2 CAMINHOS QUE SE ENTRECRUZAM
2.2 O PASSADO SOB A LUZ DO CONHECIMENTO PRESENTE
O romance Tropical sol da liberdade tem seu enredo organizado ficcionalmente a partir das lembranças de um passado vivido recentemente pelo Brasil, assim sua urdidura narrativa traz as marcas que a repressão militar deixou em nosso país. Entretanto, o texto não se configura como uma narrativa histórica nem como um depoimento dos fatos e acontecimentos daquela época. Mas, é com as lembranças do passado que a narrativa ganha corpo sem pretender verificar se os fatos históricos são verídicos, mas sim observar que eles são possíveis de serem narrados e com isso avaliados a partir das necessidades do presente.21 Nesta perspectiva, precisamos pensar que é por meio da linguagem utilizada (na narrativa) que o discurso se organiza. Isto é, “o autor-modelo se revela na maneira como organiza a história: não através de um enredo, mas através de um discurso narrativo”.22 Além disso, não se pode perder de vista que é o discurso e a coerência interna do texto e não os fatos recontados, objetos desse discurso, que orientam a interpretação dos acontecimentos passados feita pelo leitor.23 No caso de Tropical sol da liberdade, é a memória pessoal do narrador colado às suas personagens que serve de fio condutor, interligando os diversos episódios da recente história da ditadura militar brasileira. É o discurso da autora, ao construir suas personagens, que permite ao leitor revisitar, reconhecer e reavaliar, tendo por base as ações e atitudes dos que ficaram nos bastidores dos acontecimentos, as marcas que este momento deixou na História político-social-cultural de nosso país.
21 HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991. p. 142.
22 ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 42.
23 Idem. Ibidem.
Estamos, portanto, diante de um texto ficcional que se organiza no presente e que pelas memórias da personagem volta ao tempo histórico dos acontecimentos que marcaram a ditadura militar. É pertinente neste momento, embora não seja a intenção primeira deste trabalho, falarmos sobre o romance histórico. Com base nas teorias desenvolvidas por Bakhtin, chegar à conclusão sobre o conceito de romance é difícil e por vezes contraditório. Isso acontece porque o romance é um gênero que acompanha as rápidas modificações da modernidade e, por isso, torna-se refratário a todas as tentativas de definições.24 No entanto, mesmo com todas as dificuldades que podem se apresentar, é possível, ainda, a partir das idéias de Bakhtin, dizer que o romance, por acompanhar e registrar os acontecimentos e modificações da era moderna, consegue trazer para seu texto o registro do momento histórico em que é produzido.25 Ou seja, consegue transcender o seu momento histórico, justamente por não pertencer a um tempo fechado e com heróis determinados. Assim, sua narrativa permite que no presente sejam feitas avaliações dos fatos ocorridos no passado, sempre a partir de novas perspectivas. Isso é possível porque, ainda segundo Bakhtin, o romance é dialógico e polifônico: dialógico porque o autor traz para dentro do texto o resultado de suas possíveis experiências. Estas experiências estão em conformidade ou não com outras experiências do momento representado pela narrativa. Isto é, um fato determinado pode “dialogar” com outros fatos e acontecimentos, permitindo novas interpretações do ocorrido. É polifônico porque o identificado no texto é resultado de uma série de “vozes” que vivenciaram, avaliaram, comentaram o fato ocorrido. Ou seja, o que está presente na narrativa pode representar uma série de “vozes interpretativas”. Portanto, é possível identificar
24 WEINHARDT, Marilene, op. cit.
25 BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski. Trad. Paulo Bezerra, 3. ed. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2002.
as múltiplas vozes, os diferentes discursos, os diferentes pontos de vista que se manifestam no interior do texto.
Nas últimas três décadas do século XX se observa, na produção ficcional brasileira, um interesse muito grande por temáticas históricas. Essa temática, que teve seu auge no século XIX, volta a fazer parte do interesse dos literatos. Porém, neste momento a produção literária - aquela que tem como gênero o “romance histórico” - assume uma roupagem muito diferente do romance histórico produzido no século anterior. Para entendermos o conceito de romance histórico e suas modificações é necessário compreendermos que
[A] matéria do romance é o passado histórico, ainda vivo, sujeito a revisões, inconfundível com o passado mítico, cristalizado, imutável. O romance não comporta heróis, no sentido clássico, mas seres humanos, igualmente capazes de atos heróicos determinados por motivos vis e de ações condenáveis movidos por sentimentos nobres.26
Dessa maneira, não é, segundo Weinhardt, a estrutura interna do romance - sua organização textual - que o caracteriza como romance histórico, mas sim o seu externo, os fatos que motivaram o seu enredo. Ou seja, é o discurso presente na obra que permite ao leitor conceituar o gênero. Então, o romance histórico, ao trazer para dentro de seu enredo um período, um acontecimento histórico, não o faz meramente para servir de registro documental, mas sim para reavaliar, repensar o determinado período, o acontecimento sob uma nova ótica. Nesse sentido, podemos dizer que o romance histórico é, juntamente com a História, um ponto de vista sobre os fatos históricos. E ao revisitar o passado, o romance permite construir o ponto de vista daqueles a quem a história habitualmente negou a voz.
26 WEINHARDT, Marilene, op. cit., p. 51-2.
Entender o cerne das discussões presentes no romance histórico do final do século XX requer um retorno ao surgimento desse romance e, a partir daí, refletir sobre as transformações que este gênero sofreu ao longo dos tempos. O aparecimento do romance, segundo George Lukács, coincide com as grandes transformações sociais, culturais, políticas e econômicas na Europa, no início do século XIX. Estas mudanças provocam o deslocamento dos papéis dos indivíduos na sociedade, fazendo com que o homem comum, as massas populares se sintam num processo ininterrupto de mudanças com conseqüências diretas sobre a vida de cada indivíduo.27 Na Europa a revolução burguesa e o surgimento de novas classes sociais e novos heróis e heroínas, vindos do povo, consolidam, juntamente com as características marcantes do Romantismo, o sentimento de nacionalidade. Assim, a escrita literária é influenciada por estas mudanças e os autores trazem para dentro de seus textos “a especificidade histórica do tempo da ação condicionando o modo de ser e de agir das personagens”.28 Podemos observar, portanto, que
[A]o romance histórico não interessa repetir o relato dos grandes acontecimentos, mas, ressuscitar poeticamente os seres humanos que viveram essa experiência. Ele deve fazer com que o leitor apreenda as razões sociais e humanas que fizeram com que os homens daquele tempo e daquele espaço pensassem, sentissem e agissem de forma como o fizeram. (...) O mundo do romance é o da esfera popular. Esta, tensionada pela revolução, pode revelar suas forças, surgindo naturalmente os heróis que para a história são incógnitos.29
No caso do Brasil, o Romantismo surge juntamente com as manifestações de ideais de independência política do país. Nesse sentido, a partir de, mais ou menos, 1832 tem-se no país um claro projeto para desenvolver “o desenho dos contornos
27 FIGUEIREDO, Vera Follain. “O romance histórico contemporâneo na América Latina”. In: Revista Brasil de literatura. Ano V. Universidade Federal Fluminense, 2002.
28 WEINHARDT, Marilene, op. cit., p. 53.
29 Idem. Ibidem., p. 53.
que se quer definir para a Nação brasileira”.30 Por essa época, é visto que, ao mesmo tempo, o desejo de construção e valorização da nacionalidade brasileira é produzido pela História e também pela Literatura, entendendo que esta, como aquela, é responsável pela construção de representantes, símbolos e vínculos nacionais. Por isso, a literatura, na sua forma e construção textual esteve “sempre pronta a abraçar causas e ideais, [pois] é dotada de um caráter militante, documental”.31 Para atingir tal êxito, o romantismo brasileiro irá privilegiar o que se possui como elemento representativo da “Terra Brasil”: a natureza e o índio. A
“natureza tropical como traço distintivo do continente americano” e o índio como
“elemento possível (e passível) de estabelecer vínculo entre a natureza tropical e uma forma de vida que será caracterizada como brasileira, ou seja, anterior à colonização portuguesa”.32 No romance histórico brasileiro do século XIX encontramos em Iracema e em O Guarani, de José de Alencar, dois possíveis exemplos desse projeto ideológico de busca de heróis e heroínas nacionais ligados à natureza e que enaltecessem a nação e representassem os valores e símbolos brasileiros. São, portanto, romances que se caracterizam também como narrativas fundadoras da nacionalidade brasileira.
Dessa maneira, a narrativa pretendia ser um dos registros dos acontecimentos, respeitava a cronologia, e só, com base nesses pressupostos, é que a ficcionalidade organizava o texto. Portanto, “a ficção literária do Romantismo teve a função muito próxima do discurso historiográfico da época: a de criar e
30 GUIMARÃES, Manoel. Apud: SINDER, Valter. “A reinvenção do passado e a articulação de sentidos: o novo romance histórico brasileiro”. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 14, n. 26, 2000. p. 255.
31 VELOSO, Mariza e MADEIRA, Angélica. Apud: SINDER, Valter, “A reinvenção do passado e a articulação de sentidos: o novo romance histórico brasileiro”. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 14, n. 26, 2000, p.
255 32 SINDER, Valter. “A reinvenção do passado e a articulação de sentidos: o novo romance histórico brasileiro”.
In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 14, n. 26, 2000, p. 255.
perpetuar uma memória”.33 Assim, o paradigma do romance histórico do século XIX pode ser, lendo a citação abaixo ignorando as palavras e expressões que estão entre colchetes, resumido da seguinte maneira:
Os personagens [nunca] constituem uma descrição microcósmica dos tipos sociais representativos; enfrentam complicações e conflitos que abrangem importantes tendências [não] no desenvolvimento histórico [não importa qual o sentido disso, mas na trama narrativa, muitas vezes atribuível a outros intertextos]; uma ou mais figuras da história do mundo entram no mundo fictício, dando uma aura de legitimação extratextual às legitimações e aos julgamentos do texto [que são imediatamente atacados e questionados pela revelação da verdadeira identidade intertextual, e não extratextual, das fontes dessa legitimação]; a conclusão [nunca] reafirma [mas contesta] a legitimidade de uma norma que transforma o cotidiano social e político num debate moral.34
Diferentemente, o romance contemporâneo pós-moderno pode ser resumido no que diz o fragmento acima, mas agora lendo com as palavras que estão entre colchetes. Assim a temática histórica que voltou à cena no final do século passado se apresenta, como dito anteriormente, com uma nova roupagem. Isto é, o reconhecimento de elementos e a construção de símbolos que representassem a nação é substituído pelo desejo de revisitar o passado e trazer à baila a possibilidade de compreender os fatos por um outro viés, fazendo o que se pode chamar de releitura do passado sob a ótica contemporânea, desejando, dessa maneira, ler criticamente o passado sob a luz do conhecimento do presente, questionando, assim, os fatos e repensando identidades. Em sua grande maioria
“fazendo falar quem havia se calado”.
33 ALVES, Tatiana Batista. A reinvenção do passado e o novo romance histórico brasileiro. Dissertação de Mestrado – UERJ, 2001. p. 15.
34 HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro:
Imago Ed., 1991 p. 159.
Assim, Tropical sol da liberdade ao revisitar parte do passado histórico do Brasil procura desenvolver uma crítica àqueles acontecimentos e expor as “feridas”
que eles deixaram na psique brasileira. Esse texto se vale da História como pano de fundo para a ação de suas personagens, porém não o usa como alegoria documental simplesmente, mas como meio de avaliar os fatos a partir das ações de pessoas que estiveram nos bastidores dos acontecimentos: as mães, as irmãs, os velhos que colaboraram direta ou indiretamente com os guerrilheiros e que sofreram junto com eles.
Dessa maneira, Tropical sol da liberdade assume um caráter intensamente auto-reflexivo e também se apropria de acontecimentos e personagens históricos.
Assim, o diálogo estabelecido entre o presente e o passado é uma espécie de autoconsciência teórica sobre a história e a criação humana, e a revelação (da autoconsciência) é estabelecida quando, do presente, se reavalia o passado, reelaborando-o a fim de revelar os limites e os poderes do conhecimento histórico.
Podemos dizer que da mesma forma que a ficção, a historiografia, ao utilizar-se da narrativa, trabalha com a linguagem/discurso tornando o contado uma interpretação do fato histórico e não o fato propriamente dito. Esta é a visão de Hayden White, quando afirma que a historiografia é permeada pelo verbo e assim suas formas são mais semelhantes à literatura do que à ciência, pois o seu autor apresenta um discurso subjetivo, não inocente, carregado de intenções e ideologias.35
Tropical sol da liberdade é um texto ficcional que estabelece diálogo com a historiografia daquele momento histórico, mostrando, dessa forma, que as
35 WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Ed. USP, 1994.
produções, ao fazerem diferentes análises dos fatos ocorridos entre 1964 e 1985, reafirmam a idéia de que recontar os fatos, sob o ponto de vista e critérios do próprio escritor - da literatura ou da historiografia -, é uma maneira de estabelecer diferentes avaliações e, conseqüentemente, permitir novas reflexões sobre um momento histórico específico.
Compreender o que é História e o que é Literatura é, antes de tudo, estabelecer o entendimento de que os processos sociais e imaginários caminham paralelamente e transcendem às especificidades de uma ou de outra disciplina, tal como se apresentam na escola. Além disso, há a necessidade de compreender que os discursos estão imbricados. Ou seja, ao estabelecer relação entre o discurso literário e o discurso histórico, percebemos marcas ficcionais e imaginárias no discurso histórico, como encontramos plausibilidade histórica na ficção, isto é, ficção e realidade nos discursos literários e históricos, respectivamente, caminham paralelamente, sem que haja prejuízo para nenhum deles. Dessa forma, o real não se caracterizará como barreira que impeça a qualidade ficcional do romance e nem a imaginação irá comprometer a representação do real na História. Nesse sentido, percebemos que não é o discurso, presente em ambas as produções, que impinge significado ao que é representado, mas sim a escrita, ou seja, segundo Leenhardt e Pesavento,36 a diferença entre as duas está no método utilizado: a História na testagem dos fatos e a Literatura no vôo da imaginação. Assim, poderíamos dizer que o que torna um fato real não é o seu acontecimento, mas a possibilidade de ele ser relembrado e ser representado por meio da narrativa.
Em relação a isso, ainda, é importante perceber que
36 LEENHARDT, Jacques e PESAVENTO, Sandra Jatahy. (org). Discurso histórico e narrativa literária.
Campinas: Editora da UNICAMP, 1998.
História e ficção, reciprocamente imbricadas como formas distintas de linguagem, são vistas por pensadores de nosso tempo como discursos aparentados. O próprio Hayden White, que escreveu um alentado volume sobre a “imaginação histórica” do século XIX, informa que, no século XX, pensadores como Valéry, Heidegger, Sartre, Lévy-Strauss e Michel Foucault ”expressaram sérias dúvidas sobre o valor de uma consciência especificamente histórica, sublinharam o caráter fictício das reconstruções históricas e contestaram as pretensões da história a um lugar entre as ciências.“ Paul Veyne e Collingwood avançam a ponto de indiferenciá-las, conforme se lê: “como no romance, a História seleciona, simplifica, organiza e resume um século numa página”, escreveu Paul Veyne. Seleção e organização que pressupõem atividade da imaginação, comum ao historiador e ao romancista, como enfatiza Collingwood: “Enquanto obras da imaginação, não diferem os trabalhos do historiador e do romancista. Diferem enquanto a imaginação do historiador pretende ser verdadeira”.37
A partir disso, se faz mister estabelecer uma discussão para tentar entender os pontos de divergência e de convergência entre estas duas modalidades de textos. É importante perceber que tanto a historiografia quanto a ficção de cunho memorialístico têm como objeto os fatos que aconteceram no passado. Assim,
[O] passado é uma empresa do imaginário, seja no plano da historiografia, seja no da criação literária. Mas cada discurso preserva sua identidade. Para reconhecê-la, é indispensável refletir sobre as similitudes da narrativa histórica e da narrativa ficcional, bem como sobre as suas singularidades.38
Podemos dizer, portanto, que as duas – historiografia e ficção – se fazem por articulação da linguagem – são o passado verbalmente construído; enquanto a primeira se constrói sobre fatos reais, a segunda se faz sobre fatos imaginários,39 mas ambas “compartilham a mesma postura de questionamento com relação ao uso comum que dão às convenções da narrativa, à referência, à inserção da
ideologia”.40 Nesse sentido, “mesmo a história que lemos, ainda que embasada em fatos, não é absolutamente factual, mas uma série de opiniões aceitas”.41 O historiador ao se valer de documentos, cartas, relatos, provas, apenas os organiza, da forma como ele achar melhor e que lhe é mais conveniente, para dar ordem ao enredo da história que ele pretende registrar. Ou seja, “o historiador impõe a esses eventos o significado simbólico de uma estrutura de enredo compreensível. Os historiadores talvez não gostem de pensar que suas obras são traduções do fato em ficções; mas este é um dos efeitos das suas obras”.42 Nesta mesma linha, podemos afirmar que a historiografia se aproxima da ficção quando “a história quer ser objetiva e não pode sê-lo. Quer fazer reviver e só pode reconstruir”,43 portanto mesmo com todo o documental como prova do fato, não é o fato que está posto, mas a sua reconstrução, ou seja, “todo documento é um monumento ou um texto, e nunca é ‘puro’, isto é, puramente objetivo”.44 Dessa forma, existem muito mais pontos de convergência do que de divergência entre a ficção e a História, pois há
“algo numa obra-prima da história que não se pode negar, e esse elemento não-negável é a sua forma, a forma que é a sua ficção”.45
Com base nisso, pode-se dizer que o romance historiográfico contemporâneo, por mais que busque a fidelidade aos acontecimentos históricos, não é e não tem por ideal ser constituidor do relato histórico. Como representação do real, o texto ficcional apresenta a imaginação do autor, e, por meio da linguagem, enreda, poeticamente, o leitor aos fatos e este assume o pacto de aceitar o que está lendo
40 HUTCHEON, Linda, op. cit., p. 142.
41 DAL BELLO, J. A. História e literatura: referências e irreverências. In: Revista Letras - UFPR. Nº 49, 1º sem.
1998. p. 25
42 WHITE, Hayden, op. cit., p. 108.
43 RICOEUR, Paul. Apud: LE GOFF, Jacques. História e memória. Trad. Bernardo Leitão. 4. ed. Campinas:
Editora da UNICAMP, 1996. p. 21
44 LE GOFF, Jacques. História e memória. Trad. Bernardo Leitão. 4. ed. Campinas:Editora da UNICAMP, 1996.
p. 40
45 WHITE, Hayden, op. cit., p. 108.
como se fosse o real. De forma semelhante age o historiador. Enquanto o literato enreda o leitor pela poeticidade da linguagem, o historiador estabelece o compromisso de fazer com que os fatos apresentados pareçam reais. Isso acontece pelo uso de documentos como elementos “provadores” da veracidade dos fatos históricos apresentados.
Os elementos “provadores” que são utilizados pelo historiador também permitem novas indagações. Elas surgem dentro do texto histórico como intertextualidade, ou seja, à medida que o historiador cruza os dados comprobatórios dos fatos contados por ele, estabelece, dentro de seu texto, um diálogo com os documentos utilizados para justificar o que ele (autor) está dizendo/escrevendo.
Assim, neste novo texto encontramos uma interpretação dos eventos históricos e não o evento em si, como também encontramos uma leitura possível das provas utilizadas pelo historiador.
Dessa maneira, pode-se dizer que a linha divisória entre Literatura e História é muito tênue, pois, como narrativas, ambas se utilizam do discurso e este é sempre carregado de intenções. Portanto, o texto literário e o texto histórico representam interpretações possíveis dos eventos históricos.
Literatura e História podem diferenciar-se no método de abordar e reconstruir os fatos, mas têm o mesmo objeto: a representação. Por representação entendemos o registro das possíveis leituras feitas dos eventos passados, isto é, a História, ao registrar e tentar fixar o passado, cria significados para os acontecimentos. Assim, esses novos significados mostram-se não como o real acontecido, mas como a sua representação. E a Literatura é totalmente desprovida da pretensão de compreender ou registrar totalmente o passado, a sua intenção é questionar os fatos acontecidos.
Dessa maneira, é possível afirmar que as representações históricas ou literárias, por
Dessa maneira, é possível afirmar que as representações históricas ou literárias, por