRA, 1996, p. 60).

Assim, percebe-se que a própria história do estado Paraná, agenciada por uma elite intelectual, constrói a invisibilidade do africano escravizado e, posteriormente, liberto. Realidade que demora décadas para ser alterada.

Cofré corrobora neste sentido quando afirma que

A restrição da participação do negro na sociedade paranaense ocorre, portanto, seja através de práticas legais de regulamentação, como as posturas municipais, seja através de discursos e da produção de uma imaginário social do paranaense em que o negro simplesmente é invisível (2010, p. 49).

Esta invisibilidade se mostra também nas obras que perpetuam a história paranaense. Construções, monumentos e nomes de ruas quase sempre fazem alusão a imigrantes europeus, de modo que, o negro no Paraná não reconhece a sua história, não a vê nos espaços públicos. Para Cofré (2010, p. 55), esta necessidade de eliminar a lembrança do negro no Paraná foi calcada em atos violentos, como os que envolvem a tomada de terras destes grupos. Uma vez que, não se justificava terras àqueles que eram considerados um atraso ao país.

Tal ideia de um estado onde a presença de não brancos é insignificante, invisível, predomina até os dias atuais. Contudo, é a partir de 2005 que o governo do Paraná, incentivado por uma movimentação latino-americana e federal acerca da

discussão de políticas públicas, da população negra e, mais precisamente de remanescentes de quilombolas inicia, ou melhor, estende ações do governo federal no nível estadual. Em um primeiro momento, a tarefa foi a de identificar estas comunidades no estado do Paraná, para posteriormente reconhecê-las e, assim, garantir a posse das terras. Todavia, até o momento, as ações se restringem a primeira fase.

Dessa maneira, é recente o processo em que o estado Paraná assume para si e para os outros um olhar para com os negros e, especialmente, reconhece não ser um estado branco. Os negros paranaenses não são inexpressivos, pelo contrário, trata-se de um Paraná Negro, que inclusive possui a riqueza das Comunidades Remanescentes de Quilombo.

Ao todo, são 36 comunidades que se autodeclararam e foram certificadas como Remanescentes de Quilombos e cinco se identificaram como Comunidades Negras tradicionais (GTCM, 2011) (Figura 7). A presença destas comunidades se realiza em quase todo estado, estando presentes: nos Campos Gerais – microrregião de Ponta Grossa, no oeste paranaense – microrregião de Toledo, no sudoeste paranaense – microrregião de Prudentópolis, no norte pioneiro – microrregião de Ibaiti e na região metropolitana de Curitiba – microrregião de Cerro Azul, que abarca a unidade territorial do Vale do Ribeira (ITCG, 2008, p. 113-114).

Trabalho Clóvis Moura

Fonte:www.itcg.pr.gov.br/arquivos/File/Quilombolas_2010/Comunidades_quilombolas.pdf

O maior contingente de comunidades negras tradicionais do Paraná concentra-se na região do Vale do Ribeira (Figura 8). A unidade territorial em questão é composta por 29 municípios, sendo sete paranaenses e 22 paulistas, estes estão totalmente inseridos na região, posto que há ainda 21 municípios no Paraná e 18 em São Paulo, que ocupam a unidade territorial parcialmente.

Figura 8 - Região do Vale do Ribeira

Fonte: ALVES, 2010.

Vale destacar que, a pesquisa em questão se foca na região do Vale do Ribeira paranaense, uma vez que concentra 11 das 36 das Comunidades Remanescentes de Quilombos paranaenses. Estas localizam-se nos municípios de Adrianópolis, Bocaiúva do Sul, Cerro Azul, Doutor Ulysses, Itaperuçú, Rio Branco do Sul e Tunas do Paraná. O município de Adrianópolis é o que mais concentra núcleos de remanescentes quilombolas, dentre eles estão São João, Córrego do Franco, Estreitinho, Três Canais, João Surá, Córrego das Moças, Sete Barras, Porto Velho e Paria do Peixe. (ITCG, 2008, p. 113). Por esta razão, foi escolhido como área para pesquisa empírica de campo.

A conjuntura da unidade territorial em questão, que vincula-se a existência de Comunidades Remanescentes Quilombolas na contemporaneidade, deve-se a

Municípios paranaenses Municípios paulistas

XVII, o tropeirismo e a criação de gado no século XVIII e ciclo rizicultor no século XIX. Com o declínio destas atividades econômicas, negros sob a condição de escravos fugidos ou libertos organizavam-se em comunidades (JUNIOR GOMES;

SILVA; COSTA, 2008, p. 14). Desta maneira, foram surgindo quilombos no estado do Paraná e também em São Paulo, na unidade territorial que se constituía as margens do Ribeira, que mais tarde dariam origem as Comunidades Remanescentes de Quilombos. Tais comunidades se configuram como comunidades tradicionais, pautadas pela afrodescendência e por elos de pertencimento a uma identidade e território comum (LÖWEN SAHR, et al, 2009, p.

11).

As comunidades desta região do Paraná apresentam uma particularidade diferenciada de outras regiões do estado, devido à proximidade geográfica entre os estados de São Paulo e Paraná. Em ambos estados esta é a região que mais abarca Comunidades Remanescentes de Quilombos. Contudo, o que se observa é uma proximidade que vai além das questões geográficas óbvias, mas que se concretiza nas relações sociais entre os municípios paulistas e paranaenses, especialmente as que fazem fronteira.

Entretanto, vê se que a dinâmica de reconhecimento destas Comunidades Remanescentes de Quilombos se difere nos dois estados. O panorama das comunidades quilombolas, especialmente no estado do Paraná, é recente e percebe-se, por meio de leituras e entrevistas, que a organização enquanto comunidades tradicionais e, sob o ponto de vista do relacionamento com o poder público, ainda se realiza de forma lenta, especialmente se comparada à realidade paulista.

Segundo dados do levantamento do GTCM em parceria com ITCG, esta proximidade entre as comunidades, especialmente as localizadas no município de Adrianópolis, mas que possuem acesso pelo município paulista de Barra do Turvo, reflete-se no acesso a serviços médicos (ITCG, 2008, p. 61). Por exemplo, moradores de comunidades de Adrianópolis buscam serviço médico em municípios paulistas, como Barra do Turvo ou Apiaí, devido à falta de estradas para acessar estes serviços no Paraná (ITCG, 2008, p. 61).

Tais relações também se realizam sob o aspecto das questões culturais. Os ancestrais quilombolas das comunidades de São João, Córrego do Franco, Estreitinho e Três canais, localizadas em Adrianópolis – PR, estão enterrados no

cemitério do município de Barra do Turvo – SP (ITCG, 2008, p. 61). Assim, mesmo a comunidade estando localizada no estado paranaense é com o estado de São Paulo, em Barra do Turvo, que os moradores apresentam parte relevante de suas ligações.

Com relação às características geográficas dos quilombos, os escravos fugidos buscavam territórios de difícil acesso e localização geográfica, normalmente em terrenos acidentados, porém que fossem bons para o plantio, pois tais características permitiram a este fenômeno longevidade (FIABANI, 2005, p. 258).

Anjos afirma que, os africanos tinham uma forte cultura de espaço, então, estas terras deveriam oferecer proteção ao grupo (2007, p. 122).

Tal conjectura se mostra pertinente nas Comunidades Remanescentes de Quilombos do Brasil, mais precisamente do Vale do Ribeira paranaense. Este Paraná Negro, recém tirado na invisibilidade, ocupa áreas de difícil acesso, onde em algumas comunidades se caminha horas para chegar às moradias, assentadas sob terrenos extremamente acidentados e cercados por mata fechada. Todavia, a descrição e análise das condições históricas e geográficas das comunidades de Adrianópolis, serão exploradas com maior detalhamento no Capítulo 5.