Capítulo 2-O PROCESSO DE CRIAÇÃO E A CONSOLIDAÇÃO DO TRAÇADO DO PARQUE
2.3 O parque na “Planta da Cidade do Recife e Arredores” de 1875
Com propostas elaboradas pelos competentes engenheiros estrangeiros, Vauthier e Martineau, mas sem se concretizar de fato na cidade do Recife, o Parque 13 de Maio, então Passeio Público, alcança os idos de 1875. Essa afirmação, pode ser comprovada, inicialmente, através do registro10 do discurso do Desembargador Henrique Pereira de Lucena, na abertura da Assembléia Provincial, em 01 de março de1875, quando menciona onde se localizaria o passeio público e as despesas realizadas com essa obra:
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Somente em 1862, esse espaço público fluminense foi reformado por Glaziou, seguindo uma nova tendência nas principais cidades, o estilo inglês, com linhas sinuosas no seu traçado.
Registro esse encontrado no Arquivo Público do Estado.
“O terreno destinado para esse passeio acha-se situado em seguimento ao Gymnásio Provincial entre o cais da Rua da Aurora e a estrada do norte (de Olinda). Muito lentamente tem marchado o serviço de aterro desse terreno, que é feito com as areias retiradas do porto e para ali transportadas por um pequeno número de canoas. Durante o ano findo nenhuma despesa se fez com esse serviço” (Fala do Desembargador Henrique Pereira de Lucena, 01/03/1875).
Além desse discurso, a “Planta da Cidade do Recife de 1875” (II.13), encontrada no acervo do Museu da Cidade do Recife, também contribuiu para demonstrar que, naquele ano, o passeio público recifense continuava sendo uma proposta que não se materializara efetivamente. Assim, em tal cartografia, verifica-se uma alusão de um “passeio público projetado”, escrita sobre um espaço vazio, exatamente, ao lado do prédio do Ginásio Pernambucano, como havia mencionado o Desembargador naquele mesmo ano (II.14).
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do GovernoII.14 Recorte e aproximação dado sobre a “Planta da Cidade do Recife e Arredores” em 1875, onde se verifica que o passeio público apesar de ser uma aspiração dos recifenses, ainda não havia sido construído. FONTE: Museu da Cidade do Recife, 2006.
A análise de tal planta de 1875 (II.14) revela que o sítio destinado à implantação do “passeio público projetado” era o mesmo indicado por Vauthier em 1844. Esse sítio ainda era uma grande área vazia e alagada, onde havia o predomínio do elemento natural. Nela, o “passeio público projetado”
poderia apresentar a forma do retângulo regular, proposto pelo engenheiro francês visando a modernização do Recife, pois possuía cerca de 6.0 ha, os quais estavam distribuídos próximos a dois eixos de circulação já consolidados nesse período e ainda hoje, significativos para a capital pernambucana, são eles: 1º-a
Estrada de Ferro de Recife a Olinda (no sentido transversal ao rio Capibaribe) - eixo formado pelas atuais
Rua Princesa Isabel e Rua do Príncipe, localizado a sudoeste do “passeio público projetado”; 2º-a Estrada
de Olinda ou de Luís do Rego11 (no sentido longitudinal do rio Capibaribe) - onde hoje se encontra a Av. Cruz Cabugá seguindo pela Rua do Hospício. No lado oposto a este eixo,
o “passeio público projetado” era limitado pela Rua da Aurora nas margens do rio Capibaribe, antiga grande via de circulação do Recife.
A planta de 1875 indica, também, que o eixo formado pela Estrada de Ferro Recife/Olinda tinha sua continuidade através da Ponte Santa Isabel, principal responsável pela articulação da área, onde estava
situado o “passeio público projetado” e seu entorno, com os bairros comerciais da cidade, sendo eles: Santo Antônio e bairro do Recife. Desse modo, percebe-se que esses eixos viários, localizados no entorno do sítio destinado ao passeio público, possibilitava o fluxo não somente dos pedestres, mas também dos bondes de tração animal, o que significava facilidade de acesso ao futuro espaço livre público de recreação.
No entorno desse sítio havia também o canal do Riachuelo na porção sudoeste da “Ilha dos Ratos” que, segundo Cavalcanti (1999, p. 70), foi aterrado em 1880 (II.13). Esse canal era composto: pelas águas sujas, pelos “tigres” (isto é, pelo barris onde os materiais fecais das casas eram depositados), e por “outras
imundícies ali jogadas pela população. Tudo isso servia para contaminar a atmosfera com suas exalações e colocar os moradores daquela desgraçada vizinhança a tormentos, especialmente quando a maré baixava” (Relatório do Inspector de Saúde Pública, 27/11/1878). Essas condições de higiene precárias,
agravadas pela falta de saneamento, causaram muitas epidemias no Recife (Rezende, 2002, p. 87).
Voltando à planta de 1875, verifica-se ainda a existência de uma malha urbana retangular e ortogonal, que se consolidava a sudoeste do sítio destinado ao “passeio público projetado”, no sentido da Boa Vista, nesse período um bairro residencial em expansão. Assim, nessas imediações, destacava-se as edificações do Ginásio Pernambucano, da atual Assembléia Legislativa (II.15 e 16), além da Repartição do Saneamento (hoje, COMPESA), da Estação de Ferro e os sobrados da Rua da Aurora, entre esses estava a residência do Conde da Boa Vista e a sede do Clube Internacional. Esse conjunto arquitetônico nos arredores do sítio reservado ao passeio público valorizava o mesmo e confirmava seu caráter de espaço estruturador do centro da cidade do Recife. Conforme comprova a citação de Parahym (1977):
“Dois edifícios públicos de grande destaque, não somente para a rua (da Aurora), mas para a própria cidade, foram ali edificados. O primeiro, em 1855, é o Ginásio Pernambucano, este magnífico
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Essa Estrada teve sua construção iniciada em 1817, portanto em 1876 já se encontrava consolidada (Costa, 1983). 76
educandário, responsável pelo melhor das gerações pernambucanas e nordestinas depois do seu aparecimento. A ele veio se juntar a repartição do Saneamento. (...) O segundo edifício que ressaltamos, foi a Câmara dos Deputados, surgindo muito depois que o primeiro e ocupando sozinho o quinto quarteirão. O quarto trecho, ou seja, as casas que partem da rua Princesa Isabel, foram edificadas, contemporaneamente à ponte, em 1862. Defronte, isto é, no terceiro quarteirão, esquina com a Princesa Isabel, ficava a Estação da Rua da Aurora, da ‘Trilhos Urbanos de Recife, Olinda e Beberibe’, inaugurada em 1873” (Parahym, 1977, p. 239).
II.15 Foto antiga dos prédios destacados por Parahym (1977): a Assembléia Legislativa, o Ginásio Pernambucano e ainda o prédio da Repartição de Saneamento, às margens do rio Capibaribe. FONTE: Museu da Cidade do Recife, 2006.
II.16 Aspecto do entorno do sítio do “passeio público projetado” em 1878, onde se destaca a Ponte Santa Isabel e a da Rua da Aurora ao fundo. FONTE: Atlas Ambiental do Recife, 2000.
Ainda tratando sobre o entorno do sítio do “passeio público projetado”, observa-se que na direção de Santo Amaro, praticamente, não havia malha urbana, os terrenos pantanosos, alagados e mangues continuavam desocupados, destacando-se apenas a Fundição d’Aurora e o Cemitério de Santo Amaro, ambos contribuindo para aumentar a movimentação dos citadinos naquela área e o significado da mesma para a cidade.
Desse modo, percebe-se que havia cotidianamente no entorno do sítio do “passeio público projetado” a circulação de estudantes, políticos, proprietários de terras, esportistas, bem como operários e indivíduos indo aos sepultamentos. Esse grande fluxo de pessoas fortalecia entre os recifenses o desejo pela construção de um grande espaço livre público que, além de embelezar, sanear e modernizar aquela
área do Recife, iria possibilitar o descanso contemplando a natureza, o encontro e o convívio social.