CAPÍTULO 3: DO PARTO ANÔNIMO E DIREITO COMPARADO
3.2 DO DIREITO COMPARADO
3.3.3 O Parto Anônimo e o panorama internacional
Tendo sido analisada a experiência do Parto Anônimo na França e no Texas, convém tecer um panorama de sua aplicação em outros países do mundo. Os autores dos projetos de lei brasileiros, apreciados anteriormente, defendem sua regulamentação, apresentando, como justificativa, dentre outros motivos, o fundamento de que o instituto apresenta-se como alternativa ao abandono de recém-nascidos em vários países, como França, Luxemburgo, Itália, Holanda, Bélgica, Áustria e alguns estados dos Estados Unidos, segundo Carneiro (2008).
Visto que o instituto é prática decorrente do que inicialmente se denominou Roda dos Expostos, a Itália foi uma das pioneiras na criação da Roda, tendo sido praticada desde 787, com a instalação na entrada de alguns conventos, conforme relato de Iucsch (2010):
O modo de admissão mais comum das crianças era o sistema de roda, uma espécie de cilindro que permitia as mães, parteiras ou qualquer outra pessoa que havia encontrado uma criança, de ali colocar o recém-nascido, sem que fosse vista e sua identidade revelada. Essa prática era bastante antiga e encontra-se registros do sistema de roda na Itália em 787, onde alguns conventos a instalaram na entrada de suas casas (Destaque nosso).
No fim do século XIX, o Hospital Santo Spirito, próximo ao Vaticano, foi um dos primeiros a utilizar a “roda”, chegando a receber cerca de três mil bebês abandonados por ano. Sobrenomes comuns de famílias italianas teriam origem na "roda dos enjeitados". Entre eles, Esposito, que vem de "exposto" e Innocenti, como alusão à inocência infantil (CASTRO, 2008). Pereira (2007), analisando a situação do parto anônimo perante a ordem jurídica internacional, cientifica que o instituto vigora na Itália desde 1997.
Embora não tenha instituído o Parto Anônimo, a Alemanha já teve protocolados, em seu Parlamento, diversos projetos de lei tentando implementar que a mulher pudesse dar à luz
sem que seu nome fosse revelado (ARPEN, 2010). Mesmo sem a regulamentação, o país adotou o chamado “babyklappe” (portinhola para bebês), uma espécie de incubadora interligando o interior e o exterior do hospital, onde a mãe pode deixar a criança sem ser prévia ou posteriormente identificada, conforme atesta Gozzo (2006, p. 130):
(...) desde o ano de 2000, até onde se tem conhecimento, muitas cidades alemãs voltaram a ter a chamada babyklappe – no Brasil, mais conhecida pelo nome de roda. Trata-se de uma prática levada a cabo por uma instituição que tem por intuito recolher bebês que lhe sejam entregues de forma anônima, e, como ocorre na França, tal como acima mencionado, encaminhando-os posteriormente para adoção. Garante-se à mulher, desse modo, a possibilidade de levar avante sua gravidez. Pois ela é consciente de que não precisará ficar com a criança, podendo entregar a essa instituição sem ter de identificar-se. [...] Pela babyklappe ou roda, além de se procurar evitar o aborto, busca-se impedir a prática do infanticídio ou do abandono da criança pela mulher. A realidade fática alemã, na tentativa de salvar vidas, não se constitui só de rodas espalhadas pelo país. Aos poucos, e principalmente com o apoio da Igreja Católica alemã, alguns hospitais começaram a oferecer à mulher a possibilidade de um parto anônimo. Dessa forma, a mulher dirige-se a essa instituição, informa que deseja manter-se incógnita por ocasião do nascimento do bebê e sua vontade é respeitada. Após o parto, a direção do hospital encaminha o bebê para as autoridades competentes, a fim de que ele seja registrado, sem que haja qualquer indicação sobre quem seja a mãe.
A realidade da Alemanha, portanto, é o funcionamento ilegal das rodas, o que contraria os textos civil e constitucional. Para Gozzo (2006, p. 130), “não se descarta a idéia de que dessa tolerância poderá nascer a concordância para a elaboração de um novo projeto de lei sobre o tema”.
Nos Estados Unidos, “desde 1999 até hoje, mais de trinta e cinco estados promulgaram leis que permitiram a legalização dos assim chamados “self-havens”, lugares seguros onde bebês poderiam ser entregues” (PRATA, 2008, p. 102).
Conforme dados da pesquisa de Versiani (2010) nos Estados Unidos da América (E.U.A), o abandono seguro é, em verdade, o mesmo mecanismo utilizado pela portinhola de bebês. Não há obrigatoriedade do registro de informações mínimas acerca da origem genética e história médica da criança submetida a essa prática. Esse registro só ocorre caso o pai e/ou a mãe, ou alguém por eles e mediante autorização dos mesmos, o fizer de forma espontânea. Em Wyoming, por exemplo, se a criança não demonstra qualquer sinal de maus tratos ou abuso, nenhum nome ou informação são necessários. Entretanto, caso o pai e/ou mãe ou responsável esteja(m) disposto(s) a fornecer informações acerca da saúde, data de nascimento
e local do nascimento do bebê ou histórico médico dos pais, a equipe do programa procederá ao registro dos dados a fim de que, mais tarde, estes sejam úteis ao recém-nascido.
O Japão, por sua vez, seguindo o exemplo das “portinholas para bebês” da Alemanha, em 2007, divulgou uma proposta de construção de artefatos em hospitais para receber recém- nascidos não desejados pelas mães. São espécies de incubadoras devidamente aquecidas para receber anonimamente os bebês. Hoje, o país utiliza as “janelas de Moisés” para evitar o abandono trágico (PEREIRA; SALES, 2008, p. 166).
Versiani (2010) comenta ainda que, na Áustria, Suíça, Filipinas, África do Sul, Paquistão e Luxemburgo também instituíram a portinhola de bebês ou baby hatches para salvaguardar a vida e dignidade dos recém-nascidos não desejados. Já a Hungria e a Índia também adotaram o mecanismo nos anos de 1996 e 1994, respectivamente, sendo que a Índia adota a particularidade do mecanismo ter sido instituído primeiramente no estado de Tamil Nadu, com o intuito de minorar o número de mortes dos bebês do sexo feminino.
Visto o panorama internacional, seja como parto anônimo, portinhola de bebês, roda dos enjeitados, babyklappes, ou janelas de Moisés, mundialmente, de forma legalizada ou não, a preocupação com a rejeição de recém-nascidos remete à alternativa da substituição do abandono pela entrega, como forma de assegurar a vida de crianças, evitando que elas sejam expostas a situações de risco e até à própria morte.