A maior parte dos estudos que tratam da história e da construção de memórias sobre esse passado recente se situa em um campo conhecido como ―História do Tempo Presente‖ (HTP). A expressão começou a ser empregada na década de 1970, para tratar de questões nada imediatas, como o Holocausto na Alemanha ou a ocupação nazista na França. Preocupações que seguem latentes na atualidade, ainda que já se tenha passado mais de
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A expressão histórias conectadas foi inicialmente proposta pelo historiador indiano Sanjay Subrahmanyam e tem sido defendida por pesquisadores renomados como Serge Gruzinski e Maria Ligia Coelho Prado para tratar de fenômenos transnacionais no contexto latino-americano. Na concepção de Gruzinski o conceito de Subrahmanyam abre possibilidades para se pensar em uma história global e multifacetada, com pontos de convergência que o pesquisador deve perceber para poder conectar. Cf. GRUZINSKI, S. O historiador, o macaco e a centaura: a ―história cultural‖ no novo milênio. Revista Estudos Avançados, São Paulo, v. 17, n.4 9, 2003.
87 No âmbito do ensino, algumas dessas conexões, desses pontos de contato, podem ser observados em
KAUFMANN, C.; MARTINS, M.C. Ditaduras militares argentina e brasileira: colaborações culturais em educação na década de 1970 do século XX. In: VIDAL, D. G.; ASCOLANI, A. (orgs.). Reformas Educativas no Brasil e na Argentina: ensaios de história comparada da educação. São Paulo: Cortez, 2009.
setenta anos dos fatos ocorridos. Andreas Huyssen considera a existência de vínculos que ligam os processos históricos posteriores aos eventos considerados traumáticos do século XX nos países que viveram totalitarismos, apartheid e ditaduras militares, como no caso da América Latina. A partir de então, a experiência do Holocausto passou a ser utilizada como um uma espécie de prisma, pelo qual se poderia perceber outros genocídios89.
Para muitos historiadores, a expressão HTP não é usada para designar qualquer passado próximo, mas para se referir àqueles acontecimentos que, por sua carga singular de dor e violência, apresentam uma dificuldade especial para ser assimilado, não só por indivíduos, mas por sociedades inteiras. Passados que ainda ativam lutas no presente e projetos de futuro. Nas palavras de Henry Rousso, “um passado que não está morto e que
ainda se serve da palavra e da experiência de indivíduos vivos”90. Passados ―vívidos‖, que
resistem a se converterem em passados ―vividos‖. Passados que não passam. Para Marina Franco e Florencia Levín,
[…] se trata, en suma, de un pasado ‗actual‘ o, más bien, de un pasado en permanente proceso de ‗actualización‘ y que, por tanto, interviene en las proyecciones a futuro91.
Mas existem algumas objeções a essa perspectiva e uma das mais importantes questiona o que se entende por ―presente‖. Reinhart Koselleck92, por exemplo, afirma que toda história foi, é, e sempre será história do tempo presente, e que essas histórias reivindicadas não se diferem em nada de outras histórias já contadas e também já vividas. Em todo caso, na América Latina, a HTP ou “historia reciente” é frequentemente utilizada para tratar do nosso passado traumático: a história das Ditaduras civil-militares de Segurança Nacional, que atravessa tanto o Brasil quanto a Argentina, assim como a muitos outros países latino-americanos.
Para Carlos Fico, uma das principais peculiaridades da HTP é a pressão dos contemporâneos, isto é, a possibilidade desse conhecimento histórico ser confrontado pelo testemunho dos que viveram os fenômenos que se busca narrar e/ou explicar.
89 HUYSSEN, A. En busca del futuro perdido: cultura y memoria en tiempos de globalización. Buenos Aires:
Fondo de Cultura Económica, 2001.
90 ROUSSO, H., 1998, p. 63 apud DOSSE, F. História do tempo presente e historiografia. Revista Tempo e
Argumento, Florianópolis, v. 4, n. 1, p. 5-22, jan/jun. 2012, p. 16.
91 FRANCO, M.; LEVÍN, F. El pasado cercano en clave historiográfica. Op. Cit., p. 34.
Tais dificuldades, tantas vezes mencionadas, dizem respeito, sobretudo, às vítimas. Os problemas que o historiador usualmente enfrenta aumentam quando se trata de abordar tais eventos, mas eles não dizem respeito ao problema do indizível, são de outra natureza. Por exemplo, confrontar testemunhos conflitantes — procedimento que costuma enriquecer qualquer análise — torna-se um risco quando eventualmente comparamos relatos de vítimas e de agentes da repressão sobre o mesmo episódio: as distorções, silêncios ou acréscimos nos dois casos têm razões ou motivações muito distintas. Também o procedimento usual da micro-história e da história do cotidiano, que consiste em considerar os episódios do dia a dia, pode levar a resultados indesejados quando se trata da figura do algoz. Um agente da repressão, quando visto em seu cotidiano, humaniza-se: a busca de entendimento não deve implicar ―acolhimento‖. Mas não podemos interditar esse assunto, ignorando essa parte da história93.
Fico também atenta para as dimensões epistemológica e ético-moral da HTP, decorrentes tanto da tendência natural de condenação do mal quanto da humanização do
algoz94. Para o autor, as reflexões sobre o papel da emoção na compreensão histórica ainda são incipientes, mas mesmo que todas as interpretações sejam possíveis do ponto de vista historiográfico, compreender o passado não significa justificá-lo. Citando Dominick LaCapra, Fico indica que o historiador deve se pôr no lugar do outro sem tomar seu lugar, converter-se em seu substituto ou sentir-se autorizado a falar com sua voz. Desse modo, a empatia em relação às vítimas de experiências traumáticas é admissível, mas é preciso distingui-la da ideia de identificação, confusão que conduz à idealização da vítima.
Ao contrário do que possa parecer em um primeiro momento, não se trata de uma contraposição entre memória e história: no caso da História do Tempo Presente, trata-se de uma imbricação constituinte95.
Todas essas perspectivas deixam claro que o debate sobre esse ―passado-presente‖ ainda não se esgotou, não só pelas disputas por sua significação, mas também pela sua perpetuação: crimes ainda não foram julgados, jovens apropriados permanecem com sua identidade adulterada, milhares de corpos não foram sepultados, muitos amigos e familiares seguem na busca por informações sobre seus entes ―desaparecidos‖ e pactos de silêncio impedem o acionamento da justiça. Enquanto isso, uma pergunta incômoda perpassa todas as discussões: elas podem voltar a acontecer?
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FICO, C. Violência, trauma e frustração no Brasil e na Argentina. Op. Cit., p. 252.
94 FICO, C. Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Op. Cit., p. 49. 95 Idem.